13 de junho de 2009

Onde pára a filosofia?

Tenho ao meu lado um livro das edições Sebenta com testes de filosofia do 10º ano e respectivas resoluções. Na capa do livro diz-se que é "fundamental para ter boas notas" em filosofia. Abri o livro ao acaso na página 79, onde encontrei o teste nº 23. Ei-lo:

1ª Questão

Diga o que entende por poluição. Dê exemplos.

2ª Questão

Dê exemplos de actos que contribuem para a preservação do ambiente.

3ª Questão

Que organizações ecologistas é que conhece?

4ª Questão

Relacione a crise ecológica com o consumismo.

5ª Questão

"Princípio 1
Os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável e têm direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia com a Natureza".
Conferência das Nações Unidas sobre o ambiente e desenvolvimento

Comente o texto, referindo a articulação necessária entre desenvolvimento e defesa do ambiente.

Onde pára a filosofia? Alguém me consegue dizer? E depois admiram-se que haja quem ache dispensável a disciplina de filosofia no secundário. Pudera, com amigos assim a filosofia não precisa de inimigos.

17 comentários:

  1. Infelizmente é o que pedem em algumas disciplinas (penso que) recentemente inventadas, nomeadamente nos cursos profissionais. Mas na disciplina de filosofia isso é inadmissível porque isso simplesmente não é filosofia.

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  2. Aires,
    Com os anos tenho percebido que a realidade do disparate não é exclusiva da filosofia, mas transversal a praticamente todos as disciplinas de ensino. Já pegaste em livros de biologia ou física do secundário? São centenas de páginas com história da biologia ou história da física. E, já agora, também arrisco uma que pode ser mais um disparate, agora um meu: muito provavelmente na filosofia ainda há quem se queixe. Talvez pouca ou nenhuma pessoa se queixe nas outras disciplinas.
    Outra nota: há um manual que faz essa abordagem que viste no exemplo dado. Se calhar o autor é o mesmo.

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  3. Se as perguntas são assim não quero imaginar as respectivas resoluções. Só falta mesmo as respostas serem altamente 'profundas'.

    Será que tamanho disparate existe mesmo noutras disciplinas? A questão aqui, julgo eu, nem é a falta de qualidade ou história da disciplina em vez da própria disciplina. A questão aqui é que as perguntas não acertam no alvo.


    Ricardo Miguel

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  4. Este tipo de mau ensino ocorre em todas as disciplinas -- da matemática à história. Mas na filosofia a frequência é maior. Isto porque algumas pessoas que não têm uma concepção primariamente cognitivista da filosofia entendem a filosofia como cultura geral. E, como tal, tudo é filosofia. Quem entende a filosofia assim pensa que faz pleno sentido em filosofia este tipo de perguntas e os conteúdos associados. Na verdade, pensa até que é deste modo que a filosofia se “relaciona com a vida”. A chatice disto é que os alunos que ficam limitados a esta perspectiva da filosofia ficam com uma ideia errada da filosofia; apesar de haver quem conceba a filosofia assim, acognitivamente e como cultura geral, há quem a conceba como uma disciplina que trata de problemas, teorias e argumentos próprios, que não consistem em apropriações generalistas de outras disciplinas.

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  5. Apercebi-me agora que a pergunta correcta do post deveria ser "Onde Começa a Filosofia?"

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  6. Rolando, isto é pior do que história da biologia nas aulas de Biologia e do que história da física nas aulas de Física. O que vemos neste teste não tem a mais vaga relação com a filosofia. É, aliás, a negação do tal "lugar crítico da razão" que se diz ser a filosofia. E se lesses as respostas ainda ficarias mais esclarecido. Em suma, isto envergonha a filosofia.

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  7. É isso, Ricardo. Eis algumas respostas:

    1ª Questão

    . Entende-se por poluição a contaminação ou infestação do ambiente por produtos nocivos à vida sã.

    . Por exemplo, a poluição dos rios graças às várias indústrias, aos esgotos e as próprias pessoas que deitam lixo nas águas e nas margens dos rios, provocando assim a degradação do ambiente e o desaparecimento de várias espécies animais.

