5 de maio de 2009

Leão Tolstoi

[A poesia] é uma coisa inútil. Se alguém tem alguma coisa a dizer, deve dizê-lo da maneira mais clara possível; se não tem algo para dizer, o melhor é calar-se.
(A propósito de Rilke)

9 comentários:

  1. Oi Aires;

    Estou as voltas com uma discussão parecida num outro blog sobre qual a importancia da poesia - se é que há alguma - e seu papel na formação dos indivíduos.

    Poderia indicar qual obra do Tolstoi onde está a frase referida? Tenho interesse no assunto.

    E o que você quer dizer com "A propósito do Rilke"?

    Obrigada!


    Pollyanna

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  2. Esta frase é um retirada de uma das raras entrevistas que Tolstoi deu quando era já um romancista muito respeitado em toda a Europa e se recusava a viajar. De tal modo que alguns dos mais destacados intelectuais, escritores e poetas chegaram a deslocar-se à Rússia de propósito para o visitar. Rilke foi um deles, mas ficou muito decepcionado, pois Tolstoi mostrou pouco interesse em falar com ele.

    Referindo esse caso, um jornalista perguntou-lhe mais tarde por que razão deu tão pouca atenção a um poeta tão importante. A resposta foi a que eu citei acima. Li isto numa biografia de Tolstoi e não num livro de Tolstoi. Tirei o apontamento há tempos para colocar aqui, mas neste momento não tenho o livro comigo, para dar uma referência mais detalhada.

    Já agora, aproveito para acrescentar algo mais, desta vez sobre o conteúdo da resposta de Tolstoi. Em primeiro lugar, eu estava à espera que houvesse mais reacções negativas ao que Tolstoi disse. Acredito que, se em vez de Tolstoi tivesse colocado o meu nome, isso iria acontecer. Afinal Tolstoi é Tolstoi e a autoridade impõe respeitinho. Mas o interesse da resposta de Tolstoi é que levanta um problema que, aos olhos de muitas pessoas ditas bem pensantes, é errado levantar: Qual o valor da poesia? Ora, colocar problemas como este é uma tarefa filosófica. Evitá-lo, partindo do princípio que a poesia está acima de qualquer discussão, é assumir uma atitude anti-filosófica.

    Outra coisa é saber se Tolstoi tem ou não razão.

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  3. Começo por uma declaração de interesses: não aprecio especialmente a poesia, mas adoro chocolate.

    Parece-me que a posição de Tolstoi é falaciosa.
    De facto, como forma de transmissão de informação, outras há que são muito mais eficazes - escrever em prosa será uma delas.

    Mas a poesia não serve para comunicar no sentido estrito do termo, é uma forma de arte. Claro que também comunica, como comunicam a música, a pintura e outras. Mas qualquer uma delas fica muito aquém da prosa no que toca à transmissão pura de informação.

    Assim, dizer que a poesia é uma coisa inútil e compará-la com a prosa é o mesmo que dizer que o chocolate é uma coisa inútil, pois se nos queremos alimentar o melhor é comermos peixe, salada e fruta.

    Podemos dizer: o chocolate é uma coisa inútil. Se alguém necessita de alimento deverá comer peixe, salada e fruta. Se não necessita de alimento o melhor é não comer nada.

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  4. Jaime, aproveito para fazer também a minha declaração de interesses: gosto de poesia, mas é raro gostar dos poemas que leio.

    Em minha opinião, a maior parte da poesia que se escreve, mesmo de nomes sonantes, é puro lixo. Claro que isto acontece em todas as artes (na música, na pintura, na escultura, no cinema, etc.), mas na poesia isso é mais avassalador. Algumas pessoas diriam que não gosto de poesia, pois raramente leio um poema que me interesse. Já estive tentado a concordar com quem me diz isso, mas, pensando bem, não é verdade. Tenho algumas ideias sobre por que razão a quantidade lixo (ou ruído) na poesia é maior do que nas outras artes, mas isso é outra conversa.

    Dito isto, também não concordo com Tolstoi. Mas só em parte concordo contigo.

    Não concordo com Tolstoi porque a poesia pode servir para muitas outras coisas, além de transmitir ideias ou veicular informação. Pode, por exemplo, servir para nos proporcionar simplesmente prazer. Aqui estou de acordo contigo.

    Mas não estou de acordo contigo quando dizes que, como forma de transmissão de informação, há outras formas mais eficazes do que a poesia. Pelo menos isso nem sempre é verdade. Basta pensar que, historicamente, há boas razões para pensar que a poesia surgiu da necessidade de memorizar certos informação considerada importante e de a passar oralmente de geração em geração, preservando-a na memória colectiva. A rima e a métrica são formas muito eficazes de memorização. A ideia de tornar cantável um texto é também uma forma de mais facilmente transmitir a informação nele contida. Não é por acaso que muitas pessoas sabem cantar de cor tantas canções ou recitar poemas de cor, coisa que seria muito mais difícil em relação à prosa.

