13 de maio de 2009

Anonimato no séc. XIX

Já no séc. XIX era ainda comum os jornais trazerem notícias e comentários sem indicação do responsável; o uso de pseudónimos óbvios era também comum, como “João Atento”. Esta situação dava azo a protestos, nomeadamente porque as pessoas vítimas de difamação ou mentira não podiam defender-se adequadamente; os jornais defendiam-se dizendo que ao ocultar a identidade dos autores protegiam a liberdade de expressão. Este argumento é como defender que ir para a rua armado com uma metralhadora para afastar ladrões e assassinos é bom porque nos permite ir para a rua. O que é realmente bom é ir para a rua sem necessidade de tal coisa, e o que é realmente bom é as pessoas poderem exprimir as suas opiniões, por mais polémicas que sejam, sem terem de se ocultar atrás de pseudónimos.

27 comentários:

  1. Bom, tenho de discordar (ou não tivesse eu um pseudónimo...)

    Possuir um pseudónimo nem sempre tem a ver com a defesa da liberdade de expressão ou qualquer outra razão, digamos, mais profunda. Os pseudónimos muitas vezes prendem-se a motivos mais prosaicos: Miguel Torga não era Miguel Torga, Mário Cláudio não é Mário Cláudio, Marilyn Manson não é Marilyn Manson, e assim por diante. A escolha de um nome diverso daquele com que se nasceu deriva, em alguns casos (como é o meu, confesso), de se estar a realizar uma qualquer acção/criação bem diversa daquela(s) que são executadas no comum dia a dia.

    Não compreendo, pois, o ataque à existência de pseudónimos. Nem sempre estes significam uma ocultação ou dissimulação; trata-se por vezes de uma atitude inocente, um "alter-ego" criado ad hoc sem objectivos de maior.

    É a minha sincera opinião. Pode o Desidério explicar melhor o porquê da sua aversão à utilização de pseudónimos?

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  2. Peter,

    Toda a gente sabe quem é o Miguel Torga e o António Gedeão, ou, já agora, Ricardo Reis ou Álvaro de Campos.

    Mas isto é lateral à questão porque essas pessoas, quando comentavam ou discutiam com alguém seriamente, além de o interlocutor saber com quem está a falar, apresentar-se-iam com o nome próprio. De resto, isto não são obras de arte nem poemas nem coisa que se pareça. São discussões, comentários públicos numa página de Internet.

    Claro que nem todas as pessoas assinam com pseudónimos ou anonimamente pelos mesmos motivos, mas o que está precisamente em causa é não abrir excepções por causa dos motivos das pessoas.

    Numa discussão que se pretende séria, aberta, franca, não há qualquer boa razão para não nos apresentarmos uns aos outros com o nosso próprio nome. Isto não é limitação à liberdade de expressão. As pessoas continuam a ser livres de escrever poemas e assiná-los com pseudónimos. Mas os comentários são interacções directas com outras pessoas que por sua vez se expõem aberta, francamente, não são obras de arte. É um pouco como irmos todos tomar um café e discutir e metade das pessoas aparecerem com uma máscara.

    Os teus comentários nunca foram remotamente desagradáveis, nem com o intuito de matar a discussão, claro. O que acontece com esta política é o seguinte: se só publicarmos os comentários assinados, o número de palermices tende a decrescer astronomicamente, pois os sabotadores da discussão tipicamente não se mostram. Mas isto cria uma disparidade entre o leitor que assina e o pseudónimo que nunca tem comportamentos de sabotagem. Trata-se apenas de nivelar as coisas. Afinal, que mal tem os nossos nomes, ou as nossas caras, ou a nossa identidade do dia-a-dia? É como quando atendes o telefone e uma voz pergunta: "quem fala?" O "ónus da identidade", por assim dizer, recai sobre quem te telefona. Se não temos problema com o que estamos a dizer uns aos outros então não temos de ter problemas em ser claros quanto à nossa identidade.

    É precisamente a política de aceitar anonimatos e pseudónimos que transforma alguns blogues em autênticos chat rooms do mirc, cheios de adolescentes, e adultos a fingir que são adolescentes, à paulada uns aos outros e a sabotar as discussões. A clareza quanto à identidade é a cultura mais directamente oposta a essa, mesmo que nem todos os pseudónimos sejam sabotadores.

