5 de Maio de 2009

O fim do meio

Imagem: Punto Fijo, de ŽakQ100

Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público, a última desta série:

Diz-se por vezes que os fins não justificam os meios. Mas isto é com certeza uma palermice. Pois se os fins não justificam os meios, o que haveria de os justificar? É um exagero dizer que a finalidade dos fins é precisamente justificar os meios, mas não anda longe da verdade: é que nada mais pode justificar os meios excepto os fins. Por exemplo, o que justifica uma viagem longa e desconfortável até chegar a uma dada praia é o fim de querer apanhar Sol e nadar nessa praia.

Claro que o que se quer dizer com essa frase feita tem de ser outra coisa. Quer-se dizer que certos fins não justificam certos meios. Por exemplo, tornar um dado país mais rico, que é em si um fim desejável, não justifica todo e qualquer meio, incluindo, por exemplo, declarar guerra a um país vizinho que nada nos fez de mal. Ou, para dar outro exemplo, o fim que alguém tem de ir ao cinema não justifica o meio de deitar o seu bebé pela janela por não ter quem cuide dele durante esse intervalo.

Entre uma tolice e uma ideia sensata a distância lexical pode ser quase nenhuma, mas imenso o abismo semântico. E é precisamente nesta falta de precisão que se escondem muitos horrores humanos. Ideias originalmente boas são distorcidas e tornam-se péssimas práticas, ideias más são vistas como boas porque são superficialmente parecidas com outras que realmente são boas: e é destes equívocos que é em parte feita a vida política contemporânea. Bombardeado com desinformação disfarçada de informação, publicidade que vende o que não existe e discursos políticos extravagantes, o cidadão comum acaba por criar uma certa indiferença que só pode ser combatida com escândalos cada vez mais escandalosos. O ecologista, por exemplo, vê-se obrigado a mentir, pintando um futuro negro, do qual quase nada sabe; o defensor dos direitos das minorias vê-se obrigado a fingir que toda e qualquer tolice de toda e qualquer minoria é de aplaudir, só por emanar de uma minoria; e afasta-se cada vez mais da vida pública o pensamento subtil e cuidadoso, que tem em conta pequenas distinções lexicais que representam abismos semânticos.

A escola deveria dar ao cidadão um contacto com o pensamento sofisticado e cuidadoso, mas não o faz. Da escola primária à universidade, aprende-se a repetir, sem pensar, o que está na moda e se vê na televisão: há umas décadas, repetia-se ideias como a superioridade infinita do nosso próprio país; hoje, repete-se a superioridade infinita das mulheres e das baleias. Mas a mania simiesca de tudo ver em termos de hierarquias — mais superior ou mais inferior — persiste. É como se fôssemos incapazes de abandonar realmente a bestice humana intrínseca, pintando-a então com cores mais garridas para disfarçar.

O amor à verdade e à precisão parece hoje uma excentricidade castiça. Mas sem esta atitude, prevalece a mentira. Se temos como fim uma vida mais honesta, cultivar a verdade e a precisão é um meio perfeitamente adequado. Ainda que nem todo o fim justifique qualquer meio.

2 comentários:

  1. Olá, Desidério!

    Excelente crónica!

    Gostei especialmente desta frase: «Entre uma tolice e uma ideia sensata a distância lexical pode ser quase nenhuma, mas imenso o abismo semântico». Têm certas frases que resumem bem um parágrafo, de forma incisiva e contundente. Esta é uma delas.

    Não consigo deixar de pensar no relativismo atual e seus males, depois de ler seu texto.

    Estava há pouco lendo Górgias, de Platão, que trata da oratória, e receber seu feed com esta sua publicação veio bem à calhar.

    Bons Ventos!

    José Roldão

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