12 de Maio de 2009

Relativismo

É comum defender-se o ponto de vista de que todas as verdades são relativas. A ideia seria que a realidade é uma construção, querendo dizer invenção ou projecção ou perspectiva. A primeira dificuldade é saber por que inventámos as hemorróidas, o mau hálito e os políticos manhosos. Invenção por invenção, eu teria preferido inventar-me rico, inteligente e charmoso, e não um néscio sem jeito e pouco cacau.

Não se deve confundir o conceito de verdade com o conceito de crença. Pensar que é verdade que a neve é branca é muito diferente de ser verdade que a neve é branca. E seja como for que concebamos a verdade, não podemos concebê-la de tal modo que no fim sejamos vistos como omniscientes e infalíveis, pois é demasiado óbvio que não o somos. Se concebermos a verdade como algo que é idêntico a seja o que for que alguém pensa que é verdade, não poderemos errar quando pensamos que sabemos algo. Subitamente, ficamos omniscientes e infalíveis, porque toda a perspectiva é uma perspectiva.

Uma das razões falaciosas a favor da ideia de que todas as verdades são relativas é que ao longo da história as crenças das pessoas têm mudado imenso. Primeiro, pensava-se que Zeus presidia aos deuses, depois que só havia um Deus que é três, depois que a Terra estava imóvel, depois Galileu disse que se movia e toda a gente mudou subitamente de ideias, não sem antes o condenar a prisão domiciliar — e por aí fora. Mas é falacioso concluir que a verdade é apenas a nossa representação dela com base no facto de termos mudado de crenças ao longo do tempo. Se a verdade fosse apenas a nossa representação das coisas, nenhuma razão haveria para mudar a nossa representação das coisas.

“Ah, e tal e o camandro”, responde o relativista, “as crenças das pessoas são uma expressão do seu tempo histórico, de estruturas sociais, económicas, etc., e és uma besta se não percebes isso.” Sou sem dúvida uma besta, mas este relativista não vê o óbvio: que ele mesmo acredita na irrelatividade dessas estruturas sociais — além de acreditar que é realmente verdade, e não apenas a nossa crença, que os gregos antigos pensavam uma coisa, os medievais europeus outra e hoje os aborígenes australianos outra ainda. Não só a diversidade de opiniões e mentalidades ao longo da história não permite concluir que a verdade é relativa, como pressupõe que não o é: basear o relativismo da verdade na ideia irrelativista de que ao longo do tempo histórico as ideias mudaram é puro desvario.

Pior: dada uma qualquer verdade, supostamente relativa a X, basta acrescentar X à verdade relativa original para passarmos a ter uma verdade que não é relativa a coisa alguma. Por exemplo, “A neve é branca” é uma verdade relativa ao nosso aparato visual e cognitivo. Mas isto significa que “A neve é branca para seres com um dado aparelho cognitivo e em determinadas condições de luz” é uma verdade irrelativa.

Haverá alguma verdade relativa que não implique a existência de uma verdade irrelativa nela baseada? Talvez. Mas nunca encontrei tal coisa.
Imagem: Petal Drops, de Steve took it

19 comentários:

  1. Excelente artigo. Bem conciso. Fiz uma chamada para este seu texto no meu blog, citando dois excertos.

    Parabéns pelo bom conteúdo deste seu espaço.

    P A X

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  2. Se é verdade que neve é branca para seres com um dado aparelho cognitivo e em determinadas condições de luz e, nas mesmas condições e para seres com um aparelho cognitivo diferente é castanha, para outros rosa, para outros sem cor, não significa isso que dizer-se que a neve é branca ou que a neve tem cor, sem se acrescentar mais nada, não é uma verdade, mas uma falsidade?

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  3. Caro Desidério,

    Este excelente texto suscita-me a seguinte pergunta: A ser verdade o que diz, será uma verdade necessária ou contingente?

    É mesmo verdade que nunca tenha encontrado uma verdade relativa sem se apoiar numa qualquer verdade irrelativa? Mas não podemos também pôr as coisas ao contrário? Duma maneira diferente da dos relativistas, claro, como bem demonstrou eles não conseguem dar a volta.

    Eu penso que a sua verdade é contingente. O que diz é verdade em função do conceito que tem de verdade relativa. Mas este conceito de verdade relativa não tem de ser necessariamente verdadeiro, se o mundo for todo ele relativo. Num mundo possível todo ele relativo não podem existir coisas irrelativas. O irrelativo, no caso da sua verdade, é uma contingência disfarçada de necessidade.

    E assim, a sua verdade poderia ser formulada ao contrário: “Haverá alguma verdade irrelativa num mundo relativo, que não implique acabar por ser sempre relativa?”

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  4. Caro Nuno

    Nas condições que refere parece-me que a frase não é verdadeira, nem falsa, porque não chega a exprimir sequer uma proposição ou pensamento completo. Seria como dizer apenas "é alto".

