28 de Abril de 2009

Exploração do proletariado

Imagem: The Knowledge Sponge, de Today is a good day

Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

Por ser um discurso que passou de moda, em parte porque a força do trabalho não é hoje em dia maioritariamente classificável como proletariado, é menos comum ouvir hoje a fausse gauche falar na exploração do proletariado por parte dos temíveis capitalistas. Mas o que é fascinante é as mesmas pessoas que continuam a pensar nestes termos em silêncio pensarem ao mesmo tempo que elas mesmas, por serem intelectuais, professores, etc., devem ser pagas pelo estado. Mas o estado nada paga seja a quem for porque o estado limita-se a redistribuir riqueza. O que os intelectuais da fausse gauche realmente defendem é uma nova forma de exploração do proletariado, mas como são eles agora a ganhar com a exploração, isso já não colide com o seu sui generis sentido de justiça económica.

Vejamos: um artista, ensaísta ou professor dedica a sua vida a coisas que são desinteressantes para a maior parte das pessoas. É aliás por isso mesmo que a maior parte das pessoas não consome esses produtos. É possível ganhar a vida escrevendo romances de cordel ou de auto-ajuda palerma, porque as pessoas compram essas coisas, tal como é possível ganhar a vida dando chutos numa bola. Mas não é possível — especialmente em mercados minúsculos como o português — ganhar a vida escrevendo, por exemplo, divulgação científica, história de qualidade ou filosofia. Não é possível porque as pessoas não gostam muito desses livros — e têm todo o direito de não gostar.

É então que surge a ideia de que tais nobres actividades devem ser financiadas pelo estado, porque se trata de produzir bens públicos. Mas em que raio de sentido é que são públicos, se a maior parte das pessoas não se interessa realmente pela origem do sistema solar, pelo que aconteceu em 325 a.C. na China ou como se desenvolvem os argumentos a favor do livre-arbítrio? Ah, está bem: é um serviço público para alguns de nós — nomeadamente os intelectuais que assim podem ganhar a vida fazendo o que realmente gostam de fazer, às custas do dinheiro das pessoas que se estão nas tintas para o que fazemos.

Esta realidade é só por si fascinante, mas torna-se positivamente delirante quando é defendida pela fausse gauche, dado que nenhuma diferença fundamental há entre isto e a tal exploração do proletariado por parte dos capitalistas. Tanto num caso como no outro trata-se de sustentar minorias à custa do dinheiro que as maiorias ganharam com o seu trabalho. E ao passo que o capitalista ainda presta um serviço genuinamente público porque dá emprego aos proletários e os proletários efectivamente querem emprego, a fausse gauche nada faz que seja interessante para os proletários — pois se fosse interessante, os proletários comprariam isso em vez de carros caros, roupas da moda, TV por cabo, ligações de alta velocidade de Internet ou telemóveis caros; e se comprassem livros de história, filosofia ou ciências, se assistissem a teatros e óperas e música clássica, estas coisas seriam economicamente viáveis e não seria necessária a mentira política do interesse público.

9 COMENTÁRIOS:

Matheus Martins Silva disse...

Desidério

Discordo.Como você tem costume de dizer, repare:

há uma diferença entre afirmar que as atividades dos intelectuais e professores que são pagos pelo estado não são interessantes para a maior parte das pessoas e afirmar que tais atividades não produzem bens públicos. Essas atividades podem ser um bem para essas pessoas mesmo que elas não percebam isso - penso que mesmo pessoas que não gostem de ciência irão reconhecer que as bolsas para pesquisas de desenvolvimento tecnológico são um bom exemplo de retorno seguro de seus impostos. E também conheço pessoas que não leram um único livro depois que saíram do ensino médio, mas que aprovam o financiamento dessas atividades. É claro que há muitos que consideram essas atvidades inúteis, mas do fato de algumas pessoas, provavelmente a maioria, pensar que essas atividades são inúteis não se segue que devemos de fato reconhecer uma hipocrisia aqui envolvida. O bem público é uma coisa complicada de definir e estabelecer, mas daí não se segue que é a mesma coisa que o interesse público das pessoas.

