8 de Maio de 2009

Ortografia, gramática e estado

Imagem: A Minha Sala, de Carl Moll

Uma ideia muito comum a favor da legislação ortográfica, apresentada aqui pelo simpático leitor João Pedro, é a seguinte: se não se fizesse leis sobre a ortografia, cada qual iria escrever à sua maneira e seria uma anarquia ortográfica. Isto é falso. Em muitos países onde não só não há qualquer anarquia ortográfica como se escreve mais e melhor, não há leis ortográficas: é o caso do Reino Unido. Por outro lado, mesmo em Portugal e no Brasil não há leis sobre a gramática, nem sobre o léxico; há apenas gramáticas e dicionários. No entanto, não há qualquer anarquia gramatical nem lexical.

A legislação sobre a ortografia só foi necessária quando algumas pessoas se outorgaram o direito de mudar a maneira como as outras escrevem. Mas como não poderiam fazer isso sem a força do estado, usaram o poder legislativo para conseguir os seus fins, usando mentiras políticas diversas (no tempo da república era combater o analfabetismo, hoje é a ilusão de que vamos conquistar o mundo).

Há três aspectos na história portuguesa e brasileira das reformas ortográficas.

O primeiro é exclusivamente político: é pura perda de tempo e recursos andar a reformar ortografias. Não serve para coisa alguma de visível. Os alemães, italianos, franceses e espanhóis mudaram as suas ortografias por via legislativa, os ingleses nunca o fizeram; ganharam os últimos que não perderam tempo com coisas dessas e deixam que a ortografia vá sendo mudada gradualmente pela vontade livre das pessoas.

O segundo é linguístico: as reformas ortográficas da língua portuguesa foram sempre feitas por pessoas com competências duvidosas, razão pela qual nunca foram reformas que atingissem sequer os seus próprios objectivos. Os brasileiros perderam o “h” de “húmido”, por exemplo, e o “c” de “facto”. Mas continuam a escrever “humildade” e “factivo”. Nós perdemos o “ph” de “filosofia”, supostamente para nos aproximarmos da fonética e nos afastarmos da origem latina; mas introduzimos diferenças ortográficas onde não há diferenças fonéticas, como em “coser/cozer” e “conselho/concelho”; e o “s” tanto pode ter o som de “ç” como o som de “z” e o “x” tanto pode ter o som de “ch” ("taxa") como de “cs” ("taxi"). Ou bem que a fonética é o princípio ortográfico fundamental, ou bem que não é. As meias-tintas deixam-nos aproximadamente na mesma desorganização ortográfica que tínhamos antes, mas diferente; qual é a vantagem?

O terceiro é social: por um lado, nenhum estudante hoje consegue ler adequadamente um livro do início do séc. XX, numa biblioteca, pela simples razão de que é quase como se fosse uma língua estrangeira; por outro, o estudante vai escrever como leu e vai escrever mal porque entretanto as regras mudaram. Eu não sou assim tão velho, mas muitos dos livros da minha biblioteca portuguesa registam sistematicamente “possìvelmente”, porque na altura ainda os linguistas não se tinham lembrado de mudar a ortografia desta palavra.

Em suma: nada se ganhou em mudar a ortografia tantas vezes por via legislativa, e tão mal. E não estamos realmente melhor do que estaríamos escrevendo como escrevia Eça de Queirós (cujo próprio nome foi adulterado: era Queiroz) ou Fernando Pessoa.

3 comentários:

  1. Sobre a reverência ao legislador da nova ortografia partilho uma história verídica:

    Certo trabalhador-estudante, no início de um curso de mestrado, detectou um erro nos apontamentos facultados por um dos professores. Até o ter detectado, esse erro dificultou-lhe a interpretação do assunto em causa e, provavelmente, também terá surtido o mesmo efeito junto dos seus colegas. Decidiu aconselhar-se com alguém (um outro professor) que julgou conhecedor de matérias do foro académico. Assim, questionou-o se seria melhor alertar o professor do mestrado para o erro, ou não. A resposta foi peremptória: Não, nem pensar! Aparentemente, no respeito pela hierarquia académica, tal feito era impensável… e quem era ele para corrigir um Doutor?! Como o erro não pareceu causar qualquer perplexidade nos seus recentes colegas, por timidez, também não os abordou. Mas passado algum tempo, esse trabalhador-estudante (ah! cuja profissão era também a de professor), questionou-se sobre o que fizera. Pensou: se um dos meus alunos detectasse algum erro no meu desempenho, deveria ou não assinalar esse erro? A resposta também foi peremptória: Sim, claro que sim! Não fosse o seu erro prejudicar os restantes alunos. E então corrigiu o seu erro. Embora já não pudesse corrigir o professor do mestrado, pois entretanto já terminara o curso, insistiu junto dos seus alunos para que o corrigissem a si sempre que entendessem, mas alertando para o facto de certos professores se julgarem incorrigíveis (nomeadamente aquele que o aconselhou).

