18 de maio de 2009

Falsificacionismo e necessidade

Popper usava uma só solução — a falsificabilidade — para resolver dois problemas: o problema da indução e o problema da demarcação entre ciência e pseudociência. Mas tanto num caso como no outro pressupõe que as conjecturas científicas são possivelmente falsas, e nunca necessariamente verdadeiras.

Vejamos no caso da indução. Popper pensa que o problema é nenhuns corvos pretos, por exemplo, poderem confirmar que todos os corvos são pretos, ao passo que basta um corvo branco para refutar a mesma ideia. Trata-se então de fazer conjecturas que possam ser refutadas pela realidade. Se conjecturo que os corvos têm uma alma indetectável a quaisquer testes, isto não é falsificável porque nada poderá acontecer na realidade que refute a conjectura. Ao passo que a conjectura de que os corvos são pretos pode ser refutada.

Pode? Bom, depende de pressupor que realmente é possível haver corvos que não sejam pretos. No caso dos corvos isto é plausível. Mas no caso de leis e identidades científicas mais profundas, isto não é assim tão claro. Saul Kripke e outros filósofos contemporâneos como Alex Bird defendem que muitas das proposições fundamentais da ciência são necessárias (ainda que não sejam logicamente necessárias). Se isto for verdade, tais proposições não são falsificáveis no sentido em que Popper concebia a falsificação, pois não há qualquer possibilidade de descobrir que a água não é H2O, por exemplo, ou que o ouro não tem o peso atómico que tem.

É possível reformular a ideia central de Popper? Sim. Podemos entender a falsificabilidade como um conceito meramente epistémico. Mas não era isso que Popper tinha em mente. Um conceito metafísico de falsificabilidade tem a vantagem de ser possível ter proposições científicas verdadeiras falsificáveis, ainda que nunca saibamos se são realmente verdadeiras; mas tem a desvantagem de pressupor que todas as proposições científicas são contingentes. Um conceito epistémico de falsificabilidade tem a vantagem de não pressupor que todas as proposições científicas são contingentes; mas tem a desvantagem de admitir que falsificar uma proposição não é senão deixar de pensar que uma proposição é verdadeira e passar a pensar que é falsa, sem que nem antes nem depois se trate de descobrir seja o que for quanto ao valor de verdade da proposição científica em si. Ou seja: é uma concepção anémica de falsificação.

Em suma: o falsificacionismo de Popper pressupõe sem argumentos que as proposições científicas são todas contingentes, o que pode ser posto em causa e tem sido posto em causa desde os anos 70 do séc. XX — além de já antes ser rejeitado por filósofos como Aristóteles. Um defensor do falsificacionismo ou argumenta contra a ideia de que há proposições científicas necessárias, ou torna o conceito de falsificacionismo anémico. Não parece haver outras alternativas.
Imagem: Orb, de BURИBLUE

13 comentários:

  1. Como podemos saber que uma proposição, científica ou não científica, que não seja uma verdade ou falsidade analítica, é necessária?

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  2. Será correcto falarmos em falsificacionismo aplicado a proposições? Não será mais conveniente, no que se refere a Popper, falar de conjecturas, entendidas como uma teia de relações onde se põe em relevo a sua base empírica? Parece óbvio que há proposições, assim como conceitos, convenientes e que servem de base à rede conjectural. Apesar de tudo, parece-me que o falsificacionismo constitui um momento importante da epistemologia, nomeadamente ao nível de saberes facilmente manipuláveis, como a História ou a Sociologia. Torno a repetir a ideia de Popper ao aplicar o cálculo da probabilidade como forma de demarcação: uma teoria é tanto mais falsificável quanto mais disser acerca do mundo; isto é, quanto maior for a sua impossibilidade de acertar, maior será o seu carácter científico. Ou não será assim?

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  3. Não vou comentar o post, pois está completamente fora do meu alcance.

    No entanto há um ponto que não entendo, e desculpem-me a insistência: dizer que a água é H2O não é apenas uma questão de definição?

    Porquê? Neste contexto, "água" é a palavra ou é o líquido? Se for a palavra, então podiamos ter-lhe chamado outra coisa qualquer, tal como fizeram outras linguas.
    Se for o líquido, então é apenas questão de testar e experimentar, pelo que não entendo porque é necessário que água seja H2O.
    De resto, repito, a maior parte de nós, para não dizer todos, chamamos água a algo que é tudo menos H2O. Tal preciosidade apenas se encontra em condições de laboratório, imagino eu.

