7 de junho de 2009

Desparadigmatizar


Não há um único dia em que não se apanhe pela frente alguém a pedir novos paradigmas e a exigir o abandono dos velhos. Pelos vistos, há paradigmas sobre tudo e mais alguma coisa: até ouvi recentemente um comentador desportivo falar de um novo paradigma atacante no futebol.

O que é curioso é que muitos dos que falam de paradigmas parecem pensar que estão a dizer algo importante e muito original. Contudo, mais não fazem do que participar numa espécie de bebedeira verbal. Descobriram a palavra mágica: ninguém sabe muito bem o que é isso do paradigma, mas (talvez por isso) serve para tudo. No fundo, é só uma maneira de dizer: eu tenho ideias diferentes. E acabam por ter todos a mesma ideia diferente: é preciso mudar de paradigma.

Se eu fosse um dos novos pensadores paradigmáticos, diria que estamos a viver um novo paradigma: o paradigma dos paradigmas non stop à la carte. E, para ser um paradigmático pensador paradigmático, acrescentaria que precisamos de mudar de paradigma: um paradigma sem paradigmas. Desparadigmatizar é preciso.

4 comentários:

  1. Parafraseando os anónimos do Génesis, ou John Milton, ou Marcel Proust, ou Indiana Jones and the Raiders of the Lost Ark, ‘Desparadigmatizar’ é ao fim e ao cabo a mesma coisa que ir em busca do ‘Paradigma Perdido’.

    ResponderEliminar
  2. Só depois de ter enviado o comentário é que descobri que Edgar Morin havia escrito um livro em 1973, Editions du Seuil, com o título: “Le paradigme perdu: la nature humaine”.

    ResponderEliminar
  3. Claro que num blogue de filosofia o contraponto mais rigoroso a ‘desparadigmatizar’ devia ser “The Struture of Scientific Revolutions”, escrito por Thomas Khun em 1962. Mas por malandrice ou não Khun deixou o conceito de ‘paradigma’ oculto dentro das páginas do seu livro. E para o descobrir seria preciso ler o livro pelo menos três vezes. Ora isso já seria outra conversa…

    ResponderEliminar
  4. O conceito de paradigma em Kuhn é polissémico, as suas acepções são variadas. O que já não acontece com o conceito usado de um modo mais comum. Obviamente que a «muleta» serve sempre. É quase como os «ismos» embora estes categorizem. Concordo com a opinião do colega Aires, mas sabemos que a palavra serve sempre para economizarmos. Quanto à saturação do seu uso, bom...talvez seja mais vulgarização.

    ResponderEliminar