16 de maio de 2009

Falsificabilidade outra vez

Na sequência do artigo anterior do Aires, deixo outro desafio relacionado com a ideia de Popper de que a falsificabilidade é um critério que distingue as teorias científicas das incientíficas.

Ana — Muito bem, compreendo que nem todas as hipóteses empíricas falsificáveis são hipóteses científicas. A falsificabilidade é uma condição necessária, mas não suficiente, da cientificidade. Mas agora tenho outro problema, professor.

Professor — Qual é?

Ana — É que muitas hipóteses e teorias que consideramos científicas são infalsificáveis.

Professor — Como assim?

Ana — Por exemplo, a água é H2O; a luz viaja a 300 mil quilómetros por segundo. Nenhuma destas afirmações é falsificável, se forem verdadeiras, pois não se referem a características contingentes do mundo. Saber se o João está no cinema ou não é falsificável, porque ele tanto pode estar no cinema como não estar no cinema. Mas nem a água nem a luz poderiam ser diferentes do que são. De modo que o critério de falsificabilidade tem qualquer coisa de errado. Ou estou a ver mal?
Imagem: Utua/mist, de Marko_K

24 comentários:

  1. Estava a brincar com uma ideia parecida:

    "será que as afirmações verdadeiras são falsificáveis?"

    Aparentemente, só podemos falsificar (mostrar a falsidade das) afirmações falsas. Se há afirmações científicas necessárias, são infalsificáveis, logo são incientíficas, segundo Popper. Mas então o critério nunca foi acerca de afirmações e sim acerca de crenças: temos crenças científicas se podemos estar enganados, mas as afirmações em si só podem ser científicas, segundo o critério de Popper, se as verdades físicas forem contingentes.

    Isto enfraquece brutalmente o critério: quem faz afirmações religiosas também pode estar enganado, apesar de poder acreditar que não pode estar enganado. Ou seja, se o critério for meramente epistémico, a religião é científica segundo esse critério. Se for metafísico, só funciona se as leis da física forem contingentes.

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  2. O meu resumo, porventura incorrecto, da teoria de Popper: uma teoria é científica se e só se é falsificável.

    A ser verdadeira, implica que todas as teorias científicas são falsificáveis e que todas as teorias falsificáveis são científicas.

    Penso que a ciência vai para lá da percepção e descobre regularidades na Natureza que estão para lá daquela. Não basta olhar para a água para que se saiba que é constituída por hidrogénio e oxigénio.

    É preciso descobrir o hidrogénio e o oxigénio. E descobri-los, penso eu, é descobrir uma diferença matemática e física no mundo, já que a sua diferença é matemática e física.

    Talvez falte, à teoria do falsificacionismo, a parte da descoberta (já não tenho os livros e por isso não posso consultá-los para ler o que diz sobre isso).

    Provavelmente, isto reduzir-lhe-ia o âmbito, mas permitiria ao mesmo tempo incluir teorias como a referida (a água é H2O).

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  3. O que é pertinente para Popper, penso eu, é a potencialidade de uma conjectura ser falsa.

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  4. O que é pertinente para Popper, penso eu, é a potencialidade de uma conjectura ser falsa.

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  5. Não percebo por que é que essa teoria não é falsificável. Afinal, podemos testar a água e saber se é ou não H2O.

    No nosso mundo, tudo o que é água é H2O. Mas não sabemos se assim é em todos os mundos possíveis. Se todos os mundos possíveis forem actuais, existem mundos em que a água não é H2O.

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  6. Vitor,

    Parece-me que fazes um mal entendido quando dizes "só podemos falsificar (mostrar a falsidade das) afirmações falsas".
    O que está em causa não é demonstrar que as afirmações são falsas; claro que isso só será possível se elas de facto forem falsas.

    Parece-me que o critério da falsicabilidade (aviso desde ja que não li Popper e estou-me a basear nos posts recentes) refere-se a demonstrar que haveria determinadas condições que, se a crença for falsa, se verificariam.

    Por exemplo, existe uma teoria que defende que a gravidade da terra tem uma acelaração de 9,8m/s2. Eu consigo conceber inúmeras experiências em que, caso não fosse 9,8m/s2, os testes o indicariam. Portanto, esta teoria é falsificável, no sentido em que, caso fosse falsa nós conseguiriamos demonstrar.

