10 de junho de 2009

História, filosofia e currículo

Ao contrário do que sugere o artigo "Filosofia e História no Currículo de Filosofia", de Dídimo Matos, a preponderância da história num currículo não se detecta pensando apenas nas quatro ou cinco disciplinas históricas tradicionais — Filosofia Grega, Medieval, Moderna, Contemporânea — mas antes no facto de em disciplinas como Ética ou Filosofia Política ou Metafísica haver uma tendência dos professores de língua portuguesa para fazer uma abordagem exclusivamente histórica — começam com Parménides ou Platão, geralmente saltam para os modernos, ignorando os medievais, e assim continuam cronologicamente. Uma graduação de filosofia poderia ser equilibrada tendo quatro ou cinco cadeiras históricas desde que as cadeiras temáticas fossem realmente temáticas e adequadamente concebidas.

Penso que há dois factores que fazem os professores de cadeiras temáticas adoptar uma abordagem histórica.

Em primeiro lugar, a concepção de filosofia que têm. Ao passo que uma pessoa com formação analítica vê a filosofia como um corpo de problemas reais, vivos, que tentamos resolver ou pelo menos explorar tentativas de solução, quem não tem formação analítica vê a filosofia como a história das ilusões do passado. A filosofia acabou-se, não é já uma actividade primariamente cognitiva; agora resta fazer a história das ilusões do passado, das mundividências dos outros, para as apreciarmos esteticamente, no seu contexto histórico, e não para as discutirmos frontalmente. Numa palavra, é a força do cientismo a fazer-se sentir, como expliquei nos meus artigos “Compreender as Críticas à Filosofia Analítica” e “A Natureza da Filosofia e o seu Ensino”.

Em segundo lugar, o desconhecimento bibliográfico. É muito fácil montar um bom curso de Ética ou Filosofia da Linguagem ou Filosofia Grega usando manuais e antologias de textos (infelizmente, quase todos em língua inglesa). Mas que professores fazem isso? Por vezes tenho a sensação de ser o único professor de filosofia de língua portuguesa a fazer tal coisa: não dou um curso de Ética ou Filosofia da Religião ou Filosofia da Linguagem com base em apenas um ou dois textos de um ou dois filósofos; pelo contrário, o que procuro é dar ao aluno uma visão abrangente de uma parte significativa dos problemas, teorias e argumentos centrais da área em causa, com alguns aprofundamentos pontuais. Ou seja, dou cursos que são radicalmente contrários à sobreespecialização comum, pois considero que o aluno tem muito a perder com ela: um aluno que estudou um ou dois autores em Ética, por exemplo, ou Estética, não só não ficou a conhecer uma parte substancial da área em causa, como nem sequer pôde compreender adequadamente os poucos filósofos que estudou porque não lhe foi dado o contexto filosófico (que é muito diferente do contexto histórico) em que esses autores desenvolveram as suas ideias — estudam um dado filósofo ou par de filósofos sem saber que as teorias deles respondem a um dado problema, que é real e não uma ilusão do passado, para o qual há duas ou três teorias alternativas. Isto impede a avaliação crítica das teorias pois sem o conhecimento do contexto filosófico (que problema filosófico está em causa?) e sem o conhecimento das alternativas teóricas (será esta teoria melhor do que as alternativas?) nenhuma filosofia se pode fazer. Talvez isto seja um factor que explica a quase ausência de pensamento filosófico original em português.

23 comentários:

  1. Desidério, além dos problemas relevantes que você levantou gostaria de acrescentar uma observação pessoal e saber sua opinião.
    Não acha que há um imenso "apelo a autoridade" em muitos acadêmicos?
    Explico: Como se uma vez que Hegel ou Heidegger (são exemplos emblemáticos para mim) disse algo, não se pode mais discutir! Quando tentei questionar alguns problemas durante as aulas, sei que podia estar dizendo algo bobo e ingênuo na visão dos meus professores (para mim isso é irrelevante, se não podemos errar num lugar de aprendizado, onde mais?) e ao invés de me mostrarem o problema do meu apontamento eu escutei coisas do tipo "Você pensa que é Kant?" ou "Você quer refutar Hume?" . Por mais pobre que fosse o apontamento achei decepcionante a reação. E no fim das contas que mal haveria se de fato eu tentasse refutar um filósofo famoso? Que mal? Não posso? É errado? É impossível?
    Apenas a teimosia me impede de fazer apenas um papel figurativo na sala.