    Caro Dias

    Parece impossível um mundo relativo; essa é a substância do meu argumento. Para começar, não é o mundo que é relativo ou não, mas sim as afirmações que fazemos sobre o mundo. Mas mal tentamos imaginar um mundo no qual todas as afirmações fossem relativas, isso parece implicar que basta acrescentar os factores relativos à afirmação em causa para esta perder a sua relatividade.

    O meu argumento nada tem a ver com contingência nem necessidade. Uma afirmação contingente pode ser tão irrelativa quanto uma afirmação necessária, e uma afirmação necessária pode ser tão relativa quanto uma contingente.

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  5. Penso que percebo a ideia: a frase "a neve é branca" não é nem verdadeira nem falsa. Terá valor de verdade apenas quando a relativizarmos a um determinado ser, por exemplo "a neve é branca para um humano".

    Ainda assim, na primeira frase atribuimos uma propriedade a um ente, a neve, enquanto que no exemplo que dá temos a propriedade sem o ente, o que não refere.

    A primeira frase refere a neve e a segunda pode referir uma quantidade enorme de entes - o Kilimanjaro, a Ponte 25 de Abril, e assim por diante -, apesar de de facto não referir algum.

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  6. Percebo a ideia: a frase só é verdadeira ou falsa depois de relativizada para um determinado ser, por exemplo "a neve é branca para um humano em determinadas condições de luz".

    Ainda assim, a frase "a neve é branca" atribui uma propriedade a um ente, caso em que há referência, enquanto que a segunda não refere, dado que a altura é relativa aos entes que poderiam ser referidos - o Kilimanjaro, a Ponte 25 de Abril, o World Trade Center, e assim por diante.

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  7. A segunda frase a que me refiro no comentário anterior é "é alto" (se é que lhe podemos chamar "frase").

    Se estiver correcto o que eu disse, há diferença entre as duas frases, sendo que a primeira, por referir um objecto e lhe atribuir uma propriedade é uma proposição, enquanto que a segunda, por não referir objecto algum e, logo, não atribuir propriedade alguma a coisa alguma, não é uma proposição.

    Talvez pudéssemos aceitar que existem proposições que não são nem verdadeiras nem falsas, ou até graus de verdade.

    Por exemplo, se alguém diz que a festa é gira, não diz tudo acerca da festa, embora exprima uma proposição e diga uma verdade se a festa é de facto gira, isto é, para todos ou para a maioria ou para um especialista em festas (imaginemos).

    No caso da neve, a neve não é branca para todos e para alguns nem tem cor, embora a frase "a neve é branca" exprima que a neve é branca para todos.

    Logo, parece-me (e talvez erradamente) que é uma proposição e que é falsa.

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  8. Desidéro,

    De facto não me parece que haja alguma verdade relativa que não tenha uma verdade irrelativa a ela associada. Uma verdade, a ser relativa, será em relação a uma variável; se fixamos a variável, temos uma verdade não relativa.

    Mas ainda assim o teu texto deixa abertura a que o relativista diga "tudo bem, claro que há verdades não relativas e acabaste de me mostrar algumas, ainda assim há verdades relativas e como tal eu posso dizer que para mim a Terra tem 4000 anos e para outros poderá ter 4000 milhões".

    O que escapa muitas vezes ao relativista e o teu texto não contradiz é que as verdades não são relativas, as crenças é que podem ser. Sem dúvida que o ser humano é bestialmente influenciável pela sua cultura, pelo seu tempo, pela sua educação e tudo o mais. É uma constatação que as crenças vão variando com o tempo: criamos que a terra não se movia, agora cremos que se move. Uma coisa é certa, independentemente daquilo em que acreditamos, a terra ou se move ou não se move. Esse facto, essa verdade, é completamente indiferente à crenças que possamos ter - não é relativa.

    O mesmo podemos dizer a respeito da neve. A neve não é branca com esta luz e para este observador. A neve parece branca nestas condições, mas é aquilo que sempre foi independemente da luz, do observador ou do que quer que seja.

    Finalmente, se bem que é uma constatação evidente que as crenças da humanidade (dos humanos individualmente, talvez seja mais correcto) são fortemente condicionadas pelo contexto, e como tal tendem a ser relativas a esse contexto, não podemos daí inferir que é correcto ou bom deixarmo-nos afectar por esse contexto.
    O relativista poderá dizer "tudo bem, a verdade não é relativa, mas a crença é. Como não tenho forma infalível de chegar à verdade, posso-me deixar levar pelas crenças que melhor me aprouver, pois essas são relativas a cada um de nós. Posso crer naquilo que quiser e isso é legítimo."
    Ora essa nossa contingência é algo que devemos tentar contrariar; eu sei que sou influenciado pelo contexto, e como tal tento fazer um esforço acrescido para tentar perceber se estou a ser influenciado, e em que sentido, e como posso fazer para tentar anular essa influência. Não é pelo facto de as crenças dos individuos tenderem a ser relativas ao seu meio que eu posso abraçar essa relatividade e dizer que as crenças podem ou ser relativas ao meio.