    Abraço

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  3. as pessoas não têm de mudar o registo no blogspot. Basta assinar os comentários por baixo.

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  4. Sinceramente, não vejo vantagem nem desvantagem (tirando alguns motivos apontados sobre «sabotagem» -- mas isso é outra história) em utilizar o verdadeiro nome ou um pseudónimo --, a não ser que a verdadeira identidade (enquanto não formos controlados pelo futuro big brother sarkozyiano, leia-se os «donos» da internet), possa servir para identificação de alguém a quem se pretenda instaurar um processo judicial por difamação...

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  5. Não se trata de instaurar processos. Ninguém aqui quer perseguir as pessoas ou está sequer interessado nas "ofensas", na "honra manchada", nas vinganças macacais e coisas desse género.

    Trata-se pura e simplesmente de propor uma cultura onde pessoas em paridade moral e cognitiva conversam natural e abertamente, meramente centradas na discussão e não nas sensações epidérmicas que possam causar uns aos outros com uns insultos espirituosos. É uma questão de postura, não de força.

    É como a discussão dos direitos de autor: é quase impossível alguém defender a imoralidade da cópia sem que ao mesmo tempo esteja associado a atitudes policiais perante quem copia. Isto é porque somos moralmente analfabetos: temos a ideia profundamente enraizada de que só vale a pena ter opiniões acerca do que deve ser se tivermos também um forte aparato policial ou umas armas para impor aos outros a nossa decisão. É uma atmosfera insuportável e que destrói completamente a possibilidade de pensar e de nos convencermos racionalmente uns aos outros. Por outro lado, é curiosamente contraditório como os defensores mais acérrimos desta perpspectiva militar da moral, precisamente os que estão convictos de que os argumentos morais nada signifiacam, as que mais ferozmente combatem, com argumentos (mais uma vez a contradição) a perspectiva de que os argumentos morais são úteis. Na verdade, quem assim pensa não tem sequer confiança na solidez das suas ideias. E o mesmo acontece na irritação que surge em volta do anonimato. Quase parece que o ónus da prova recai sobre quem defende que as discussões devem ser abertas. Trata-se apenas de ser honesto e frontal, nada mais.

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  6. Penso que fui demasiado parco no meu pequeno post, que aliás foi escrito há mais tempo. "Orwell", por exemplo, é um pseudónimo. Nada há de errado com o uso de pseudónimos, em certas circunstâncias. Nomeadamente, se isso não for uma forma de sabotar a discussão séria de ideias. E o Helder (Peter Pan) é um dos nossos mais simpáticos leitores, e eu gostaria que o Helder continue a sentir-se bem aqui, e que continue a comentar.

    O meu post tinha apenas o propósito de fazer as pessoas compreender que um argumento particular que algumas pessoas usam hoje a favor dos pseudónimos e dos anonimatos na Internet não funciona e já foi usado e experimentado no passado nos jornais. É o argumento de que o anonimato ou o pseudónimo fortalece a liberdade de expressão, ou a aprofunda. É exactamente o oposto. Os jornais não puderam transformar-se de meros pasquins com bocas em veículos sérios de informção enquanto não abandonaram a prática dos artigos não assinados ou assinados sob pseudónimos radicais -- ou seja, pseudónimos que servem apenas para ocultar o autor, e não para dar a uma pessoa conhecida um nome artístico.

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  7. 1- Se o “nome próprio”, exactamente como o pseudónimo, pode ser uma invenção e não quebra forçosamente o anonimato, porquê esta imposição?
    2 - Se o comentador é desonesto na sua participação não pode ser desonesto também na sua identificação?
    3 - Apesar do uso do pseudónimo o comentador não poderá ser honesto na sua participação? (VG – já respondeu que sim)
    4 - Se ainda assim poderão bloquear determinadas participações por quebrarem as regras (sendo “Insultos e irrelevâncias”), esta imposição não resultará num amestramento dos comentadores somente a este blogue (a que nem todos se querem sujeitar)?
    5 – Porquê insistir em algo que nem sequer podem controlar (a não ser impedindo quem não se quer submeter às novas regras, não as querendo subverter)?