    Já uma tese que defenda que existe um Deus que criou um Universo e assume um papel tal que, para todos os efeitos, é como se não existisse (não intervém, mesmo quando é óbvio que deveria intervir; esconde-se, etc). Esta tese não é falsificável. Qualquer experiência, teste ou ensaio indicará que indique que ele não existe tanto suporta a tese como exactamente o seu oposto. Esta tese não é falsificável, o que não nos diz nada sobre se é verdade ou não.

    Agora quanto ao post do Desidério, julgo que são duas afirmações diferentes, a da água e a da velocidade da luz.
    Quando dizemos que a água é H2O, isso não é uma teoria, é uma definição. Na realidade aquilo a que chamamos água no nosso dia a dia está longe de ser H2O, basta para isso olharem para o rótulo de qualquer garrafa de água. Portanto, quanto a mim, não tem sentido dizer que "a água é H2O" é verdadeira ou falsa; foi definido como tal, e portanto é verdadera. Eu diria que, por definição esta proposição é verdadeira.
    O que pode ser verdade ou não é "o líquido que está dentro desta garrafa é água", que será equivalente a "o líquido que está dentro desta garrafa é H2O" (por definição) e que pode ou não ser verdadeira, e que é claramente falsificável - conseguimos pensar num vasto conjunto de ensaios que darão "verdadeiro" se for água ou "falso" se não o for.

    Já a velocidade da luz ser 300.000km/s não tenho a certeza. Para ser franco a teoria da relatividade escapa-me por completo. No entanto penso que o exemplo que querias dar não era a luz andar a 300.000km/s, que é algo contingente e parece-me que testável (como é que se chegou à conclusão que era 300.000km/s?, imagino que algum teste haverá que daria falso se não fosse essa a velocidade, mas não estou à vontade com o tema).
    O que não é testável é a tese de que a velocidade máxima que algo poderá atingir em qualquer universo é de 300.000km/s, pois essa tese é apresentada como sendo algo necessário.

    No entanto, pergunto-me como é que alguém chegou a essa conclusão, pois talvez no processo se tenha deparado com um qualquer ensaio que poderia provar a sual falsidade (se fosse falsa). Mas repito, esta é uma ciência que desconheço, pelo que não consigo apresentar uma opinião bem estruturada.

    De qualquer modo, parece-me que o que estás a dizer é que uma verdade necessária não pode ser falsificável. Se houver verdades científicas necessárias, não serão falsificáveis, pelo que Popper estaria errado.

    Será que há verdades científicas necessárias?

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  7. E, já agora, acrescento outro exemplo: que observação possível ou teste empírico poderá falsificar a teoria do Big Bang?

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  8. Vítor,

    «Aparentemente, só podemos falsificar (mostrar a falsidade das) afirmações falsas»


    Claro que só podemos falsificar as afirmações falsas. Mas a falsificabilidade não é bem isso. É ser capaz de imaginar um caso possível que capaz de falsificar uma dada afirmação. Por exemplo, sabemos que se encontrarmos um pedaço de metal que não dilate quando aquecido estaremos a falsificar a afirmação (que pensamos ser verdadeira) de que todo o metal dilata quando aquecido.

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  9. Aires,

    "que observação possível ou teste empírico poderá falsificar a teoria do Big Bang?".

    Consigo imaginar vários. A teoria do Big Bang está suportada num sem número de observações e teorias científicas: desde a mecânica dos sólidos, cinemática, teoria da relatividade e afins. Se, por exemplo, se descobrisse que uma explosão ocorrida na altura em que se pensa que o big bang ocorreu levaria a que o universo entrasse em contração há x anos (o que não parece estar a ocorrer agora), a teoria seria provada falsa.

    No fundo, qualquer teoria cuja veracidade tenha alguma consequência perceptível é falsificável, pois podemos testar essa consequência de diversas formas e, se não se verificar, a teoria será falsa.
    O que não é falsificável são as teorias cuja veracidade não tenha consequências perceptíveis, como por exemplo o deus que referi num comentário anterior ou a astrologia, que quando diz que o touro é teimoso, logo a seguir diz que há excepções e que o touro pode ser como muito bem lhe aprouver. Isto basicamente não nos diz nada de perceptível sobre os touros, e como tal não é possível de provar falsa, não é falsificável.

    O que vos parece?

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  10. A ciência é completamente contingente. Depende completamente do estado de coisas actual, do modo como o mundo é. Deste modo, não existe necessidade na ciência.

    Apesar de pouco perceber de ciência, talvez exceptue a física que lida com conceitos como energia, matéria, tempo, vazio, espaço.

    E aqui não sei se me estou a referir a ciência ou já a filosofia, dado que podemos reflectir sobre estes conceitos filosoficamente, desconhecendo a matemática e as leis físicas.

