13 de maio de 2009

Um pequeno exercício: ciência e falsificabilidade


Convido o leitor a colocar-se no lugar do professor e a responder à última pergunta da Ana, no seguinte diálogo:

Professor -- Compreendeste o que, na opinião de Popper, distingue uma afirmação científica de uma afirmação pseudo-científica, Ana?

Ana -- Creio que sim, professor. Popper considera que uma afirmação só é científica se for falsificável.

Professor: Muito bem, Ana. Isso significa, então, que o critério de cientificidade de uma afirmação, ou de uma teoria, consiste em ser falsificável. Certo?

Ana -- Certo. Mas diga-me, professor, isso quer dizer que, de acordo com Popper, se eu tiver uma teoria que afirma que a lua é feita de queijo, então essa teoria é científica?

Professor -- Explica-te melhor, Ana.

Ana -- Bom, a afirmação "A Lua é feita de queijo" é falsa. Logo, é falsificável. Logo, de acordo com Popper, é científica. Onde estou a errar professor?

26 comentários:

  1. O erro está em considerar que uma proposição falsificável é uma proposição necessariamente falsa. Por exemplo, que os seres humanos têm sangue é uma proposição verdadeira, mas falsificável por uma proposição: existe pelo menos um ser humano que não tem sangue (enunciado de observação). Do mesmo modo, que a lua é feita de queijo é falsificável por um enunciado de observação, por exemplo: Armstrong foi à lua e viu que tudo era cascalho.

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  2. seria mais adequado que a Ana dissesse: "a lua é feita de queijo" é uma proposição falseável" e portanto pode ser verdadeira ou falsa. De fato, essa proposição, por mais bizarra que pareça, antes de ser falsificada seria para Popper uma genuína hipótese científica. (desconsiderando é claro todo o conhecimento obtido sobre a constituição do sistema solar).

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  3. seria mais adequado que a Ana dissesse: "a lua é feita de queijo" é uma proposição falseável, e portanto, de acordo com Popper, científica.
    o fato de ter se mostrado que é falso que a lua seja feita de queijo apenas descarta a hipótese de a lua ser feita de queijo. mesmo que saibamos hoje que a lua não é feita de queijo, poderia haver contextos, por mais bizarros que fossem, onde Popper aceitaria essa hipótese como genuinamente científica.

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  4. Se calhar não está a errar. Neste momento essa afirmação já foi falsificada, mas em 1958 podia ter sido proposta por alguém. Seria sensato? Não. As hipóteses constroem-se com base em conhecimentos prévios, e alguns deles apontam (mesmo em 1958) para a impossibilidade da lua ser feita de queijo.
    Mas realmente o problema mantém-se: será que o critério Popperiano exclui ou inclui as patetices testáveis?

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  5. A afirmação é falsificável porque tem circunstâncias que a podem refutar: basta ir à lua e ver que não é feita de queijo. Ou enviar lá uma sonda. A Ana enganou-se foi na razão por que a afirmação é falsificável. "Falsificar" é mostrar a falsidade, e não a propriedade de ser falso. "Ser falsificável" é ser uma afirmação tal que no caso de ser falsa o possamos demonstrar com algum tipo de teste.

    Se uma afirmação fosse falsificável por ser falsa seria o mesmo que um alimento ser comestível apenas quando já foi comido. Um alimento comestível é comestível mesmo que ninguém o tenha comido. O importante é que algo na natureza do queijo, por exemplo, faz com que seja comestível ou não. Analogamente, há algo nas proposições que as faz serem ou não falsificáveis: o facto de estipularem circunstâncias refutantes. Quando digo que a água é H2O ou que Júpiter é feito de baunilha, são afirmações que podem ser infirmadas fazendo experiências.

    É preciso lembrar que em ciência também há afirmações falsas. Uma afirmação não é científica por ser verdadeira, mas por poder ser verificada com os instrumentos da ciência.

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  6. Em 1958 já sabíamos demasiadas coisas para acreditar que a Lua é feita de queijo. Para já,sabíamos como o queijo é feito e já sabíamos alguma coisa sobre a natureza dos corpos celestes. Até para o Cyrano de Bergerac seria demasiado arrojado imaginar um Reino de Queijo na Lua.

