1 de junho de 2009

A Volta do Idiota

Plínio Apuyelo Mendonza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa criticaram o marxismo latino-americano em Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, e a Crítica publicou aqui uma recensão de Orlando Tambosi. Os mesmos autores voltam agora ao tema, e desta vez é Aluízio Couto que nos apresenta a obra, aqui.

85 comentários:

  1. Se há algo que eu e todo o mundo no mundo profissional da filosofia em língua portuguesa prezamos, na Crítica, é o cuidado na argumentação. Dá para se dizer que a Crítica prima por trazer luz a debates onde só havia trevas e ausência de debates, ou no máximo havia calor.

    No entanto, a resenha em questão não acompanha o padrão da Crítica. Seria de se esperar que o resenhista se desse ao trabalho de explicar, de maneira equilibrada, o uso de linguagem carregada em um título que traz a palavra "idiota", mas isso não ocorre. Também é espantoso simplesmente ouvir algo surpreendente, como a opinião que Hayek é uma "penicilina" para o pensamento sudamericano, e ter que simplesmente engolir uma pílula que está longe de ser, de maneira óbvia e reconhecida, uma panacéia universal, mesmo segundo pensadores de fora do continente em questão.

    Acho que a Crítica tomou o caminho errado, com essa resenha, e espero que as coisas voltem aos trilhos.

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  2. A "ideologia" sempre está do lado adversário... é o caso deste livro de Llosa e companhia. Análises esteriotipadas e guiadas por uma perspectiva inegavelmente direitista e conservadora. "A volta do idiota" é o título do livro; "a volta dos três idiotas" poderia nomear o acontecimento de sua publicação.

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  3. Pois é, César. Eu já tinha visto a resenha do "Idiota" anterior e pensado: qual é o interesse filosófico (ou literário ou...) que justifica a publicação da resenha neste espaço? Agora, com o "Idiota II", cabe a mesma pergunta. Por que razão a Crítica acolhe mais este panfleto de extrema direita, cobertos de ataques pessoais e simplificações rasteiras? Afinal, trata-se, não é difícil perceber, de uma verdadeira contribuição à idiotização da América Latina. Daí o título, que não me parece fora de propósito: é apenas uma denúncia si mesmo. Grosseira, como todo o resto.

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  4. César, Maurício e Rodrigo,

    Na Crítica não se censura ideias por não gostarmos das conclusões. O interesse dos livros é criticarmos a argumentação que leva às conclusões e não rejeitar ou aceitar à partida as coisas por as conclusões nos agradarem ou desagradarem. Logo, não vejo por que haveria um "mau caminho" a seguir. Aqui não há "maus" nem "bons" caminhos, porque não é um site de catecismo.

    Se o livro é direitista e conservador? Pode ser, mas nesse caso explique-se porquê e por que razão isso é mau, no caso de o ser. (Não estou a dizer que é nem que não é). Neste site o que interessam são os argumentos e não a adesão febril às conclusões. Qualquer coisa pode ser abjecta, idiota ou má, mas o que interessa é ver porquê. E tudo pode ser discutido, tudo pode ser posto em causa. Até as melhores intenções dos não-direitistas e não-conservadores. Esteja a razão do lado que estiver, isso pode mostrar-se num argumento racional. Quando a verdade está do lado de uma ideia, a ideologia torna-se desnecessária, porque a verdade fala por si. Só é preciso encantar as pessoas com danças xamânicas quando no fundo não fazemos a mínima ideia de onde está a verdade.

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  5. Olá Vitor,

    esta abertura da Crítica é ótima. É, sem dúvida alguma, um dos seus pontos positivos. No entanto, a Crítica também sempre teve outro diferencial: a qualidade editorial. É isso o que me incomoda nesse caso. Por dois motivos.

    Primeiro, seria ótimo se o resenhista tivesse escrito levando em conta uma das melhores contribuições da Crítica à filosofia em língua portugues, o Guia de Falácias. Meus alunos aprenderam a ler qualquer coisa, de textos jornalísticos a textos acadêmicos, a partir do mesmo, e como professor me orgulho disso. No entanto, nosso resenhista nada diz sobre a linguagem carregada que já vem no título da obra, e simplesmente reproduz, sem crítica alguma, supostos argumentos que encontra na obra. Usualmente, não é isso o que encontramos por aqui. Usualmente, há ótimos argumentos, e ótima explanação sobre pontos obscuros ou objetáveis dos mesmos. Mas, na resenha em questão, o que temos são afirmações dogmáticas, e ponto final.

    Segundo, seria ótimo se o resenhista arejasse seu texto, fazendo vínculos com discussões correntes. Por exemplo, basta ir à Enciclopédia de Filosofia de Stanford para ver que a posição de Hayek é questionada mesmo por liberais mais recentes, como Rawls. Apresentar isso tornaria a coisa mais aberta, mais inserida em um debate, e mais informativa.

    Enfim, o que espero, com meu comentário, é que a Crítica mantenha seus padrões. Como liberal que sou, acho fundamental que posições liberais sejam discutidas, mas que isso seja feito com argumentos bem apresentados, como costumava acontecer aqui na Crítica.

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  6. Concordo em absoluto com o que diz Vítor Guerreiro. As danças xamânicas visam o bem estar e não a verdade.

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  7. Sim, Vitor, este é o ponto. Vejamos, por exemplo, a resenha do Idiota I. O que lemos (ad nauseam) é isto: o idiota latino-americano “dá um jeito para ler da esquerda para a esquerda. Pratica a endogamia e o incesto ideológico”; a “bíblia da idiotia” é “As Veias Abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que tem devastado cabeças desde os anos 70”; os idiotas lêem Fidel, Marcuse, teologia da libertação, etc.; Frei Beto é um idiota e escreve “bobagens em jornais”; “FHC, como se sabe, tomou o rumo da civilização”. Tu dizes que “na Crítica não se censura ideias por não gostarmos das conclusões” e isto é muito louvável. Porém, a menos que eu tenha perdido alguma coisa, esta regra não se aplica ao caso específico. Por duas razões: 1) As “ideias”, aqui, são ataques pessoais. Se nem os autores nem o resenhista se preocupam em apresentar os seus ataques como premissas confiáveis, qual é o argumento a ser debatido? 2) A “conclusão” extraída dos ataques pessoais – de que toda a esquerda latino-americana é idiota – é tão ofensiva quanto qualquer outra generalização absurda ditada pelo preconceito. Propor debates sobre argumentos que levam a conclusões absurdas, preconceituosas e ofensivas não me parece moralmente aceitável.

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  8. Vitór Guerreiro,

    Ao ler a sua resposta, completamente ao lado, à a crítica de César S., não ficam dúvidas: não percebeu o que César S. escrveu (estou a fazer a leitura mais caridosa possível).

    Com pessoa inteligente que é, se a ler com atenção e de forma despreconceituosa, não terá dificuldade nenhuma em percebê-la.

    Também acho que a Crítica tomou o caminho errado com essa resenha acrítica e espero que as coisas voltem aos trilhos. Percebo que haja quem queira vender o livro, mas na Crítica a moral (ética) costumava ser tida em elevada conta.

    Cumprimentos,
    Pedro Saragoça Martins

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  9. Apesar do carácter algo lacónico e pouco distanciado da recensão, a minha reacção não teve tanto a ver com a qualidade do texto mas com a ideia, que me pareceu, talvez erroneamente, brotar dos 3 comentários, de que as conclusões tornavam o livro "impróprio" para ser referido na crítica. Até é possível outra situação: as conclusões são verdadeiras mas os argumentos carecem de virtude epistémica. Vejo agora que esse é mais o espírito da intervenção do César. Ainda assim, podemos tentar dizer coisas interessantes a propósito de textos que carecem de virtude epistémica.

    Quanto aos outros, classificar o livro de "direitista" e "conservador" não adianta coisa alguma, quando muito fará os que são negativamente despoletados por essas palavras evitarem o livro. Mas isso é cair precisamente no mesmo de que se acusa os autores. Não li o livro, portanto não sei se a crítica é justa. Mas sei alguma coisa de psicofodas esquerdistas (já houve um tempo em que escolhia os meus livros assim: ia ver as conclusões, se gostava comprava se não gostava não comprava. Felizmente a doença passou.)
    Por outro lado, os comentadores foram também apressados. Por exemplo, não creio que as leituras sugeridas de Hayek e Popper tenham sido apontadas como panaceia para coisa alguma. A ideia é ler autores que discordam do nosso ponto de vista porque isso nos leva a avaliar criticamente as nossas ideias. O normal é as pessoas nunca lerem os autores que já sabem de antemão que não chegam às conclusões que as pessoas gostam. O normal é procurar-se nos livros apenas uma confirmação daquilo que já queremos que seja verdade.

