22 de maio de 2009

Indução e falsificabilidade


Mais um pequeno exercício para o leitor. O que responderia à Ana?


Ana - Por que razão Popper diz que a ciência não tem por base o raciocínio indutivo?

Professor - Porque, ao contrário do que é suposto, a indução não permite verificar as teorias. Lembras-te do exemplo dos corvos?

Ana - Sim, por muitos corvos negros que se observe, nenhum número de corvos negros nos autoriza a concluir que a teoria de que todos os corvos são negros é verdadeira.

Professor - Exactamente, Ana! É como tentar caçar moscas com uma carabina; é tempo perdido, pois não nos leva muito longe.

Ana - Pois, estou a ver, não nos garante o que pretendemos: a verdade de teorias como a de que todos os corvos são negros. Mas qual é a alternativa que Popper propõe para não ficarmos assim frustrados?

Professor - Bom, Popper acredita que é menos decepcionante tentar falsificar as nossas teorias, coisa que garante melhores resultados.

Ana - Ah, bom, professor. Imagino que recorrendo à falsificabilidade já podemos chegar a teorias verdadeiras.

Professor - Nada disso, Ana. Popper considera que nunca podemos dizer que uma teoria é verdadeira; apenas que é corroborada.

Ana - Corroborada? O que é isso? Não é a mesma coisa que verdadeira?

Professor - Não, Ana. Uma teoria corroborada é uma teoria que passou com sucesso tentativas de a falsificar, mas nunca temos a garantia de que seja verdadeira.

Ana - Bom, então é como a história dos corvos negros e da indução: o problema aí era não podermos garantir, recorrendo à indução, que a teoria era verdadeira. Mas esse problema não ficou resolvido com a história da falsificabilidade. Afinal, tanto alarido com a falsificabilidade para quê? Qual é a vantagem?

10 comentários:

  1. Distinguir ciência e pseudo-ciência. A primeira admite falsificação (sim, no caso de não se tratarem de verdades contingentes), a segunda não.

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  2. Com base em tudo o que se tem escrito aqui, parece-me que a tese da falsificabilidade não pretende demonstrar que uma teoria é verdadeira ou falsa, apenas pretende distinguir uma teoria científica de uma não científica.

    No entanto estarei melhor preparado para esta discussão dentro de algumas semanas, após um estudo mais aprofundado.

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  3. A tese da falsificabilidade, como o Aires bem explicou, procura responder a 2 problemas:

    a) problema da indução

    b) problema da demarcação

    Este post tem a ver apenas com a) e não com b) e não podemos dizer que apesar de não responder ao problema da indução a falsificabilidade é melhor, pressupondo que responde ao problema da demarcação. Tanto uma como a outra ideia é o que tem sido posto em causa nos últimos artigos sobre o tema da falsificabilidade.

    O problema da indução estava precisamente no facto de os raciocínio indutivos não demonstrarem a verdade, apenas a plausibilidade de uma afirmação ou conjunto de afirmações. Demonstrar a verdade é um processo dedutivo e o raciocínio científico é um raciocínio indutivo, a partir de indícios para hipóteses mais ou menos plausíveis.

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  4. Há uns tempos atrás, James Cameron, o mesmo realizador de Titanic, encetou um documentário onde tentava demonstrar que um túmulo descoberto em Jerusalém havia sido ocupado com o corpo de Cristo. Todo o documentário (peço desculpa, mas não seu o título) é ocupado pelo estabelecimento de relações que verificassem a teoria. O problema é que omitiu os factos que falsificavam a teoria. O resultado foi um documentário empolgante sem fundo de verdade. Nos tempos que correm, o falsificacionismo é actual. Como disso Desidério num artigo publicado, o falsificacionismo funciona como antídoto à casmurrice e, simultaneamente, como um enaltecimento da humildade. Além desta ética da pesquisa. Em termos puramente epistemológicos diria que o verificacionismo também pode ser considerado útil, dependendo dos seus procedimentos. Quanto ao indutivismo, bom, é-nos conatural. O Aires Almeida está a fazer é precisamente tentar falsificar. É uma boa forma de aprendermos.

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  5. Onde diz «o Aires de Almeida...» deve dizer-se »o que Aires de Almeida...»

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  6. Caro Vítor Guerreiro, não creio que demonstrar a verdade seja um processo dedutivo, senão num sentido formal e académico. Ao longo da vida a verdade (e a falsidade de certas crenças) é-nos constantemente demonstrada indutivamente. De resto, deixo uma questão ao painel: como aprendemos a raciocinar dedutivamente? Será por indução?

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  7. O melhor é começar por definir dedução e indução.

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  8. Eu diria que o problema não é definir "dedução" e "indução" mas "demonstração". Só num sentido muitíssimo liberal do termo "demonstrar" podemos dizer que um raciocínio indutivo "demonstra" a verdade da sua conclusão. "Demonstrar" e "sugerir" não são sinónimas em acepção alguma.

    num argumento dedutivo, pressupondo a verdade das premissas e a validade formal do argumento, não precisamos de mais para saber que a conclusão é verdadeira. A verdade da conclusão segue-se da verdade das premissas dada a forma lógica do argumento.

    Num argumento indutivo nada disto é suficiente. O argumento pode ser bem formulado, os indícios podem ser sólidos, e ainda assim a conclusão é meramente provável. Pode aparecer contra-exemplos que refutam o argumento, mesmo que as premissas sejam verdadeiras. Num argumento dedutivo, dada a verdade das premissas, não há indícios posteriores que refutem o argumento.

    De resto, não afirmei que haja algo de mal na indução. Um raciocínio não é mau por apenas mostrar a plausibilidade da conclusão. Isso é o que um bom raciocínio indutivo faz. Não nos dá é o direito de afirmar que a conclusão foi estabelecida como verdadeira agora e para todo o sempre. Mas um argumento dedutivo faz isto, porque se limita a extrair das premissas (desde que sejam verdadeiras) algo que não depende de indícios posteriores.

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  9. Respondendo a pergunta do post, acredito que a vantagem da falsificabilidade é o seu carater conclusivo, ainda que seja negativo.
    A verificação de uma teoria com base na indução não é conclusiva porque sempre podem aparecer novos casos, mas a falsificação de uma teroria com um contra-exemplo nos permite "concluir" que ela é falsa.
    Este carater conclusivo, penso, é o que exclui grande parte das teorias pseudo-científicas, pois uma teoria que não tem a possibilidade de ser refutada não pode ser conclusiva.
    A conclusividade me parece o verdadeiro critério de demarcação e dispensa a indução.

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  10. Bom dia! Venho um pouco atrasado para esta discussão, mas queria dizer o que se segue.
    No caso das ciências sociais, creio que o esquema falsificacionista de Popper não demonstra fecundidade epistemológica. Nos termos da crítica realizada por Jean-Claude Passeron, que utiliza a linguagem do próprio Popper e também da filosofia analítica, as teses das ciências sociais podem aspirar unicamente à universalidade numérica, que não à universalidade lógica. Isto é, concentram-se no domínio daquilo a que Popper apelida, de forma algo desvalorizadora, de exemplificação. No entanto, continuo de acordo com Passeron quando esta autor afirma que os enunciados absolutamente gerais no domínio das ciências sociais (sob a forma "em todas as sociedades de todos os tempos...") não têm interesse analítico especial. Dizer que em todas as sociedades existiram e existem relações de poder tem pouco interesse. Mais interessante é analisar comparativamente, v.g., o poder feudal e o poder eclesiástico na Alta Idade média, num determinado País ou região.
    Já agora: parabéns pelo excelente blogue.

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