9 de Abril de 2009

Em terra de cegos quem tem um olho não é rei

No conto “Em Terra de Cegos…” (edição portuguesa da Padrões Culturais Editora, de 2008), H. G. Wells, descreve A Terra dos Cegos: um vale remoto e quase inacessível em que todas as pessoas são cegas há 14 gerações. Não sabem o que é ver (não têm da visão nem conhecimento por contacto nem conhecimento proposicional) e por isso não têm consciência de que lhes falta uma capacidade que outras pessoas possuem; ou seja: não reconhecem ter um problema. São cegas mas não sabem que são cegas. Estão também convencidas que o vale é o mundo inteiro. Quando chega um forasteiro, que lhes fala do mundo exterior e lhes tenta explicar o que é a visão, não o acolhem nada bem e ele descobre que, afinal, em terra de cegos quem tem um olho não é rei.

As semelhanças com a “alegoria da caverna” de Platão são óbvias. Mas – sem querer contar demais e sem roubar ao leitor o prazer da surpresa – também há diferenças. Uma delas é o amor – não à verdade mas sim a uma linda mulher.

E, contrariamente a Platão, que afirma que os prisioneiros descritos na “alegoria da caverna” são semelhantes aos seres humanos, H. G. Wells não sugere interpretações metafísicas e epistemológicas para a sua história. Mas isso não impede os leitores do seu conto de formular algumas perguntas.

Se a situação descrita por Wells ocorresse realmente (com uma comunidade inteira ou com algumas pessoas, mantidas por todas as outras na ignorância acerca da sua cegueira), seria possível essas pessoas detectarem a sua falta de visão?
Será possível que algo equivalente esteja a suceder à espécie humana, ou seja, que nos falte sem nós sabermos uma qualquer capacidade sensorial? Sabe-se que alguns animais têm capacidades sensoriais que nós não temos (como o sonar dos morcegos ou a sensibilidade ao campo magnético da Terra de algumas tartarugas e pássaros), mas as informações por elas fornecidas não parecem ser radicalmente diferentes das informações que recolhemos através dos nossos sentidos (e dos aparelhos científicos que os prolongam). Será possível, contudo, que nos falte uma capacidade sensorial que forneça informações radicalmente diferentes daquelas que temos através dos nossos sentidos (como é o caso da informação visual por comparação com a olfactiva ou a táctil, por exemplo)? Tão diferentes que a realidade seja, afinal, algo bastante diverso daquilo que percepcionamos…
Em suma: e se fossemos uma espécie de cegos que não sabem que são cegos?

O conto de Wells pode levar a colocar questões desse género, mas para encontrar respostas e para discutir as ideias envolvidas é preciso recorrer à filosofia.

Eis um excerto do conto (página 31 da edição referida):

“Nunez procurou descrever o mundo do qual [viera] (…), as montanhas e outras maravilhas da Natureza, àqueles indivíduos que viviam nas trevas da Terra dos Cegos. Contudo, para sua admiração, não compreendiam uma única sílaba. Durante catorze gerações, aquela gente permanecera cega e totalmente isolada do mundo exterior e, gradualmente, as noções de outrora haviam-se perdido com o desenrolar dos anos. A imaginação de outros tempos fora substituída pela que a atmosfera de trevas lhe ditava, auxiliada pela sensibilidade dos ouvidos e das pontas dos dedos. Nunez apercebeu-se de que mais tentativas para lhes fazer compreender a verdade resultariam absolutamente infrutíferas”.

4 comentários:

  1. Há coisas que nos escapam, mesmo entre nós. Não sei se lhes chamaria sentidos, percepções aumentadas ou o que quer que sejam.

    Um exemplo flagrante na música: o Ouvido Absoluto. Todos nós temos ouvido, mas apenas muito poucos têm ouvido absoluto, isto é, a capacidade de ouvir as músicas na sua cabeça e saber as frequências exactas em que elas soam como se tivéssemos um diapasão. Um indivíduo com ouvido absoluto é capaz de, ao ouvir uma melodia, dizer instantaneamente: Dó, dó, lá, sol, ré#, sib, etc...

    Tal como o ouvido absoluto há o tempo absoluto. Indivíduos que são capazes de dizer: este trecho está a ser tocado a 78 batidas por minuto. Ou a 85. Ou a 93.

    Alguns autistas revelam capacidades enormes na matemática. Nós olhando para um frasco de feijão não fazemos ideia de quantos feijões lá estão mesmo que o deixemos cair e ele se parta. Existem humanos que olham e gritam "657" instantaneamente. «Como conseguiram contar tão depressa?». «Nós não contámos os feijões. Nós VIMOS os feijões», tal qual quando nós olhamos para quatro ou cinco feijões não contamos um, dois, três... Simplesmente vemos.

    O que difere entre nós comuns mortais desses indivíduos com estas percepções "aumentadas" que estão comprovadas e eles afirmam ter?

    Será assim tão inusitado pensar em pessoas que consigam ter um sentido que lhes permite vislumbrar a quarta dimensão? E dessa forma contactar o passado e o futuro?

    Será assim tão inusitado pensar em pessoas com telecinésia?

    Será tão inusitado pensar em pessoas com sentidos que nós não temos ou ainda não sabemos que temos?

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  2. Salvo erro, nas Upanixades é feita uma metáfora semelhante (esta válida para todos os seres humanos): existe realidade imperceptível à maior parte dos humanos, a "vibração" (?) do universo («om»?). Mas com treino seria possível desenvolver a capacidade de o sentir.

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  3. Musicólogo:

    Relativamente à telecinésia: julgo que não há qualquer evidência científica da sua existência; as pessoas que se gabavam de possuir essa suposta “capacidade” e que aceitaram submeter-se a testes independentes não conseguiram mostrar que a possuíam.

    Perguntar pela possibilidade de outros seres vivos possuírem capacidades SENSORIAIS que nós não temos não tem nada a ver com coisas com as ideias da parapsicologia – que é um bom exemplo de pseudo-ciência.

    Considerar essa possibilidade (tal como considerar casos de animais que possuem órgãos sensoriais semelhantes aos nossos, mas mais desenvolvidos – e por isso vendo, ouvindo, cheirando, etc., coisas que nós não detectamos) é útil para discutir o velho problema da percepção do mundo exterior – as coisas serão realmente como as percebemos?
    Considerar casos de seres humanos (como alguns autistas) que têm capacidades que outros seres humanos não têm talvez possa ser útil para o mesmo efeito.

    Elisabete Jacinto:

    Não percebi o que escreveu (provavelmente porque desconheço inteiramente os Upanixades).

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  4. O que é engraçado no provérbio é que "ter um olho" em terra de cegos não é ter mais juízo, ciência, esclarecimento, etc. Trata-se de uma referência macacal à capacidade de se aproveitar da estreiteza dos outros para dar ainda mais largas à própria estreiteza de espírito. É sobretudo nos nossos provérbios que denunciamos a miséria das nossas intuições morais.

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