    Mas neste caso, para concluir, desafiaria os leitores ao seguinte: em vez de sugerir que não deveríamos publicar recensão / resenha x ou y, poderiam fazer o seguinte: uma recensão do livro.

    Maltez: essas danças visam o bem estar do xâmane e apenas psicofoder o paciente.

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  10. César,
    acho que você se esqueceu de alguns aspectos importantes da lógica informal. Há casos em que argumentos ad hominem podem não ser falaciosos. O fato de Chavéz, por exemplo, ser um "esquerdista" inconsequente, faz-nos desconfiar de seu secesso como presidente. Assim, o fato de atacarmos a posição em que se encontra Chávez é relevante para a conclusão de que ele não é um bom presidente.
    Quanto ao título "carregado" da obra, acho que se leres isso http://criticanarede.com/html/ed116.html, verás que está sendo um pouco radical. Chamar a esquerda latino-americana de Idiota é um modo caricato de mostrar como Chávez e cia agem em relação às demais políticas sociais e economicas mundo afora.

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  11. Oi

    “argumenta que é possível o desenvolvimento adotando um modelo honestamente liberal. Indo, portanto, na contramão do ideário quase elevado ao posto de evangelho em nossas terras.”

    Não percebi como o argumento funciona:

    A conclusão seria: O desenvolvimento é possível.

    A primeira premissa: Adotar um modelo honestamente liberal.
    A segunda premissa: Não adotar o ideário que vigora na América Latina (liberalismo/esquerda).

    Não percebo como a conclusão se segue das premissas, nem tampouco qual a força das premissas.

    A primeira premissa diz que uma possibilidade seria um modelo honestamente liberal, mas não apresenta qual é o modelo, nem porque tal modelo é honesto. Seria preciso no mínimo de outra premissa para sustentar essa primeira.

    Quanto a segunda premissa, ele limita-se a dizer que não adotar a ideologia vigente dos partidos de esquerda conduz ao desenvolvimento. Que isso tem a ver com o desenvolvimento de um país ou de uma nação? Como isso ocorre? Como a adoção de uma ideologia pode influir no não desenvolvimento do país?
    Como ele mesmo apresentou, pode ser o caso de o governante de um país qualquer adotar a posição liberal e ainda sim obter bons resultados no quesito desenvolvimento – aumento na produção, e conseqüentemente, melhora na economia, diminuição da pobreza, etc, como é o caso do Chile.
    Ou pode ser o caso de um país com um governo “direitista e conservador” não alcançar bons índices de desenvolvimento econômico.
    Além do mais, uma ideologia é uma ideologia não por defender esta ou aquela idéia, mas sim pelo modo como essa idéia é defendida: por debate racional orientado pela verdade ou por meio de posições pessoais sem argumentos que a sustente.

    O texto não apresenta bons argumentos, muitas vezes nem sequer apresenta argumentos.

    Outro ponto: Não li o livro mas segundo a resenha do Aluizio Couto, parece que os autores estão a cometer uma falácia. No guia de falácias do Stephen Downes a falácia do espantalho é assim apresentada:


    "O argumentador, em vez de atacar o melhor argumento do seu opositor, ataca um argumento diferente, mais fraco ou tendenciosamente interpretado."

    Estou a perceber mal, ou ele comete mesmo essa falácia?


    Por fim, o humor é útil nas discussões porque atrai a atenção dos interlocutores. O problema é que ele pode também desviar totalmente a atenção para outras coisas que não são relevantes. Neste caso, o ponto principal da discussão é - ou deveria ser - o problema do ressurgimento de políticos autoritários que ocultam esse autoritarismo por detrás de um discurso esquerdista e liberal. O problema, ao que me parece, seria a censura e a ausência de liberdade nesses países; até onde a ausência de liberdade deve ser aceita (se é que pode ser aceita)?
    Os autores usam de esteriótipos – responsáveis pelo humor do texto – que acabam por distorcer a imagem que deveríamos ter desses governantes. Até que ponto devemos levá-los a sério e levar a sério suas decisões? Penso que essa posição inicial de levar a sério as idéias que queremos criticar ficou prejudicada pelo uso carregado de imagens e esteriótipos; pela linguagem tendenciosa e pouco caridosa dos autores.

    Pode ser que a intenção do livro seja meramente provocar o riso e fazer com que os leitores se divirtam a custa das figuras estereotipadas descritas pelos autores. Se for esse o caso, vale pela diversão e mais ainda por conduzir outras discussões mais sérias e mais interessantes.


    Abraços!
    Pollyanna

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  12. Olá Luiz,

    obrigado por trazer este documento à discussão. Concordo que ridicularizar é um direito, e concordo que não é cabível censurar charges que ridicularizam figuras prezadas por alguns. Aliás, é isso o que os chargistas fazem boa parte do tempo. Essa é sua profissão.

    No entanto, vejo a Crítica como um espaço onde eu, meus colegas e meus alunos poderiam respirar aliviados por encontrar argumentos e caridade com a posição alheia. Mas nada disso há na resenha em questão.

    Há a ridicularização, com certeza. Mas, artigos filosóficos (e resenhas) têm tal finalidade? Entendo que, por consequência de um argumento, uma posição possa parecer ridícula. Mas não é isso o que acontece na resenha em questão. Na mesma, "a nossa trinca de ases" simplesmente destróis os "novos idiotas". Super simples.

    Geralmente, a Crítica é bem mais sofisticada do que isso. É disso que senti falta, no caso da resenha em questão.

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  13. Caros leitores

    Obrigado a todos pelas vossas críticas. É bom ver os leitores a discordar civilizadamente de algo publicado na Crítica. É bem diferente dos insultos que se costuma ver nas caixas de comentários dos blogs. Fico contente por isso.

    Não concordo que pelo facto de a recensão não ser pormenorizada se segue que não deva ser publicada; presumivelmente, se fosse uma recensão igualmente não pormenorizada mas elogiosa de um panfleto do “lado certo” já não haveria protestos. Também não concordo que tem tanta falta de qualidade que não merece publicação; uma vez mais, com a mesma presumível falta de qualidade já seria bem-vinda se cantasse louvores ao marxismo.

    Sempre que alguém protesta pela publicação de algo, está de facto disfarçadamente a protestar por se ter dado voz a algo que a pessoa prefere silenciar. Como é óbvio, se algo não tem qualidade, não se é obrigado a ler. E se alguém discorda, pode na Crítica escrever outro artigo explicando porquê. Não sejamos ingénuos: todo o protesto pela publicação de algo — seja com a desculpa da falta de gosto ou de falta de qualidade — é uma forma sub-reptícia de querer exercer a censura. E na Crítica não se censura ideias.

    É tempo de os marxistas perceberem que há muita gente que considera as suas ideias pura e simplesmente idiotas — e profundamente prejudiciais para milhões de pobres. Se os críticos do marxismo têm razão ou não é outro debate; e se são mais ou menos simpáticos ou falaciosos a escrever é outro debate ainda. Mas para haver qualquer desses debates é preciso que quem pensa isso dos marxistas o possa livremente publicar.

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  14. Olá Desidério,

    Também fico feliz em ver que estamos argumentando. Isto deveria ser a regra, mas infelizmente não é.

    Eu fiquei decepcionado com três coisas no seu comentário.

    Primeiro, você, editor da Crítica, revela que acha que o artigo publicado está no nível da revista. Isso faz com que eu baixe minhas expectativas sobre a mesma.

    Segundo, aos que argumentam contra a qualidade do artigo, você responde com um ataque pessoal. Não é por aí, não acha?

    Terceiro, não vejo porque a Crítica deveria se ocupar de dar lições aos marxistas (entre os quais não me incluo). Essa não é uma tarefa dessa revista, eu acho. E, aliás, conheço muitos esquerdistas, mas acho que não conheço nenhum marxista.