    Té,

    (apesar de já ter aderido à mudança, despeço-me do mesmo modo de sempre, em tom amistoso)

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  8. José,

    Não se trata de submissão. O que pedimos às pessoas é uma coisa muito simples: quando intervirem, limitarem-se a argumentar, contra ou a favor, das ideias em discussão. Identificarem a sua intervenção com o nome próprio.

    O facto de alguém poder assinar nome falso (em vez de pseudónimo reconhecível como tal) não me causa qualquer transtorno, mas diz algo sobre a pessoa que está a intervir.

    Não se trata de amestrar as pessoas. Uma intervenção argumentativa com humor e algumas tiradas espirituosas é aceitável. O que não é aceitável, porque sabota a discussão, são puras tiradas pessoas e comentários laterais à discussão ou ao tema. Normalmente, as pessoas que fazem isto não têm realmente alguma coisa a dizer sobre o assunto, ou então têm crenças fortes sem terem realmente reflectido, daí não terem argumentos, e limitam-se a tentar convencer os outros a não pensar, chamando a atenção para irrelevâncias acerca dos autores, aparvalhando a discussão e afastando quem tem um interesse genuíno na questão debatida. Os sabotadores caracterizam-se em geral por nunca estarem realmente interessados numa resposta. Ou já têm uma resposta que recusam discutir ou acham que não há resposta e logo ninguém tem o direito a procurar respostas porque isso é uma bestialidade.

    O que pedimos é muito simples e razoável. Não vejo em que é que numa aula, por exemplo, uma pessoa que intervém, diz o nome, e argumenta, está a ser "submissa". Ninguém alguma vez levantaria essa ideia numa aula porque até o próprio a acharia irrazoável. Mas na net, por alguma razão, as coisas são diferentes, as pessoas adoptam posições que jamais adoptariam numa aula ou numa palestra.

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  9. Repare-se: por que razão alguém assinaria um nome falso depois de escrever um comentário argumentativo, aberto, honesto, sem tretas nem manipulações - as tais chamadas de atenção para irrelevâncias e futilidades, para convencer os outros leitores a parar de pensar no tema?

    Nenhuma. Zero. Ninguém genuinamente interessado em discutir tem alguma boa razão para assinar um nome falso. E é de loucos supor que terá medo de alguma coisa ou que sofre de uma fobia esquisita a identificar-se correctamente. A verdade pura e simples é que só falsificaria o seu nome quem estivesse meramente interessado em sabotar a discussão, regurgitar disparates a granel, mas não querer o seu nome associado ao que escreveu. A única motivação para falsificar um nome é a própria pessoa, no fundo, repudiar aquilo que está a dizer, mas querer dizê-lo na mesma porque isso lhe traz uma satisfação de que ela, por qualquer emoção menos clara, não abdica.

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  10. 1) Se é impossível controlar a identidade de quem submete o comentário
    e
    2) podem bloquear os comentários por serem “Insultos e irrelevâncias”

    o facto de imporem essa nova regra não estará apenas a afastar leitores/comentadores que escrevem sob pseudónimo (uma prática corrente na Internet)?

    Té,

    (grato pela resposta anterior)

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  11. José,

    As regras não são novas. Simplesmente quase nunca são seguidas. Estão sobre a caixa de comentários quase desde que o blogue existe.

    A possibilidade de controlar é irrelevante. O interesse não é controlar as pessoas. É um facto, repetidamente confirmado pela experiência, que nenhum comentador genuinamente interessado tem qualquer razão para assinar com nome falso. A única razão que me ocorre é o próprio repudiar, ao ponto de não o querer associado a si, aquilo que escreveu.

    Quem não sente isto pelas suas próprias opiniões, não sente necessidade de assinar nomes falsos. Isto é diferente dos pseudónimos, claro. A diferença é que o pseudónimo nem sempre serve para estes motivos, enquanto que a assinatura falsa serve sem margem para dúvidas.

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  12. Se «a única motivação para falsificar um nome é a própria pessoa», que assim estaria a «repudiar aquilo que está a dizer» -- e não será a mesma coisa se o escrever num «Diário», p.ex. (antes de se tornar «Torga»)? -- embora queira «dizê-lo na mesma porque isso lhe traz satisfação», qual será, então, essa «emoção menos clara», de que não se abdica?

