3 de maio de 2009

Filosofia fora da escola


Esta semana que passou dei as minhas aulas de filosofia fora da escola, abertas a quem quisesse assistir. Foi interessante ver os pais de alguns alunos levantar o braço para intervir, tirar dúvidas, discutir comigo e com os colegas dos seus filhos. Para mim também foi uma boa experiência confrontar-me com um auditório tão heterogéneo.

Nada disto aconteceu por acaso, claro. A iniciativa foi integrada na Feira Educativa de Portimão, organizada pelas duas escolas secundárias da cidade, com o apoio da Câmara Municipal de Portimão. A finalidade da feira foi mostrar a toda a comunidade o que cada escola tinha para oferecer, desde as escolas de infância até às instituições de ensino superior a funcionar na cidade, incluindo as escolas privadas, de música, de hotelaria, etc. A minha escola utilizou uma boa parte do enorme Pavilhão Arena para montar nada menos que dez stands. E havia ainda à disposição dos interessados um excelente auditório de cerca de 200 lugares, onde se fizeram sessões de esclarecimento a pais e alunos do ensino básico sobre a oferta escolar das escolas secundárias.

Quando me perguntaram se queria participar na feira ou se queria fazer atendimento em algum dos stands (ou ajudar a montar o material, fazer animação, etc.), ocorreu-me apenas uma ideia: levar os meus alunos e dar lá as aulas, permitindo que qualquer pessoa pudesse assistir e participar. A ideia foi muitíssimo bem aceite e foi anunciada no programa oficial. E lá apareceram, além dos alunos que tinham essa aula no horário, alguns pais e até alguns colegas de outras disciplinas e de outras escolas. Foram três aulas, uma em cada dia de feira. O mais curioso foi ter na mesma aula os pais de alguns alunos da turma.

Não preparei um assunto especial para a ocasião, limitando-me a dar o que estava previsto, como uma aula normal: no 10º ano ia começar a discutir o problema da justiça distributiva. À cautela, não fosse aparecer muita gente, preparei um powerpoint para ajudar a tornar as coisas mais acessíveis e disciplinadas. Numa das sessões apareceram mesmo mais de cem pessoas e foi difícil gerir todas as intervenções. Uma das coisas que comecei por dizer foi que se tratava de uma aula normal e não de uma conferência. Portanto, podia e devia ser interrompido sempre que quisessem. A minha principal dificuldade foi depois controlar as coisas, pois havia sempre muitas mãos no ar. Houve algumas pessoas que quiseram assistir também no dia seguinte e que me pediram para abordar outro assunto. Assim, na última sessão acabei por falar do problema da existência de Deus (um tema também do 10º ano, mas que decidi antecipar).

No final de uma das sessões fiquei a falar com alguns pais. Uma senhora sugeriu, muito simpaticamente, que eu tinha ensaiado a aula com os alunos. Disse-lhe que sim, que tinha andado a ensaiar a aula desde o princípio do ano e que tive sorte, pois às vezes corre muito mal. Estava a falar a sério. Um outro pai ficou surpreendido por quase não ter falado de filósofos (nessa sessão referi, já no fim, apenas o Rawls), acrescentando que nunca tinha ouvido falar de tal filósofo. Uma coisa curiosa foi verificar que as pessoas entusiasmaram-se mais com a questão da justiça distributiva do que com a questão da existência de Deus. Pelo menos houve menos intervenções sobre este tema do que sobre aquele, se bem que também houvesse muito menos pessoas a assistir. Mas agradou-me ver que as pessoas aderem mais à filosofia do que se possa pensar. Ou então era só uma questão de curiosidade.

Espero poder repetir no próximo ano.

Agradeço a João Carlos Alves pela foto que gentilmente me enviou e que acompanha este post.