    Assim, mesmo que se esteja a falar de transmissão de informação, a poesia está longe de ser inútil.

    E poderíamos ainda defender que a forma mais clara de dizer certas coisas é através da poesia (metáforas, associações de ideias, alusões, etc.), sobretudo se estivermos a tentar exprimir algo ainda impreciso e vago. Até porque a vagueza pode existir realmente na natureza.

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  5. Muito interessante essa posição sobre a poesia: gostas mas apenas uma pequena quantidade se qualifica.

    Na verdade também gosto de alguma poseia, mas muito pouca. Não me canso de ler José Régio - Poemas de Deus e do Diabo, salvo erro.

    Afinal, se calhar até gosto de poesia!

    Relativamente ao resto, concordo contigo.

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  6. Obrigada Aires, vou pesquisar a respeito disso na internet.

    Gostei da discussão acerca da utilidade da poesia.

    Já estava quase convencida de que na verdade ela não passava de um monte de expressões mais ou menos organizadas com a única finalidade de expressar as emoções mais profundas dos poetas e, talvez mesmo, as dores e alegrias da humanidade.


    Mas essa posição que tenho acerca da poesia tem influencias advinda dos disparates ditos pelos próprios poetas, inclusive os poetas de plantão aqui na blogosfera, que ou não querem ou não sabem explicar o que é a poesia e qual a sua utilidade.
    O que eles fazem é expor seus poemas como os feirantes expõem suas bananas na feira, com a diferença de que o feirante justifica por que seu "produto" é melhor do que o do concorrente, ou quais seus benefícios.

    No caso da poesia, basta pensar em Homero e Hesíodo, por exemplo, que utilizavam a poesia como uma tentativa de descrever a natureza e explicar quais as suas origens, bem como a relação do próprio ser humano com a natureza. Além da necessidade de um modo eficaz para se transmitir conhecimento na cultura da oralidade, como foi destacado pelo Aires Almeida.


    (...)
    "Tenho algumas ideias sobre por que razão a quantidade lixo (ou ruído) na poesia é maior do que nas outras artes, mas isso é outra conversa."

    Aires, poderia ser porque, ao contrário do que acontece na música e na pintura, por exemplo, a poesia não exige nenhum tipo de conhecimento de técnicas e metodologias prévias à sua realização. Até onde sei, os parnasianos foram um dos poucos que elaboraram uma "forma" para se escrever poesia. No mais, basta que o sujeito saiba algumas palavras caras e perceba a realidade de uma maneira sensível para que se torne um poeta famoso. Mas isso é conjectural.

    Pollyanna

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  7. «poderia ser porque, ao contrário do que acontece na música e na pintura, por exemplo, a poesia não exige nenhum tipo de conhecimento de técnicas e metodologias prévias à sua realização.»

    É isso mesmo que penso também, Pollyanna. É relativamente fácil desmascarar alguém que se diz compositor ou pianista, caso não o seja realmente. Mas poeta é quem quiser: em Portugal há quase 10 milhões.

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  8. Às vezes penso que seria interessante que a publicação da poesia obedecesse aos procedimentos da publicação académica: os poetas submeteriam os seus poemas anonimamente, para que fossem avaliados pelos seus pares, que escolheriam depois os que julgassem melhores, sem atender à identidade dos poetas.

    Uma questão interessante é: por que razão as coisas não se passam assim?

    E outra questão interessante é: o que aconteceria se as coisas se passassem assim?

    No que respeita a esta última questão, a minha suspeita é que muitos poemas de desconhecidos seriam escolhidos, ao passo que muitos poemas de poetas reputados seriam recusados.

    Pedro

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  9. Orwell, num texto cujo título não recordo, refere uma experiência desse género que na altura se fez na Inglaterra: deram vários poemas a vários críticos literários, sem indicação do autor. O resultado foi curioso, com muitos críticos a declarar ridículos poemas de poetas consagrados, e superlativos poemas inventados por quem fez a experiência.

    A incompetência e a fraude intelectuais existem em todas as actividades, mas é mais comum em algumas delas por ser mais dificilmente detectável e mais facilmente executável. Mas nunca devemos esquecer que o estado natural do mundo não a competência, o talento e a honestidade, mas sim a incompetência, a inépcia e a desonestidade; as primeiras obtêm-se em resultado de uma decisão consciente e diária, como a higiene, ao passo que as últimas resultam apenas de nada se fazer, como o mau cheiro dos pés.

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