3 de maio de 2009

a pobreza do nacionalismo linguístico

nota: este artigo foi reformulado na sequência dos comentários críticos e sugestões dos leitores Aires Almeida, Jaime Quintas e Anónimo.

Vou apresentar um de muitos exemplos de como o afastamento linguístico relativamente ao castelhano não terá sido uma opção culturalmente produtiva.

Em inglês, as palavras "deciduous" e "evergreen" são antónimas e significam, respectivamente, "que perde folhagem anualmente, passando por um período destituído de folhagem" e "espécime vegetal que mantém a sua folhagem durante todo o ano". Em português usamos o termo "decídua", que partilha com o termo inglês a mesma origem latina, embora seja muito mais comum a expressão "de folha caduca". Já no caso de "evergreen", é comum usar-se como equivalentes as expressões "de folha perene" ou "de folha persistente". Porém, estas não têm o mesmo grau de precisão que as expressões inglesas, pois os termos ingleses, mesmo isoladamente, denunciam o seu contexto de aplicação, enquanto os termos "caduca" e "perene" só funcionam dentro de uma descrição. É uma diferença mínima, mas é uma diferença. Uma alternativa mais bizarra seria "de folha perpétua", pois uma vegetação só seria perpétua se a sua existência se prolongasse interminavelmente em ambas as direcções temporais. "Perene" é mais adequado porque significa originalmente, "que dura todo o ano" (per + annum).

Procurei então construir um equivalente latino e cheguei ao termo "sempervirente", à semelhança do que já fazemos com "sempiterno", usando o prefixo latino "semper" e a palavra "virente", que consta no léxico português e vem directa e sem alterações do latim. Contudo, a palavra resultante não consta nos dicionários e também não a encontrei na Internet. A dada altura tive uma ideia e fiz uma busca a "árboles sempervirentes". Eureka! Encontrei algumas páginas. Fui então à página do Diccionario de la Real Academia e pesquisei a palavra, encontrando a seguinte entrada:

sempervirente.

(Del lat. sĕmper, siempre, y virens, -tis, verdeante).

1. adj. Dicho de la vegetación: Que conserva su follaje verde todo el año.



O Diccionario da Real Academia reconhece este termo, embora se use também em castelhano as expressões "de hoja caduca" e "de hoja persistente". Porém, se usar esta palavra mais "clássica" mas semanticamente perfeita para a função (porque é cirurgicamente precisa), decerto será eliminada na revisão e substituída por um termo menos preciso. Entretanto, nuestros hermanos usam-na sem problemas. Esta é a diferença importante entre uma língua culta e uma wikilíngua.


18 comentários:

  1. Vítor, usa-se também entre os agricultores "folha caduca" e "folha perene".

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  2. Excelente sugestão. Até porque "perene" significa originalmente "que dura todo o ano".

    Parece que a tua proposta é melhor do que "sempervirente" pelo facto de já ser usada e não provocar fricções auditivas e outros tiques.

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  3. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

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  4. 1. «decídua» está longe de ser o termo mais usado para referir aquilo que, como o utilizador Aires Almeida explicou, responde comummente pelo nome de «folha caduca»;

    2. definição de «perpétuo» de acordo com o Dicionário Houaiss, de longe o mais completo, por todos os linguistas considerado superior ao de Academia: "1. que dura sempre; eterno; 2. que não cessa nunca; contínuo; 3. que não se altera; inalterável; 4. que é vitalício; 5. diz-se da sepultura adjudicada por prazo indeterminado". Esta é a entrada completa. Em lado algum se diz que este é o adjectivo para referir o que se aprende na escola, já na primária (pelo menos no meu tempo era assim, há coisa de uma década atrás), sob o nome de «folha perene».

    3. definição de «perene», de acordo com o Dicionário Houaiss: "1. que é eterno, perpétuo; perenal; 2. que permanece durante longo tempo; perenal; 3. que não sofre interrupção; contínuo, perenal; 4. BOT que vive por três ou mais anos, o que ocorre na maioria dos vegetais, ger. com um período inicial de crescimento vegetativo, passando então a florescer freq. a cada um ou dois anos (diz-se da planta)". Aqui, pois, encontramos o significado pretendido.

    4. o artigo mostra pois sobretudo um desconhecimento da língua que se critica.

    5. o castelhano não é uma língua nem mais culta nem menos culta que o português: são ambas de ascendência latina e, à custa disso, bem mais iguais do que diferentes. Os espanhóis, certo, terão algumas palavras e contruções gramaticais que de bom grado importaria para a nossa língua; o mesmo movimento, porém, podia ser feito do português para o espanhol.