    Mas penso que o incondicionado anda algures entre estes conceitos, o incondicionado, isto é, aquilo que é verdadeiro em todos os tempos e em todos os mundos.

    A questão é saber se está ou não para deles, o que eventualmente é verdade. Só A Fonte é o incondicionado (já se ique detestam estas maiuscúlas, mas é assim que me refiro).

    Certo é que existe um princípio criador no ou do Universo, caso contrário não existiria coisa alguma. É, por isso, uma Força Criadora. É o Criador.

    Penso que é impossível negar-se que existe uma força criadora ou criativa no ou do Universo. Daí ser possível pensar-se que todos os mundos possíveis são actuais, dado que uma força criativa originária, isto é, incondicionada, está constantemente a criar, e a criar tudo de todas as maneiras.

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  11. Devia ser "evidentemente" e não "aparentemente". Hoje não dou uma para a caixa.

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  12. Jaime,

    «A teoria do Big Bang está suportada num sem número de observações e teorias científicas: desde a mecânica dos sólidos, cinemática, teoria da relatividade e afins.»

    Ok, o meu exemplo da teoria do Big Bang não foi inocente, pelo que estava de certa maneira à espera de uma resposta como a tua.

    A tua ideia (sem dúvida, correcta) é que a Teoria do Big Bang é suportada por um conjunto de outras hipóteses e teorias auxiliares. Mas o que se passa (e esta é uma objecção conhecida ao critério de falsificabilidade de Popper) é que se alguma das previsões falhar, isso pode não mostrar que a teoria em causa é falsa; apenas mostra que alguma das hipóteses ou teorias auxiliares tem de ser revista.

    O ideia central de Popper é que uma teoria tem de incluir algumas previsões e que se o que a teoria prevê não ocorrer, segue-se que a teoria é falsa. Isto é o modus tollens a funcionar:

    T -> P
    não P
    Logo, não T

    Em que T representa a teoria e P a ocorrência da previsão.

    Mas o que acontece com o caso da teoria do Big Bang e muitas outras teorias científicas é que tens isto:

    T e (H1 e H2 e H3 e ...) -> P
    não P
    Logo, ???

    Nota que se P não ocorrer, não se segue que T é falsa. Pode acontecer apenas que uma das hipóteses auxiliares H1 ou H2, ou H3, etc. seja falsa e tenha de ser substituída (a negação da conjunção que é a antecedente da condicional da primeira premissa não implica a falsidade de T).


    A ser assim, é duvidoso que a teoria do Big Bang seja falsificada caso se encontre algum facto que não bata certo com alguma das muitas afirmações que a constituem. Aliás, penso que isso já tenha acontecido (mas não estou seguro disso) e a teoria não se foi abaixo, embora tivesse de ser reajustada.

    O que dizes?

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  13. Este comentário foi removido pelo autor.

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  14. Quando se afirma que "a água é H2O" não se está a querer dizer que "até agora todas as amostras de água que analisámos têm esta estrutura química". Está-se a fazer uma afirmação simultaneamente empírica e necessária. Estamos a dizer que tudo o que é água é essencialmente H2O, e não é mera definição porque temos de descobrir que a estrutura química da água é essa. A afirmação é necessaria e a posteriori.

    "A água evapora aos 100º" é falsificável mas "Nec a água é H2O" não parece. Quais seriam as circunstâncias refutantes dessa afirmação? Constatar-se empiricamente que as leis físicas são contingentes? Como se constata empiricamente que as leis da física são contingentes? As únicas circunstâncias refutantes que conseguimos imaginar referem-se à primeira frase, não à segunda. Por outro lado, "O metal expande quando aquecido" não é uma afirmação necessária. "Expandir quando aquecido" não é uma propriedade que o metal tenha de ter sob pena de deixar de ser metal. Há metais com propriedades invulgares, como o mercúrio, mas não deixam de ser metais.