7 comentários:

  1. Olá Aires,
    Parabéns pela actividade. As pessoas aderem à filosofia quando a filosofia adere às pessoas :-)
    abraço

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  2. Caro colega, quero enviar-lhe os parabéns pela iniciativa. É assim que devemos fazer: passar ao ataque e não jogar à defesa. É assim que ganhamos a respeitabilidade das pessoas. O saber ainda é um poder.
    Parece paradoxal, mas Portugal é dos poucos países que tem filosofia no secundário e onde se menos lê filosofia. Depois de nos terem tirado o 12º, pergunto se não haverá mais receptividade na faixa etária mais velha pelos problemas que a filosofia coloca.
    Cumprimentos e já agora:
    http://filosofia-madtorres.blogspot.com/

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  3. Uma ideia simples e muito boa. Se estivesse a trabalhar numa escola, tinhas já um imitador. É uma forma excelente de os pais perceberem melhor e valorizarem mais o que os filhos andam a fazer na escola.

    Pedro

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  4. Parabéns pela ideia. A Filosofia precisa de mais iniciativas imaginativas e inteligentes como esta.
    Talvez desta forma pudessemos acabar com alguns mitos que ainda persistem.
    Aproveito para lhe dar os parabéns pelo magnífico trabalho que tem desenvolvido, tem sido muito inspirador.
    Cumprimentos
    Graça

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  5. Olá.

    Primeiramente achei muito interessante a idéia. Sou aluno de licenciatura em filosofia e começo a concordar com a posição de que a filosofia tem que ser ensinada sem "mitos" a seu respeito, sem tabus. A idéia de colocar os pais pra ver pra assistir a aula dos filhos também interessante, parece ter um efeito simbólico de aproximação para a realidade do aluno (e não só simbólico). Também interessante o comentário sobre não citar filósofos, não fazer mera história da filosofia (dá uma certa impressão de que filosofia é como literatura, diria um professor meu).

    Mas a minha pergunta é a seguinte: como fez para abordar o problema da existência de deus? Não estudei filosofia da religião nem nada do tipo ainda, mas sei que o Frege, por exemplo, em Fundamentos da Aritmética, dá uma falada no predicado de existência e ao que se aplica. (tenho um post no meu blog sobre isso: http://fischborn.wordpress.com/2009/04/16/frege-conceitos-e-objetos/)
    Se eu tivesse que dar uma aula sobre existência de Deus hoje não teria muito mais recursos pra me defender hoje. Gostaria que compartilhasse como você fez na sua aula com a gente.

    Abraço e agradecimentos.

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  6. Caro Marcelo,

    Basicamente comecei por perguntar quem acreditava em Deus. Aos que disseram acreditar perguntei mais duas coisas: 1. Que Deus é esse em que acreditam? 2. Que razões têm para acreditar que ele existe?

    O que fiz depois disso, foi deixar claro que o deus de que se estava a falar era o deus teísta (o que é isso?). E ajudei as pessoas a articular e afinar melhor os argumentos apresentados a favor da existência de Deus. Posto isso, tentei mostrar-lhe que versões mais fortes desses argumentos já tinham sido avançadas por alguns filósofos. Aí apresentei os argumentos tradicionais acerca da existência de Deus: o argumento do desígnio (versão Paley/Hume), o argumento cosmológico (versão Tomás de Aquino) e o argumento ontológico (versão Santo Anselmo). Formulei-os claramente (indicando premissas e conclusão de cada um) e depois discutimos se os argumentos eram bons ou não (dei algumas breves indicações sobre como se avalia um argumento e que tipo de argumentos eram).

    A partir daí é que a discussão aqueceu mais. Algumas pessoas sugeriram de forma algo imprecisa, mas que eu ajudei a formular mais claramente, algumas das objecções conhecidas.

    Tendo em conta as objecções levantadas, terminei com uma pergunta. Se as objecções forem mesmo boas, será que provámos que Deus não existe?

    Claro que a resposta é: não! Seria importante também saber quais são os argumentos contra a existência de Deus (isso seria para a sessão seguinte).

    Para pensar e os crentes não desistirem precocemente, confrontei-os com a aposta de Pascal. Para os deixar a pensar.

    Tenho o powerpoint de apoio e talvez o coloque no sítio da escola (precisa de algumas adaptações, dado que sem a aula fica muito seco).


    Espero ter ajudado.

    Cumprimentos

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  7. o power-point é otimo

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