27 de maio de 2009

O argumento ontológico é uma petição de princípio?


Ana - É verdade que eu compreendo o que quer dizer quando me fala de Deus, professor.
Professor - Tens, portanto, a ideia de Deus.
Ana - Certo, professor, mas acredito que não passa mesmo disso, de uma ideia.
Professor - Mas concordas, então, que a ideia que o ateu e o teísta têm de Deus é a mesma.
Ana - Não é bem assim, professor: quer-me parecer que as minhas ideias ocorrem na minha mente e as dos outros ocorrem nas mentes dos outros. Portanto, não se trata da mesma ideia.
Professor - Estou a ver, Ana. Ok, vou então reformular o que queria dizer: quando pensas em Deus, pensas num ser com as mesmas características ou atributos que o crente lhe atribui quando pensa nele. Certo?
Ana - Sim, e daí? Eu, que sou ateia, acredito que um ser com tais atributos não existe realmente e o teísta acredita que sim.
Professor - Bom, é melhor esclarecer quais são esses atributos, que tanto ateus como teístas associam à ideia de Deus.
Ana - Sim, é um ser no qual não se imagina qualquer defeito ou falha: é sumamente bom, sabe tudo, pode tudo, ...
Professor - ... numa palavra, Ana, é um ser perfeito. Certo?
Ana - Certo. Mas não acredito que tal ser exista a não ser na nossa imaginação.
Professor - Mas assim parece-me que estás a cair em contradição sem te aperceberes disso.
Ana - Explique lá isso, por favor.
Professor - Se defines Deus como um ser perfeito e ao mesmo tempo dizes que não existe, então estás implicitamente a dizer que ele não é perfeito.
Ana - Hã...?
Professor - Um ser perfeito que não existe não é realmente perfeito, pois falta-lhe alguma coisa para o ser. Ora, por definição, a um ser perfeito nada pode faltar. Assim, dizer que tens a ideia de um ser perfeito que não existe é o mesmo que dizeres que tens a ideia de um ser perfeito que não é perfeito.
Ana - Deixe-me pensar melhor...
Professor - ... pensa, Ana! É como pensar num solteiro casado. Isso não faz sentido.
Ana - Pois, mas...
Professor - ... mas daí conclui-se que não estás realmente a pensar num ser perfeito. Nesse caso, também não estás realmente a falar de Deus.
Ana - Bom, há aí qualquer coisa que não bate certo, professor.
Professor - Repara: se não existe, não é perfeito; e se não é perfeito, não é Deus.
Ana - Ah, já estou a ver a marosca, professor.
Professor - Marosca?
Ana - Sim. O professor está a dizer que Deus se define como um ser perfeito, ou seja, como um ser que tem os seguintes atributos: é sumamente bom, sabe tudo, pode tudo, ... e existe.
Professor - Ora, aí tens!
Ana - O argumento do professor para provar a existência de Deus resume-se, então, ao seguinte: Deus é, por definição, um ser sumamente bom, que sabe tudo, que pode tudo, etc., e que ... existe. Logo, Deus existe.
Professor - Hã...?
Ana - O professor ensinou-nos que isso era uma falácia. Como era mesmo o nome? Ah, já sei: petição de princípio!
Professor - É uma petição de princípio?
Ana - Sim, ou estou a ver mal as coisas? Talvez seja melhor mesmo perguntar àqueles que estão agora a ler a transcrição da nossa conversa. Digam lá o que acham, caros leitores.


13 comentários:

  1. Talvez pudéssemos "pôr" em modus ponens:

    Se Deus é um ser perfeito, Deus existe.
    Deus é um ser perfeito.
    Deus existe.

    Teríamos apenas de provar que Deus é um ser perfeito.

    Ou:

    Os seres perfeitos existem.
    Deus é um ser perfeito.
    Deus existe.

    Penso que há dois problemas: 1 - a existência está a ser definida como uma propriedade; 2 - ou a existência está a ser definida como uma das propriedades necessárias para se ser perfeito ou a perfeição está a ser definida como o conjunto de todas as propriedades.

    Se a perfeição está a ser definida como o conjunto e todas as proprieadades, então um ser perfeito tanto é sumamente bom, como sumamente mau - é contraditório.

    Quanto à primeira disjunta: por que é mais perfeito existir do que não existir? Por que tomamos isto como certo?