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  15. Esta revista é multitasking: há lugar para todos, inclusive para aqueles que querem dizer que os marxistas são idiotas. Desde que haja conteúdo cognitivo nos textos, as pessoas têm o direito de dizer aquilo que bem lhes apetece. Muitas vezes usamos adjectivos como "idiota" para qualificar atitudes, posições, etc, não vejo por que tanta agitação quando o alvo é o marxismo. Começo a ver que é preciso publicarmos mais alguns textos anti-marxistas, quanto mais não seja para combater uma coisa muito perigosa que se mostra, por exemplo, na exigência de submissão mascarada de "liberdade religiosa": quando a propósito de uma doutrina se começa a instituir em senso comum a ideia de que é mau criticar ou atacar publicamente essa doutrina.

    Para mais, dadas as figuras tristes que muitos governantes autoritários, esquerdistas ou não, mas neste caso esquerdistas, fazem, não creio que seja um pecado epistémico assim tão grande chamar-lhes "idiotas".

    Há meses vi uma entrevista ao nosso líder local do PC, o qual, confrontado com uma pergunta sobre a Coreia do Norte, deu realmente a resposta mais palerma que se podia dar: "O que vê de bom na Coreia do Norte?" pergunta - ao que o homem responde algo como isto: "se os americanos tanto se assanham contra os coreanos é porque há ali uma resistência ao imperialismo. De resto, não temos o direito de dizer aos povos como hão-de construir o seu futuro."

    Ora bem. Por um lado a nossa doutrina baseia-se no internacionalismo, na unidade de todos os proletários à escala mundial. Podemos assim criticar todos os governos de que não gostamos e exigir a ingerência nas suas decisões e actividades. Subitamente, quando o alvo são os "camaradas" coreanos, a posição muda, e já não nos podemos ingerir nos seus assuntos. Depois, à falta de qualquer coisa de positivo para referir directamente recorre-se a uma aberração falaciosa destas: se "os americanos" estão contra é porque é bom. (esquece lá o sofrimento real das pessoas).

    Na verdade, classificar opiniões destas como "idiotas" é pouco. Apropriado seria obrigar estas pessoas a viver nestes países cujos governos defendem sem terem quaisquer razões decentes.

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  16. Em lado algum do meu comentário está qualquer ataque pessoal.

    Se há ideias que é proibido ridicularizar, sejam marxistas ou outras, é bom que a Crítica publique artigos que ridicularizem essas ideias. Precisamente porque o direito de ridicularizar é crucial para a liberdade de discussão.

    Finalmente, a recensão está perfeitamente ao nível de muitas outras recensões publicadas na Crítica. Basta ler a secção Livros ou Música.

    Finalmente, qualquer pessoa pode enviar para a Crítica textos de opinião defendendo as ideias centrais do marxismo ou ridicularizando quem ridiculariza o marxismo.

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  17. O argumento de Dworkin não se aplica.

    Acima da caixa onde escrevo este comentário, na página da Crítica, leio o seguinte: “...2) Seja respeitoso, ainda que informal e descontraído. O objectivo é discutir ideias e não pessoas. Insultos e irrelevâncias não são bem-vindos.” Por outro lado, em “O direito de ridicularizar”, Dworkin afirma: “numa democracia, seja poderoso ou impotente, ninguém pode ter o direito de não ser insultado ou ofendido”. Estaria correto concluir daí que a Crítica, ao optar por censurar o desrespeito, o insulto e a irrelevância, é antidemocrática? Obviamente, não. A Crítica não se pauta pelas regras de um governo democrático, assim como um governo democrático não se pauta pelas regras de uma publicação dedicada à divulgação, investigação e ensino da filosofia. Assim como a Crítica, que por muitos anos tenho recomendado com entusiasmo aos meus alunos, eu proíbo ofensas em sala de aula. Como professor, não reconheço qualquer “direito de ridicularizar” em sala de aula. Do meu ponto de vista, assim como a Crítica, a sala de aula não é uma democracia. Como professor, acredito que respondo pela formação de cidadãos para a democracia – e, até aqui, acreditei que a Crítica também assume tal responsabilidade.

    Quanto a Dworkin, o que ele afirma é claro: "Ridicularizar é uma forma característica de expressão; a sua substância não pode ser traduzida numa forma retórica menos ofensiva sem expressar algo muito diferente do que se pretendia. É por isso que as caricaturas e outras formas de ridicularizar têm estado, ao longo dos séculos, mesmo quando era ilegal, entre as mais importantes armas tanto de MOVIMENTOS POLÍTICOS nobres como corruptos."

    A publicação das resenhas panfletárias destes panfletos, exercícios de mera malhação da esquerda e do marxismo, pela Crítica, é uma tomada de POSIÇÃO POLÍTICA. Perfeitamente garantida pela democracia, desprovida de qualquer “nobreza”, incompatível com o papel formador da Crítica.

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  18. Caro Vitor;

    "tanta agitação quando o alvo é o marxismo"


    Pelo que li nos comentários não é exatamente isso que alguns leitores estão a criticar. Estão a focar na qualidade do texto. Não sei qual o motivo de vocês da revista insistirem tanto nesse ponto. É como desviar o assunto da questão que, embora eu não considere relevante, não a ponto de ser tanto discutida, é de interesse de alguns leitores da Crítica.

    Aos editores da revista que tanto prezam e defendem a importância da argumentação clara, as distinções conceituais e a necessidade da escrita filosófica como os melhores meios que temos para o debate aberto e racional, eu deixo a seguinte questão:

    Exigir o mínimo de rigor e imparcialidade na defesa de uma idéia, seja ela anti-comunista, sexista, racista ou fundamentalista é sinônimo de não liberdade?

    Se acaso não aceitarmos calados os maus artigos publicados na revista estaremos nós a privar a liberdade que as pessoas têm de defender suas idéias?

    Meus sinceros cumprimentos;

    Carlos Alberto Dias

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  19. Caro Desidério,

    A Crítica mudou mesmo e muito. Estão no vosso direito.

    Mas confesso que fiquei chocado ao ver-te (a ti!) a “argumentar” assim:

    "Não concordo que pelo facto de a recensão não ser pormenorizada se segue que não deva ser publicada; presumivelmente, se fosse uma recensão igualmente não pormenorizada mas elogiosa de um panfleto do “lado certo” já não haveria protestos. Também não concordo que tem tanta falta de qualidade que não merece publicação; uma vez mais, com a mesma presumível falta de qualidade já seria bem-vinda se cantasse louvores ao marxismo."

    Presumivelmente?!!! E se eu agora dissesse: "se calhar, se fosse uma recensão igualmente não pormenorizada mas elogiosa de um panfleto do “lado certo” vocês já não publicavam"?

    Isso era argumento que se apresentasse? Presumivelmente? Se calhar?

    Quanto a dever ser ou não ser publicada, isso só a vocês compete decidir. Os leitores, cada um por si, decidirão se a Crítica continua ser uma referência no nosso pobríssimo panorama editorial ou não.

    Peço-te que me ajudes a perceber melhor o que se está a passar com a Crítica. Se me responderes a esta pergunta fico-te agradecido:

    Para se criticar a recensão, NOS TERMOS EM QUE CÉSAR A. FEZ, não é preciso ter lido o livro; basta ter lido a recensão.

    Mas para se achar que uma recensão a um livro merece publicação julgo ser necessário ter lido o livro. Já sabemos que o Vítor Guerreiro não o leu. Algum responsável da Crítica o leu?

    Se não, qual é o vosso critério para a publicação de recensões?

    Se sim, por que é que em vez de virem com "presumivelmente, vocês isto", "vocês são marxistas que querem a censura" e outras boçalidades do género, não argumentam mostrando que a recensão, concorde-se ou não com ela, concorde-se ou não com as ideias do livro, tem algum mérito?

    Um abraço do
    Pedro
    (Pedro Saragoça Martins)

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  20. «Não li o livro, portanto não sei se a crítica é justa. Mas sei alguma coisa de psicofodas esquerdistas (já houve um tempo em que escolhia os meus livros assim: ia ver as conclusões, se gostava comprava se não gostava não comprava. Felizmente a doença passou.)»

    Não o leu o livro, mas defende a recensão. Argumentos, zero. Acho estranho.

    Por outro lado, não acho estranho, mas acho muito desagradável que nos venha contar pormenores da sua vida pessoal como se isso tivesse algum interesse.

    Para utilizar a sua linguagem desabrida, no passado alguém o psicofodeu e o senhor acha que tem umas contas a ajustar com os que os que o violaram.

    Rogo-lhe: ajuste essas contas em privado e poupe-nos os detalhes sórdidos. No tempo em que o senhor andava a ser psicofodido, outros como o senhor chamavam reaccionários a todos os que discordavam de vocês; agora, vocês chamam comunista ou marxista a todos os que discordam de vocês.