Joedson disse...

Caro Desidério,

Creio que seus argumentos estariam corretos se o relativismo cultural fosse verdadeiro. Nesse caso, não havendo como distinguir boas e más obras artísticas ou científicas, não teria sentido patrocinar aqueles bens culturais que são tidos como superiores por puro preconceito.Mas se há argumentos que permitem apontar o valor de certas obras, mesmo que esse valor não seja reconhecido pela maioria da população, então isto pode tornar-se uma boa razão para seu patrocínio. Penso ser este o motivo de certas atividades serem patrocinadas pelo Estado.
Se a distinção entre textos científicos relevantes e pseudociência só pode ser feita por meio de exame de conteúdos dominados por poucos, então o patrocínio do que tem maior popularidade e aceitação da maioria parece uma decisão sem sentido e irracional.

F. Dias disse...

Desta vez discordo do Desidério Murcho e corroboro a opinião de Matheus, no comentário anterior. O interesse ou o bem público visto de pernas para o ar, para justificar a bondade dos “temíveis capitalistas”? Ora, posso justificar a necessidade dos “temíveis capitalistas” sem ter de recorrer à metáfora do irlandês: ‘se eu fosse a si, para ir para Dublin, não partiria daqui’. Para justificar o mal menor dos capitalistas não vale a pena fazer de conta que o Estado não serve para nada e substimar a utilidade do ‘funcionário público’. Nem vale a pena fazer como se fez aqui (Portugal) – pedir aos deputados para não chamarem ‘autista’ ao adversário só para não ofender os autistas. Noutro sítio, que não me lembro, também se pediu aos deputados para deixarem de chamar ‘funcionário público’ ao adversário, porque isso era um insulto aos funcionários públicos.

siceramente disse...

Sinceramente sempre fui de acordo com isso tudo, mas há pouco tempo uma amiga minha, de belas artes tocou noutro ponto, se nos guiassemos pelo "o povo" o proletariado, as maiorias, seja o que for, deixariamos de ter a beleza!
Porque faltou focar o tempo, hoje em dia damos valor a carros, e tv por cabo, mas isso implica deixarmos de realizar "actividades nobres", travando o reconhecimento por gerações futuras?
Um grande abraço!

Desidério Murcho disse...

Olá a todos! Obrigado pelas objecções. Mas não me convenceram. Começando pela ideia de relativismo dos valores: eu não aceito tal coisa, e não é preciso aceitar isso para defender que o chamado interesse público é uma mentira política. Isto porque é muito diferente defender que seja o que for que as pessoas pensam que tem valor tem realmente valor, de defender que as pessoas devem ser obrigadas a financiar aquilo em que não reconhecem qualquer valor. Do facto de a maioria da população dar muito mais importância ao futebol do que à filosofia não significa que o futebol tenha mais valor do que a filosofia, mas significa que as pessoas não devem ser obrigadas a financiar o que não consomem nem valorizam.

O problema de fundo aqui é o paternalismo. Nós temos um estado paternalista, que pressupõe escolhas sábias das populações, quando as verdadeiras escolhas das pessoas seriam muitíssimo diferentes. Talvez em alguns casos um certo paternalismo seja aceitável — pense-se na medicina, ou mesmo em alguma ciência que tem aplicações tecnológicas que as pessoas depois até valorizam. Mas noutros casos a generalidade das pessoas em circunstância alguma irão valorizar tais coisas: arqueologia, história, filosofia, e até algumas artes, são completamente desprezadas pela generalidade das pessoas, ainda que valorizadas por pequenas minorias. Nestes casos não sei como entender o financiamento público excepto como uma mentira política, pois por definição o interesse público não pode ser o que a generalidade das pessoas não só não valoriza agora como não vai valorizar até morrer.