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  7. Não haveria aqui uma confusão entre condição necessária e condição suficiente? A proposição ser falsificável é uma condição necessária para que ela seja científica, mas não acho que isso seja uma condição suficiente para tal.

    Isto é, toda proposição científica tem que ser falsificável, mas nem toda proposição falsificável é científica.

    Cristiano Figueira

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  8. Uma outra questão: não será redutor chamar pseudo-científica a todas as questões que não sejam falsificáveis?

    É que então o cogito de Descartes também é pseudo-ciência, pois a tese de um génio maligno é impossível de falsificar ("provar falsa" soaria melhor).

    Assim,
    1) uma vez que existe muita gente séria a pensar muito seriamente em teses que não são falsificáveis (todo o debate sobre o cepticismo, por exemplo)
    2)esse debate que tomámos por sério em 1) será definido como pouco sério pelo critério de Popper

    Conlui-se que ou o debate sobre o cepticismo é pseudo-científico ou o critério de Popper afinal não serve separar o trigo do joio...

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  9. Caro Jaime,

    talvez possamos aceitar que nem só as teses científicas são sérias. Caso contrário, as teses filosóficas não seriam sérias, inclusivamente a de Popper sobre a falsificabilidade.

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  10. Uma boa teoria é aquela que ainda não foi falseada, ainda não foi provada falsa, mas que tenha uma forma lógica tal que permita o seu falseamento.

    Joedson Silva

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  11. Caros,

    Para Popper, uma teoria é científica se for falisificável pela experiência e se a sua falsidade ainda não tiver sido provada (acho eu). Assim, evita-se considerar patetices como ciência. Neste caso, a afirmação em causa não é científica, porque é falsa.

    Jaime,
    Antes de mais, parabéns pelo interessante blog.
    As teorias filosóficas não são, por definição, verificadas experimentalmente. Isto não significa que não sejam sérias. Significa apenas que não são científicas.
    Seriedade não é o mesmo que ciência.

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  12. Esqueci-me de me identificar: João Pedro Silva

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  13. Concordo com o Vitor

    a Ana erra por considerar que a hipótese de que a lua é feita de queijo falsificável simplesmente porque é uma hipótese falsa. Eu posso pensar em inúmeras hipóteses infalsificáveis que são perfeitamente falsas, por exep, "há um pote de chá chinês repleto de mini-unicórnios invizíveis que gravita em torno do sol e não é detectável por meios empírico". É uma hipótese impossível de ser falsificada e que me parece perfeitamente falsa.


    Não me lembro bem da teoria da Popper, mas sei que um dos critérios que ele utiliza para distinguir as melhores teorias científicas das piores é o grau de falsificação: as melhores teorias científicas são as mais falsificáveis. O que é interessante pois uma teoria que pretende sustentar que a lua é feita de queijo é mais falsificável do que uma teoria que que sustente que a lua é feita de algumas rochas específicas, pois é mais fácil testar a primeira hipótese do que a segunda.


    Cristiano

    teríamos que ver o que a própria teoria do Popper diz a respeito.

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  14. Caros,

    Eu não defendo que as teorias filosóficas não sejam sérias. Com o meu argumento apenas pretendia demonstrar que a regra de Popper poderá não ser eficaz a separar o trigo do joio.

    Mas entendo que se calhar tal não é o objectivo da regra, mas sim separar a ciência da não ciência.

    Agora que seria bom termos algum critério para separar (e justificar a essa separação a terceiros)o lixo do resto lá isso seria...

    João, obrigado pelas palavras de apoio.

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  15. Caro João,

    O facto de a teoria ser falsa não implica que não seja científica. As teorias científicas esão sujeitas a ser falseadas, isto é, podem vir a revelar-se falsas por teorias novas.

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  16. Para poder ser cientificamente refutada, uma teoria tem de ser científica à partida. Não vemos os astrónomos ocupados a refutar a astrologia. Vemo-los ocupados a tentar refutar teorias astronómicas.

    Propor uma teoria refutada não é científico, mas a teoria refutada não deixou de ser ciência, apenas passou à história da actividade. É preciso não confundir a actividade que é a ciência com as verdades que essa actividade procura alcançar. A ciência não é a verdade, esta é o objectivo da actividade científica.