    Abraço

    Barbara Pádua

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  2. Sim, isso ocorre muito quando os professores não têm formação analítica ou têm uma formação analítica deficiente. Em ambos os casos, a motivo é simples de entender: o professor não sabe avaliar se uma dada objecção ou contra-exemplo ou argumento ou análise está bem feita ou não, porque não tem formação para isso; refugia-se então nesse tipo de reacção porque tem medo de estar a sancionar uma palermice sem seriedade académica. Se, pelo contrário, um aluno repetir mais ou menos o que escreveu uma autoridade qualquer, sobretudo morta e de língua estrangeira, o professor sente-se confortável na convicção de que não pode estar a fazer figura de palerma sancionando ideias parvas. Caso o professor não tenha estas inseguranças, ao invés de oprimir o aluno com esse tipo de reacção, faz exactamente o oposto: estimula o aluno a pôr em causa tudo, incluindo as ideias do próprio professor.

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  3. Porém, para encetarmos uma análise à filosofia de Descartes é necessário conhecer o processo filosófico de Descartes. De igual modo, quando afirmamos que «penso, logo existo» revela que o espírito é primeiramente conhecido do que o corpo, à luz de um ponto de vista holístico este pressuposto é ridículo. Então pergunto, o que é importante, criticar um autor que, apesar de se inscrever num contexto filosófico concreto, está errado, ou conhecer em profundidade a filosofia desse autor para, depois, investigarmos o seus argumentos?

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  4. Caro Desidério, a ausência de respostas para questões colocadas por alunos ou a imposição do argumento de autoridade para fazer vingar a posição de um filósofo ou a própria não reflecte uma deficiência na formação analítica, como vem defendendo a espaços, mas antes uma grave deficiência na formação filosófica do professor, e ainda de uma profunda incompreensão daquele que é o cerne de qualquer reflexão e, particularmente, da reflexão de carácter filosófico, ou seja, o questionar. Apresentar um ou dois filósofos como exemplos ou representantes de determinadas formas de abordar problemas pode ser útil, dado que, ao contrário do que diz e do que me é dado testemunhar, a verdade é que muitos dos ditos filósofos que hoje abordam os problemas da ética, para dar um exemplo, ganhariam e muito se tivessem um conhecimento menos superficial de Aristóteles, de Kant ou de Hume, apenas para dar alguns exemplos, pois mesmo alguns daqueles cujo trabalho é reconhecido pelos seus pares como reflectindo os problemas e não a história dos problemas filosóficos dizem barbaridades tais que deveriam ter vergonha do que publicam. Basta olhar para a quantidade de artigos disponíveis numa qualquer base de dados ou para livros que pretendem criticar o pensamento deste ou daquele sem perceberem sequer qual é o centro dos problemas (a Bioética é uma área em que isso é notório), ou ainda para essas antologias de que tanto gosta e que, na sua maioria, são apenas reveladoras do fraco nível que a reflexão filosófica tem nos dias de hoje. Ao invés, publicam ainda mais, devido a uma abordagem da filosofia que é superficial e que faz passar a falta de erudição por uma certa prática filosófica e por uma exigência meio encapotada de aplicabilidade dos resultados da reflexão, pontuada por uma agressividade e por uma formalidade de exposição que pode até forçar consensos a uma primeira leitura, mas que se revela de fraca qualidade para quem conhece ou se esforça para conhecer a filosofia e, necessariamente, pelo menos parte da sua história.

