18 de junho de 2009

Será a clonagem de seres humanos moralmente aceitável?


Mais um pequeno ensaio filosófico de outro aluno do 11º ano, Alexei Buruian, desta vez sobre a clonagem humana.

Será a clonagem humana moralmente aceitável?

Há duas possíveis aplicações para a clonagem humana: a clonagem terapêutica, que não vou abordar neste ensaio, e a clonagem reprodutiva. Este tipo de clonagem visa a criação de indivíduos geneticamente iguais a um organismo já existente, através do processo de transferência nuclear. Este processo consiste em introduzir um núcleo dador num ovócito anucleado, implantar a nova célula obtida num útero e esperar pelo desenvolvimento do feto.

Importa chegar a um consenso acerca da moralidade da clonagem. Enquanto não o fizermos, poderemos estar injustificadamente a privar as pessoas de gozarem de um novo meio de reprodução.

Irei defender que, dado o deficiente estado de aperfeiçoamento da técnica da clonagem, não é moralmente aceitável recorrer à clonagem reprodutiva humana.

São diversos os argumentos contra a clonagem: o argumento das relações familiares, o argumento da identidade, o do apelo à natureza e outros. Contudo, não são estes argumentos que influenciaram a minha opinião acerca deste assunto. Objecções fortes, como as de que a família tradicional não é o único modelo aceitável de relações familiares; a objecção de que a identidade de uma pessoa não depende apenas do seu ADN; e a objecção de que o apelo à natureza se baseia numa definição imprecisa daquilo que a natureza é, de que modo a clonagem se lhe opõe e por que é errado fazer coisas antinaturais, levaram-me a não ter em consideração estes argumentos.

Mas há outras razões talvez mais fortes contra a clonagem. Em primeiro lugar, há o perigo de eugenia, ou seja, a selecção de indivíduos com genes mais favoráveis ao desenvolvimento da nossa raça. As pessoas poderiam recorrer à clonagem para tentar ultrapassar a sua longevidade, através da perpetuação do seu ADN; criar grupos de pessoas geneticamente iguais, para desempenharem uma determinada função (por exemplo, clonar pessoas altas, para que estas constituissem uma equipa homogénea de basquetebol) ou até clonar celebridades para que os filhos (os clones) herdassem o talento deles. Em todos estes casos, haveria também uma forte expectativa para que o clone sirva o objectivo para o qual foi criado. Desta maneira o clone seria instrumentalizado, seria usado como um meio e não como um fim em si, o que constituiria um atentado à sua dignidade.

No entanto, estes argumentos talvez sejam exagerados, já que não há uma ligação necessária entre a clonagem e a eugenia e pode-se alegar que não é pelo facto de o clone ter sido criado com um objectivo que este perderá a sua dignidade (muitos pais também têm objectivos pessoais para os seus filhos e isso não leva a que estes percam a sua dignidade como seres humanos). O clone seria uma pessoa autónoma, pois teria sempre o direito de fazer as suas próprias escolhas na vida, como um ser humano comum.

O argumento mais forte contra a clonagem acaba por ser o de que a própria taxa de sucesso da clonagem é muito baixa. O nascimento da ovelha Dolly, por exemplo, foi o resultado de 276 clonagens fracassadas, e há indícios de que os clones criados com a tecnologia actual poderão nascer defeituosos e ter uma esperança de vida bastante inferior à media. Afinal Dolly morreu com apenas 6 anos de idade, quando o normal seria cerca de 12 anos. Na minha opinião, estes elevados custos humanos são inaceitáveis.

Contudo, como qualquer outra tecnologia, também a clonagem pode evoluir e há sempre a possibilidade de esta chegar a ter um sucesso semelhante ao da reprodução tradicional e, neste caso, o argumento seria anulado.

Os principais argumentos a favor da clonagem, invocam o valor prático que esta poderá ter. A clonagem permitiria aos casais inférteis ou homossexuais a possibilidade de obterem filhos geneticamente relacionados com pelo menos um dos progenitores. Aliás, um direito que muitos seres humanos reclamam é o da sua autonomia reprodutiva, pelo que proibir a clonagem com fins reprodutivos iria também pôr em causa esse direito. Além disso, a clonagem reprodutiva também poderia ajudar na investigação científica e filosófica relacionada com o ser humano. Por exemplo, poderia melhorar a nossa compreensão das doenças genéticas e ajudaria a responder a perguntas como «De onde provém o talento de uma pessoa? Será algo com que a pessoa já nasce ou será algo adquirido durante a sua vida?».

Contudo, acho que o argumento da baixa taxa de sucesso da clonagem é suficientemente forte para que, pelo menos, se limite esse direito. Afinal, nascer uma criança em quase 300 tentativas, com a possibilidade de ter graves doenças congénitas, só por sí já constitui um grande obstáculo, tanto à obtenção de um filho como à pesquisa científica.

Concluindo, actualmente a clonagem ainda não está suficientemente bem desenvolvida para que seja aplicada aos seres humanos, pelo que estou contra. Contudo, terei de rever a minha posição caso algum dia a clonagem prove ser um método tecnicamente fiável.

5 comentários:

  1. Mais um texto muito interessante e que me fez pensar.

    Confesso que não dediquei muita atenção ao debate sobre a clonagem - este comentário apresenta apenas um cojunto de ideias soltas que me vieram à cabeça a ler o texto.

    Julgo que o argumento do desenvolvimento tecnológico é fraco. De resto como o próprio Alexei admite, ao dizer que isso seria revisto assim que a tecnologia evolua.
    Além disso, dizer que a taxa de sucesso condiciona o valor moral da clonagem não me parece ser correcto: na realidade o processo de procriação natural também tem uma taxa de sucesso extremamente baixa (quantos espermatezoides se perdem para que apenas um tenha sucesso??). Tudo bem, este exemplo pode não ser o melhor, mas já um casal com problemas de fertilidade pode passar anos a tentar tudo e mais alguma coisa para ter um filho, com taxas de sucesso extremamente baixas, e não me parece que isso seja imoral. Já a questão do potencial nascimento de seres humanos com deficiências graves é um ponto mais forte.

    Finalmente, aquilo que mais me preocupa na clonagem, e em certo centido julgo que será uma questão moral, é saber se temos o direito de abrir uma "caixa de Pandora" com consequências totalmente imprevistas mas seguramente fortes para o mundo, a humanidade e todas as gerações futuras.

    Será que dará origem à eugenia? Será que dará origem a uma nova forma de racismo? Será que alguém consegue viver sabendo que é uma segunda versão de outrém? Será que vai ser uma mudança tão forte que nem sequer conseguimos conceber os problemas que trará? Será...?
    Claro que nada disto é certo, mas os riscos são enormes e os proveitos expectáveis não me parecem justificar o passo.

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  2. Jaime, creio que a tua posição não é muito diferente da do Alexei. No fundo, ele não encontra qualquer razão de princípio para recusar a clonagem. Digamos que as suas reservas se prendem mais com questões de carácter técnico, as quais podem deixar de se verificar no futuro.

    De resto, o Alexei, tal como tu, levanta apenas algumas dúvidas quando ao perigo de eugenia e de instrumentalização do clone, descartando argumentos como os de que a clonagem é antinatural, o de que coloca problemas de identidade e que põe em causa a noção de família tradicional. Apenas me parece que as tuas dúvidas são mais fortes do que as dele (trata-se apenas de uma questão de grau).

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  3. os filosofs são afovor da clonagemm sim ou não ?

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  4. Muito obrigado, ajudou-me muito!

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  5. Obrigadinho , copiei para o meu trabalho de filo <3

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