    E o legislador da nova ortografia também será incorrigível?

    Té,

    PS – se detectarem algum erro façam o favor de me corrigir.

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  2. Saudações!

    Antes da questão "Será o Acordo Ortográfico bom?" vem a questão "Deverão existir acordos ortográficos?".
    Vejo que não.
    Agradeço muito a partilha deste ponto de vista deveras original. Nunca o tinha ouvido, pois a discussão sobre o Acordo baseia-se sempre em aspectos linguísticos que me são muitas vezes inacessíveis.
    Francamente, adorava que esta visão se fizesse sentir em debates relativos a este tema, porque creio que ela esclareceria muito.

    Cumprimentos!

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  3. Para quem não é especialista na matéria e observa os peritos que se manifestam tanto a favor deste acordo ortográfico como contra – com fortes argumentos de parte a parte – é difícil entender qual das partes terá mais razão (se nesta matéria não houver razão absoluta). Assim lançam-se as primeiras questões:
    A peritagem legislada terá um mérito superior à peritagem da oposição?
    Se apenas se sobrepôs uma vontade a outra, que legitimidade tem este “acordo”?
    Como pode então haver Acordo sem acordo?

    Não obtendo resposta e para tentar perceber os contornos da situação, sugiro um exemplo: assim, em favor da aproximação e entendimento entre os falantes da língua portuguesa (e não constando que a língua escrita seja fonte de afastamento e desentendimento, antes pelo contrário) imagine-se que os esforços do “acordo” se voltavam para a língua falada (essa sim muitas vezes fonte de afastamento e desentendimento). Para que os brasileiros não necessitassem de legendar os filmes portugueses (de Portugal), para que os “portugas” não necessitassem de legendar o (ex)seleccionador nacional (“cárrrdáciú é atácadô” [e eu que sempre disse “curdôins”!]), e para que eu não necessitasse de legendar a minha tia Preciosa (é minhota, mas propensa a algaraviadas). Imagine-se então que, em favor de interesses semelhantes aos que se manifestaram neste “acordo”, a legislação impusesse que todos passássemos a falar português do Brasil, ou seja, “fossi óbrigátóriú falá pórtuguéis com sótáqui dú Brásiu”. Para nós, pouco mais de 10 milhões de portugueses (em Portugal Continental), essa “caipirinha” não seria muito difícil de emborcar (avaliando pelos anos de consumo de telenovelas) e bebida com moderação poderia até servir para desembuchar, mas o exagero iria certamente entorpecer a língua – ao limite, com a sucessão de acidentes (se falar não beba!) poderia, fatalmente, resultar numa língua morta (morrendo o português europeu)! Se a lei obrigasse ao inverso, 200 milhões de brasileiros a fazer um regime nos temperos, teriam com certeza maiores dificuldades em engolir. Assim, sendo consensual que o português de Coimbra (em termos de pronúncia) é o mais correcto, o clima brasileiro dificilmente se ajustaria ao embrulhar da língua na capa e batina negras (julgo que nem mesmo aqueles que, como eu, nasceram na enevoada cidade do Porto alinhariam nesse traje). Mas imagine-se ainda que os interesses eram outros e essa aproximação e entendimento visassem antes o continente Africano (os números também aí falam mais alto – 20 milhões nos PALOP). Embora fosse divertido ver os académicos de Coimbra (ou o legislador de Lisboa) a queimarem a língua com esse “jindungo”, julgo que dificilmente se adaptariam à língua de fogo (não será sequer necessário passar aos paladares mais exóticos das ilhas, incluindo-se Timor e Macau).

    Então pergunto:

    1 - Se a língua portuguesa possibilita paladares tão diversos a sua uniformização, no sentido de um paladar único, não fará perder a nossa riqueza gastronómica?

    2 - Não seria melhor que todo este empenho passasse por um maior investimento no ensino da língua portuguesa (como e onde quer que ela fosse falada e escrita)?

    3 - Se há “acordo” nestas duas questões as prioridades não estarão trocadas?

    Té,

    (José Oliveira)

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