17 de junho de 2009

O Pequeno Livro do Filósofo

Trata-se de um projecto antigo: um pequeno conjunto de máximas descontraídas, mas que ao mesmo tempo se querem profícuas, para quem quer fazer filosofia. É um livrinho, vendido em PDF, que pode ser lido antes de pagar e que pode não ser sequer pago. Está aqui.

12 comentários:

  1. Parabéns Desidério. Um bom livro para ir lendo e ir pensando.

    Uma dúvida: a negação de "Se Deus não existe a vida não tem sentido" não é antes "Se Deus não existe a vida pode ter sentido"?

    Para mim, intuitivamente e antes de ter dedicado os meus 3 meses à lógica :-), negar uma condicional é negar a relação de implicação. Pode inclusivamente aconter que Deus não exista e que a vida não tenha sentido, e ainda assim a condicional ser falsa.
    O que tu dizes é que negar a condicional passa por fixar um cenário em que a condicional com um todo é manifestamente falsa.

    Por exemplo. Negar "se não tens aquário és homossexual" não é dizer "tu não tens aquário e não és homossexual". Parece-me que deverá ser "se não tens aquário, podes ou não ser homossexual" (que mais não é do que anular qualquer relação de "causa efeito" ou implicação).
    O que me parece que acontece no teu exemplo é que o cenário que apresentas (Deus não existir e a vida tem sentido)é um contra-exemplo da condicional, e só por si provaria que ela é falsa. Mas não me parece que seja a expressão correspondente à negação da condicional.

    Sublinho mais uma vez que ainda não dediquei os meus 3 meses à lógica, mas dediquei o suficiente para saber que aquilo que é intuitivo nem sempré é lógico.

    Quanto ao exemplo do aquário, vem de uma anedota a respeito da lógica que aprendi quando andava na primária!

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  2. A negação é mesmo a que digo, apesar de não ser isso que intuitivamente as pessoas pensam. A negação de "se P, então Q" é "P e não Q". Isto porque a negação de uma proposição tem de ter o valor de verdade oposto: a proposição de partida e de chegada nunca podem ter o mesmo valor de verdade. Ora, "Se P, então Q ou não Q" não pode ser a negação da condicional original porque são ambas verdadeiras, caso P seja falsa.

    Note-se que estou a usar a condicional clássica, tal como se usa em filosofia, lógica e matemática; mas há muitos exemplos do uso da condicional na nossa conversa quotidiana em que não usamos a condicional clássica.

    A condicional clássica tem as seguintes condições de verdade: só é falsa quando a antecedente é verdadeira e a consequente falsa.

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  3. Saudações!

    Se me é permitido meter a foice em seara alheia, acho que não há confusão entre condicional clássica e "condicional quotidiana".

    "Por exemplo. Negar "se não tens aquário és homossexual" não é dizer "tu não tens aquário e não és homossexual". Parece-me que deverá ser "se não tens aquário, podes ou não ser homossexual" (que mais não é do que anular qualquer relação de "causa efeito" ou implicação)."

    Parece-me que há confusão entre os conceitos de implicação e de relação causa-efeito.
    Ao dizermos que "P implica Q", não estamos a dizer que P causa Q. Estamos apenas a dizer que sempre que P acontece, também acontece Q. Assim sendo, para negar esta condicional, basta dizer que há um caso em que isto não se verifica, isto é, em que P acontece e Q não.

    Uma coisa diferente é dizer que "P causa Q". Isto significa que há uma qualquer propriedade em P que vai causar, seja lá o que isso for, Q.

    No fundo, o que digo é que correlação é diferente de causa. A implicação exprime a correlação. Assim sendo, para a negar, apenas indico um caso em que a correlação não se verifica.

    No nosso dia-a-dia, usamos muito mais vezes o conceito de causa do que o de implicação. Por isto, poderá parecer que há contradição entre a lógica clássica e a quotidiana, mas não me parece que assim seja.


    Cumprimentos!

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  4. Caro João Pedro

    discordo de você. De fato a denominação "implicação material" para o operador da condicional clássica tem causado confusões, pois nos leva a pensar que o P implica Q da lógica clássica é como o P causa Q do uso cotidiano. Mas mesmo que abandonemos o uso do termo por outro, como condicional material, por exemplo, isso ainda não elimina as confusões e incompatibilidades entre a condicional da lógica clássica e a condicional cotidiana. Ao dizer "Se sou português então sou brasileiro" estou afirmando uma condicional que é falsa, pois exprime uma conexão geográfica incorreta. Mas de acordo com a lóica clássica o que eu disse é uma condicional verdadeira porque o antecedente (Se sou português) é falso.