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  5. A respeito da sua posição acerca da formação analítica. Uma formação analítica, lato sensu, é o que uma formação filosófica confere, pelo menos aos que encaram a filosofia com seriedade, e não a chave para entrar numa espécie de região do Ser a que só os iniciados num determinado tipo de filosofia e da sua abordagem aos problemas podem aceder (seja analítica ou continental), como parece ser o caso não da dita filosofia analítica, mas de muitos daqueles que a defendem, como se ela precisasse de ser defendida (ninguém a ataca, não é verdade? Aliás, há uma cada vez maior integração dos instrumentos por ela desenvolvidos mesmo nas abordagens ditas continentais, pois a filosofia, quando bem feita, trata de integrar e não de excluir). A sua formulação aponta para um maior valor da formação analítica, mas, no fundo, nada diz. Ah, já sei! Está ancorada naquela ideia da abordagem fundamentalmente cognitiva, ao invés de uma abordagem de cariz estético. Eu conheço os dois lados desta barricada que vem tentando erguer e posso garantir-lhe que nada há de mais falso do que tal posição. Ninguém anda a tentar intuir Deus ou a ser o lugar de uma qualquer epifania. A única questão é que é necessário ter uma 'formação analítica' (isto é, filosófica) para perceber aquilo de que se está a falar em cada caso, assim como é necessário ter uma 'formação analítica' (a saber, filosófica) para perceber o que dizem Wittgenstein, Frege, Russel ou Quine. Trata-se da interiorização de um ethos filosófico, e não de uma especificidade de qualquer região da Filosofia. Por exemplo, se lhe disser que Feuerbach, na Essência do Cristianismo, discute, entre muitas outras, uma questão política muito relevante para o seu tempo e, em certa medida, também para o nosso, a saber, a questão do fundamento da soberania, recorrendo a uma linguagem teológica para o efeito devido à situação política em que se encontrava e que poderia ser prejudicial para a sua própria vida, vai continuar a achar que quem o lê procura algum tipo de fruição estética, ou que só aqueles com formação analítica, de acordo com a sua perspectiva, alcançam os elementos cognitivos da formulação feuerbachiana do problema? Podem até dizer que não podemos mudar o conceito de cognição para se adequar às nossas posições, como já vi por aqui (não por si, mas por outros). Mas isso é uma falsa questão. A ideia de cognição que apresentam é, também ela, discutível nos seus fundamentos e, não sendo absolutamente verdadeira (pelo menos, será sempre questionável), não exclui todas as outras. Aliás, esse argumento aponta para uma petição de princípio e para a obrigatoriedade de que todos os que quiserem participar na discussão, o fazerem nos vossos termos, independentemente da sua validade. Ora, isso é justamente aquilo que me parece que não defendem, o Desidério em particular. Por outro lado, a questão estética. A ideia de formalidade, a ideia de resposta mais completa aos problemas, a própria abordagem às questões respondem, senão totalmente, pelo menos em parte, a uma decisão também ela de carácter estético a respeito da filosofia e dos seus problemas, para além de um posicionamento de carácter cognitivo. Se até a Física obedece, em certos momentos, a critérios estéticos, seria algo pretensioso defender que a Filosofia não está imbuída de uma certa esteticidade (se é ou não desejável eliminar essa esteticidade é uma outra questão. Kant, na Crítica do Juízo, procurou justamente fundamentar na estética uma questão central da filosofia, a da possibilidade da universalidade no particular, por intermédio do conceito de exemplo).
    Relativamente à sua resposta à questão que lhe colocaram: a generalização a partir de casos particulares, quando feita de forma grosseira como a que aqui podemos testemunhar, não é apenas uma caso de má formação analítica ou filosófica. Torna-se num caso de má fé.

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  6. Caro Miguel, não me parece que as duas maneiras de fazer filosofia sejam conciliáveis. O que você considera destituído de qualidade, eu considero que tem qualidade porque uso critérios diferentes. O que eu considero que tem qualidade você considera que não a tem, porque usa critérios diferentes.

    Não contribui para um bom ambiente desatarmos a falar de “boa filosofia”, sem qualificações, porque o resultado disso é que você dirá que, segundo os seus critérios, o que eu publico é mau; e eu direi que o que você publica é mau. Parece-me preferível assumir que se trata de duas maneiras muito diferentes de encarar a filosofia. Não vejo mal algum nisso, pois considero que a liberdade académica é um valor fundamental: cada professor deve poder publicar, ensinar e investigar como considerar genuinamente melhor.

    Vejamos um exemplo: você critica a minha visão do que é um curso de graduação de qualidade, pois não vê qualquer interesse num conhecimento amplo dos problemas, teorias e argumentos centrais da disciplina em causa (Estética ou Filosofia da Linguagem ou seja o que for). Nada vê de errado em um aluno terminar um curso de graduação em Filosofia da Linguagem ou Estética e conhecer apenas algumas ideias centrais de um ou dois autores. Eu aceito que, segundo a sua concepção de filosofia, isto nada tem de errado. E respeito isso. Jamais me passaria pela cabeça interferir na sua prática ou argumentar que é ridiculamente má.