    "A Lua é feita de queijo" não é uma afirmação científica, mas não por ser infalsificável. É como perguntar se a maçã que tenho à frente é feita de ouro. É uma ideia palerma, tendo em conta o estado das minhas crenças, mas posso pôr a afirmação à prova, testá-la. Tal como podemos desmentir a afirmação de que a Lua é feita de queijo. Não há é interesse algum em fazer isso.

    Resumindo: A propriedade que uma afirmação tem de ser falsificável não pode depender do estado das nossas crenças e sim do tipo de afirmação que se faz. Uma afirmação que foi cientificamente refutada tinha de já ser científica antes de ser refutada. A ocupação principal dos cientistas não é refutar cosmogonias antigas e sim teorias cosmológicas sérias. Mas se uma afirmação foi científica em tempos, continua a ser científica depois de ser refutada. A diferença é que não faz parte da ciência viva mas da história da ciência.

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  17. nota: concordo com o que disse o Cristiano. A falsificabilidade é uma condição necessária das afirmações científicas mas não suficiente. De contrário, qualquer afirmação que possa ser desmentida por verificação empírica seria ciência. ISto é tão arrojado como afirmar que todas as teorias insusceptíveis de verificação empírica são filosofia.

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  18. Parte da resposta foi, creio eu, dada pelo Cristiano. De facto, a aluna estava a confundir condição necessária com condição suficiente. Popper defende que uma teoria é científica só se for falsificável. Mas isto não é a mesma coisa que "é científica = é falsificável", pois é verdade que se é científica é falsificável, mas não tem de ser verdade que se é falsificável, é científica. Isto é, a bicondicional "é científica se, e só se, é falsificável" não é verdadeira. Do mesmo modo que não é verdade que "é português = é europeu", embora seja verdade que se é português seja europeu.

    Portanto, a teoria de que a lua é feita de queijo satisfaz a condição "ser falsificável". Já agora, a Ana tem razão ao dizer que se é falsificada, é falsificável (Vítor, ela não diz que se é falsificável, é falsificada, como sugeres com a tua analogia acerca de coisas comestíveis).

    Antes de acrescentar algo mais, vale a pena dizer alguma coisa sobre se há ou não teorias científicas falsas. Claro que há, basta ler a história da ciência. Por exemplo a teoria do flogisto sobre a combustão faz parte das histórias da ciência e é, portanto, uma teoria científica, embora seja falsa. E muito provavelmente iremos descobrir que algumas das teorias científicas actuais são falsas. Isto não devia ser surpreendente.

    Mas significa isto que a teoria de que a lua é feita de queijo é científica? A resposta é "não", pois se a falsificabilidade é condição necessária, ela não é suficiente, como referi acima. Uma teoria científica, além de falsificável, tem de ter poder explicativo e ser capaz de fazer algumas previsões sobre aquilo que pretende explicar. Ora, a teoria de que a lua é feita de queijo não tem qualquer poder explicativo e não inclui qualquer previsão acerca do comportamento da lua, etc. Ou seja, no fundo ela está falsificada à partida, pelo que não passa pela cabeça de um cientista explicar seja que fenómeno for com tal teoria. Nenhum cientista apresentou tal teoria porque tal teoria nada consegue explicar e já se sabe que é falsa. E os cientistas não estão interessados em teorias falsas, apesar de não as conseguirem evitar.

    Uma palavra final para o Jaime: a filosofia não é uma ciência nem passa por tal (os problemas filosóficos não são problemas empíricos, como os da ciência). O critério de falsificabilidade referido por Popper permite distinguir apenas as teorias científicas das pseudo-científicas. O problema nem é tanto as teorias não científicas, mas apenas uma parte delas, como a astrologia, a psicanálise, a parapsicologia, ou o chamado "marxismo científico".

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  19. "Do mesmo modo que não é verdade que "é português = é europeu", embora seja verdade que se é português seja europeu."

    Ali não é antes: "é europeu = é português" embora seja verdade que....."?

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  20. Até porque a ideia de que só as teses verdadeiras são científicas é incompatível com o modo como Popper vê a ciência: uma aproximação interminável à verdade, onde não há "teorias comprovadas" mas apenas teorias que não foram ainda refutadas e teorias que já foram refutadas. As coisas mais anti-popperianas que temos são os anúncios a dentífricos e a detergentes, onde só se fala em coisas "cientificamente comprovadas". O Popper vê a ciência como uma gigantesca e incessante actividade de refutação, não de comprovações.