    2ª Questão

    Todos nós, no nosso dia-a-dia podemos proteger o ambiente, por exemplo, podemos reciclar o lixo, não deitar lixo fora dos sítios adequados para o mesmo (incluindo beatas), não utilizar aerossóis, utilizar materiais recicláveis, etc.


    3ª Questão


    Existem várias organizações ecologistas, entre elas e talvez as mais conhecidas, temos a Greenpeace e no nosso país a Quercus.



    Bom, fico-me por aqui. Isto é simplesmente infantil e não vejo por que razão são precisos professores de Filosofia para ensinar isto. Acho que o meu filho de 12 anos poderia dar aulas de Filosofia assim.

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  8. Desidério, "onde pára a filosofia?" no sentido de "onde está a filosofia?" e não no sentido de "onde termina a filosofia?"

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  9. Só queria acrescentar mais uma nota. A concepção do ensino da filosofia aqui subjacente (e que encontra paralelo também em outras disciplinas, como refere o Rolando) é já uma consequência marcante de uma ideia peregrina, muito cara ao chamado "eduquês" que nos comanda: a ideia da educação para a cidadania. Pensa-se que isto é que é formar bons cidadãos. Na verdade não passa de uma forma eficaz de infantilizar os jovens, tornando-os acríticos e idiotas.

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  10. Sim, banaliza-se o "lugar crítico da razão" logo onde ele menos se devia banalizar, nas escolas. Há outras versões curiosas do "lugar crítico da razão". Uma delas consiste em pensar que se deve ser do contra, uma espécie de raiva contra o mundo. É aliás uma posição subtil porque dá ares de que se está a criticar alguma coisa, quando na verdade o que se está a fazer é pouco mais do que dizer mal por dizer mal.Contra isso o melhor a fazer é o esforço na prática de um bom ensino. O problema disto é quando tudo isto se passa contra o sistema montado. Nada de especial já que as boas coisas acontecem sempre num ambiente com uma boa dose de conservadorismo. Mas não há necessidade de se descer tão baixo. Pode-se ser mais exigente em matéria de ensino e é verdade que em Portugal temos boas condições para sermos mais exigentes, mas nem sempre o fazemos. Assim o esforço, sendo sempre possível, é ainda maior.Tenho defendido que um dos maiores obstáculos é a centralização do poder, mas por outro lado sempre que há sinais de descentralização, a banalização parece aumentar ainda mais. Isto é sinal de uma cultura ainda insuficiente e pouco madura em termos de conhecimento, saber e ciência. Não será porventura a pior do mundo, mas temos já condições para exigir um pouco mais.

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  11. Saudações!

    Para mim, o efeito deste tipo de ensino é assustador.
    Ainda há um ano, eu, jovem ingénuo e ignorante, dizia muito revoltado: "Filosofia é disciplina de maricões! É só decorar coisas parvas e inúteis." Se me referisse apenas às minhas aulas de Filosofia, não estava muito enganado.
    Acho que posso dizer sem exagero que o estado da Filosofia no Ensino Secundário é catastrófico. Pelo que conheço dos professores da minha escola, parece-me que este ensino desprezível (a Não-Filosofia) é a regra e não a excepção.

    Digo isto, pois as aulas de Filosofia têm tudo de mau e nada de bom. Nem sequer se põe o problema de encarar a filosofia como uma área com interesse estético e não com interesse congnitivo. O que se passa no Secundário é que até os professores admitem inconscientemente que a filosofia não tem interesse nenhum. Para não se cair no subjectivo (que para o professor de Não-Filosofia comum é sempre que se argumenta) ensina-se definições de coisas do senso-comum que toda a gente já conhece e pede-se ao aluno que enuncie as teorias filosóficas que estão no programa, que respondem não se sabe bem a quê, nem se sabe quais preferir. Nem isto interessa, porque para o Não-Filósofo estas teorias não interessam verdadeiramente. Porque o Não-Filósofo não sabe muito bem o que é a filosofia. Sabe que lhe dá o ordenado ao fim do mês. E isso basta-lhe. O problema nem está na maneira como se encara a filosofia. O problema é que ela não é encarada. Ensina-se uma espécie de ciência social, com geografia e português à mistura: a Não-Filosofia!