    Mas isso é precisamente o que você está a fazer sub-repticiamente com a minha posição, insinuando que ela é falha de erudição, que fazendo as coisas como eu faço o aluno não fica a conhecer coisas essenciais, e que a minha abordagem pedestre falseia a filosofia, não dado ao aluno acesso a algo que você considera importante. Eu sei que você pensa isso, mas eu não penso — e nenhuma quantidade de argumentação e análise cuidadosa poderá resolver esta diferença porque ela resulta de concepções completamente inconciliáveis da própria filosofia. Tudo o que podemos fazer é respeitar as nossas maneiras diferentes de trabalhar. E depois cabe aos alunos optar pela abordagem que preferirem.

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  7. Estarei a ser injusto? Talvez. Eu sei que muitos colegas que não têm formação analítica ficarão surpreendidos com a minha afirmação de que eles não encaram a filosofia cognitivamente, pensando até que é má-fé da minha parte. Mas não é má-fé. Posso estar errado e estar a ser injusto, mas não é má-fé; não tenho interesse algum em alimentar guerras; acontece que esta é a única maneira que tenho de dar sentido ao modo não analítico de fazer filosofia, depois de anos de exposição a ela. Porque se essa maneira de fazer filosofia for entendida de um modo primariamente cognitivo, então é profundamente desadequada dadas as metodologias favorecidas: comentário de texto, rendilhados textuais, apreciação estética dos filósofos, religiosidade textual, desprezo pela racionalidade, pela verdade e pela lógica, pela argumentação cuidadosa e pelo pormenor sofisticado — nada disto é compatível com uma abordagem primariamente cognitiva da filosofia. O que se passa, penso, é que as pessoas pertencem a uma tradição filosófica que vê a filosofia acognitivamente sem que elas mesmas tenham muita consciência disso. Por exemplo, a extrema importância dada à história da filosofia pelos colegas que não têm formação analítica resulta precisamente do seu interesse cognitivo; mas ao mesmo tempo denuncia a ideia central: que a filosofia, em si mesma, despida da sua história, não pode ter interesse cognitivo — só a sua história o tem.

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  8. Paula, mas como sabes que Descartes está errado? Cá está o aspecto de que eu falo. Para quem não tem formação analítica, as ideias nunca são levadas a sério, excepto se forem as nossas próprias ideias mais queridas. Do ponto de vista analítico leva-se a sério a ideia de Descartes de que temos uma alma incorpórea, e discutimos os argumentos contra e a favor desta ideia. Do ponto de vista não analítico a concepção de Descartes é vista como obviamente errada porque não é a nossa e agora só resta apreciá-la, relacioná-la com o seu tempo histórico, etc., mas não faz sentido algum levá-la a sério e discutir os argumentos a favor e contra tal posição.

    Lembro-me perfeitamente de uma aula sobre o Fédon de Platão em que isso acontecia claramente: o professor não estava minimamente interessado em levar a sério os argumentos de Sócrates a favor da ideia de que temos uma alma imortal; para ele, esses argumentos eram irrelevantes; o que contava era ver como uma certa ideia de psyche se estava a desenvolver na cultura grega.

    Isto resulta da ideia de que a filosofia em si, que é o que Platão está a fazer ao argumentar que temos alma, não pode ter interesse cognitivo — é meramente um reflexo da cultura do seu tempo ou de qualquer outra coisa, não devendo ser discutido nos seus próprios termos, mas apenas apreciado historicamente, ou esteticamente, ou seja o que for.

    Deste modo, a filosofia deixa de ser uma análise e discussão das nossas ideias fundamentais, pois tal discussão é vista desde logo como inútil por não haver uma maneira científica de decidir se há ou não alma imortal, por exemplo; por isso, cada qual tem as suas ideias, que pertencem ao seu tempo, e depois é levado a aceitar ou rejeitar estas ou aquelas ideias não em função de argumentos ou análises, mas porque tais ideias lhe são queridas ou são expressão do seu tempo ou são edificantes ou são bonitas. Não vejo mal algum nisto, repito. Apenas não é assim que se encara a filosofia quando se tem formação analítica. Nada mais. Cada qual faz o que preferir.

