30 de maio de 2009

Compreender as críticas à filosofia analítica

Acabo de publicar aqui um artigo de resposta a este artigo de Alexandre Machado. Espero que seja esclarecedor.

14 comentários:

  1. A leitura deste texto trouxe-me à memória um caso que me aconteceu e que constitui uma sua perfeita ilustração: em 1998 participei como assistente num colóquio sobre Platão, denominado “Anamnese e Saber”, organizado pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, que reuniu vários especialistas internacionais e se encontra publicado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, onde fiz a seguinte intervenção anónima no debate e obtive uma resposta, que será, creio, simultaneamente “interessante, sugestiva” e cognitivamente relevante. Permitam-me que as transcreva na íntegra, apesar da sua relativa extensão:

    Quando alguém aponta para a Lua, não olhes para o dedo, olha para a Lua.

    Provérbio oriental

    “Creio que foi Aristóteles quem disse (talvez a fim de se justificar pelas suas críticas ao mestre, muitas vezes injustas, convenhamos), ou pelo menos os medievais lhe atribuíam, que, se era muito amigo de Platão, o era mais da Verdade. Este é o plano em que me queria agora situar. O que aconteceria se levássemos Platão radicalmente a sério, isto é, filosoficamente a sério, como ele por certo gostaria, e nos interrogássemos sinceramente, sem defesas: será que Platão tinha razão? Será que sabia realmente alguma coisa? Ou teria somente opiniões interessantes, mais ou menos inteligentes, mais ou menos geniais, mas nada mais do que isso? Numa palavra, será a filosofia platónica objectivamente verdadeira ou falsa? Será refutável? Estarão os seus problemas bem formulados? Serão as suas teses e teorias respostas verdadeiras ou, pelo menos, plausíveis ou verosímeis a esses problemas? Serão os seus argumentos bons argumentos, simultaneamente válidos e com premissas verdadeiras? Estas são talvez as perguntas que mais importa fazer relativamente a Platão ou a qualquer outro filósofo. Pois se, porventura, se trata de verdadeira sabedoria, então ela não lhe pertence, visto ser universal, isto é, impessoal, uma vez que a verdade não conhece direitos de autor. E, se a resposta for positiva, a questão fundamental não passará a ser, nesse caso, o que podemos e devemos nós fazer para nos tornarmos como ele, para alcançar a sabedoria que ele alcançou, para realizar o que ele realizou? E o que pode ele ensinar-nos, ou nós aprendermos com ele, com vista a essa finalidade última que é o nosso próprio progresso filosófico? Como curar esse mal supremo da nossa alma que é a ignorância? Não será isto que filosoficamente nos deve importar, ou que importa em relação a Platão e a qualquer filósofo, muito para além do interesse meramente histórico, académico ou estético? Não será esta a única maneira de o podermos verdadeiramente julgar e de lhe fazermos finalmente justiça, evitando assim que ele continue a rir-se de nós ou, quem sabe, a chorar por nós? Talvez Platão, como qualquer outro filósofo, seja apenas um dedo apontando para a lua, sendo a lua a verdade! Não será assim insensato concentrarmo-nos no dedo, em vez de nos focarmos na lua?

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  2. (continuação do comentário anterior)

    Resposta do Prof Samuel Scolnicov:

    Amicus Plato, sed magis amica veritas. A frase é atribuída a Aristóteles, no capítulo 52 do livro II das “Aventuras do famoso fidalgo D. Quixote de la Mancha”, na qual D. Quixote escreve uma longa missiva a Sancho Pança, que foi nomeado, num capítulo precedente, governador de Baratária. Cervantes está citando um locus medieval bem conhecido. Desde então a frase continua sendo atribuída a Aristóteles.
    Dito isto, sempre me perguntam os meus alunos se Platão teria razão. E a minha resposta é sempre um firme “Sim”! Ele teve razão em não dizer nunca a viva voz o que ele pensava. Se ele tivesse escrito por extenso o que pensava, então poderíamos tomar todos os diálogos de Platão e queimá-los em praça pública, por inúteis que seriam, ou, pior, por corromperem a juventude. Ele tinha razão em não deixar que ninguém respondesse a essa pergunta. Olimpiodoro, no séc. VI, nos conta que Platão, antes de morrer, teve um sonho no qual um cisne voava de árvore a árvore, e todos tentavam agarrá-lo, mas ninguém conseguia. O cisne era Platão.
    Platão tinha razão!”