Vitor Guerreiro disse...

Há tempos também me fazia muita confusão confrontar-me com esta realidade. Quando era estudante, estava convencido de que as pessoas só não ouviam música de jeito, não gostavam de teatro, poesia, pintura, filosofia, etc, porque eram manipuladas pelos grandes interesses económicos. Esta ideia, ao longo do tempo, começou a parecer-me cada vez mais parva porque contraria a verdade óbvia: basta examinarmos o comportamento das pessoas, por mais liberdade que tenham. E parar de acreditar que as pessoas são o que não são só porque isso nos dá uma imagem mais agradável de como o mundo poderia ser. É que estas crenças falsas só fazem com que seja impossível descobrirmos maneiras realmente eficazes de mudar o mundo no sentido que queremos. Não vamos conseguir progressos obrigando as pessoas a pagar aquilo que não pagam voluntariamente. Isto é desagradável para nós porque uma boa parte de nós, que se preocupa com estas coisas, trabalha precisamente na produção de livros, música, teatro, etc. Mas pelo facto de ser desagradável não significa que não tenhamos de o enfrentar. Quanto mais cedo abandonarmos as ilusões acerca da realidade mais depressa começaremos a pensar em alternativas reais para a cultura. Noto que um grande problema que temos é não nos conseguirmos libertar do pensamento estatista, que coloca sempre o estado como a solução mágica de todos os problemas. Mas o estado não resolve problema algum, limita-se a tirar dinheiro de um sítio para por noutro. E isto de nada adianta se as pessoas continuam indispostas a pagar 20 euros por um livro mas não se importam de pagar 200 euros por uma engenhoca sofisticada. Se não se importam de pagar um televisor a prestações, mas ficam ofendidíssimas com o preço de um dvd ou de um software.

Desidério Murcho disse...

Na verdade, parece-me muitíssimo arrogante e insustentável a ideia de que a generalidade da população não gosta de filosofia ou de literatura ou de astronomia só porque não teve oportunidade de conhecer essas coisas, ou por ser pobre, ou seja o que for. É como se nós, os iluminados, tivéssemos saído da caverna, mas os outros, coitados, não. A verdade é que mesmo tendo tido oportunidade de conhecer muitas coisas interessantes além de novelas e sapatos, a esmagadora maioria da população humana prefere essas coisas a história e música erudita. É mais honesto admitir que as coisas são mesmo assim, e ao mesmo tempo acabar com a ideia de que nós somos superiores. As pessoas não são inferiores nem superiores por preferirem ou preterirem novelas a Eça de Queirós; são apenas pessoas, com gostos diferentes.

Vitor Guerreiro disse...

Aqui há um detalhe manhoso de que é preciso estar ciente: confunde-se muitas vezes o acto de gostar de x ou y com a questão de saber se x pode ser melhor do que y. Por exemplo, se as telenovelas são piores do que uma sinfonia, há a confusão de que não se pode gostar de sinfonias sem ao mesmo tempo ser-se "melhor" do que quem gosta de telenovelas. Era preciso trabalhar neste aspecto para separar muito bem as duas coisas. É como pretender que alguém que gosta de bom vinho é superior a alguém que bebe zurrapa. Mas pode-se perfeitamente rejeitar as ideias macacais de superioridade e inferioridade, sem para isso ter de afirmar que um vinho não é melhor do que outro. Esta confusão, em parte, leva muita gente a aceitar política ou religiosamente o relativismo. Porque acreditam que é preciso mentir acerca da realidade para se poder ser tolerante.

Matheus Martins Silva disse...

Quer dizer que não poderei utizar todos aqueles filmes que vi do Godard, os livros que li do Freud e os cds de música erudita que ouvi para oprimir socialmente quem não gosta dessas coisas? Isto é muito triste : P

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