4 de maio de 2009

Reformas ortográficas

Há algo de incoerente em todas as reformas ortográficas. Subitamente, um conjunto de pessoas outorga-se o direito de não respeitar a ortografia dos seus antepassados, pelos mais diversos motivos — uns bons, outros maus. Mas exige para si o respeito da restante população, que fica obrigada a respeitar as suas vontades ortográficas. A ideia é que é legítimo não respeitar a ortografia dos nossos antepassados, mas não é legítimo não respeitar a ortografia de quem não respeita a ortografia dos seus antepassados. Usa-se então a mentira de que a língua evolui; mas quem decide como e para onde evolui não é o grosso da população que usa a língua, mas apenas quem tem o poder político do seu lado, por nenhuma boa razão. Os reformistas ortográficos ficam assim na curiosa posição de não respeitarem nem a ortografia dos seus antepassados nem as vontades do grosso das pessoas que usam a língua, mas de exigirem dos últimos o respeito que a nenhum dos outros concedem.

5 comentários:

  1. Saudações!

    Desidério, felicito-o pelo post. O tema é interessante. Congratulo-o também pela crónica acima.

    Não concordo com tudo o que disse sobre os acordos ortográficos.

    Porque há um código linguístico?
    A minha resposta é a de que usando esse código entendemo-nos melhor do que comunicando à balda.

    Faz sentido que o código evolua: evolui no sentido de permitir-nos comunicar melhor.

    Quem deve determinar essa evolução?
    Poder-se-à dizer que as pessoas, ao falarem e escreverem, fazem a língua evoluir. Assim, elas "fazem" a evolução da língua e os linguístas registam-na simplesmente no código linguístico.
    Mas será que assim nos entenderemos melhor?
    Penso que não. Não considero que a evolução linguística seja parecida com a selecção natural, pois, pelo que me diz a experiência, a língua não evolui no sentido de comunicarmos melhor. Por exemplo, pode-se dar o ensurdecimento da língua, etc.

    Assim, os especialistas saberão melhor como deve ser o código linguístico. Ditarão melhor a sua evolução.

    Note-se que defendo que as pessoas podem falar como lhes apetecer. O código é que não deve simplesmente estar apoiado na vontade da população.

    Cumprimentos!

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  2. Nota: isto não quer dizer que eu aprove este novo acordo ortográfico. Expandir a língua não é um bom motivo, pois não vejo interesse em fazê-lo. Comunicar melhor, sim. Não sei se é este o caso.

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  3. Olá, João

    Parece que estamos em desacordo, mas não estamos. Ou pelo menos não temos de estar. Eu concordo que os especialistas têm um papel fundamental no direccionamento da língua. Mas discordo que esse papel deva ter (ou seja politicamente legitimo que tenha) força política. Ou seja, discordo que se dê aos linguistas o poder para fazer leis sobre como é correcto ou não escrever. Os linguistas podem e devem influenciar o modo como escrevemos, mas em liberdade. Como? Publicando dicionários, gramáticas e textos críticos e esclarecedores. Depois as pessoas adoptarão as normas linguísticas que considerem melhores. Em países com amplas tradições de liberdade cívica é precisamente o que acontece. A situação actual é uma imposição política ilegítima, pois seria como eu ter o poder de fazer uma lei para obrigar as pessoas a ler isto em vez daquilo: isso seria muito diferente do que eu faço, que é dizer às pessoas que livros eu penso que são de qualidade.

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  4. Desidério,

    "Ou seja, discordo que se dê aos linguistas o poder para fazer leis sobre como é correcto ou não escrever."

    Repare que há duas consequências possíveis do que diz:

    1)não há leis que definam como é correcto ou não escrever.

    Discordo disto, porque penso que assim as pessoas entender-se-iam pior. Os linguístas bem que podiam esfalfar-se a publicar dicionários, gramáticas, etc. Mas, não havendo leis linguísticas, a maioria das pessoas simplesmente não os escutariam e estar-se-iam borrifando para a correcção. Leríamos prontus e tá-se bem em documentos importantes, etc. Seria mais difícil comunicar.

    2) As leis elaboradas pelos linguístas são simplesmente descritivas e não normativas.

    Se a gramática apenas descrevesse o que as pessoas dizem, penso que o efeito continuaria a ser negativo. Um erro comum é pior do que uma virtude rara. Palavras mais exactas menos comuns são melhores do que as mais comuns.




    Uma objecção ao que digo seria responder que ningúém tem o direito de estabelecer a correcção da gramática, da mesma forma que ninguém estabelece a verdade das leis de Newton. Quem as desmente está equivocado, mas isso não implica que o Estado deva estabelecer que elas estão certas.

    Assim, da mesma forma que alguém que refuta quem desmente as leis de Newton não o faz necessitando da autoridade do Estado, o mesmo se passa na Língua.
    O tratamento à gramática deve ser semelhante ao das Ciências.

    Repare-se que isto não implica que nas aulas de Português se ensine gramática à balda. Da mesma forma que não há uma Ciência institucionalizada, gramáticas não precisam de estar institucionalizadas para serem melhores do que outras.

    Penso que esta objecção tem sucesso.

    Mudei de ideias.

    Cumprimentos!

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  5. Obrigado, Pedro. Respondi num post próprio à objecção da anarquia, pois é uma ideia errada que me parece muito comum.

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