    Embora respeite todas as opiniões, penso que só poderá falar disso quem verdadeiramente o «sente», ou seja, essa emoção de que se fala poderá não ser assim tão «menos clara» para quem escolhe um pseudónimo para escrever sob o nome de «Repórter X», por exemplo.

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  13. Zé, para conseguirmos constituir uma pequena comunidade de autores e leitores simpáticos, que gostam de trocar informações e argumentos, de discutir ideias e de discordar racional e civilizadadamente, é crucial afastar quem vem para os blogs gritar tão alto que afasta precisamente as pessoas que mais interessam.

    As pessoas podem mentir, e assinar um nome falso? Sim. Mas se desconfiarmos que o nome é falso não publicamos. Podemos publicar comentários inteligentes com nomes falsos? Sim, mas isso é irrelevante por dois motivos.

    Primeiro, porque o comentário é bom.

    Segundo, porque o simples facto de as pessoas saberem que os seus comentários podem ser recusados se pensarmos que os nomes são falsos (no sentido de procurar ocultar a identidade, e não no sentido de uma espécie de um pseudónimo que não a oculta, como no caso de Orwell ou do Peter of Pan) é suficiente para as impedir de entupir as caixas de comentários com gritos que impedem leitores como tu ou o Helder ou o Jaime de sentirem vontade de comentar.

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  14. Como não comparo sequer remotamente os meus comentários e os meus artigozecos com obras de arte, poemas ou romances, assino o meu nome porque o objectivo destes artigos e comentários é comunicar claramente com outras pessoas.

    O exemplo dos poetas, músicos e escritores, como já foi referido, não colhe. Mesmo essas pessoas não participam em discussões nem vão a palestras escondendo-se com um nome inventado. E toda a gente sabe quem elas são. O uso artístico de pseudónimos nada tem a ver com o caso.

    De resto, não somos poetas ou romancistas. Este blogue não difere de uma aula de seminário, uma palestra ou uma conversa livre mas séria, onde todos participamos voluntariamente e com o intuito de descobrir alguma coisa juntos. O ambiente que deve predominar, portanto, é o mesmo que predominaria numa situação dessas.

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  15. Uma última nota: na verdade, a moderação de comentários é feita na Crítica exclusivamente por causa dos leitores. Para mim, como autor, poderia fazer apenas como no De Rerum, em que raramente leio os comentários, pois são regra geral inconsequentes, frívolos e até desagradáveis. Na verdade, isso ocorre em muitos blogs -- e pessoas como eu deixaram pura e simplesmente de ler os comentários, pois são demasiado tolos. Para impedir que isso aconteça aqui, temos de moderar os comentários. Deste modo, os leitores irão sentir que vale a pena ler os comentários e que vale a pena comentar, ao invés de ler apenas os posts.

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  16. Mas, se a regra agora a ser posta em prática não previne a entrada de comentadores que não estejam “genuinamente interessados” e pode impedir a participação de comentadores “genuinamente interessados”, não será esta uma regra prejudicial ao próprio blogue?

    Té,

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  17. As pessoas também terão de fazer essa pergunta a si próprias: será este um motivo suficientemente forte para deixar de participar no blogue, se é que isso nos dá alguma satisfação? É uma questão em que teremos simplesmente de confiar na razoabilidade das pessoas. Correremos esse risco. Em todo o caso, os artigos e as recensões vão continuar, e as pessoas interessadas seguramente não vão deixar de participar.

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  18. "Mas se desconfiarmos que o nome é falso não publicamos."
    Que tipo de nomes podem ser considerados falsos? Cavaco Silva?
    E se o próprio presidente da república, e não um dos outros verdadeiros Cavaco Silva, decidir que lhe apetece comentar neste blogue mas que lhe parece que será melhor escrever sobre pseudónimo, devido a motivos vários e evidentes?

    António Mota

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  19. Apesar de ser um dos colaboradores deste blogue e de partilhar as preocupações do Desidério, do Vítor e do Rolando, creio que as objecções do José Oliveira fazem algum sentido. Assim, estou de acordo no essencial com os meus colegas bloguistas, mas não totalmente.

    Estou de acordo com os meus colegas em duas coisas.