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  5. Em primeiro lugar, quero agradecer os comentários, excepto o que apaguei. Publiquei o comentário anónimo anterior porque ao contrário daquele que apaguei, argumenta contra o ponto de vista apresentado e não é uma mera boca ou ataque pessoal. Resumidamente: se este comentário fosse como a maioria, constaria apenas do seu ponto 4, mais um ou dois sarcasmos azedos.

    Contudo, este foi o último comentário anónimo aprovado, argumentativo ou não.

    Nem sempre os dicionários têm razão apenas pelo facto de serem dicionários, e isto acontece muito, por alguma razão, nos dicionários portugueses.

    Aceito a refutação, dado que ao pensar nas alternativas, não investiguei a origem da palavra "perene", pois também me orientei pelos dois dicionários de português que tenho.

    contudo, nos dicionários de inglês-inglês que referem a etimologia da palavra podemos ver:

    perennial, do latim "per" + "annus" - lastin throughout the year. - construída à semelhança dos termos "annual" e "biennial".

    Estes dicionários também registam o sentido de "perpétuo", (everlasting). Contudo, não é difícil ver que se trata de contaminação posterior, e podemos ver isto na maneira como informalmente tendemos a usar palavras correlacionadas como se fossem estritamente sinónimas.

    Dito isto. Admito sem reservas que a melhor opção é "folhagem perene" - mas não "folha perene", pois obviamente a folha individual não dura todo o ano, e sim a folhagem.

    Contudo, um dos pontos do artigo, creio, permanece válido: "sempervirente" traduz exactamente o termo "evergreen". "perene" só funciona dentro de uma descrição e não como termo equivalente. Devíamos poder usar o termo "sempervirente" se assim quiséssemos e faríamos isto se não fosse o afastamento linguístico por motivos políticos. "Perene" é a melhor solução por não causar resistências auditivas e por não obrigar as pessoas a ir aos dicionários... ainda por cima espanhóis. Não é a melhor por ser o termo exactamente correspondente.

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  6. "Contudo, este foi o último comentário anónimo aprovado, argumentativo ou não."

    Ou seja, doravante só serão aprovados comentários argumentativos (contrários ou favoráveis), mas assinados com nome próprio. É irrelevante se qualquer um pode assinar um nome falso. Quem está realmente interessado numa discussão não o fará, porque não tem necessidade disso.

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  7. Relativamente a "decídua": este pode não ser o termo mais usado, mas não é isso que está em causa. É o termo exacto. "Caduco" descreve aquilo que já passou do tempo. É um termo inexacto para descrever a propriedade de perder anualmente a folhagem. Uma folha caduca é uma folha que já caiu. Não é a propriedade que uma árvore tem de perder a folhagem anualmente.

    Além disso, "decídua", por pouco usada que seja, consta no dicionário, o que significa que é usada, independentemente de as entradas que a descrevem serem ou não exaustivas.

    No que diz respeito ao nível de cultura, o facto de as nossas palavras mais usadas serem sistematicamente inexactas, faz com que, por comparação, uma língua que use sistematicamente termos que são descrições exactas, seja mais culta.

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  8. Caro Victor,

    Apenas uma pequena nota. Normalmente diz-se que as árvores são de folha caduca, não que as árvores são caducas. Isto apenas como objecção ao que expões no 1º parágrafo.

    De qualquer modo, aprendi na escola os termos "perene" e "caduca", e são esses que normalmente vêm referidos em livros de jardinagem e afins.

    Dizes: "Devíamos poder usar o termo "sempervirente" se assim quiséssemos e faríamos isto se não fosse o afastamento linguístico por motivos políticos.".
    Como é que a política entrou ao barulho?!

    Note-se que não estou a objectar quanto à afirmação que fazes da falta de cultura; só não entendo o que tem a política a ver com isto.
    De qualquer modo, o que dizes que faz da nossa língua inculta pode ser interpretado como fazendo dela uma língua viva...

    um abraço
    jaime

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  9. Olá Jaime,

    Não estou a dizer que há um interesse político maquiavélico em impedir os portugueses de usarem termos espanhóis. O carácter político da coisa tem por um lado um sentido trivial: o afastamento político das duas nações, a separação, arrastou a separação linguística, e não o contrário. Não foi uma separação de outra natureza que arrastou a separação política. Por outro lado, muitas reacções negativas ao tipo de propostas como as que faço são negativas não por causa dos argumentos em si mas porque parecem contrariar o nacionalismo linguístico. Repara que o meu artigo tem o principal defeito de usar informação linguística relevante para sustentar uma conclusão menos interessante e aparentemente desligada do assunto. Contudo, repara nas reacções: as pessoas não recusam admitir que uma língua seja mais culta do que a nossa, por causa de isso ser ou não verdade, mas porque pensam que se a língua x é mais culta do que a língua y logo os utentes da língua x devem ser superiores aos utentes da língua y. Isto é absurdo, mas é uma pressuposição que as pessoas fazem por causa do nacionalismo. Se não fosse a política, esta pressuposição de inferioridade ou superioridade não entrava em jogo para toldar juízos.