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  9. Caro Desidério, espero que se dê conta que está a afirmar que eu disse o que efectivamente não disse, desviando a atenção do que verdadeiramente interessa. Eu não defendi a boa filosofia em detrimento da má, ancorado em critérios pessoais, como quer dar a entender. Também não fiz qualquer referência nem avaliação acerca das suas publicações, que sinceramente desconheço, para além do que é possível ler aqui. Acrescento que não disse que deveríamos abandonar uma visão da filosofia como contendo e propondo problemas, em favor de uma visão que privilegia os autores e uma abordagem fragmentada do horizonte filosófico. Por outro lado, não fiz qualquer referência à sua falta de erudição ou não, pois não entro em argumentações ad hominem, aliás seguindo aquilo que são as regras impostas à participação neste blogue. Digo até que basta consultar uma qualquer base de dados para confirmar o que pretendo dizer. A má-fé a que me refiro não diz respeito à suposta formação analítica, cognitiva e afins que pretende fazer passar por verdadeira filosofia, no fundo nada dizendo acerca do filosofar ele mesmo. Refiro-me à resposta que dá à questão colocada no primeiro comentário, e só a ela. No entanto, a sua resposta ao meu próprio comentário mostra que, na ausência do tal ethos filosófico de que eu falava, cada um pode ler o que quiser e dizer o que bem entender, seja acerca do ser dos entes, seja acerca de propriedades de primeira ou de uma qualquer outra ordem. O que está em causa não é o facto de discordar do que digo, o que é saudável e, em certa medida expectável. Está aqui em causa a apresentação de razões meramente demagógicas e sectárias que procuram passar por razões filosoficamente fundadas. Parafraseando o outro, filosofar é como nadar: ninguém o pratica a teorizar sobre como se pratica, mas simplesmente praticando-o, que é um modo de pensar o próprio método filosófico. E acrescento: também não se justifica pelo número dos que nos seguem e concordam connosco, mas antes pela qualidade dos argumentos dos que discordam.
    Cara Paula, o meu comentário vai exactamente no sentido de responder à sua questão com a afirmação de que ambas as coisas são fundamentais para um bom trabalho filosófico.

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  10. Uma última nota. Para quem se assume como um crítico do pós-modernismo e do relativismo que o acompanha, não posso deixar de sublinhar a sua surpreendente posição acerca da filosofia. Afinal, se cada um faz filosofia como bem entende - o que é bom, pois é uma manifestação de liberdade - sem que seja possível um diálogo acerca da qualidade da filosofia produzida devido à ausência de critérios partilhados, sendo que cada um tem os seus, estamos ou não diante de uma posição relativista e, até, de um relativismo extremo, que importa para o espaço filosófico um certo relativismo cultural que vigora por aí, como se tudo fosse igualmente bom, dependendo de quem olha? Se seguirmos o que está implícito à sua proposta, teríamos que encontrar maneiras de repensar a ética, do ponto de vista filosófico, de acordo com critérios e interesses individuais ou sectários, inviabilizando o diálogo entre interesses ou finalidades opostas. O único problema é que, se assim for, não há lugar para a ética neste mundo. O mesmo para a filosofia e todas as outras áreas do saber, que se tornam mera opinião mais ou menos apoiada nas legiões de seguidores que conseguirmos angariar, vingando de acordo com critérios quantitativos, e não qualitativos. Não julgue que se trata aqui de um apelo à censura ou à proibição de publicação do que quer que seja, como dá a entender na sua resposta, mas antes a constatação de que o diálogo é fundamental, mesmo, ou talvez principalmente, na filosofia.

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  11. Caro Miguel, da minha posição não se segue qualquer relativismo cognitivo. Apenas afirmo que a argumentação não é possível porque quem vê a filosofia como uma prática primariamente cognitiva parte de pressupostos completamente diferentes de quem não a vê desse modo. Mas eu não disse de modo algum que ambas as partes da disputa têm razão. Penso que não têm ambas razão, mas reconheço que vários motivos há que tornam impossível o consenso ou até o debate.

    Esclareço também que não estou de modo algum interessado em provar ou argumentar a favor da filosofia analítica, nem defendo que a filosofia analítica é um paraíso e a filosofia que não é analítica é um inferno. O meu único objectivo é tornar completamente claro que há duas concepções muito diferentes de filosofia. Eu assumo o ahistoricismo e o carácter redutor e tudo isso que as pessoas que não têm formação analítica atribuem à filosofia analítica. Ou seja, começo logo por assumir que é verdade que a filosofia analítica tem propriedades que quem não faz filosofia dessa maneira considera desprezíveis, tolas e redutoras. E não estou a fazer o jogo contrário, tentando mostrar que a filosofia que não é analítica é má por isto ou por aquilo. Só estou a tentar explicar o que separa estas duas maneiras de fazer filosofia. Não se trata de tentar argumentar a favor de uma ou de outra, mas de compreender os pressupostos diferentes que enformam uma e outra.