    Em primeiro lugar, estou de acordo com diagnóstico que fazem de que a causa da palhaçada insuportável que se encontra nas caixas de comentários de tantos blogues é o anonimato. Também deixei de ler a maior parte delas, pois é uma pura perda de tempo. Sem anonimato as coisas seriam muitíssimo diferentes.

    Em segundo lugar, concordo que se deve fazer alguma coisa para os anónimos não tomem de assalto as caixas de comentários deste blogue.

    Mas discordo dos meus colegas sobre o que se pode e deve fazer para evitar a palhaçada. Acho que o melhor que há a fazer é isto mesmo: discutir o assunto e tentar explicar por que razão achamos isso indesejável aqui. E convidar os nossos comentadores a usar o seu nome verdadeiro. Além disso, informar que todo o ruído será excluído.

    Assim, se alguém aqui não quiser (por alguma razão pessoal que eu não consigo adivinhar) assinar com o seu nome e preferir usar pseudónimo, e se os seus comentários forem úteis e não se destinarem a boicotar a discussão, então não vejo razão para os excluir. Por mim, basta reiterar o convite para assinar com o nome verdadeiro e a moderação de comentários, como refere o Zé. O resto é com cada um. Mas eu não excluiria comentários com pseudónimos (não estou a falar de anónimos, pois aí nem sequer sabemos se o segundo anónimo é o mesmo que o primeiro). O que mais se pode fazer?

    Se até aqui não tem havido grandes problemas, não vejo razão para dramatizar a coisa.

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  20. Mas então que se clarifique o que se escreve, porque pode haver interpretações (como eu fiz, de resto) que, pensando estar a comentar uma coisa, afinal se comenta outra -- uma vez que não sei qual o critério para distinguir um nome falso de um pseudónimo (embora saiba do que se está a falar quando se diz um «pseudónimo reconhecível como tal») -- aqui, na internet. Não sei se percebeste.
    ---
    Sim, já percebi e não volto «à carga» sem, no entanto, antes enviar uma «farpa/zita» (a quem se doer, claro); em abstrato, portanto, a minha opinião quanto a esta questão prende-se um pouco com a questão da anonímia dos artigos da «Wikipédia», que não dão para colocar no currículo. Que é isto tem a ver? Vou tentar explicar o meu ponto de vista através de um exemplo (tosco e) teórico, tentando fazer a ligação: suponhamos que num jornal de referência (não temático) todos os artigos aparecem sem nome e nos pomos a observar um determinado leitor sobre as suas preferências de leitura, retirando daí uma conclusão: pode só ler as gordas, aqui ou ali mais detalhadamente, etc.; depois, já com todos os artigos assinados (sendo os mesmos autores e os artigos seguindo a mesma «linha», digamos), voltamos a observar esse mesmo leitor e, possivelmente, se perscrutássemos bem o seu «comportamento», poderíamos ter algumas «surpresas» quanto à maneira como se comportaria (por exemplo, que poderia ler as gordas de jornalistas de 2ª, mas já ao ver que o artigo estava assinado por fulano tal, aí, já o leria todo, etc.). Claro que poderia ainda florear isto, mas, baralhando e tornando a dar, o que julgo é que o «nome» não apenas dá um certo status de ortodoxia, como serve para granjear dividendos (e isto, no caso «Wikipédia», e abstraindo-nos de toda a outra problemática que não levou a nenhum lado...) --, pese embora que reconheço que alguns argumentos em «posts» anteriores são válidos (tanto dum lado como do outro).

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  21. Caros,
    O próprio blogger dá-nos algumas opções de moderação de comentários já para prevenir estes casos. Tenho um blog na Sapo e nesse posso incclusivé pedir para destapar o IP dos anónimos para, pelo menos, saber se não é o vizinho de cima que está a tentar estragar o meu trabalho. O Aires tem razão quando diz que há comentários assinados que pode não ter qualidade e outros anónimos que podem ser relevantes para as discussões. O que eu acho é que este deve ser um espaço onde as pessoas que desejam participar se identificam, tal como fazemos no espaço físico. Se participarmos numa discussão pública numa sala de aula, por exemplo, é raro alguém mentir sobre a sua identidade, mesmo que não conheça os seus colegas de sala de aula. Não vejo razão especial para que seja diferente na internet. É uma questão de encararmos o trabalho deste blog com o minímo de seriedade. Aqui podemos criar grupos de trabalho interessantes, dar o pontapé de saída para novos e dieferentes projectos. E é bom que nos tratemos todos pelos nossos verdadeiros nomes. Creio que o efeito de assinarmos com os nomes verdadeiros é criar um elo de ligação mais forte em quem quer realmente discutir os problemas e acabar com isso a "espantar" os anónimos que só aparecem a perturbar.