    Quanto à existência ser uma propriedade: penso que Kant está errado; recordo-me do exemplo dos táleres de prata. Os táleres meramente possíveis não têm a propriedade de me permitir comprar laranjas, e os actuais têm. Logo, têm diferentes propriedades, logo são diferentes. Logo, a existência é uma propriedade.

    Não concordo que a ideia de Deus seja a mesma para crentes ou não crentes, de facto, penso ser mais provável que cada pessoa tenha a sua própria ideia de Deus.

    Deus pode ser visto apenas como um princípio, e aí penso que íamos para o argumento cosmológico.

    Voltando à questão, penso que poderíamos transformá-la num modus ponens e que logo não haveria petição de princípio (a menos que consideremos que "existir" está em "perfeito", o que invalidaria não só este como muitos outros modus ponens a priori).

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  2. Aires:

    Posso estar a ver mal, mas creio que o argumento ontológico é criticável, mas não por essa razão. Não é uma petição de princípio.
    Quando nas premissas se caracteriza Deus estamos a considerar não o próprio ser mas a ideia que temos dele. Dizemos: a ideia de Deus é a ideia do ser mais perfeito do que que o qual nada se pode pensar e acrescentamos que a existência não lhe pode faltar (porque senão..., etc. ) - mas ao fazer isso estamos a considerar a existência como um predicado, como uma característica entre outras em que estamos a pensar. (Nesse momento não estamos a dar como adquirido que Deus existe - o que seria circular.)
    Mas é precisamente por isso que o argumento se sujeita à objecção de Kant: a existência não é um predicado. Ou seja: aquilo que lhe permite defender-se da acusação de circularidade vai expô-lo à objecção de Kant

    Um problema diferente relativamente à possível circularidade do argumento é este.
    Algumas reconstituições do argumento ontológico apresentam-no de forma realmente circular. Nas premissas, em vez de se dizer "A ideia de Deus é a ideia do ser mais perfeito que..." diz-se "Deus é o ser mais perfeito do que...". Por exemplo, na Arte de Pensar do 10º ano e na Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos sucede isso.

    Cumprimentos.

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  3. Carlos, definir o presidente do mundo como o ser acima do qual nenhum outro tem poder político no mundo não é uma petição de princípio. Do mesmo modo, definir Deus como o ser maior do que o qual nada pode ser pensado não é circular -- e é desse modo que Anselmo define Deus.

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  4. Desidério:

    Certo, mas a questão prende-se com esta parte da definição: "e que ... existe" - "Deus é, por definição, um ser sumamente bom, que sabe tudo, que pode tudo, etc., e que ... existe. Logo, Deus existe".
    Como escrevi, creio que não há petição de princípio, mas a dúvida levantada pelo Aires é relevante.

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  5. nuno,
    penso que sua estratégia de tornar o argumento um MP não funciona (pelo motivo que já sugeriste). veja:
    dizer que se deus é perfeito então existe, não funcionará a menos que se junstifique toda a condicional. não adianta apenas mostrar que deus é perfeito, antes tens de mostrar porque o fato dele ser perfeito implica em sua existência. ora, mas fazer isso é precisamente defender o argumento ontológico tradicional que tentas reformular. portanto, sua tentativa ainda repousa no velho argumento ontológico.

    quanto ao fato de podermos sustentar diferentes visões de deus, chamo-lhe a atenção para o fato de que tradicionalmente o argumento cosmológico não para ao chegar na primeira causa (pois nada nos garante que a primeira causa não seja obra de deuses menores ou até deuses malígnos); há ainda um segundo passo que é identificar essa causa com o deus teísta.

    A importância de partilharmos uma mesma idéia de deus é que, como sabes, ainda que um argumento seja sólido, suas premissas têm de ser aceitas pelo opositor; caso contrário ele nunca aceitará nosso argumento.

    Acho que é só.

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  6. O argumento ontológico tem como objectivo mostrar que deus existe. A objecção da Ana faz sentido na medida em que se procura justificar a conclusão precisamente com a ideia cuja justificação levou à elaboração do argumento ontológico. Ao dizer que deus existe porque a definição de deus envolve a existência necessária estamos a fazer batota. E Anselmo sabia que isto era batota quando reagiu à objecção da ilha perfeita de Gaunilo. Afinal o argumento ontológico só se podia aplicar a uma entidade - deus - mas misteriosamente não funciona em todas as outras entidades que não sejam deus. Ora, o que chamamos a um argumento que só parece funcionar quando se aplica a um tipo de entidades, que ainda por cima são as entidades cuja existência estamos interessados em demonstrar?