    Resumindo: julgo que as verdades não são relativas e as crenças tendem a ser influenciadas pelo contexto, o que é diferente de dizer que podem ou devem ser relativas.

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  9. Desidério,

    Estava agora a reler o teu texto e, contrariamente ao que eu disse no meu comentário anterior, não deixa abertura ao relativista para que defenda que algumas verdades são relativas.
    Escrevi o meu comentário com os teus últimos 2 parágrafos em mente e esqueci-me dos anteriores.

    Assim sendo, aquela é a minha opinião, devendo ser ignoradas as partes onde faço o reparo ao teu texto. Pelo lapso peço desculpa.

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  10. "A neve não é branca com esta luz e para este observador. A neve parece branca nestas condições, mas é aquilo que sempre foi independemente da luz, do observador ou do que quer que seja."

    Mas aí poderá no máximo afirmar que é água congelada, nem tão pouco "congelada" implicando que é fria, porque ser fria já é relativo a alguém que a sente como fria.

    Daí que a neve é fria seja uma verdade relativa a um observador, por exemplo humano, mas uma falsidade para outro, por exemplo um urso polar.

    A crença que a neve é fria para um humano é claramente influenciada pelo contexto, e o mesmo para qualquer crença, se entendermos que o corpo e a mente que têm a experiência ou que pensam ou recordam fazem parte do contexto.

    Se assim é, pergunta-se: como sair do contexto? Como conhecer a verdade não relativa (não esquecendo que não é mais nem menos verdadeira do que a verdade relativa: que a neve é água gelada - indução? - não é mais nem menos verdadeira que sinto frio quando toco em neve)?

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  11. Caro Nuno,

    "Mas aí poderá no máximo afirmar que é água congelada, nem tão pouco "congelada" implicando que é fria, porque ser fria já é relativo a alguém que a sente como fria."

    Congelada não implica que seja fria, o que acontece é que a maior parte de nós percepciona a água congelada como fria. Claro que pode ser fria para mim e não o ser para outro, mas aqui surge uma pequena confusão originada pelo sentido comum que damos a "ser": quando dizemos "a neve é fria" não significa que ela seja fria, significa que eu a sinto como fria.
    A expressão correcta seria: "a neve parece-me fria" ou "eu sinto a neve como fria".

    Assim sendo, tal como com a brancura, a neve não é fria nem deixa de o ser. A neve tem uma determinada temperatura, que não é relativa, e pode ser precepcionada de formas diferentes por diferentes sujeitos. Note-se que estou a utilizar "fria" como aquilo que sentimos quando tocamos a neve; se dissermos antes que "fria" é quando a temperatura é inferior a 0ºC então se algo é frio ou não deixa de ser relativo e passa a ser irrelativo.

    Penso que poderemos afirmar que há verdades a respeito da neve, e essas não são relativas; e há verdades a respeito da relação entre sujeitos e a neve, e essas são obviamente relativas ao sujeito (e aqui entram os dois últimos parágrafos do post do Desidério).

    Uma nota adicional: poderemos ser tentados a dizer que a temperatura da neve é também relativa, afinal podemos medir em ºC, F ou em qualquer outra unidade. Aqui o que eu diria é que o que é relativo é o valor numérico que utilizamos para quantificar essa temperatura. A temperatura propriamente dita é independente da escala utilizada. A minha altura terá será representada por um número diferente se utilizarmos metros ou polegadas, mas a minha altura propriamente dita não depende da escala utilizada - eu não sou nem mais alto nem mais baixo por mudar a escala.

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  12. Uma correcção:

    "Haverá alguma verdade relativa que não implique a existência de uma verdade irrelativa nela baseada?"

    Não deveria ser: "de uma verdade irrelativa na qual se baseia"? A verdade relativa é que se baseia na verdade irrelativa.

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  13. Vítor, sob pena de erro, penso que o que está a ser perguntado é: como partimos da subjectividade para a objectividade?, dado que é aparentemente assim que se dá o desenvolvimento do conhecimento humano.

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  14. «Mas isto significa que “A neve é branca para seres com um dado aparelho cognitivo e em determinadas condições de luz” é uma verdade irrelativa.»
    Por esta afirmação ser incontestável desde Kant é que os modernos relativismos se socorrem da biologia. Estou a pensar no Biólogo Chileno Maturana e na teoria da auto-poesis que serve de base aos mais bem fundamentados relativismos. Francisco Teixeira, numa obra cujo título não me ocorre neste momento, faz essa ponte entre Maturana e Rorty e parte para um relativismo não ingénuo.
    É que os nossos aparelhos cognitivos podem não ser 100% iguais... cada incidente biológico reconstroi-os e eles tornam-se diferentes, e aí a afirmação que citei deixa de ser tão categórica.
    Sobre este tema não tenho certezas, mas sei que deve ser o centro de qualquer filosofia coerente.

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