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  3. Gostei muito do teu texto, Desidério. Coloquei uma referência a ele no meu artigo. Mas creio que ele aponta para uma possível réplica: a atitude dos filósofos que não tem formação analítica não é primariamente não-cognitiva. Ocorre que eles têm uma concepção diferente de conhecimento, que eles até estão dispostos a discutir, mas nos termos dessa própria concepção... É por isso que eu acredito que a idéia de ônus da prova, que nos força a começar qualquer discussão a partir do que é mais plausível (embora em alguns casos isso seja difícil de determinar), deve desempenhar um papel essencial num debate racional. Doutra forma a objeção torna-se sempre gatuita. Estou pensando sobre isso há certo tempo e pretendo postar algo sobre isso em breve. Um abraço.

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  4. Alexandre,

    Isso parece-me batota. Passamos a ter uma atitude primariamente cognitiva mudando o conceito de conhecimento. Mas que concepção é essa? Uma concepção de conhecimento em que "conhecer" é sentir arrepios epidérmicos quando se ouve frases edificantes ou vagamente místicas... mas que no fundo nada dizem?

    João,

    Não percebi o comentário. Platão tinha razão por não afirmar o que pensava? Por não ter "escrito por extenso" o que pensava? O que quer isso dizer, que não o escreveu de todo em todo? Que enganou os leitores? Que fez isto e foi bom tê-lo feito porque de contrário corromperia a juventude e teríamos de o queimar? Platão tinha razão porque, como o cisne, nunca se deixou apanhar?

    O que vou dizer parece a brincar mas não é, nem tem qualquer ironia. Quando muito explica por que não estou a compreender a resposta: estive presente nesse colóquio em 1998, mas a verdade é que me deixei dormir a meio.

    Outra coisa: se queremos alcançar a sabedoria que Platão alcançou é porque a não alcançámos ainda. Então como sabemos que Platão alcançou qualquer tipo de sabedoria antes de discutirmos as suas ideias de um ponto de vista puramente cognitivo e em paridade com o filósofo, em vez de como discípulos num mosteiro?

    Como podem as críticas e objecções levantadas por Aristóteles ser "injustas"? Sofrer objecções é o mesmo que sofrer injustiças ou violências? Qual é a transgressão: as pessoas correrem o risco de pensar que Platão afinal não é um cisne místico mas apenas um homem de ideias, de pensamento e que... podia enganar-se? Mas quem iria pensar isso? Que interesse tem isso? O único interesse que as pessoas podem ter em Platão é discutir com ele, discutir as suas ideias. Foi o que Aristóteles fez, porque tinha um interesse primariamente cognitivo na sua área. Não estava a discutir o ego de Platão nem a tentar trepar-lhe para as costas. Estava apenas a desempenhar a sua actividade de filósofo, que consiste em levantar objecções e discutir.

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  5. Desidério

    o seu artigo foi de uma acuidade psicológica incrível. Conseguiu captar muito bem a motivação das pessoas que só estão interessadas em fazer comentários e não filosofia.

    Obrigado pelos esclarecimentos.

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  6. Obrigado a todos pelas reacções. Alexandre, concordo que a réplica de alguns colegas será dizer que a sua intenção é de facto cognitiva, em grande parte por dificuldade em admitir explicitamente que o não é; mas continuarei insistindo que não pode ser primariamente cognitiva, pois nesse caso as metodologias adoptadas são evidentemente desadequadas. Vejamos: é prática corrente adoptar-se um filósofo como alter-ego, e defender as suas ideias de modo autoritário, sem prestar atenção nem às alternativas teóricas nem aos melhores argumentos contra as suas ideias. Isto é uma falácia primária — falácia da supressão de provas — que não deve ter lugar numa universidade. Contudo, se encararmos este tipo de trabalho como um trabalho que não é primariamente cognitivo, mas antes uma forma de apreciar os textos e ideias do filósofo em causa, tudo faz sentido. Eu não me sinto minimamente obrigado a ser imparcial nem exaustivo na minha apreciação do cinema; limito-me a ver o que gosto, e pronto. Mas esta atitude seria inaceitável num historiador do cinema.