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  22. Os comentários sem perfil, nos quais o autor assina no corpo do texto, permitem dessa forma serem facilmente atribuídos erradamente.
    Poder-se-ia escolher 'anónimo' em 'comentar como' e depois assinar, por exemplo, 'António Mota".

    De modo que a possibilidade dos comentários sem conta ajudam a ocultar a identidade e também a não conseguir descrutiná-la, mesmo nos casos que o seu autor não a pretende ocultar.

    No caso dos comentários assinados por "Peter Pan", parece que o autor por detrás dos mesmos não pretende ocultar a sua identidade. Contudo, isso não implica que ela não esteja oculta, e de facto deverá estar oculta para muitas das pessoas que por aqui também comentam. Assim sendo, e julgando que a identidade do autor que assina "Peter Pan" não está oculta para alguns dos moderadores do blog, deixo então as seguintes questões. (1) Para quem devem estar identificados os comentários?

    Vocês são os moderadores das discussões que ocorrem nos comentários, mas a identificação dos seus autores fica publicada para todos os participantes, e até para os leitores que nem comentam. Portanto, se por um lado a identificação só for para vocês, moderadores, então basta implementar um sistema de comentários que possibilite que se forneça a identificação aos moderadores sem a publicar; e por outro lado, se a identificação for para todos, então está aqui qualquer coisa a falhar, pois não me lembro de terem questionado as pessoas se elas estão cientes da identificação dos outros comentadores. Ou seja, se a primeira hipótese é o caso, então é desnecessário (no sentido da admissão de comentários) assinaturas genuínas nos comentários publicados; se for a segunda o caso, parece que, no entanto, têm gerido o blog como se fosse a primeira.

    (2) Se, por exemplo, eu disser "Chamo-me 'Ricardo Miguel', e no meu perfil do google uso como nome apenas a primeira letra do meu primeiro nome", terei de continuar a assinar os meus comentários com primeiro e último nome ou pode ficar apenas a letra 'r' da conta do google?

    (3) Se a resposta a (2) é que ainda assim tenho de assinar com primeiro e último nome, o que é que faz com que 'r' não seja uma espécie de pseudónimo que não oculta a minha identidade, tal como 'Peter Pan', supostamente, não oculta a de quem está por detrás dessa assinatura?

    (4) Desidério, quando afirmas que

    "o simples facto de as pessoas saberem que os seus comentários podem ser recusados se pensarmos que os nomes são falsos (no sentido de procurar ocultar a identidade...) é suficiente para as impedir de entupir as caixas de comentários com gritos..."

    não estarás a subestimar os leitores do blog? Será preciso mais de dois dedos de testa para não temer que o seu comentário seja recusado só porque não assina genuinamete? Quem não quer assinar genuinamete mas quer ter os seus comentários publicados, basta escrever qualquer coisa, desde que não seja disparatada, insultuosa, etc., e assinar com um nome qualquer desde que seja comum o suficiente (seja lá o que isso for) para vocês não julgarem que é um nome falso.

    Julgo que mais facilmente alguns comentadores verão os seus comentários recusados sem razão (falso positivo), se tiverem o azar de terem um nome que pensem ser falso (vai-se lá saber os critérios que têm para identificar tais casos).

    Ricardo Miguel

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  23. Os comentários sem perfil, nos quais o autor assina no corpo do texto, permitem dessa forma serem facilmente atribuídos erradamente.
    Poder-se-ia escolher 'anónimo' em 'comentar como' e depois assinar, por exemplo, 'António Mota".

    De modo que a possibilidade dos comentários sem conta ajudam a ocultar a identidade e também a não conseguir descrutiná-la, mesmo nos casos que o seu autor não a pretende ocultar.

