19 de maio de 2009

Economia, bibliotecas e cultura

Por razões históricas curiosas, há uma tendência irreflectida para associar a cultura a uma vida etérea, pudicamente afastada da vida económica. Mas isto é uma mentira. Só pode dedicar-se à cultura quem tem rendimentos suficientes para isso — a menos que essa dedicação gere dinheiro. E só se pode produzir cultura se houver uma estrutura económica que o permita. Se a cultura depender do voluntarismo e da boa vontade, ficará entregue a quem tem dinheiro suficiente para poder trabalhar sem ganhar dinheiro e destruirá a possibilidade de os pobres produzirem ou terem acesso à cultura.

Isto torna-se mais claro com uma piada que se contava há muitos anos, no tempo do para muitos saudoso Salazar. Estava o ditador a passar na rua e viu um despojado a comer relva num jardim. Ficou impressionado e foi perguntar-lhe o que se passava. O despojado contou-lhe as suas desgraças e o seu desemprego, e que ainda por cima a polícia andava sempre a expulsá-lo dos jardins e a prendê-lo, e o Salazar disse-lhe que ia resolver o assunto. Um dia depois aparece um carro do governo junto do despojado e dá-lhe um certificado oficial que dizia: ESTE HOMEM ESTÁ AUTORIZADO POR SUA EXCELÊNCIA O PRIMEIRO-MINISTRO A ALMOÇAR EM TODOS OS JARDINS DO PAÍS.

Há também a proverbial ideia de que é preferível ensinar a pescar em vez de dar um peixe. A ideia de fundo é haver uma grande diferença entre uma solução ilusória porque é insustentável a prazo e uma solução sustentável a prazo. Sempre que se fala em cultura as pessoas querem oferecer peixes, em vez de ensinar a pescar. Querem dar certificados para os pobres poderem comer relva, em vez de lhes dar condições económicas para poderem almoçar com dignidade. É como dizer que em vez de encontrarmos maneira de as pessoas terem casas condignas com quarto de banho adequado, que podem perfeitamente vir fazer as suas necessidades ao meu quarto de banho sempre que quiserem, porque eu sou um gajo fixe.

Precisamos de bibliotecas, livros, cultura, e precisamos que as pessoas tenham acesso a essas coisas. Mas para essas coisas existirem de modo sustentado, têm de ser pagas, para se poder sustentar a produção cultural. Se não forem pagas, só os privilegiados poderão ser gajos porreiros que oferecem o seu quarto de banho aos pobres.

As bibliotecas têm de ter fundos para comprar livros. Esta ideia é um sacrilégio em Portugal, onde as bibliotecas vivem muitas vezes dos livros velhos que as pessoas não querem ter em casa e oferecem altivamente às bibliotecas. Num país com uma estrutura cultural forte, as bibliotecas são cruciais para a sustentabilidade económica da cultura porque compram livros — e compram muitos livros. Algumas edições académicas noutros países que não Portugal só são economicamente viáveis porque as bibliotecas as compram — de outro modo, não existiriam.

Quando se chega à Internet, as coisas não são diferentes: é preciso saber como tornar economicamente viável a cultura, e seja qual for a solução, nunca será uma boa solução se depender de haver gajos porreiros que deixam os estranhos usar o seu quarto de banho. No mínimo, é preciso que quem consome cultura faça a si mesmo uma pergunta crucial: “posso ou não tirar vinte euros do meu orçamento para ajudar os criadores da cultura que consumo e que aprecio?”

A mentalidade aristocrática que concebe a cultura como uma actividade humana arredada da vida económica é uma mentira política. Que favorece os privilegiados e lixa os outros.
Imagem: 'The Music' In Me!, de Marc:

1 comentário:

  1. Concordo em absoluto com a importância das bibliotecas para quem se interesse pela leitura. Os livros são caros para a maioria das bolsas e as (boas) bibliotecas são uma boa alternativa.

    Penso também que a cultura deve ser paga, no seguimento de muitos artigos que já escreveu sobre a sobrevivência dos produtores de cultura intelectual, mas intelectualmente séria.

    É óbvio que se tiverem outro meio de sustento não terão tempo suficiente para pesquisar e assim não será possível o desenvolvimento do conhecimento, o surgimento de novas teorias e o descartar de teorias antigas.

    Para além disso, e repito um pouco o que disse no primeiro parágrafo, as bibliotecas são boas para quem, não sendo um investigador de ponta, simplesmente goste de ler.

    Penso que em Portugal, no caso que conheço, a biblioteca tem um plafond anual e há uma funcionária que escolhe os livros a comprar, embora seja uma biblioteca de âmbito muito geral.

    Mas existem boas bibliotecas públicas: a de Beja é boa, a de Odemira é boa, a de Aljustrel tem o essencial - o básico, o principal, o mínimo necessário - no que refere à filosofia, embora pense que tanto umas como outras sofrem de carências ao nível da actualização.

    Seria bom, também, que as pessoas cultas expusessem um pouco da sua cultura nos blogues, por exemplo expondo e comentando alguns textos importantes nas áreas que dominam, o que acontece em alguns casos.

    É bem verdade que a maioria da cultura produzida não remunerada é lixo, mas isso não se deve apenas a factores económicos, mas também a factores educativos.

    Porém, há também muitos casos na Internet que demonstram que isso não é completamente verdade.

    Dou o exemplo de um software denominado Apophysis, para produção de fractais. É um freeware, e há pessoas, tanto amadoras como profissionais, a executar trabalhos excelentes com o mesmo, que necessitam de grande técnica e de grande imaginação.

    Contra esta ideia, digo que muitos desses artistas são profissionais de artes gráficas ou pelo menos estudaram-nas. Mais uma vez reporto-me à importãncia do estudo.

    Penso que em Filosofia o estudo também é importante, mas não só o estudo, como a reflexão, pensar nas ideias com o tempo suficiente para que percebamos o que está em causa.

    Naturalmente, há textos que num vislumbre nos ensinam e mostram mais do que mil anos de barro atirado à parede.

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