    Há inúmeros outros exemplos desse tipo que mostram as incompatibilidades entre lógica clássica e a linguagem natural. E é natural que isso ocorra, pos a lógica classica foi criada com propósitos específicos sem a pretensão de captar todos os aspectos da linguagem natural. O que ela faz é um cálculo verofuncional a partir das partes da condicional (indiferente ao que é dito) e não pode mais do que isso: se tivéssemos uma lógica capaz de avaliar o conteúdo de cada condicional isto não seria uma lógica, mas um inventário enorme de casos. Consegui ser claro? O que me diz?

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  5. Caro Matheus,

    Obrigado pela resposta.

    "Ao dizer "Se sou português então sou brasileiro" estou afirmando uma condicional que é falsa, pois exprime uma conexão geográfica incorreta."

    Certo.

    "Mas de acordo com a lóica clássica o que eu disse é uma condicional verdadeira porque o antecedente (Se sou português) é falso."

    A condicional é verdadeira se e só se sempre que se verifica "Se sou português" também se verifica "sou brasileiro". Se isto não acontecer, é falsa. É este o critério disponível para avaliar o valor de verdade das condicionais.
    Mas a lógica não estuda o valor de verdade de premissas ou de outras proposições. Por isso, discordo quando diz "Mas de acordo com a lóica clássica o que eu disse é uma condicional verdadeira".

    Acredito que haja vários casos em que a "lógica quotidiana" divirja da lógica clássica. Fui precipitado no que disse. O que queria dizer era que naquela caso do Jaime me parecia que isso era falso e que a objecção do Jaime "negar uma condicional é negar a relação de implicação" serve para relações de causa e não para relações de implicação. Isto porque a implicação se refere meramente a uma coisa se suceder sempre a outra, enquanto que o conceito de causa se refere a uma dada propriedade em P que de certa forma origina Q. Negar a tal relação de implicação (suponhamos P implica Q) é precisamente dizer que há pelo menos um caso em que P acontece e Q não.

    Cumprimentos!

    P.S.: Esqueci-me de dizer que gostei muito de ler o texto do Desidério.

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  6. (p implica q) é equivalente a (não p V q) - vejam a tabela de verdade se precisarem. Por isso, a negação de uma implicação é equivalente a (p & não q), por De Morgan. Ou seja, sem tirar nem pôr, claro, é como o Desidério disse.

    Ricardo Miguel

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  7. Isto é um "gift" interessante do Desidério.
    Parabéns...

    :-)

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  8. "A condicional é verdadeira se e só se sempre que se verifica "Se sou português" também se verifica "sou brasileiro". Se isto não acontecer, é falsa. É este o critério disponível para avaliar o valor de verdade das condicionais."


    Caro João

    a lógica clássica possui uma semântica com tabelas de verdade que especifica claramente os casos em que uma condicional é verdadeira e os casos em que é falsa. Uma condicional só é falsa no caso em que a antecedente é verdadeira e a consequente é falsa, nos demais casos é verdadeira. Isso tem como consequência os conhecidos paradoxos da condicional material, pois uma condicional com antecedente falsa é verdadeira.


    "Mas a lógica não estuda o valor de verdade de premissas ou de outras proposições. Por isso, discordo quando diz "Mas de acordo com a lóica clássica o que eu disse é uma condicional verdadeira".

    A lógica clássica utiliza a noção de valor de verdade em sua semântica, que inclusive é fundamental para compreender a noção de validade dessa mesma lógica: uma forma argumentativa é válida quando é impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.


    Cumprimentos!

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  9. Caro Matheus,

    Tem razão. Estava-me a esquecer das tabelas de verdade. Obrigado pela explicação.

    De qualquer das formas, o que queria dizer era que a implicação é diferente da causalidade e no nosso dia-a-dia usamos muito mais o conceito de causalidade. Por isso me parecia, à primeira vista, que não havia conflito entre condicional material e aquela condicional que usamos no nosso dia-a-dia.

    Cumprimentos!

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. O livro é excelente. Porém, não se pode indicar para os alunos secundaristas brasileiros. Isso por que os governantes do país transformaram a escola num campo de guerra de todos contra o professor. Todas as responsabilidades são dele. E se ele, por exemplo, disser que os filósofos levaram décadas para amadurecer suas ideias, o aluno usará isso para dizer que o professor quer que eles façam o que nem os filósofos conseguiram: amadurecer uma ideia em dois meses. Acusação que será prontamente aceita pelos pedagogos e direção.

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  12. O novo link do livro: http://criticanarede.com/plf.html

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