    No caso dos comentários assinados por "Peter Pan", parece que o autor por detrás dos mesmos não pretende ocultar a sua identidade. Contudo, isso não implica que ela não esteja oculta, e de facto deverá estar oculta para muitas das pessoas que por aqui também comentam. Assim sendo, e julgando que a identidade do autor que assina "Peter Pan" não está oculta para alguns dos moderadores do blog, deixo então as seguintes questões. (1) Para quem devem estar identificados os comentários?

    Vocês são os moderadores das discussões que ocorrem nos comentários, mas a identificação dos seus autores fica publicada para todos os participantes, e até para os leitores que nem comentam. Portanto, se por um lado a identificação só for para vocês, moderadores, então basta implementar um sistema de comentários que possibilite que se forneça a identificação aos moderadores sem a publicar; e por outro lado, se a identificação for para todos, então está aqui qualquer coisa a falhar, pois não me lembro de terem questionado as pessoas se elas estão cientes da identificação dos outros comentadores. Ou seja, se a primeira hipótese é o caso, então é desnecessário (no sentido da admissão de comentários) assinaturas genuínas nos comentários publicados; se for a segunda o caso, parece que, no entanto, têm gerido o blog como se fosse a primeira.

    (2) Se, por exemplo, eu disser "Chamo-me 'Ricardo Miguel', e no meu perfil do google uso como nome apenas a primeira letra do meu primeiro nome", terei de continuar a assinar os meus comentários com primeiro e último nome ou pode ficar apenas a letra 'r' da conta do google?

    (3) Se a resposta a (2) é que ainda assim tenho de assinar com primeiro e último nome, o que é que faz com que 'r' não seja uma espécie de pseudónimo que não oculta a minha identidade, tal como 'Peter Pan', supostamente, não oculta a de quem está por detrás dessa assinatura?

    (4) Desidério, quando afirmas que

    "o simples facto de as pessoas saberem que os seus comentários podem ser recusados se pensarmos que os nomes são falsos (no sentido de procurar ocultar a identidade...) é suficiente para as impedir de entupir as caixas de comentários com gritos..."

    não estarás a subestimar os leitores do blog? Será preciso mais de dois dedos de testa para não temer que o seu comentário seja recusado só porque não é assinado genuinamete? Quem não quer assinar genuinamete mas quer ter os seus comentários publicados, basta escrever qualquer coisa, desde que não seja disparatada, insultuosa, etc., e assinar com um nome qualquer desde que seja comum o suficiente (seja lá o que isso for) para vocês não julgarem que é um nome falso.

    Julgo que mais facilmente alguns comentadores verão os seus comentários recusados sem razão (falso positivo), se tiverem o azar de terem um nome que pensem ser falso (vai-se lá saber os critérios que têm para identificar tais casos).

    Ricardo Miguel

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  24. O assunto é controverso (e estimulante) por isso suscita muitas questões que a Crítica agora confronta. A produção massiva de perfis (identidades virtuais) na Internet (MySpace, Facebook, MSN, Friendster, Hi5, Orkut, YouTube, Twiter, FLICKR, etc. ou aqui no Blogger) parece apelar a uma nova fisiognomonia do séc. XXI – descortinar quem se revela (ou esconde) nesses perfis.
    Quando se apela cada vez mais à protecção dos dados e da privacidade, por nos confrontarmos exactamente com o oposto, estaremos cada vez mais a protegermo-nos (e a quem gostamos) de uma situação de exposição, a todos, tudo a nu, de rosto descoberto? Numa situação tal em que não é possível qualquer máscara de protecção (ou a face visível, o rosto que se torna real, é já essa máscara?), o julgamento do interlocutor é difícil – o do observador desconhecido ainda é mais. Certamente já sondaram a Internet em busca de alguém. É certo que cada um se expõe como entende, mas dificilmente saberá as intenções de quem o observa. Até mesmo o patronato (ou o próprio Estado) nos indexa, configurando os traços que definem o nosso perfil e muitas vezes também o publica. A exposição já não se resume aos “15 minutos” desejados, a exposição é permanente e incontrolável! Será fobia ou paranóia? Haverá ou não razões para esse sentimento de perseguição? Não faltam casos reais – assustadores! Certamente também já sondaram a Internet em busca de vocês próprios. O que encontraram? O perfil traçado correspondia à vossa imagem? Que julgamento fariam de alguém com esse mesmo perfil? E se me procurasse e não me encontrasse? Se não houvesse na Internet qualquer prova da minha existência? O anonimato no séc. XXI será não estar na rede? Não ter rosto virtual? Será isso uma (des)vantagem? Quem somos se não estamos na rede? Ou, então, sem medo do que já é inevitável e em tom de desafio ou gozo, como diriam os miúdos hoje em dia, dir-se-ia: “Vai ver se eu estou «on-line»!”