    Posso definir um "zingarelho" como um tipo particular de ser necessário, com algumas características do deus teísta, e com outras que não passaria pela cabeça de seja quem for atribuir a um deus. Segue-se dessa definição que esse ser existe? Não temos qualquer boa razaõ para pensar que um ser pesssoal, omnipotente, omnisciente, perfeitamente bom e auto-existente tem a propriedade da existência necessária a não ser... o facto de estarmos culturalmente condicionados a pensar que um tal ser teria de ter essa propriedade. Nada mais.

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  7. Caros,

    É claro que há várias outras objecções ao argumento ontológico, a mais conhecida das quais é a de que a existência não é um predicado como a bondade ou a sabedoria.

    O que a Ana está a tentar fazer, independentemente de o ter conseguido, é acrescentar uma nova objecção. Assim, as objecções referidas pelo Nuno e a de Kant, referida pelo Carlos, não ajudam a esclarecer se esta é ou não uma boa objecção.

    Já agora, aproveito para esclarecer que esta conversa, com algumas adaptações aconteceu mesmo ontem numa das minhas aulas do 10º ano.

    E tenho outra boa conversa ocorrida noutra aula, mas fica para depois, pois agora vou a correr para uma reunião.

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  8. Parece-me uma objecção consistente. Se concordarmos que a existência está contida na definição de perfeição, então penso que se comete efectivamente uma petição de princípio ("Se Deus é perfeito, então Deus existe"). É um pouco mais subtil do que argumentar "Se Deus existe, então Deus existe", mas creio que ao fim e ao cabo o percurso de ambos os argumentos não difere muito.

    Helder Mendes

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  9. Um deus pessoal é necessário, não como começo do mundo, não o chamado "Deus dos filósofos", mas porque sofremos e por vezes necessitamos de ajuda de uma força superior.

    Tenho plena consciência de que o que acabei de escrever não é um argumento filosófico, nem tão pouco um argumento a priori, mas uma conclusão retirada da experiência da vida.

    Quando sofremos, mesmo com o sofrimento dos que nos são próximos, esse Deus reaparece no nosso imaginário.

    Aí, a meu ver, retiramos o "por vezes" do primeiro parágrafo e apercebemo-nos de que se Ele está lá para nós sempre, também nós temos o dever de estar cá para Ele sempre.

    A verdade é que esse Deus, que resaparece no nosso imaginário, aparece automaticamente no nosso imaginário nesses momentos: é uma ideia inata.

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  10. O comentário com a assinatura "acracia" é meu, enganei-ne na conta.

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  11. Nuno, sem querer ser ofensiva, não te incomoda que o seu Deus seja uma disposição psicológica?

    "mas porque sofremos e por vezes necessitamos de ajuda de uma força superior."

    E como Deus pode ser uma idéia inata? E de que Deus estamos falando? E os que não tem essa ideia inata são defeituosos?
    São perguntas sinceras, acho a fé intrigante.
    Desde já obrigada,

    Barbara Pádua

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  12. Nuno, a minha pergunta não foi apropriada, acho que cometi uma falácia... Espero que seja condescendente com alguém que ainda está aprendendo...

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  13. Eu é que estou aqui a aprender. Por isso leio os textos e comento.

    Penso que se a ideia é inata, é inata para todos.

    Não me referia a ter fé conscientemente, mas a essa ideia surgir espontaneamente na nossa mente em situações de aflição.

    De facto, eu é que cometi um erro, porque hoje em dia é provável que seja impossível saber se essa ideia é inata ou se a aprendemos por transmissão.

    Disse o que disse devido a uma experiência recente que felizmente não era nada de mais.

    A verdade é que, andando esquecido de Deus, nesse momento a ideia surgiu-me automaticamente e Ele como que falou comigo, dizendo: "agora precisas de mim".

    Desse Seu dizer subentendi que não devemos abandoná-Lo.

    Talvez a pessoa de facto com fé não dissesse "não devemos abandoná-Lo", mas simplesmente "não O abandono".

    A fé é para mim também um mistério.

    Concluo reafirmando que de facto nada sei e que tudo o que aqui comento são meras suposições que me aparecem ao ler os textos e restantes comentários, como o seu.

    Cumprimentos.

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