    Pouco ou nada mudaram apesar de estarem convencidos do contrário. Continuam a ser psicofodidos, apenas mudou o violador.

    Pedro Saragoça Martins

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  21. Pedro,

    Não preciso de ter lido o livro para fazer a defesa que fiz. Nem sequer discuti a qualidade do livro ou da recensão, e sim a sugestão por parte dos leitores de que o texto não devia ser publicado. Os leitores são livres de manifestar a sua opinião e os editores são livres de publicar o que bem entendem. Quem não quer ler a recensão não a lê, segue em frente e lê o que lhe interessa. É ridículo este tipo de reacção: "vejam lá que a gente ainda deixa de ler a Crítica por achar que a fasquia da qualidade está a baixar". Este não é o único artigo lacónico e com linguagem carregada que publicamos. Tanto eu como o Desidério temos artigos de opinião semelhantes (veja-se alguns dos artigos sobre o acordo ortográfico) que nunca receberam tais críticas ou sugestões por parte dos leitores em como iam deixar de ler a revista. O leitor lê o que quer, e o que não quer não lê. Agora, é completamente irrazoável esse tipo de ingerência psicológica na política editorial. Nós publicamos o que bem entendemos. E se me apetece partilhar detalhes da minha vida pessoal partilho-os. Qual o problema? Não estou a obrigar seja quem for a aturar-me.

    Uma atitude razoável é argumentar calmamente que o texto é mau porque A + B. Tudo bem. Mas as dicas moralizantes sobre a qualidade, a sugestão de não publicar a recensão e o ultimato do leitor ferido não fazem qualquer sentido e só se compreendem como vontade de silenciar. Eu não quero silenciar tudo o que acho palerma. Talvez eu leia o livro e não goste. Talvez, caso isso aconteça, venha a escrever uma crítica. Mas daí a sugerir que é inaceitável falar-se do livro ou publicar recensões lacónicas e carregadas. Bolas, então tinha de apagar muitos dos meus textos, que ainda assim não foram recebidos com ultimatos psicológicos.

    Não estou a defender que o livro é bom ou mau, nem que a recensão é boa ou má. Portanto, não tenho de ter lido o livro. Estou a defender o nosso direito a seguir a política editorial que bem entendermos e a chamar a atenção para isto: parece que os leitores estão a sugerir que só podem ler a Crítica se todos os artigos lhes agradarem. Isto faz lembrar algo?

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  22. A questão central é: que argumento haveria para não publicar uma recensão que está bem escrita, é simples e directa? Resposta: porque ridiculariza os marxistas. Eu compreendo que é ofensiva para os marxistas por esse motivo. Tal como os livros de Vargas-Llosa o são; mas se não se deve proibir a publicação dos seus livros por causa disso, também não se deve proibir a publicação da recensão por causa disso. A menos que os marxistas defendam que os livros de Vargas-Llosa devem ser proibidos. Bom, se calhar defendem mesmo isso. Ou não?

    Sentir-se insultado ao ver ridicularizadas as suas ideias mais queridas é o preço a pagar pela liberdade de expressão. Mas há uma grande diferença entre o insulto pessoal e gratuito, que ocorre em muitas caixas de comentários de blogs, da ridicularização de ideias e seus partidários. É impossível defender a liberdade de expressão e proibir a ridicularização. Mas é perfeitamente possível e desejável não aceitar insultos pessoais. Ninguém insultou pessoalmente qualquer leitor, marxista ou não, naquela recensão. Há uma diferença entre sentir-se ofendido porque se é partidário de ideias que foram ridicularizadas, e sentir-se ofendido por ser directamente ofendido ou ridicularizado.

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  23. Eis outro exemplo de ridicularização na Crítica:

    http://blog.criticanarede.com/2008/08/ontologia-contingente-cinema-e-sexo.html

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  24. "A Crítica mudou mesmo e muito."

    A Crítica mudou muito só por ter publicado esta resenha? O exagero de afirmações como esta, por causa da publicação de uma simples resenha de um livro, não me parece fazer qualquer sentido. A não ser que a ideia seja mesmo a de pressionar os editores da Crítica a não publicar o que não se quer ver publicado.

    "Os leitores, cada um por si, decidirão se a Crítica continua ser uma referência no nosso pobríssimo panorama editorial ou não."

    Ok, parece que a ideia é mesmo essa e não vejo aqui uma simples manifestação de discordância em relação à resenha, mas ao próprio facto de ela ser publicada. O que eu vejo aqui é uma espécie de ameaça indirecta: se voltarem a publicar artigos destes, eu deixo de frequentar a Crítica. Acho isto triste e pouco saudável, pois deixa de lado a discussão sobre o conteúdo da resenha para atacar o própria decisão de a publicar. Se não é tentativa de censura, anda muito próximo disso.

    Note-se que não é censura manifestar a sua discordância em relação ao conteúdo ou até em relação à qualidade da resenha. Pelo contrário, isso é até saudável, pois é um livre exercício de crítica. E também não se trata de censura quando se considera que este artigo não está à altura do que se costuma publicar na Crítica. É uma opinião e mais nada. O que me parece inaceitável numa mente que se quer aberta é sugerir veladamente algum tipo de retaliação por causa disso.

    De resto, acho fantástico que, após milhares de artigos publicados até hoje na Crítica, se venha dizer que, dada a publicação de uma simples resenha de um livro, é preciso pensar bem se a Crítica continua a merecer crédito e que a sua qualidade baixou muito. Estes comentários não são minimamente razoáveis, pelo que deve haver qualquer outra motivação: mais uma vez, tentar impedir os editores da Crítica de publicar coisas de que discordam completamente.

    Mas aqui na Crítica continuamos a pensar que publicar ideias de que discordamos completamente só nos faz bem.

    Acrescento apenas que também não li o livro e provavelmente não o lerei. E que, mesmo assim, considero correcta a decisão de publicar a resenha. Aliás, uma resenha é mesmo isso: uma descrição abreviada das principais ideias ou teses do livro e não necessariamente uma discussão dos argumentos nele contidos. O livro parece ser suficientemente provocatório para pôr as pessoas a discutir e a reacção gerada é a melhor prova da justeza da decisão.

    Afinal de contas, nos livros de Nietzsche também quase não encontramos argumentos e também há linguagem tendenciosa (não se fala de idiotas, mas de burros). Mas não é por isso que deixam de nos interpelar e de nos pôr a pensar filosoficamente. Será que os leitores que aqui se têm manifestado também se opõem à publicação de resenhas sobre os livros tendenciosos de Nietzsche a dizer mal do cristianismo e dos cristãos?

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  25. Vítor,

    «Não preciso de ter lido o livro para fazer a defesa que fiz. Nem sequer discuti a qualidade do livro ou da recensão, e sim a sugestão por parte dos leitores de que o texto não devia ser publicado.»

    O Vítor defende a publicação da recensão. Em primeiro lugar, é óbvio que os editores da Crítica têm o direito de publicar o que muito bem entenderem. Eu próprio, apesar de ser óbvio, afirmei isso. Nesse ponto, acho que não temos a mínima discordância. Quem quer lê, quem não quer não lê.

    O Vítor, ao contrário do Desidério, nem sequer discute a qualidade da recensão. Tudo bem.

    O que eu não percebo é:

    a) vocês têm algum critério para decidirem o que publicam?
    b)caso tenham, qual é esse critério?

    SE não têm critério algum, estão no vosso pleno direito. Eu limito-me achar que uma publicação sem critérios para seleccionar o material a editar é uma patetice.

    Se têm (e eu presumo que têm porque também presumo que vocês não são nenhum grupo de patetas), não percebo a vossa incomodidade em explicitarem esses critérios. É só isto.

    «É ridículo este tipo de reacção: "vejam lá que a gente ainda deixa de ler a Crítica por achar que a fasquia da qualidade está a baixar".»

    Pois é; mas não foi isso o que eu escrevi (e não me parece que tenha sido isso o que César A. escreveu, mas sobre isso o melhor é ser ele a falar, se ele assim entender). Como eu aconselhei a leitura da Crítica a muita gente, apontando a elevada qualidade e o grande rigor como algumas das razões para essa leitura, é natural que parecendo-me que a fasquia baixou, ao ponto de, por vezes (não muitas), se ter tornado um veículo de doutrinação ideológica, entenda dizer que essas razões já não justificam a leitura da Crítica. Mas há outras razões parase ler a Crítica. Eu não tenciono deixar de ler nem vou aconselhar ninguém a deixar de ler. São coisas diferentes.

