27 de junho de 2009

Aprender filosofia com os filmes


São cada vez mais os livros sobre filosofia e cinema, seja sobre filosofia do cinema, que é uma subdisciplina da filosofia da arte, ou de livros que recorrem aos filmes para introduzir e discutir alguns dos principais problemas filosóficos. E ensinar filosofia através dos filmes parece ser uma tendência cada vez mais irresistível. Daí que as novidades editoriais na matéria sejam cada vez mais frequentes.

A última novidade é o livro Introducing Philosophy Through Film: Key Texts, Discussion and Film Selection, organizado por Richard Fumerton e Diane Jeske. Este livro é uma introdução à filosofia através do cinema e tem uma coisa muito diferente de outros que conheço sobre o mesmo assunto: a discussão é centrada não apenas nos filmes, pois faz-se acompanhar dos textos dos filósofos em que os problemas em causa são discutidos. A inclusão dos textos clássicos parece-me ser um ponto a favor deste livro. Isso permite, inclusivamente, disciplinar a discussão, ao contrário do que acontece com praticamente todos os livros do género que eu conheço publicados entre nós (a qualidade do que se tem publicado em Portugal sobre este tema deixa, na minha opinião, muito a desejar).

O sucesso relativo destes livros assenta na ideia de que, se bem escolhidos, certos filmes permitem aos alunos confrontar-se com alguns dos problemas filosóficos tradicionais: da ética à metafísica, passando pela filosofia da religião e pela epistemologia. Além disso, parece ser uma forma mais divertida (e, portanto, mais motivadora) de iniciar a discussão e de aprender filosofia. Mesmo que não se usem os filmes como ponto de partida, acredita-se que podem servir numa fase posterior, na medida em conseguem ilustrar de uma forma muito viva algumas ideias e teorias filosóficas.

Também já experimentei usar o cinema com os meus alunos. Mas confesso que o resultado foi algo decepcionante. Não digo que não possa dar bons resultados, mas creio que muitos dos filmes que temos em mente não são simplesmente motivadores para os alunos. A verdade é que os alunos acham simplesmente aborrecidos muitos desses filmes. Num texto publicado em Aesthetics On-Line sobre este mesmo assunto, o autor, Henry John Pratt, fala da sua experiência, confessando também que foi uma surpresa descobrir que os seus alunos acharam filmes como Blade Runner muito desinteressantes e até aborrecidos, o que dificultou, em vez de facilitar, a sua tarefa.

Não fiquei surpreendido com a descoberta de Pratt, pois também eu o tinha descoberto por mim. Nós professores, que já não somos adolescentes, temos referências cinematográficas que passam completamente ao lado dos nossos alunos e o nosso entusiasmo por certos filmes é frequentemente visto por eles até com algum desdém. De resto, eles nem sequer conhecem a maior parte dos filmes em que estamos a pensar. Mesmo filmes relativamente recentes para nós são completamente desconhecidos da maior parte dos alunos do 11º ano. Matrix, para falar de um exemplo banal, é um exemplo disso. Desafio, aliás, os colegas a perguntar numa turma do 11º ano quantos alunos conhecem ou já viram o filme. Aposto que a resposta irá surpreendê-los. Digo isto porque já fiz esse teste várias vezes.

Claro que ensinar filosofia através dos filmes implica ver os filmes e não apenas falar neles. Mas isso coloca um problema prático: conciliar o tempo lectivo disponível com o visionamento dos filmes. Além disso, há o perigo de os alunos se dispersarem, prestando atenção a aspectos filosoficamente irrelevantes e passando completamente ao lado do que se pretende realmente discutir, como também pude confirmar. Talvez isso possa ser evitado com um bom guião e algumas perguntas prévias, para as quais os alunos devem procurar respostas no filme.

Em resumo, não nego que possa haver boas experiências de aprendizagem filosófica através dos filmes. O problema é que isso corre o risco de acarretar um enorme desperdício de tempo e de energias, sobretudo se as coisas não estiverem muito bem preparadas, o que não é difícil acontecer.