    No que diz respeito às restantes observações que fazes, mesmo na expressão "de folha caduca" há uma inexactidão que não está presente em "folhagem decídua". Este problema das expressões inexactas serem as mais comuns e encontrarmos com maior frequência expressões exactas em castelhano é recorrente, acontece-me muitas vezes precisar de uma expressão exacta que é invulgar, fazer uma busca em castelhano e encontrar muitas referências mas nenhuma em português.

    Claro que isto não sugere uma inferioridade do português. É simples de resolver: passarmos a usar expressões exactas, cultivarmos a exactidão, fazer em português o que os utentes das línguas cultas actuais fazem na sua própria língua, em vez de fazer más cópias do que eles fazem. Por exemplo, quando escrevemos "internalismo" e "fisicalismo" estamos a fazer más cópias, em vez de fazer em português o que os ingleses fazem em inglês.

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  10. desculpa a observação adicional, mas breve:

    o carácter político está nisto: não há, no fundo, "termos espanhóis". "Sempervirente" é tão nosso como "deles". A palavra "virente" consta nos nossos dicionários e formamos outras palavras com prefixo latino "semper" ou variantes do mesmo.

    É como a ideia de as letras gregas, y e k, "não fazerem parte" do nosso alfabeto. É mentira. Se não fazem parte do nosso então não fazem parte do inglês: são de origem grega. Mas a verdade é que as usámos muito tempo antes de um gajo qualquer se lembrar de as eliminar por via administrativa.

    A política tem a ver com isto porque estas separações não decorrem naturalmente, são arrastadas por motivos políticos e com o tempo tornam-se preconceito geral.

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Os espanhóis também usam as expressões "de hoja caduca" e "de hoja persistente". Parece que "sempervirente" é afinal um termo mais "clássico".

    A tradução brasileira usa as expressões "de folha caduca" e "de folha persistente". Supunha que tinha lido a expressão "vegetação perpétua" nesta última tradução, mas não é o caso, como fui agora verificar. Provavelmente foi uma alucinação.

    Seja como for, creio que se mantém válida a ideia de que podemos incorporar quaisquer termos vindos de outras partes da Península, desde que funcionem melhor do que os termos que já usamos, ou sejam mais exactos. Permanece válida também a ideia de que uma língua que é capaz de incorporar uma variedade de termos linguísticos mais precisos é mais rica e mais culta do que uma língua que não o faz.

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  13. O artigo foi actualizado para eliminar as imprecisões iniciais. Peço desculpa aos leitores na medida em que isto possa retirar algum impacto crítico aos comentários, mas dado que reconheci a minha palermice, creio que não será grave. É mais importante não transmitir essas imprecisões aos leitores que não tiverem paciência de verificar os comentários.

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  14. Não necessitam de publicar este “comentário” (é mais uma sugestão):

    Porque não publicam, aqui mesmo nos comentários, a versão original do artigo “A pobreza do nacionalismo linguístico”? Assim, não só preservam o sentido que o VG lhe atribui (agora no artigo revisto), mas também o sentido das opiniões/sugestões dos comentadores, até as do próprio VG (relativas ao artigo original).

    Té,

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  15. 7,

    Não fiz backup do original, mas basicamente, a diferença é a segiunte: eu desconhecia que em português usávamos as expressões "de folha caduca" e "de folha perene". Estava convencido de que "folhagem perpétua" e "folhagem decídua" eram os termos canónicos. Supunha tê-los visto numa tradução da Origem das Espécies mas afinal fui consultar a brasileira e a espanhola e nenhuma delas usa essas expressões. Provavelmente li algumas páginas na Internet com essa expressão e ficou-me no goto.

    Mantive o artigo porque contiunua, creio, a marcar um ponto válido acerca do fôlego do léxico espanhol por comparação ao nosso. "Decídua" e "sempervirente" são termos que soam demasiado a latim, mas são traduções exactas dos termos ingleses, ao passo que as expressões comuns portuguesas não são expressões exactas. O meu artigo procurava reafirmar isso mesmo: é sistemático os nosso lexicógrafos tomarem como cânone qualquer expressão que apareça em qualquer lado, e depois não encontramos nos dicioários os termos mais precisos mas menos populares.

    PS: peço aos leitores que NÃO assinem com pseudónimos. E não adianta tentar fazer a metafísica da assinatura e dos "simulacros", etc. Os autores do blogue já a conhecem e não estão interessados em discuti-la. Quem quer discutir os artigos assina o nome próprio e acabou a metafísica. De contrário, está a perder tempo pois não os publicamos.

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  16. Mude-se para a Espanha(existe?)
    Aconselho LanÇarote!

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