    Quanto ao resto, eu não leio nem 10% do que é publicado na Crítica. Não tenho tempo nem vontade para ler tudo. Tenho admiração pelo Desidério, com quem aprendi muito, gosto muito de ler a maioria dos artigos dele, mas não me passa pela cabeça, por exemplo, ler um artigo do Desidério sobre o acordo ortográfico. Nunca poderei saber o que perdi, talvez o artigo seja interessantíssimo e informadíssimo, mas tal como as outras pessoas, não leio tudo. Exceptuando 2 ou 3 críticas musicais que li há muitos anos atrás (sobre as quais emiti opinião e que me levaram a não ler mais nenhuma), dos textos que eu li, este foi o que me pareceu o pior.

    «E se me apetece partilhar detalhes da minha vida pessoal partilho-os. Qual o problema? Não estou a obrigar seja quem for a aturar-me.»

    Eu também não. Se não gosta dos meus comentários pode não os ler. Pode até apagá-los.


    » […] Mas daí a sugerir que é inaceitável falar-se do livro ou publicar recensões lacónicas e carregadas. »

    Inaceitável falar-se do livro? Pode indicar o meu comentário onde isso é sugerido?

    Inaceitável publicar recensões lacónicas e carregadas? Não é inaceitável; mas mostra que a Crítica, por vezes (poucas), não resiste a fazer doutrinação ideológica.

    Pedro Saragoça Martins

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  26. Caro Aires Almeida, a discussão é sobre como as coisas foram colocadas. Uma coisa é discutirmos as idéias de um autor, outra é não conhecermos seus argumentos e proferirmos palavras deselegantes contra o autor e pensarmos que assim conseguimos refutar as idéias do mesmo. Por isso, penso que a resenha é digna das críticas que lhe são feitas, e, consequentemente, a revista também, pois a impressão que fica para os leitores assíduos da mesma (eu sou um deles), é que ao publicar tal resenha a Crítica ficou Acrítica. Toda a discussão se deu pois a Crítica é reconhecida como uma revista filósofica, que propõe a discussão de temas centrais da Filosofia, e não de conhecimento geral.

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  27. Caro Desidério, confesso que, como leitor da Critica estou muito decepcionado. "É tempo de os marxistas perceberem que há muita gente que considera as suas ideias pura e simplesmente idiotas — e profundamente prejudiciais para milhões de pobres". A resenha, e esta tentativa de argumento (falácia), não são capazes de refutar as idéias de Marx. Atribuir a pobreza do mundo ao socialismo é fruto de uma análise muito superficial, pois as experiências capitalistas são mais numerosas e intensas que as socialistas. Mesmo que concorde com você que a pobreza no mundo se deva ao socialismo, atribui-la às idéias de Marx é um salto lógico tremendo. Seria o mesmo que atribuirmos à Santos Dumont as duas bombas atômicas simplesmente por ter "inventado" o avião. Poderiamos sim, e penso que isso é válido, discutir as idéias de Marx, o que não aconteceu. Não defendo as idéias marxistas pois não as conheço plenamente. Mas, se fosse um defensor das mesmas, de toda esta discussão não chegaria à conclusão de que os argumentos de Marx não funcionam. Concluiria apenas que pessoas não dispostas a conhecê-los as consideram idiotas, e atribuem-nas a desgraça do mundo. E para minha maior decepção, tais pessoas, eivadas de pré-conceitos, permeiam o meio acadêmico. Discutamos idéias e argumentos, chamar os marxistas de idiotas, e afirmamos que precisam ouvir isto, a meu modesto juízo, é uma atitude anti-filosófica que deixa transparecer uma grande desonestidade intelectual.

    Anderson Gallo.

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  28. Caro Aires,

    É um prazer voltar a discutir contigo.

    Mas não percebo como podes pensar que as minhas intenções são as que me atribuis.

    Eu quando escrevi que a Crítica mudou muito foi depois de ler a primeira resposta do Desidério, a do "presumivelmente". Esse tipo de resposta falaciosa antes era impensável na Crítica.

    O meu primeiro comentário era mais "suave".

    E é claro que os leitores, cada um por si, ajuizarão se a Crítica continua a merecer o crédito que em tempos mereceu e também deveria ser claro que isto não é nenhuma ameaça.

    Eu elogiei várias vezes a Crítica, considerei-a uma das publicações mais credíveis em Portugal, agora já não penso exactamente assim e digo-o.

    Por outro lado, uma recensão igual àquela, mas onde se mudasse "esquerda" por "direita", "Fidel" por "Bush", etc., mereceria de mim os mesmos comentários.

    «Será que os leitores que aqui se têm manifestado também se opõem à publicação de resenhas sobre os livros tendenciosos de Nietzsche a dizer mal do cristianismo e dos cristãos?»

    Não sei se aqui te estás a referir a mim, mas eu não me oponho nada à publicação de resenhas (mesmo que elogiosas) sobre livros tendenciosos.

    Mas criticaria a publicação de uma resenha sobre um livro do Nietzsche em que ele atacasse os cristãos, se essa resenha fosse ao estilo: "os cristãos são uns idiotas e o nosso adorado Nietzsche é um baril com uns gandas tomates e diz isso mesmo com todas letras".

    Nota que criticaria mas não faria nada para impedir que vocês publicassem isso. Claro que me reservaria o direito de dizer que a Crítica tinha perdido crédito. Era o que faltava que não o pudesse fazer.

    Um abraço,
    Pedro

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  29. Caro Desidério,

    Qual é o teu problema em responderes à minha pergunta?

    Se achas que é uma pergunta idiota, di-lo e explica porquê.

    Abraço,
    Pedro

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  30. Fazer doutrinação ideológica é usar meios psicológicos, emocionais, etc, para levar as pessoas a aceitar aquilo que jamais aceitariam se pensassem racional e autonomamente. Espanta-me que se considere "doutrinação" ideológica chamar "idiota" a alguém. Por chamar idiota a um marxista estou a "doutrinar" as pessoas no anti-marxismo? Poderia isto estar mais próximo do cristão ofendido para quem andarem por aí ateus a exibir a sua descrença é o mesmo que lhes sujeitarem os filhos a uma "lavagem ideológica"?

    Não ficou já óbvio pela profusão e teor de comentários que as pessoas ficaram mesmo incomodadas pelo facto de a recensão não ser simpática a ideias queridas? Temos dezenas de artigos sobre livros e todos eles são lacónicos. Alguns são mesmo telegráficos, como algumas divulgações que fiz no blogue. Nunca geraram este tipo de reacção. Nunca se viu tal coisa. O que raios tem este artigo de tão especial? Há muitos outros em que se usa adjectivos coloridos para qualificar coisas estúpidas. Por que implicar com este em particular? Só vejo uma razão, a mesma que o Desidério já apontou.

    Se o Pedro não lê nem 10% do que se publica na Crítica em que baseia a sua ideia de que a fasquia da qualidade baixou de um modo tão acentuado e também a sua recomendação aos outros para que leiam a crítica? Então eu estou mal porque defendo a publicação da resenha sem ter lido o livro, mas você recomenda e elogia uma coisa de que nem 10% conhece?

    Pelo que vejo estamos no domínio da pura retórica e que isto são apenas reacções ofendidas à publicação de uma opinião que chateia. Uma coisa tenho de dizer: honra seja feita aos barbudos da velha guarda - são honestos. Ao folhear a bibliografia apologética mais recente encontramos ideias como: bom era Andropov não ter morrido, Gorbachev nunca ter chegado ao Politburo e ter-se mantido a censura nos mass media soviéticos. Admiro quem tem tomates de defender estas ideias. Não por fazerem o mínimo sentido, mas porque não estão disfarçadas de preocupações com outras coisas. Com os barbudos da velha guarda sabemos sempre bem o que eles pretendem de nós. Cada vez mais me convenço de que é preciso mais resenhas destas.

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  31. «Fazer doutrinação ideológica é usar meios psicológicos, emocionais, etc, para levar as pessoas a aceitar aquilo que jamais aceitariam se pensassem racional e autonomamente.»

    Concordo.

    «Espanta-me que se considere "doutrinação" ideológica chamar "idiota" a alguém.»