    Também não me parece que apesar de todas as diferenças não seja possível traçar alguns critérios básicos de qualidade académica que sejam comuns. Isso é possível e isso é feito. Mas haverá sempre momentos em que eu considero um artigo ou um trabalho de um aluno muitíssimo bom, e um colega meu sem formação analítica considera-o terrivelmente mau — e vice-versa.

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  12. Seja-me permitido esclarecer melhor o que penso, partindo desta pergunta do Miguel:

    "Se lhe disser que Feuerbach, na Essência do Cristianismo, discute, entre muitas outras, uma questão política muito relevante para o seu tempo e, em certa medida, também para o nosso, a saber, a questão do fundamento da soberania, recorrendo a uma linguagem teológica para o efeito devido à situação política em que se encontrava e que poderia ser prejudicial para a sua própria vida, vai continuar a achar que quem o lê procura algum tipo de fruição estética, ou que só aqueles com formação analítica, de acordo com a sua perspectiva, alcançam os elementos cognitivos da formulação feuerbachiana do problema?"

    Ora bem, eu nunca defendi que quem não tem formação em filosofia analítica se limita a fazer uma fruição estética dos textos filosóficos. O que eu disse é que isso é uma das coisas que se fazem quando não se tem formação analítica; e não há mal nisso, pois cada qual faz com a filosofia o que lhe apetecer.

    Agora releia-se a pergunta do Miguel. O que está em causa é um interesse primariamente cognitivo nas teorias e argumentos de Feuerbach? Sim, num certo sentido: no sentido em que historicamente há algo a aprender naquele texto. Ele está a posicionar-se perante o seu tempo, há condicionantes que é preciso conhecer para compreender por que razão ele faz assim em vez de assado, etc.; e até há alguma relevância no que ele diz para o nosso tempo. Todos estes interesses são inegavelmente cognitivos — mas não são filosóficos; são interesses históricos. O interesse filosófico primário não é o cognitivo e o interesse cognitivo não é o filosófico. O interesse filosófico primário para um analítico como eu é só este: os argumentos dele funcionam ou não? A teoria dele é plausível ou não? E porquê? O contexto histórico e tudo isso é para mim meramente instrumental; só me serve para eu poder analisar os argumentos e teorias do autor. E estou-me nas tintas se no tempo do autor aquela teoria e aquele argumento era visto como plausível ou não, pois isso é filosoficamente irrelevante.

    Quem não tem formação analítica vê isto como idiota. E é. É idiota se pensarmos, como é óbvio para quem não tem formação analítica, que a filosofia é irredutivelmente uma manifestação histórica. Quem pensa que um argumento não é válido ou inválido independentemente do tempo histórico em que é apresentado; quem pensa que uma teoria não é verdadeira ou falsa independentemente do seu contexto histórico, considera a atitude analítica pura e simplesmente absurda e até difícil de entender. Como explicar isto? Porque há pressupostos inconciliáveis. Daí que mil exemplos de filósofos analíticos que são ao mesmo tempo historiadores da filosofia nunca poderão dar a quem não tem formação analítica a ideia de que os analíticos não são tolamente ahistóricos na sua abordagens e discussões. Porque a verdade é que o somos, num certo sentido. Acreditamos, por exemplo, que uma qualquer versão do argumento ontológico de Anselmo vale por si mesmo, independentemente do seu contexto histórico, e pode ser avaliado e discutido por si mesmo, independentemente de considerações históricas.