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  15. Se T fosse uma teoria sobre a realidade última,
    teríamos de ter as hipóteses de apoio,
    a que T seria comum,
    e o estado de coisas actual,
    pelo que teríamos

    H1 e H2 e H3 e... Hn -> T -> P

    em que a primeira condicional significa que T é comum a H1, H2, H3..., Hn,
    e em que P é o estado de coisas actual.
    Para isso teríamos de ter um objecto de estudo, que teríamos de acrescentar às hipóteses de apoio,
    por exemplo os átomos e o vazio:

    A e V -> (H1 e H2 e H3... Hn) -> T -> P

    Penso que teríamos de alterar a teoria e pô-la assim:


    A e V -> (H1 e H2 e H3... Hn) e T (em que T é comum a H1 e H2 e H3... Hn) -> P

    A e V são os objectos de estudo de que partimos, por exemplo atómos e vazio,
    Hx são as propriedades dos átomos e do vazio
    T é aquilo que é comum a todas as propriedades
    P é o estado do mundo e a ímplicação de P significa que P se segue de T
    então teríamos de acrescentar:


    A e V -> (H1 e H2 e H3... Hn) e T (em que T é comum a H1 e H2 e H3... Hn) -> Existe um x tal que x=T e T é a realidade última -> P

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  16. Penso que se as ordenássemos cronologicamente ficaria assim:

    T -> (H1 e H2 e H3... Hn) = A e V -> P

    Em que T é a realidade última,
    Hx são as propriedades dos objectos de estudo, por exemplo átomos e vazio,
    Em que P é o estado do mundo que se segue de A e V, que por sua vez se seguem de T.

    P deve incluir todos os aspectos do mundo, inclusivamente a mente ou a consciência, o supostamente não físico ou imaterial.

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  17. A e V -> (H1 e H2 e H3... Hn) e T (em que T é comum a H1 e H2 e H3... Hn) -> T -> P

    A e V são o ponto de partida, algo que se supõe existir, por observação de algo (ex. Rutherford e energia emanada de um elemento - de onde se segue A - a estrutura atómica; e V o conceito de espaço, por exemplo como vazio ou como distância);
    Hx são as propriedades que descobrimos nesses "dados dos sentidos",
    A e V são idênticos a Hx,
    T é comum a Hx
    Hx implica P.

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  18. Caros,

    A questão central parece-me esta:

    "Por exemplo, a água é H2O; a luz viaja a 300 mil quilómetros por segundo. Nenhuma destas afirmações é falsificável, se forem verdadeiras, pois não se referem a características contingentes do mundo."

    Estas afirmações não são teorias científicas segundo Popper. Por isso, o facto de elas serem infalsificáveis não abate a teoria popperiana.
    Explico-me:

    A água é definida como H20. Podemos imaginar um mundo em que exista um líquido igual à água excepto na sua fórmula química. No entanto, este líquido não seria água, pois a definição de água é a deste mundo. A palavra "água" designa "líquido com característas XYZ e fórmula química H20". Qualquer coisa diferente não se desingna pela palavra "água". É outra coisa.

    A teoria de Popper - digo eu que nunca o li - refere-se a teorias científicas, que têm de ter algum poder explicativo. Nesse sentido, as proposições "A Lua é feita de queijo" e "A água é H20" não são teorias científicas pelo facto de não explicarem nada. São apenas informações experimentais.


    Quanto à questão do Big Bang, esta teoria parece-me como outra qualquer. Formulamos uma hipótese, deduzimos consequências e testamo-las. A teoria do Big Bang é boa, pois nenhuma das suas consequências foram provadas falsas. Não podemos de facto testar directamente a teoria do big bang da mesma que não testamos a selecção natural ou qualquer outra teoria científica: deduzimos consequências e testamos a sua veracidade.

    No fundo, o problema parece-me estar na diferença entre proposições sobre o Mundo (meras constatações em que as verdadeiras não são falsificáveis) e entre teorias científicas, que são falsificáveis no sentido em que podemos testar as consequências.

    A proposições sobre o mundo que são verdadeiras são infalsificáveis, pois dependem da forma como definimos os conceitos.
    Já as teorias científicas explicam coisas e têm consequências. Não podemos testar as teorias logo testamos as consequências. As teorias não são verificáveis por isso mesmo, mas são falsificáveis pelas consequências.


    Cumprimentos!

    João Silva

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  19. Julgo que por vezes nos nossos alunos surge a confusão entre falsificável e falsificado. Por isso costumo utilizar o advérbio «testável». A teoria sobre a velocidade da luz é testável, embora não tenha sido falsificada. É falsificável, pois podemos imaginar um teste que a falsifique ou corrobore. Qualquer teoria absolutamente verdadeira é ainda assim testável. Sempre testável. A novidade é aceitar essa teoria apenas como uma conjectura... mas para o fazermos temos que ter presente que o pensamento de Popper procura lidar com o problema da indução de David Hume. Não falar deste problema torna Popper pouco compreensível para os nossos alunos.

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  20. Caro João Silva,

    penso que as proposições científicas são sobre o mundo. A proposição sobre a água diz-me que a água é um objecto tal que tem a propriedade de ser composto por H2 e O, embora possa tratar-se de identidade e não de predicação.