    Pois a mim parece-me um óptimo meio para apelar à emotividade e para se tentar evitar uma discussão racional: “este tipo é um idiota; facto; agora vou-vos dizer porquê”.

    «Não ficou já óbvio pela profusão e teor de comentários que as pessoas ficaram mesmo incomodadas pelo facto de a recensão não ser simpática a ideias queridas?»

    Não. Eu não sou marxista e sou anti-comunista. Essas ideias não me são queridas.

    «Por que implicar com este em particular? Só vejo uma razão, a mesma que o Desidério já apontou.»

    Presumivelmente, Vítor... presumivelmente...

    «Se o Pedro não lê nem 10% do que se publica na Crítica em que baseia a sua ideia de que a fasquia da qualidade baixou de um modo tão acentuado e também a sua recomendação aos outros para que leiam a crítica?»

    1. Mais do que a publicação daquela resenha, as respostas cheias de falácias grosseiras dalguns dos responsáveis pela Crítica e o enorme incómodo que demonstraram, recorrendo inclusive a ataques pessoais (sim, sim), perante as críticas levam-me a crer que as coisas mudaram e para pior.

    2.Quando recomendei a Crítica lia uma percentagem muito maior de textos do que leio agora.

    «Uma coisa tenho de dizer: honra seja feita aos barbudos da velha guarda - são honestos. Ao folhear a bibliografia apologética mais recente encontramos ideias como: bom era Andropov não ter morrido, Gorbachev nunca ter chegado ao Politburo e ter-se mantido a censura nos mass media soviéticos. Admiro quem tem tomates de defender estas ideias. Não por fazerem o mínimo sentido, mas porque não estão disfarçadas de preocupações com outras coisas. Com os barbudos da velha guarda sabemos sempre bem o que eles pretendem de nós. Cada vez mais me convenço de que é preciso mais resenhas destas.»

    Agradeço que não me insulte. Eu não o insultei.

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  32. Aires, desculpa lá, mas esqueci-me disto:

    «Acrescento apenas que também não li o livro e provavelmente não o lerei. E que, mesmo assim, considero correcta a decisão de publicar a resenha. Aliás, uma resenha é mesmo isso: uma descrição abreviada das principais ideias ou teses do livro e não necessariamente uma discussão dos argumentos nele contidos.»

    Se não leste o livro, como é que sabes que esta resenha é uma descrição abreviada das principais ideias ou teses do livro?

    Adivinhaste nos búzios? Consultaste um astrólogo?

    Isto está-se a tornar cómico porque já deu para perceber que nenhum de vocês leu o livro e no entanto acham que a resenha está bem feita.

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  33. Bem, escrevo da América Latina, mais especificamente do Brasil, ex-colônia portuguesa. Quero dizer que o problema com estes livros de Llosa e companhia é que são peças ideológicas um tanto superficiais, generalizadoras e grosseiras; peças ideológicas de direita sim, direita no sentido definido por Bobbio. Acho que publicações exigentes como a 'Crítica' devem evitar divulgar este tipo de material simplesmente porque carece, no mínimo, de seriedade e qualidade; pior ainda fazer uma resenha elogiosa. Também há materiais de esquerda deste tipo e acho que também não vale a pena publicar, da mesma forma. Sempre há critérios de seleção para publicação, não é mesmo??(e seleção não é nem nunca foi sinônimo de censura).
    Não sou marxista e discordo com o Desidério de que o problema aqui é o fato de se estar ridicularizando marxistas.
    Sou brasileiro e estou contente que tenhamos, nos últimos anos, elegido presidentes e forças políticas que têm criado políticas que diminuem a desigualdade social, distribuem renda e investem em educação e saúde no meu país e na América Latina. Além disso, são representativos culturalmente, como o índio Evo Moralez, que derrotou democraticamente elites corruptas e brutas que há muito tempo mantinham a maior parte da população boliviana no mais pleno esquecimento. Não acredito, contudo, que se possa generalizar e etiquetar estes presidentes como fazendo parte de um mesmo grupo de "populistas" ou "marxistas" ou outra classificação do gênero. Sei que há alinhamentos e semelhanças, mas também há singularidades e diferenças importantes e não enxergar isto é puro preconceito. O fato é que estas forças políticas, que não estão isentas de erros, têm enfrentado injustiças e desigualdades históricas. Apesar dos problemas e críticas cabíveis, todos esses presidentes foram eleitos pelo voto popular e não há aqui ditaduras em curso como houve há décadas atrás, todas elas militares e de direita, análogas aos regimes horrendos de Salazar e Franco. Então, por que tanto ressentimento do Sr.Llosa? As forças que hoje são oposição nestes países fizeram algo melhor por seus povos quando estavam no governo? São as forças que o Sr. Llosa apóia menos "idiotas" do que os que ele critica? Sabemos que que só o que estes amigos de Llosa fizeram foi aplicar o receituário liberal e vivemos suas consequências, em especial, a Argentina. Então, para finalizar, afirmo acima de tudo que o que há por aqui, aqui nas suas ex-colônias amigos europeus, é a busca por um pouco de autonomia e justiça; e isto está ocorrendo por vias democráticas tradicionais, sem rupturas institucionais, contrariamente ao que as forças políticas ligadas às elites fizeram em passado recente. Sincero abraço a todos.

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  34. Caro Vitor,

    Quer saber o que tem de especial nesta recensão?

    Parece-me a pior recensão que já li, mas não pelo tema abordado, e sim por sua estrutura. Foi mal escrito, é isto. Motivo de tanta agitação é, em grande parte por isto, ao que me parece. Como você mesmo disse, no Crítica tem tantos outros artigos ruins. Mas isto não é motivo para que se tenha mais um.

    Qual a pretensão de uma recensão? Divulgar um livro apresentando seu conteúdo, mas, como estamos em uma revista de filosofia, a maioria dos leitores vão se interessar também pela apresentação de alguns argumentos defendidos no livro bem como a uma breve análise de quem o leu, se não for pedir muito. Ou estou errada? O que difere esta recensão de uma outra publicada num jornal sensacionalista? É este o problema principal que eu vejo.


    Tatiane Poiani

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  35. ... Honra seja feita aos engomados da velha guarda, capazes de analisar e debater argumentos sem desqualificar o adversário e bater em homens de palha.

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  36. É preciso distinguir cuidadosamente o seguinte:

    1) A recensão não devia ter sido publicada;
    2) A recensão é de má qualidade;
    3) O livro objecto da recensão é de direita.

    Há quem pensa que 3 implica 1, e há quem pense que 2 implica 1. Mas isto é defender a censura. Claro que é incómodo admitir isso e daí os malabarismos retóricos para dizer “não, não somos pela censura, mas não queremos ver publicada esta recensão”. Era bom que isto ficasse claro.

    Insisto: é muito, mas muito diferente, defender 2 ou 3 de defender 1. Eu só estou a pôr em causa quem defende 1 e não quem defende 2 ou 3. E o meu argumento é que a única razão para defender 1 é uma mentalidade que se incomoda com a expressão de ideias irritantes.

    Anderson, eu não afirmei que o marxismo é x ou y, mas apenas que há quem pense que o marxismo é x ou y e que é bom publicar as ideias de quem pensa isso. Os marxistas, claro, querem silenciar a expressão das ideias de quem pensa isso, porque ficam ofendidos. Paciência. Não há liberdade de expressão sem as pessoas correrem o risco de se sentirem ofendidas.

    Pedro, os exemplos que dás de uma imaginária recensão do Nietzsche não é nem de perto semelhante à recensão publicada. Eu não publicaria uma recensão dessas, por ser de puro mau gosto. A recensão publicada ridiculariza os marxistas sul-americanos, como o livro, mas não o faz com mau gosto.

    Não tenho de responder sobre critérios de publicação de recensões, nem sobre critérios de publicação seja do que for. Mas respondo: publico recensões que sejam informativas e estejam bem escritas, sejam claras e precisas. Se os livros forem de filosofia, exijo descrições mais pormenorizadas. A recensão obedece claramente a critérios mínimos de qualidade, e qualquer pessoa vê isso, desde que tente ver um pouco além da irritação que lhe provoca o facto de haver quem pense que os marxistas são idiotas. (Sublinho: não estou a dizer que penso que os marxistas são idiotas, apesar de pensar realmente isso, estou apenas a dizer que há evidentemente quem pense isso e por mais que os marxistas queiram não irei censurar isso na Crítica. E também não irei censurar quem pensa que é idiota quem pensa que os marxistas são idiotas.)