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  13. Caro Desidério, repare na qualidade da sua defesa do seu pressuposto. Continua a afirmar que há essa divisão entre prática cognitiva e um outro tipo qualquer, que eu desconheço. Não discuto a distinção, discuto, isso sim, a sua apropriação principial do lado da distinção - o cognitivo - que subrepticiamente atribui aos restantes o papel de palermas a olhar para o Ser, sem que lhes seja permitido discordar da qualidade da sua posição dita cognitiva e do modo como a define. Dito por outras palavras, o Desidério assume um preconceito acerca da restante prática filosófica, um preconceito que lhe permite ajuizar acerca do valor da mesma, excluíndo da categoria cognitiva aqueles que, por um qualquer motivo, discordam da validade do preconceito que assume sem questionar e de forma dogmática. Quando questionam o preconceito enquanto tal, a sua resposta é: 'Sim, tudo bem, cada um faz o que entende, mas quem aborda a filosofia primariamente de forma cognitiva parte de pressupostos diferentes'. O que equivale a dizer 'Sim, isso é um pressuposto, eu assumo como pressuposto e, portanto, estou autorizado a tecer considerações acerca das práticas filosóficas alheias, partindo do pressuposto que elas questionam'. Ou seja, volta tudo ao princípio, sem nenhum acrescento cognitivo, apenas uma reiteração retórica da apropriação indevida de um princípio questionável nos termos em que é exposto. Isso pouco importaria, se não estivesse encoberto por uma capa de suposta argumentação e fundamentação filosófica. Por dizermos uma coisa muitas vezes, não a tornamos mais verdade, e não é por assumirmos um preconceito que ele vai embora. Isso é um pouco como um adepto de futebol dizer 'o Benfica é que é bom porque veste de vermelho' e um outro dizer 'o Porto é que é bom porque ganha muitas competições', ao que o primeiro responde 'mas não veste de vermelho, por isso o Benfica é o maior, no universo daqueles que consideram que o vermelho é o critério definitivo para avaliar a qualidade de um clube, independentemente da sua prestação nas competições em que participa'. Para mim, o Benfica será sempre o maior - não é uma matéria filosófica, posso dar-me a esse luxo -, embora tenha plena consciência de que não será relacionando a vitória com a utilização prolongada de uma determinada cor no uniforme que impedirei outros clubes de serem vitoriosos. E isto não por terem regras diferentes das minhas e por eu reiterar as minhas até à exaustão a ver se convenço alguém, mas porque a minha concepção de vitória é só minha, o que dará alguma satisfação psicológica - ganhar é sempre bom -, mas não mudará o facto de me encontrar a festejar sozinho (o que não significa necessariamente desacompanhado).

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  14. Não subscrevo a identificação que está a fazer entre uma prática ser primariamente cognitiva e isso ser bom e uma prática ser primariamente acognitiva e isso ser mau. Está a inventar fantasmas. Nunca afirmei nem afirmo tal coisa. Do facto de uma dada prática filosófica não ser primariamente cognitiva não se segue que é má; e do facto de uma dada prática filosófica ser primariamente cognitiva não se segue que é boa. Nem falei dos "palermas que adoram o ser".

    Eu sei que é comum uma discussão azeda entre analíticos e não analíticos, mas isso não me interessa porque não compreendo sequer o que está a ser discutido. É o quê? Que quem faz filosofia analítica é palerma? Não me importo nada com isso, se o quiserem pensar.

    O meu objectivo não é, pois esse. O objectivo é apenas mostrar com clareza o que caracteriza estas duas formas de fazer filosofia, para que haja maior compreensão de parte a parte. E com isso, espero, menos azedumes e mais tolerância e melhor ambiente académico.

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  15. Desidério

    associada a essas críticas que caracterizam a fil.analítica como redutora, tenho me deparado cada vez com mais frequência com críticas, dos próprios filósofos analíticos, de que o trabalho de divulgação não possui qualquer rigor ou é apenas sucateamento do trabalho filosófico de qualidade. Estranhamente algumas pessoas que se dedicam à filosofia seriamente encaram o trabalho de divulgação como o equivalente a falta de seriedade ou superficialidade. Já conheci vários alunos promissores que desprezam resenhas, por exemplo. Parece que precisamos divulgar e explicar o óbvio nesse caso: que um trabalho de divulgação pode ser bem feito, que a maior simplicidade em um trabalho de divulgação é normal, que o trabalho de divulgação facilita a vida dos alunos de filosofia etc etc

    Só não sei dizer se tais pessoas vão ler esses textos que descortinam esses equívocos : )

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  16. Penso que pode ser dado um bom curso de Ética (ainda que introdutório e mais à frente não sei) apenas com o Elementos de Filosofia Moral e com o Ética Prática.