    Se dizemos que a lua é feita de queijo, estamos, mais uma vez, a afirmar algo sobre um aspecto do mundo, que a lua é um objecto tal que tem a propriedade de ser composto de queijo, não que é idêntica a queijo.

    Ainda que ambas as afirmações exprimissem identidades e não predicação, referir-se-iam a aspectos do mundo, já que a água e a lua estão no mundo.

    Do mesmo modo, uma afirmaçãao sobre vírus ou a teoria da evolução referem-se a aspectos do mundo. Não podemos confundir a referência a aspectos do mundo com a referência ao mundo como um todo, como se alguém dissesse, por exemplo, que o mundo é ou tudo ou o uno (seja o que for).

    A ciência, a meu ver, refere-se a aspectos do mundo ou ao modo como o mundo é. Não conheço ciência alguma que se refira a algo que não é do mundo. Para além do mais, se considerarmos o mundo como a totalidade da existência (seja isto o que for e se é que existe), é impossível referirmo-nos a algo que não é ou um aspecto do mundo ou o mundo como um todo.

    De acordo com o que disse, mesmo a metafísica referir-se-ia a aspectos do mundo, embora, a meu ver, abordando-os de forma diferente da ciência. Mas no fim de tudo, tanto uns como outros tentam saber o que é, descobrir a realidade. E esta descoberta pode ocorrer por conveniência, como quando se estuda o H1N1, ou por puro prazer, curiosidade e espanto perante o mistério que vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos... sentimos.

    Digo "mistério" porque há uma sensação de ignorância quando confrontados com o "cenário" do mundo, com o próprio mundo. Por isso perguntamos: o que é isto?

    E mesmo esta sensação de mistério e este pensamento são algo que parece ocorrer neste mundo, sendo o corpo o melhor candidato para a sua ocorrência.

    Claro que nos podemos deixar levar pela imaginação e imaginar entidades fora do mundo e uma estrutura lógica e matemática do mundo e fora deste, ou um correlato abstracto do mundo; enfim, infinitos pensamentos.

    Mas podemos também interrogar-nos se não estamos a pôr como princípio aquilo que é apenas (e já é muito) um meio de compreensão do mundo.

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  21. Aires,

    "A ser assim, é duvidoso que a teoria do Big Bang seja falsificada caso se encontre algum facto que não bata certo com alguma das muitas afirmações que a constituem. Aliás, penso que isso já tenha acontecido (mas não estou seguro disso) e a teoria não se foi abaixo, embora tivesse de ser reajustada."

    Percebo o que queres dizer. No entanto, parece-me que isso aplica-se a qualquer teoria, pois toda a teoria se baseia num conjunto de hipóteses.

    De qualquer modo a discussão atingiu um nível em que penso que o melhor é eu ir ler Popper e quem se debruçou sobre este tema.
    Sinto-me que estou em terras desconhecidas...

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  22. Sim, Jaime, aplica-se a qualquer teoria. Mas o exemplo do Big Bang permite tornar isso mais claro.

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  23. Fatos não são observações livres de interpretações, ou elementos teóricos.o melhor exemplo disso foi a teoria ptolomaica do geocentrismo.Havia, nessa interpretação fatídica, uma definição implícita de movimento."Movimento seria o deslocamento de objetos em relação a superfície da terra.Copérnico, ao dizer que a terra girava ao redor do sol, o fazia com outra definição implícita de movimento, movimento agoara não é mais um deslocamento relativo à média das distâncias dos objetos na superfície terrestre, mas relativo a um objeto fixo fora dela.Seria contraditório que a terra estivesse movimentando-se em relação à sua própria superfície, mas não a um objeto exterior fixo.Ora, a partir dessa nova definição é perfeitamente possível explicar o movimento anual aparente do sol, em relação a estrelas fixas, do ponto de vista de um observador na superfície terrestre.

    Desse modo "fatos" são interpretações teóricas transmitidas aos termos da observação através de definições implícitas.Quando essa definições são explicitadas, fatos deixam de ser uma "pura" observação.

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  24. Em que sentido H2O seria um fato, ou uma afirmação não falsificável, para identificarmos quimicamente a água com uma substância?

    Não recai essa afirmação no dogma da verificação?Parece-me que quem assim pensa toma os modernos modelos atômicos como uma teoria essencialmente verdadeira.Por que não poderíamos estar enganados quanto a isso? Não poderia amanhã uma nova teoria atômica definir água como CO2?

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