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  37. Devo dizer que estou chocado. Depois de ler todos estes comentários resolvi reler a recensão. E a conclusão é que está bem escrita, nem sequer ridiculariza os marxistas, é distanciada, não é inflamada, e limita-se a falar de alguns dos conteúdos do livro, citando alguns factos nele referidos. O próprio livro não apelida de idiota todos os marxistas, como eu por exemplo faria, porque sou uma besta, mas apenas um certo marxismo sul-americano populista e desastroso para a economia das populações atingidas.

    Conclusão: é evidente quem se opõe à publicação da recensão não pode ter razão. Não a teria, mesmo que a recensão fosse má. Mas assim, ainda a tem menos. A recensão é apenas irritante porque defende ideias que são ofensivas para muitas pessoas. Paciência. Este é o preço a pagar pela liberdade de expressão. Convido todos os marxistas, idiotas ou não, a enviar recensões para a Crítica de livros que defendam que Mário Vargas-Llosa é idiota por ser de direita.

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  38. «Convido todos os marxistas, idiotas ou não, a enviar recensões para a Crítica de livros que defendam que Mário Vargas-Llosa é idiota por ser de direita.»

    Nenhuma pessoa decente, seja ela de direita ou de esquerda, descerá a esse nível.

    Já que, infelizmente, abandonaste a argumentação e aderiste às danças xamânicas, espero que ao menos te estejas a divertir.

    Pedro

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  39. Ou seja, Vargas-Llosa está a um nível demasiado baixo para merecer a publicação.

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  40. É, caro Desidério, estas publicações "políticas" do Sr.Llosa são realmente muito precárias, para dizer o mínimo. Quanto ao teu conceito de "marxistas" e teus preconceitos políticos, é direito teu celebrá-los em praça pública. Talvez um olhar tão distante, com um oceano de distância (somado à obra cometida pelos 03 amigos neocons), contribua para turvar a visão e criar generalizações e categorias muito distantes da riqueza da realidade política atual da Améria Latina que, apesar de todos os pesares (e não são poucos), nunca esteve tão bem. Ou então essa percepção generalizadora seja mesmo uma forma usual de alguns intelectuais do velho continente se dirigirem a suas ex-colônias: com pressa, pouco cuidado, pouco rigor e algum preconceito interpretativo que beira a arrogância.

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  41. Caro Desidério,

    “Conclusão: é evidente quem se opõe à publicação da recensão não pode ter razão. Não a teria, mesmo que a recensão fosse má.”

    Desculpa se não fui clara o suficiente na parte do meu comentário anterior em que digo que a resenha foi mal escrita. Disse isso porque, ao ler a resenha, percebi que o autor carregou na linguagem, deu seu toque de humor, e pouco se importou em apresentar argumentativamente os bons motivos que ele encontrou para recomendar o livro que, para ele, é “imperdível”. Sinceramente, para mim, torna a resenha ruim. E, por isso, se temos na revista um corpo editorial que avalia os artigos que devem ser publicados ou não mediante a qualidade dos mesmos, não vejo motivos para este em especial ter passado. Se isto é o que você chamou de censura, então elimine o corpo editorial desta revista. Pois, pelo teu raciocínio, a edição, ao escolher os artigos a serem publicados pela qualidade do que foi escrito está agindo de forma a censurar os textos ruins.

    E outra coisa. Quando afirmaste que: “E o meu argumento é que a única razão para defender que a recensão não deveria ter sido publicada é uma mentalidade que se incomoda com a expressão de ideias irritantes.”

    Primeiro, defendo que, se tivesse sido escrita visando o padrão dos melhores artigos aqui publicados, e não o contrário, acharia muito interessante e motivo de debate intelectualmente produtivo o assunto da recensão.


    E, segundo, se tivesse aversão a debates, o que pressupõe idéias diferentes sendo discutidas à luz da razão, não faria filosofia e, muito menos, me dispunha a querer debater com você, e até estar disposta a mudar de posição mediante a bons motivos, sobre a minha sincera opinião.


    Tatiane Poiani

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  42. Caro Desidério, gostaria apenas de explicar a minha posição. Não me senti ofendido por todas as palavras ditas contra os marxistas, até porque não sou um deles, mas se o fosse também não me sentiria. O que tentei colocar, não sei se fui claro o suficiente, e penso que estes sejam também os motivos de todos os que se voltaram contra a publicação da referida resenha é que a Crítica é reconhecida como uma boa revista de Filosofia. Isso têm o bônus do reconhecimento, mas também o ônus de uma maior seriedade. O motivo da minha decepção foi ver na página principal da revista uma resenha que não foi capaz de me atrair à leitura do respectivo livro. Sei que isto é critério de vocês, nada tenho a ver com isso. Só me decepcionei pois ao ler a referida resenha, não senti nenhuma diferença entre ver o que estava sendo publicado na Crítica e ligar a televisão da minha casa sem nenhum compromisso cognitivo. Falaste que a resenha é informativa. Pergunto-te: onde? Não consegui abstrair nenhuma informação além de que existem pessoas que acham os marxistas idiotas, e de que o editor da Crítica concorda com isso, pois os marxistas precisam ouvir tal coisa. É patético mudar o foco da discussão. Não me manifestei por sentir-me ofendido quanto marxista. A minha decepção foi ver na Crítica o mesmo que veria se tivesse ligado a tv de minha casa num daqueles canais que expõe pura e simplesmente banalidades. Penso que a Crítica continua sendo uma revista de Filosofia, e não passou a ser de conhecimentos gerais, tampouco uma revista que permite palavras ofensivas e desnecessárias, razão pela qual continuarei leitor da mesma. No entanto, passarei a lê-la com maior receio, pois filosoficamente é preciso atacar idéias e argumentos, e não pessoas. Repito, não sou marxista, e não me senti ofendido de maneira alguma. Podemos discutir argumentos da maneira que bem entendermos, mas atacar pessoas é desonesto e desnecessário, além de ser falacioso. A impressão que fica com a discussão é que não há argumentos contra o marxismo. O apelo que faço como leitor é um maior critério na publicação dos trabalhos. Isso não é censura, qualificar como censura é mudar o foco da discussão. Não estou discutindo idéias, até porque as que foram apresentadas na resenha não foram sustentadas como se esperaria que o fossem numa revista séria de Filosofia. Este é o meu singelo apelo. O critério de avaliação para publicação é de vocês, nada tenho a ver com isso. Apenas perderão um leitor...


    Anderson Gallo

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  43. «Ou seja, Vargas-Llosa está a um nível demasiado baixo para merecer a publicação.»

    O quê?! Estás a brincar, é isso?

    É claro que o que eu digo é que nenhuma pessoa decente, seja ela de direita ou de esquerda, enviará ou escreverá uma recensão ou qualquer outro tipo de texto que defenda que Mário Vargas-Llosa é idiota por ser de direita.

    Termino agora a minha participação neste debate.

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  44. Disse o Vitor Guerreiro em seu primeiro comentário:

    "Neste site o que interessam são os argumentos e não a adesão febril às conclusões”.
    Pois bem Vitor, os argumentos que interessam e não a adesão febril às conclusões... À luz dessa idéia, vejamos: quais são os argumentos que a recensão apresenta? Apresenta argumentos racionais, cogentes, plausíveis, defensáveis, com valor primariamente cognitivo – nenhum! Curioso não?
    Caríssimos editores e seus fieis escudeiros, releiam a recensão. Acredito eu que é um bom exemplo de "adesão febril às conclusões".
    E continua o Guerreiro:
    “Qualquer coisa pode ser abjecta, idiota ou má, mas o que interessa é ver porquê”.
    Concordo plenamente, e até acho o Chaves um idiota mesmo (não o do seriado...). Mas o que gostaria era “ver porquê”, pois é isso que interessa, não é mesmo?
    E... nenhuma palavra a esse respeito! Nem na recensão nem nos comentários de defesa desta. Vocês estão a fugir falaciosamente da discussão.
    A recensão foi publicada. Ponto. Em relação a isso não há o que discutir. Até porque “tudo pode ser discutido, tudo pode ser posto em causa. Até as melhores intenções dos não-direitistas e não-conservadores. Esteja a razão do lado que estiver, isso pode mostrar-se num argumento racional. Quando a verdade está do lado de uma idéia, a ideologia torna-se desnecessária, porque a verdade fala por si".
    Mas então porque raios, caríssimo Desidério e caríssimo fiel escudeiro Guerreiro, porque vocês não apresentam logo esses misteriosos argumentos interessantes, edificantes e sugestivos que são apresentados na recensão? Mostrem onde estao na recensao as tao defendidas idéias cogentes, plausíveis, defensáveis...