    Assim sendo, considero que era melhor que eu não tivesse tido filosofia no secundário, pois as aulas são anti-filosóficas. O saldo filosófico é negativo. Quando assim é, é preferível que seja zero.
    Se não houvesse conhecido a Crítica, ter-me-ia acontecido o que acontece a muitos meus colegas: nunca teria sabido o que é a filosofia. Nunca teria lido os livros de divulgação que li e seria hoje muito mais ignorante. Pior: nunca teria conhecido uma forma de pensar divergente da ideologia do “eduquês” personificada no Não-Filósofo. Imaginem se isto vos tivesse acontecido quando eram jovens. Assustador, não é? Assim se vai mantendo a mocidade ignorante e subserviente!

    Cumprimentos!

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  12. A mim aconteceu-me o mesmo que te aconteceu a ti, João. Por isso fiz a Crítica; porque gostaria de não ter perdido tanto tempo quando tinha a tua idade, e não teria perdido tanto tempo se tivesse conhecido mais cedo uma abordagem primariamente cognitiva da filosofia. O objectivo do meu trabalho como professor e como divulgador e educador é dar a conhecer um tipo de filosofia primariamene cognitiva que quase não tem expressão nas universidades e no ensino secundário, para que os alunos possam verdadeiramente escolher uma ou outra abordagem. Sem esta informação, não há verdadeiramente escolha: as pessoas limitam-se a fazer o único tipo de filosofia que conhecem.

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  13. Acontece com o pessimismo o que acontece com o humor: o efeito bola de neve acentua ambos. Encontrei nos vossos manuais e na vossa «Crítica» um local de reflexão e uma saída possível para o ensino da filosofia em Portugal, pelo menos no que se refere ao ensino secundário. Subscrevo muitos dos vossos pontos de vista, nomeadamente de Desidério, embora não substime tanto a forma como a filosofia é leccionada em Portugal. Não querendo de forma alguma duvidar da seriedade do colega Aires, pergunto se a transcrição feita não terá sido redutora? Não conheço o manual em questão, mas não poderá fazer parte de um todo que visará uma maior profundidade argumentativa. Se colocarmos um texto argumentativo de Singer sobre a ecologia ou a defesa dos direitos dos animais, não será relevante obtermos os conhecimentos empíricos necessários para legitimarmos a nossa análise ontológica. Sei que muitas coisas correm mal, mas também sei que, em virtude das múltiplas escolas que conheci, há muitas coisas que correm bem. Portanto, apesar de me reconhecer em muitas ideias por vós defendidas, não me posiciono no pessimismo evidenciado. Agora, há muitas questões que podemos levantar à volta do ensino da filosofia. Quando falamos em cognição, falamos de quê? Do jogo argumentativo presente no discurso filosófico que traz consigo determinados pressupostos intelectuais? Do exercício intelectual inerente à hermenêutica textual? Da mecanização argumentativa? da tentativa de despertar os jovens para pensamentos alternativos? Se calhar é isto tudo. Ou será mais alguma coisa?
    Caro João, embora lhe reconheça legitimidade para criticar, seria bom que esclarecesse o que é ser anti-filosófico. Caro Aires, embora concorde com o seu ataque ao «eduquês», pergunto-lhe se não seria importante equacionarmos a possibilidade da filosofia ser leccionada, por exemplo, no 12º ano. Porquê? Porque me parece haver uma relação estreita entre a maturidade e a apreensão filosófica. Há tempos ouvi um professor universitário da nossa praça, recordando os seus dias como professor de filosofia no secundário, que dizia que, nesses tempos, era mais psicólogo do que professor de filosofia.
    Espero que continuem com este projecto. Estarei sempre atento e interessado.

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  14. Caro António Daniel, o efeito bola de neve acentua seja o que for: pessimismo, optimismo, humor, etc. A transcrição que leu é redutora, sim. Limitei-me a transcrever apenas um teste completo, mas acho que se transcrevesse mais, as dúvidas que ainda restassem seriam completamente dissipadas. Dê-se lá as voltas que se quiser dar, o teste que transcrevi de filosofia nada tem. Nem sequer se trata de uma forma diferente de fazer filosofia. O teste nem vagamente tem que ver com filosofia, quer se encare a filosofia como uma actividade cognitiva quer como uma actividade estética ou outra qualquer.