    Té,

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  25. Muito interessante todo este debate. Fiquei a compreender melhor os argumentos do Vítor e do Desidério, aos quais agradeço não só os esclarecimentos como as simpáticas palavras.

    Tenho, no entanto, a seguinte objecção a colocar: foi acima dito, principalmente pelo Vítor, que um dos propósitos deste blogue é proporcionar discussões similares às que têm lugar numa sala de aula ou numa conversa de café, e que para isso é desejável que as pessoas se identifiquem; ora, não me parece que uma coisa dependa da outra. O debate salutar, nomeadamente num mundo como é o da internet, em que o anonimato prolifera, não depende da identificação das pessoas. Pessoalmente, já tenho comentado como Peter of Pan no blogue do Nigel Warburton, entre outros, e nunca senti qualquer barreira. O mesmo se tem passado aqui na Crítica.

    Isto não quer dizer que não esteja de acordo em alguns pontos. Seria muito mau se, por exemplo, os comentários deste blogue fossem iguais aos que costumo ver no De Rerum Natura. Mas creio que uma moderação eficaz bastará para "limar" alguns excessos, não sendo pois (a meu ver) necessária uma política demasiado restritiva, que impeça anónimos ou pseudónimos.

    Abraços.

    Helder Mendes

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  26. Viva,

    Sim, também não é preciso fazer um grande drama. É uma questão prática: se vamos continuar a convidar os leitores que vão surgindo a assinarem o nome, eles poderão não compreender por que alguns pseudónimos já conhecidos da casa têm tratamento à parte. Em princípio concordo com o Aires em que é excessivo rejeitar comentários sensatos com pseudónimo, mas isto não deixa de criar uma disparidade de critérios. Uns estariam sempre a levar com o breviário, e outros teriam livre passagem. O mais simples mesmo é usar os pseudónimos que se quiser no profile e simplesmente assinar no final... ou usar o nome no profile, tanto faz. Quanto ao resto, se um comentário sensato for assinado com um nome falso, de um modo indetectável, sinceramente, pouco me rala. Há que ver uma coisa aqui: não estamos a fazer um sistema à prova de bala, mas um sistema razoável. O efeito psicológico da regra na maioria dos comentadores sensatos é suficiente. Se um em 10 fizer um comentário sensato e assinar um nome falso... paciência. O que interessa é o efeito geral e nesse aspecto sei que podemos confiar nos comentário que revelam genuíno interesse. Sinceramente, conhecem alguém que perca tempo a escrever comentários gozões, com mais do que um nick, e coisas desse género, que escreva alguma coisa de jeito? Conhecem algum comentador sensato que perca por sua vez tempo com grandes trapalhadas a inventar múltiplos nicks? Bastava fazer uma recolha exaustiva de todos os comentários (livra!) aqui e no De Rerum, e distribuí-los por tipos. Vai uma aposta que a sensatez cairia também no lado da simplicidade? Porque perder tempo a inventar nicks com a ideia de que isso vai gerar um impacto memorável na imaginação dos leitores (para dar a sensação de que se é uma horda em vez de um chico-esperto), é típico de quem escreve umas tretas a pensar que foi muito bombástico e muito relevante. Ninguém que tenha mais o que pensar e fazer ao tempo, e já agora... tempo, se perde nessas tretas.

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  27. Mais um texto que pode interessar o Desidério:

    http://www.microsiervos.com/archivo/internet/aprobada-ley-hadopi-en-francia.html

    José Silva

    Podem apagar o comentário, é mesmo só para transmitir um texto que acho interessante.
    Também não sabia que se podia apagar o IP da ligação à internet, é uma coisa interessante, e que também está relacionado com esta questão do anonimato.

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