    Desculpem lá insistir num ponto tão básico.

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  4. Jaime,

    O que se passa é que não podemos simplesmente analisar o termo "água" para daí retirar "h2o". A afirmação "a água é h2O" é empírica e é necessária. Não é logicamente necessária, porque não implica contradição afirmar "a água é XYZ", mas é metafisicamente necessária, ou seja, não podemos deixar de constatar que a estrutura química da água é h2O, tal como a prata não pode deixar de ter o número atómico 47.

    Os aditivos que encontramos na maioria das amostras de água são irrelevantes, porque se tivermos 50 amostras de água, cada uma com diferentes combinações de aditivos, continua a ser água, mas se retiramos o h2O, deixamos de ter água.

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  5. Repara no seguinte, Jaime:

    1) A água poderia chamar-se "ar"
    2) O Jaime poderia chamar-se "Desidério"

    Tal como 2 não quer dizer que tu poderias ser eu, também 1 não quer dizer que a água poderia ser ar. Pensar isso é uma confusão entre palavras e coisas.

    Penso que na revista Intelectu.com há um artigo meu chamado "Uma Introdução ao Necessário A Posteriori", ou coisa assim, que explica este tipo de coisas, além do meu livro Essencialismo Naturalizado.

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  6. Gostava que o Desidério explicasse melhor, com exemplos, porque apesar de eu ser um cientista, neste caso um físico, não percebi onde é que o Popper pode estar errado! A tal linguagem dos filósofos...
    Uma coisa que eu sei, e que é muito comum na física, é as pessoas saberem que muitas vezes uma teoria não explica completamente um dado fenómeno.
    Por exemplo, uma das técnicas que utilizei há pouco tempo, o surface enhancement Raman spectroscopy, é uma coisa que ainda não está bem explicada e para a qual se utilizam vários modelos completamente diferentes para a tentar explicar, como o electromagnetic enhancement, o chemical enhancement, e mesmo dentro desses modelos há diferentes factores e teorias completamente diferentes, que são bastante complexos e não se podem discutir aqui.
    Isto é uma coisa que é banal na física, acontece em muitos casos, há montes de coisas onde uns modelos fazem boas previsões dos resultados experimentais (sobre determinadas condições), e outros modelos que dão melhores resultados em outras condições.
    E ninguém se chateia com isso nem há guerras sobre qual é o modelo que está certo e o que é falso.
    Há poucas teorias na física em que os números experimentais coincidam quase com os números previstos pela teoria. Para nós não é nada de novo.
    Por exemplo, as leis de Newton, que muita gente gosta de dizer que estão erradas e que foram ultrapassada pela relatividade, são as leis que se usam no dia a dia em situações em que elas estão certas até mais de 10 casas decimais, ou até muito mais.

    jaime Quintas: há água bastante pura em laboratórios, esse não é o problema, e se são as impurezas que o incomodam, se incomodam, isolamos duas ou três moléculas e tira-se uma "foto" num destes modernos microscópios para as impurezas não o chatearem.

    Desidério, fico à espera de uma explicação, agradecia. E como disse, se possível com exemplos e linguagem clara, porque essa coisa das proposições contingentes passou-me completamente ao lado!

    Miguel Real

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  7. Caro Miguel Real,

    penso que posso responder à questão da proposição contingente, sem utilizar a linguagem dos mundos possíveis:

    uma proposição é contingente se e só se tanto pode ser verdadeira como falsa.

    Exemplos: o Miguel Real escreveu um comentário neste blogue (poderia não ter escrito); a água é líquida (nem sempre); este blogue existe (poderia não existir).

    Uma proposição é necessária se e só se é sempre ou verdadeira ou falsa.

    Exemplos (de acordo com os defensores de verdades necessárias a posteriori): a água é H2O; o DNA é composto por ATGC.

    Verdades necessárias a priori (analíticas): os solteiros são não casados; 2 + 2 = 4...