    Não sei onde o viu o António o pessimismo que me atribui. Expor e denunciar casos destes, que só contribuem para descredibilizar o ensino da filosofia é uma atitude positiva e é uma reacção natural de quem se bate pela sua credibilização. Por isso é que não me limito a mandar bocas e escrevo também manuais e outros livros de filosofia, traduzo livros, escrevo neste blogue, dou formação, etc. E até vou surpreendê-lo dizendo-lhe que, em minha opinião, o ensino da filosofia no secundário está realmente a melhorar. E só pode melhorar ainda mais se formos capazes de apontar o que está mal e de o corrigir, pois não podemos corrigir os disparates que não queremos ver.

    É curioso que referiu o caso do ensino da filosofia no 12º ano. Acaba por ser irónico vê-lo equacionar a possibilidade de ensinar filosofia no 12º ano, quando ainda há pouco tempo era ensinada nesse nível e foi praticamente banida (ainda existe como opção em alguns cursos, mas os alunos não a escolhem). Assim, a pergunta que se impõe não é se essa seria uma possibilidade a equacionar, mas antes saber por que razão tal possibilidade existiu e não foi aproveitada. Acho que parte da resposta pode ser ilustrada com exemplos como o que aqui deixei. Não tenha dúvidas que a perda de peso da filosofia no secundário tem, em grande parte, a ver com a sua descredibilização, em termos cognitivos e, portanto, também em termos sociais. Fechar os olhos a isto não me parece ser uma boa ideia, pois foi isso que nos trouxe até aqui. E as coisas poderão ser ainda piores. Não há melhor maneira de as coisas correrem mal do que achar que tudo vai bem.

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  15. A minha ideia relativamente ao 12º ano seria mais ambiciosa: estender a todos os cursos, deixando o 10º ano. Claro que sei que o 12º faz parte das possíveis opções. Eu próprio já o leccionei. Sei também que, infelizmente, a disciplina de 12 desapareceu, foi banida. Contudo, se reconheço alguma verdade do argumento do colega Aires, também é verdade que os alunos, nomeadamente das chamadas humanidades, enveredam pela escolha de disciplinas que lhes confiram maior possibilidade de, julgam eles, atingirem boas classificações. A grande diferença reside nas características dos alunos dos cursos ditos de humanidades. Curiosamente, os alunos que gostariam de optar por Filosofia, pelo exemplo que tenho da minha escola, são óptimos alunos, com uma cultura acima da média e de áreas como a economia, o que revela que a Filosofia é opção e uma boa opção. O que é ainda mais curioso é que, nestes casos, as escolhas são motivadas por ambição puramente intelectual. Por estes motivos falei em pessimismo no meu comentário, contudo não me referia somente ao post mas a todos os comentários. É claro que nem tudo vai bem, como nunca esteve bem. Não é de agora que os problemas surgiram. Quando era estudante houve situações que em nada dignificaram a filosofia e o seu ensino. Mas também compreendia que as dinâmicas de ensino são adaptáveis e os próprios professores também o são. Portanto, quando me referi ao pessimismo, pretendi simplesmente chamar a atenção que por vezes as situações não se explicam facilmente, embora concordo com a ideia de que espaços como estes servem para isto mesmo: trocarmos ideias e experiências para «não fecharmos os olhos».

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  16. Gostava de saber o que poderia contar como uma má resposta à terceira questão:

    «Que organizações ecologistas é que conhece?»

    Se o aluno responder «Nenhuma» e estiver a ser sincero, a resposta será correcta, não?

    Curiosamente, a solução apresentada nem é uma resposta possível à questão:

    «Existem várias organizações ecologistas, entre elas e talvez as mais conhecidas, temos a Greenpeace e no nosso país a Quercus.»

    Pois, mas a pergunta não era que organizações existem. Se a estupidez tem limites, eles foram atingidos neste teste. Temo que um dia teremos manuais certificados pelo ministério com coisas deste calibre.

    Pedro Galvão

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  17. Imagina, Pedro, que um aluno dava à questão 2 ("Dê exemplos de actos que contribuem para a preservação do ambiente") a seguinte resposta:

    Um exemplo de algo que poderia contribuir para a preservação do ambiente é não gastar papel com livros como este.

    Como deveria ser avaliada esta resposta? Certa ou errada?

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