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  21. Disse eu:

    "Do mesmo modo que não é verdade que "é português = é europeu", embora seja verdade que se é português seja europeu."


    Comentário do Vítor:

    Ali não é antes: "é europeu = é português" embora seja verdade que....."?


    A minha resposta ao comentário do Vítor:

    Tanto faz, Vítor, a relação de igualdade é simétrica (ou, se preferires, é comutativa). Dizer que ser europeu é igual a ser português vai dar ao mesmo que dizer que ser português é igual a ser europeu. E em ambos os casos estamos a referir uma falsidade.

    Não se pode confundir a igualdade (ou a equivalência, que se pode exprimir através da bicondicional) com a condicional. Nesta, não há uma relação de simetria entre a antecedente e a consequente. Assim, a condicional P->Q não é equivalente (não tem as mesmas condições de verdade) a Q->P.

    Concluindo, é verdade que se X é português, é europeu, mas é falso que "X é português" seja o mesmo que "X é europeu". SE fosse assim, poderias definir "português" exactamente como defines "europeu", e vice-versa. Mas não podes fazer tal coisa.

    Fui confuso?

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  22. Já percebi a ideia. O engano foi meu.

    Vi o sinal de igual mas tinha a seta da condicional na cabeça. Continuei a pensar como se lá estivesse A --> B. Desatenção.

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  23. Não sei se o diálogo apresentado pode ou não ter acontecido. Curiosamente, comigo aconteceu. Numa aula desta semana, um aluno fez-me a mesma questão. São aquelas questões que, no momento em que estudamos um texto tipo Conjecturas e Refutações, não nos lembramos de colocar. Só essa ingenuidade é que nos coloca na realidade e, simultaneamente, nos dá algum prazer no que fazemos. Os comentários que li parecem-me correctos e cruzam-se, felizmente, com a minha resposta ao aluno. Depois de engolir em seco, respondi da seguinte maneira:«quando Popper fala de falsificacionismo, pretendeu, acima de tudo, distinguir teorias objectivas e subjectivas. As primeiras conduzem-nos ao conhecimento, as segundas não. Significa isto que só as teorias objectivas, factuais, podem ser consideradas científicas por que estão mais predispostas à refutação. Contudo, dentro destas, temos que diferenciar as que exprimem maior ou menor conteúdo de probabilidade. Diz Popper que «utilizar teorias de maior conteúdo, significa que também usamos teorias de menor probabilidade. Se o nosso objectivo é a expansão do conhecimento, não podemos visar igualmente à alta probabilidade. Isto entronca com a tese do Aires (se me permite tratá-lo assim) da diferença entre condição necessária condição suficiente. Diz Popper que a ciência é uma rede construída no sentido de uma super-simplificação da realidade. Assim sendo, temos de distinguir as proposições científicas da outras. As científicas dizem mais acerca da realidade e, por isso, são mais improváveis. Uma baixa probabilidade significa uma alta probabilidade de refutação. Quanto mais uma conjectura sabe acerca do mundo, mais ela é refutável.» Bem , não foi bem assim que expliquei ao aluno, mas disse-o na mesma mas por outras palavras.

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  24. A teoria da falseabilidade popperiana é falseável?



    http://clubecetico.org/forum/index.php?topic=12278.0

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  25. O falsificacionismo dogmático não atende a que todas as proposições da ciência
    são teóricas e falíveis. Não tem meios para enfrentar o facto de que não existem
    proposições factuais, na medida em que não há uma fronteira natural entre proposições
    teóricas e proposições observacionais: não há experiências não impregnadas por
    expectativas teóricas em algum grau. Aliás, mesmo que existissem proposições factuais,
    nenhuma poderia ser provada ou refutada por uma experiência: proposições só podem
    ser derivadas de outras proposições e nunca de "factos".

    Imre Lakatos: "PARA UMA CRÍTICA DO FALSIFICACIONISMO
    INGÉNUO"

    http://maquinadeturing.planetaclix.pt/filosofia_e_ciencia/lakatos1.pdf

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  26. Outro bom texto sobre o assunto:

    http://maquinadeturing.planetaclix.pt/filosofia_e_ciencia/lakatos2.pdf

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