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  8. Fiquei sem perceber nada, se calhar o Popper está errado, se calhar não. Não consigo compreender o artigo até ao fim mesmo depois de várias leituras.
    Aquilo que se sabe na física é que as leis nunca são muito boas mas ninguém se chateia muito. Por exemplo, a famosa dualidade onda-partícula, em que numas vezes tem que se considerar o fotão como uma partícula e noutras como uma onda.
    Mas sempre foi assim, basta dar outro exemplo simples, a velha lei de ohm, que diz que a corrente num condutor é proporcional à voltagem aplicada. Toda a gente sabe que esta lei só funciona num determinado regime, com limitações de temperatura, do tipo de material, etc.
    Estas leis quando funcionam são muito boas e podem ter uma precisão muito grande. Mas não se pode olhar para estas coisas como: são verdadeiras ou falsas. Às vezes são falsas, e nós sabemos, e outras vezes são verdadeiras até determinados limites de erro.
    Pelos vistos estas leis são contingentes, segundo o comentário do Nuno Maltez, que lhe agradeço a explicação.
    Se eu conseguisse perceber o artigo poderia dizer se o Popper tem razão ou não, mas como vocês usam a linguagem críptica dos filósofos, ainda por cima sem exemplos, eu não consigo perceber-vos.

    Miguel Real

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  9. Vou fazer um novo post para tentar explicar a ideia melhor. Mas não é possível compreender o argumento a brincar. A filosofia não é cultura geral. Do mesmo modo que é impossível discutir matemática para lá de um certo nível sem saber matemática, também não é possível discutir filosofia para lá de um certo nível sem saber filosofia. Por mais claro que um filósofo deva ser, isso não fará as ideias, teorias e argumentos mais sofisticados compreensíveis a quem nada sabe de filosofia, tal como eu não compreendo os aspectos mais sofisticados do Big Bang.

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  10. Nem eu, eu também não percebo os aspectos mais sofisticados do Big Bang nem... os menos sofisticados! A física é uma área tão vasta que é impossível acompanhar minimamente todos os seus diferentes ramos. Talvez haja algumas pessoas de grande capacidade, como o Feynman ou o Landau, que consegue estar a par de quase tudo, mas mesmo esses não podem conseguir saber em detalhe ou fazer investigação em qualquer área porque é impossível, teriam que ler milhares de livros e artigos e nem eles próprios têm tempo para isso.
    É um bocado ridículo que se fale de ciência e eu não perceba patavina do que se diz!, mas compreendo, não domino a linguagem que está a ser usada! Tive o mesmo problema quando peguei na Quântica, a linguagem era completamente diferente da que eu dominava.
    Mas se for possível apresentar exemplos concretos, eu agradecia, além de que me vou esforçar para compreender parte da linguagem utilizada porque é um tema interessante.

    Miguel Real

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  11. Sim, Miguel, a sofisticação crescente provoca isso em várias áreas: na matemática já hoje ninguém pode compreender toda a área, como Hilbert no final do séc. XIX. O mesmo ocorre na filosofia: a especialização é tal que uma pessoa competente em ética, por exemplo, quase de certeza que não domina os últimos desenvolvimentos da filosofia da linguagem, por exemplo.

    Esta situação torna mais importante duas coisas. Por um lado, maior diálogo entre especialistas de áreas diferentes, tentando cada um deles traduzir em termos compreensíveis as suas áreas de especialização. Por outro, uma grande atenção à verdade e à honestidade intelectual, para se gerar um clima em que possamos confiar no que nos diz um especialista, mesmo que não possamos controlar todos os pormenores relevantes. Para isso, é fundamental eliminar o activismo do discurso académico.

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  12. Imagino qual seria o caso se o futuro nos revelasse uma substância com todas as características físicas e organolépticas da água, mas a estequiometria se negasse a dizer que "este cisne é branco" ,ou seja, que sua composição atômica a faz um "cisne preto".
    A teoria das verdades necessárias a posteriori então diria: "Se não é h2O, não é água.Parece em tudo com água, assim como um cisne preto em tudo se parece com um cisne. Todavia se ser branco é "definitivamente" a esessencia de um cisne, logo uma ave, que em tudo o imite, exceto na essencial brancura, não pode como tal ser classificada.

    Acho que essa posição dogmática era o que Popper queria evitar.

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  13. Em termos mais "profundos", será que a essência de um cisne estaria em sua identidade genética? A teoria genética, assim como as modernas teorias atômicas seriam já a quintessência da realidade?

    É fácil refutar a teoria do cisne branco. Jamais tocariamos na identidade genética que classifica um cisne como tal.É esse o foco do tópico?

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