5 comentários:

  1. O livro do Julio Cabrera (professor de filosofia na UnB), O Cinema Pensa (http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=7013785&sid=2018672371157391578266846&k5=114158CD&uid=), também é muito bom. Assim como o McGinn, ele tem uma tese filosófica específica, porém diferente, com relação à linguagem cinematográfica. Todo filme abordado no livro é aproximado de teses filosóficas, mas não de um modo apenas ilustrativo. O Cabrera sustenta que alguns filmes, em virtude do seu conteúdo logopático, pode contestar teses filosóficas.



    Um resumo das suas idéias sobre o cinema pode ser encontrado em seu site: http://www.unb.br/ih/fil/cabrera/portugues/



    Sobre o livro do Fumerton, uma ressalva é o seu preço exorbitante, ao menos para nós aqui no Brasil.

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  2. Este ano lectivo fiz a experiência com a série Os Perdidos. Comprei o livro A Filosofia Segundos os Perdidos, editado pela Estela Polar e, penso deu algum resultado, nomeadamente para a compreensão do Contratualismo. Só que exige da nossa parte um conhecimento adequado da série para seleccionarmos as partes pretendidas. Também há a hipótese, esta com a vantagem de ser num tempo mais adequado, de apresentar um episódio do Dr. House para daí retirarem os momentos do método científico. Este último exemplo foi o que correu melhor. Também existe um livro, creio que da mesma editora, sobre Hicthcok. Só uma última curiosidade, em França parece que vão colocar uma nova disciplina no currículo do secundário que versa sobre o cinema. É mais uma educação cinematográfica. Só desconheço os critérios e os conteúdos.

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  3. Nunca me meti na aventura de exibir filmes aos alunos. Recordo de o ter feito quando leccionei sociologia (muito mais fácil, penso) e na Psicologia servi-me de um dos episódios de Cosmos de Sagan para a unidade da psicofisiologia. Quando descobri, há uns 3 anos, os livros compilados por William Irwin, na colecção da Blackwell, Pop culture series, fiquei muito entusiasmado, mas assim que li o primeiro (Mettalica e Filosofia - eu não aprecio sequer os Metallica) fiquei realmente decepcionado com a maioria dos ensaios. Recentemente tem sido publicados alguns destes livros compilados por Irwin, como o do Perdidos que refere o Daniel (creio que é do Irwin, ou não?), mas já nem sequer os compro. De maneira que a minha experiência também não tem sido lá muito boa. Acho de todo preferível ensinar filosofia somente com os adereços da filosofia, que são os textos. As outras relações virão depois para quem as quiser e souber fazer.
    Existe uma outra versão desta relação entre cinema e filosofia, mas que sinceramente é completamente desinteressante, apesar de todo o charme da moda que a envolve e que é protagonizada recentemente por Zizeck. O problema é que partindo de Zizeck tudo é relacionável, desde que se aplique umas fórmulas pomposas e pseudo filosóficas (o Aires tem um bom texto sobre Zizeck neste mesmo blog).

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  4. Existe um livro em português do filósofo argentino radicado no Brasil, Julio Cabrera, professor na Universidade de Brasília: O Cinema Pensa: uma introdução à Filosofia através do Cinema (Ed. Rocco), o qual analisa a relação entre alguns cineastas, seus filmes e a filosofia. Particularmente gostei do livro.

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  5. O livro de Julio Cabrera, que desconhecia mas sobre o qual fiz algumas pesquisas, não me parece tratar exactamente do mesmo que o livro de Fumerton e Jeske, aqui apresentado. Este é uma introdução à filosofia através de filmes ao passo que o livro de Cabrera procura defender uma tese filosófica sobre a relação entre a filosofia e o cinema. Pelo que vi, e em minha opinião, a tese é até bastante implausível: o cinema é uma forma de filosofia.

    Num certo sentido, não só o cinema como o teatro, a literatura e até algumas conversas de café são uma forma de filosofia. Mas penso que não é este o sentido relevante para Cabrera. Sinceramente, o livro não me entusiasmou muito, mas posso estar enganado.

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