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  17. Concordo com você Nuno. O engraçado é que conheci alunos que estudaram ética com o texto do Rachels e que disseram que este era um picareta. Talvez uma das razões para explicar esse preconceito com relação aos manuais seja uma cultura filosófica atrasada em que tanto os professores quanto os alunos têm a sua disposição pouquíssimos manuais, quanto mais manuais de qualidade.

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  18. Matheus, uma vez mais, isso explica-se se compreendermos que esses alunos (com todo o direito) não entendem a filosofia de um ponto de vista primariamente cognitivo. Eles querem sentir coisas bonitas quando estudam filosofia: querem sentir-se maravilhados, por exemplo. O único interesse cognitivo que têm não é filosófico, é histórico: querem saber como pensavam os grandes génios do passado, no seu contexto histórico. E a sua atitude primariamente acognitivista fá-los preferir relatos históricos que os façam sentir coisas bonitas, como por exemplo a sensação de estar a penetrar mistérios eruditos profundos, só acessíveis a alguns.

    Estudar ética ao modo analítico é terrivelmente desinteressante e redutor para estes estudantes (com todo o direito), pois no estudo analítico da ética trata-se apenas de estudar os nossos problemas centrais da ética, e não os problemas do passado, e trata-se de analisar detalhadamente teorias e argumentos sofisticados, com o objectivo último de avaliar a sua plausibilidade. Para estes estudantes isto é uma chatice, pois envolve actividades que não lhes interessam minimamente: raciocínio e análise intensos, teorização brutalmente sofisticada, afastamento deliberado de jogos de palavras e efeitos literários bonitos, etc.

    Eu gostaria de contribuir para uma compreensão pacífica das duas maneiras de fazer filosofia, em vez de alimentar uma guerra que me parece absurda. Quem quer fazer filosofia de uma maneira faz, quem quer fazer da outra faz.

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  19. Pessoas diferentes têm diferentes talentos. Talvez se possa ser um bom investigador, mas um mau professor; ou um bom professor mas um mau investigador. E daí é natural que quem tem talento para X mas não para Y despreze Y e depois encontre desculpas de mau pagador. Parece-me mais honesto dizer o seguinte: “não quero fazer isso, até porque dá muito trabalho e não me interessa; mas reconheço a sua importância”. Não compreendo como é possível não compreender a importância do ensino de qualidade. Afinal, se não tivermos ensino de qualidade, jamais teremos investigadores de qualidade, filósofos propriamente ditos, com pensamento original e perfeitamente integrados na comunidade académica internacional. O ensino e a investigação influenciam-se mutuamente, o que pode gerar uma espiral de qualidade crescente, ou de degenerescência crescente: bom ensino dá origem a bons investigadores, que por sua vez dão origem a ensino ainda melhor; mau ensino dá origem a maus investigadores, que por sua vez aprofundam o mau ensino.

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  20. Passando para conhecer o blog, muito legal e com ótimo conteúdo!!!

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  21. Olá professor Desidério!

    Já li todas as publicações do Crítica na Rede. Sempre indico aos meus colegas como um bom lugar para encontrar fontes introdutórias sobre os principais tópicos filosóficos.

    Em relação ao debate analítico e continental, minha perspectiva vai totalmente de encontro com a sua. Minha formação acadêmica em Filosofia tem como foco principal de pesquisa a Epistemologia. Como estudei na PUCRS, um campus com pesquisadores analíticos, acabei também aprendendo a "apreciar" a metodologia analítica para estudar. De fato, nós analíticos, em contraponto aos continentais, temos concepções primárias distintas de se fazer filosofia. Também penso que a noção de "demonizar" o outro lado do debate é infrutífero.
    Penso que o seu último comentário foi muito feliz para expressar a essência da discussão, e volto a destacar um trecho:

    "Pessoas diferentes têm diferentes talentos. Talvez se possa ser um bom investigador, mas um mau professor; ou um bom professor mas um mau investigador. E daí é natural que quem tem talento para X mas não para Y despreze Y e depois encontre desculpas de mau pagador. Parece-me mais honesto dizer o seguinte: “não quero fazer isso, até porque dá muito trabalho e não me interessa; mas reconheço a sua importância”. Não compreendo como é possível não compreender a importância do ensino de qualidade."

    Abraço!

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  22. Novos links dos artigos:
    - http://criticanarede.com/ed142.html
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