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  7. "Alexandre, concordo que a réplica de alguns colegas será dizer que a sua intenção é de facto cognitiva, em grande parte por dificuldade em admitir explicitamente que o não é; mas continuarei insistindo que não pode ser primariamente cognitiva, pois nesse caso as metodologias adoptadas são evidentemente desadequadas."

    Nesse caso, argumentar-se-á que as ideias são de um profundidade tal que não permitem uma argumentação tão clara e sintética como pretendido.
    Para compreender tais ideias seria necessário um espírito mais dúctil, mais sensível.A argumentação clara, dita seca, não proporciona condições para tais espíritos se desenvolverem e se expressarem livremente.

    Claro que isto são desculpas de mau pagador de quem não tem um interesse primariamente cognitivo na filosofia.

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  8. Claro. Por mais que se esteja perante mistérios arcanos, as perguntas fundamentais têm de poder ser feitas, sob pena de estarmos mergulhados em obscurantismo. E qualquer conjunto de perguntas fundamentais tem de incluir estas:

    -- O que quer isto realmente dizer?
    -- Será isso plausível? Porquê?
    -- Haverá alternativas teóricas mais plausíveis? Quais?

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  9. Concordo com vocês que essa réplica que eu considerei é fraca, para se dizer o mínimo. Mas acho que o que foi dito se baseia justamente na verdade do que eu disse: vocês apontam para um ponto de partida mínimo para a discussão e qualquer um que tenha dúvida sobre ele tem o ônus da prova.

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  10. Desidério, sem "ofensas", seu texto foi inspirador!
    Devo dizer que a filosofia analítica salvou, e continua salvando, a minha existência no curso de filosofia. Passei um bom tempo achando que filosofia era algo "pointless", que se não falasse grego não teria valor, e que num discurso filosófico a retórica era mais importante que o argumento. O comentário está bastante pessoal, mas a imagem do texto é muito vivída para mim.
    No mais, faço das palavras do Matheus as minhas.
    Obrigada!

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  11. Vitor,

    Confesso que também não percebi muito bem o comentário ao meu comentário! Julguei que tinha ficado claro que a intenção era ilustrar através de um exemplo concreto o tipo de atitude primariamente não-cognitiva que o Desidério refere no texto! A intervenção que fiz no colóquio visava precisamente confrontar os ditos "especialistas em Platão" com a irrelevância dessa atitude puramente académica de subserviência hermenêutica em relação a um filósofo, em vez de discutirem se aquilo que ele diz é verdadeiro ou falso, se faz sentido ou não!Pareceu-me que a resposta que obtive (como, aliás, outras que não transcrevi) "encaixava que nem uma luva" na atitude descrita. O que move aquelas pessoas não é a vontade genuína de saber, não é o amor à verdade, mas tão só o interesse profissional e o desejo lúdico de continuar ad infinitum a "caça ao cisne" ( ou aos gambozinos, pois para o efeito tanto faz). É por isso que a resposta do prof. Scolnicov só podia ser aquela que foi: retórica, evasiva, pedante e ridícula face àquilo que lhe foi perguntado! Não fosse a irritação e o facto de querer escrever previamente as intervenções que fiz, também teria adormecido ou simplesmente ido embora. And I rest my case.

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  12. João,

    Agora foi perfeitamente claro. Peço desculpa se o interpretei mal.

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  13. Os filósofos interrogam-se onde os outros fruem (ou não), por exemplo na arte. Podemos limitar-nos a apreciar esteticamente uma obra, ou podemos interrogar-nos sobre a sua natureza. Ambas as perspectivas são legítimas, mas penso que apenas a primeira é legítima do ponto de vista da filosofia ou da filosofia analítica.

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  14. O novo link do artigo: http://criticanarede.com/ed2.html

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