    Sou apenas mais um latino-americamo que rejeita tanto as besteiras ideologicas de esquerda quanto as de direita, porque a verdade fala por si.
    Sebastiao Tome

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  45. Caro Pedro,

    Já cá faltava esta:

    "Se não leste o livro, como é que sabes que esta resenha é uma descrição abreviada das principais ideias ou teses do livro?

    Adivinhaste nos búzios? Consultaste um astrólogo?"

    Bom, quase me deixaste sem palavras com esta tirada. Se uma pessoa precisasse de ler um livro para saber se a descrição do conteúdo do livro é correcta ou não, então a sua descrição seria um exercício tolo e inútil.

    Pelo que dizes, só sabes se estás perante a descrição de um filme, de um romance ou até de uma situação real depois de veres o filme, de leres o romance ou de presenciares a situação referida. E também não estás em condições de concordar que Charles Dickens faz nos seus livros uma descrição muito viva da Inglaterra do tempo da revolução industrial, dado que não viveste na Inglaterra da revolução industrial. Lá teremos nós de consultar os búzios para saber tais coisas.

    Insisto, não li o livro e não preciso dos búzios para saber se estou perante uma descrição ou se, pelo contrário, o autor da recensão se limita a transmitir o que sentiu quando leu o livro (coisa que acontece com tanta frequência). Outra coisa bem diferente é saber se a descrição é correcta. Mas tu pareces querer confundir estas duas coisas. Sugiro-te que leias de novo a recensão e verás que encontras, boas ou más, descrições do conteúdo do livro e do que nele se defende. Penso que podes ver isso por ti e não precisas que faça aqui algumas citações.

    Quanto ao resto, estou simplesmente abismado com a inesperada reacção a esta recensão, até porque há muitas outras na Crítica na linha desta, só que sobre outros assuntos. Por isso, é cada vez mais óbvio para mim que o problema é mesmo o assunto do livro e nada mais.

    Mas se alguém discorda do conteúdo do livro ou da recensão, é bom para todos que o diga livre e contundentemente, se necessário.

    Mas ir daí para a falácia do apelo às consequências, do tipo "a continuar assim, deixo de ler a Crítica", trata-se não só de uma fuga ao assunto, mas sobretudo uma tentativa de condicionar falaciosamente o que se publica. Até porque me parece completamente desinteressante e até inútil vir para aqui dizer que se vai deixar de ler a Crítica, pois isso não é uma crítica (coisa que aqui se estimula), mas uma ameaça. Se se quer realmente deixar de ler, basta simplesmente deixar de ler.

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  46. Desidério Murcho diz, e eu grifo com aspas simples o que quero destacar:

    "Obrigado a todos pelas vossas críticas. É bom ver os leitores a discordar civilizadamente de algo publicado na Crítica. 'É bem diferente dos
    insultos que se costuma ver nas caixas de comentários dos blogs'. Fico contente por isso (...)".

    No entanto, a recensão em tela inteira gira em torno de um insulto que se quer argumento: a esquerda latina é idiota porque não faz parte
    do consenso, aparentemente jamais idiota, que crê "possível o desenvolvimento adotando um modelo honestamente liberal".

    Eu não defenderia publicamente que do fato de não se acreditar em tal modelo se segue, necessariamente, alguma idiotia. Não vejo em que
    condições esse seria um bom argumento.

    Não conheço a obra, mas somente o que a resenha sobre ela diz. E isso não foi nada auspicioso.

    Embora, para defenderem "que é possível o desenvolvimento adotando um modelo honestamente liberal", nossos três mosqueteiros tenham
    analisado "exemplos de países que conseguiram prosperar com um programa responsável de reformas políticas e econômicas", não parecem ter adotado o mesmo rigor em relação a exemplos de países que prosperaram conjugando o "ideário quase elevado ao posto de evangelho em nossas terras" com o maktubiano "programa responsável de reformas políticas e econômicas", p. ex.,
    do qual o Brasil é um representante. Ora, embora a manutenção do superávit primário seja, de fato, uma receita liberal, pelo menos tal como o liberalismo tem sido entendido desde os "Chicago Boys" e, mais recentemente, desde o "Consenso de Washington", é indiscutível que as políticas de proteção social adotadas no Brasil desde a Constituição de 1988 (seguridade social e sistema único de saúde universais e programas de renda mínima, só para ficarmos nos que foram e estão sendo aprimorados desde então), longe de rezarem pela cartilha dos bem-aventurados e "responsáveis" liberais, aliás, bem na sua contramão, engrossam o coro dos "evangelizadores" latinos.

    (continua...)

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  47. Com um só exemplo cai por terra a sofrível e simplista conclusão apresentada na recensão, a saber, a de que há um dicotomia política
    incontornável na América Latina em função dos nativos invariavelmente se dividirem entre "responsáveis" e "evangelizadores".

    Ela é prefeitamente compreensível, todavia. Sem ela não seria possível dividir-nos entre esquerda "vegetariana" e "carnívora", aparentemente um dos pilares da argumentação de nossos desinteressados mosqueteiros. Dispensá-la também exigiria análises comparativas sérias, que levassem em consideração as nunces históricas de
    "responsáveis" e de "evangelizadores" em cada cenário político latino, o que nem de longe parece ter sido feito no referido estudo.

    Isso tudo, porém, não me chocou tanto. Aqui, nas colônias D'Além Mar, já estamos acostumados com esse tipo de generalização gratuita sobre nossos espectros políticos, partam elas de nativos ou de estrangeiros. O que me chocou mesmo foi ler argumentos do tipo "com a mesma presumível falta de qualidade já seria bem-vinda se cantasse louvores ao marxismo", ou "se fosse uma recensão igualmente não pormenorizada mas elogiosa de um panfleto do “lado certo” já não haveria protestos", e mesmo "Sempre que alguém protesta pela publicação de algo, está de facto disfarçadamente a protestar por se ter dado voz a algo que a pessoa prefere silenciar". Seu autor parece estar em um nível epistêmico muito superior ao meu para ser capaz de afirmar que é verdade que (i) "sempre" que alguém protesta por alguma publicação,
    disfarçadamente protesta por ter sido tornado público algo que deveria permanecer oculto - uma vez que é perfeitamente possível que alguém
    proteste pela publicação de algo simplesmente por esse algo ser falso, o que é o caso da referida generalização barata apresentada na recensão -, tese que, no contexto de seu proferimento, parece indiretamente sugerir que há determinadas ideias ou até mesmo "verdades" que, por serem verdadeiras, mas com o defeito de serem contrárias às minhas - por conseguinte - equivocadas convicções, devem permanecer quietas no seu canto, e isso para que o meu argumento, mesmo equivocado, e nesse contexto eu tenho consciência disso, seja o vencedor.

    Eu não sei como se chama isso em Portugal, mas aqui no Brasil, quando se usa tal argumento, está a se acusar alguém de má-fé intelectual.

    Marcelo da Silva Duarte
    Porto Alegre/RS/Brasil
    www.laviejabruja.blogspot.com

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  48. Disse eu:

    "Se uma pessoa precisasse de ler um livro para saber se a descrição do conteúdo do livro é correcta ou não, então a sua descrição seria um exercício tolo e inútil."


    Ooops, claro que não era isto que eu queria dizer. Devia ser antes:

    "Se uma pessoa precisasse de ler um livro para saber se a recensão descreve o seu conteúdo, então descrevê-lo seria um exercício tolo e inútil."

    Aqui fica a correcção.

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  49. [...] Novos tempos, novos idiotas. Antes tínhamos Fidel Castro como protagonista. Agora temos Hugo Chávez no papel capital. O presidente venezuelano é a personagem principal de A Volta. Descrito pelos autores como o "melhor aluno" de Castro, Chávez reúne com destreza as características que um idiota exemplar deve conter. Para azar dos venezuelanos, o autoritarismo figura entre tais características. Segundo A Volta, no ano de 2004 o presidente venezuelano aprovou de maneira inconstitucional o aumento de 20 para 32 cadeiras no Supremo Tribunal de Justiça. Evidentemente, a medida acarretou uma maioria favorável a Chávez no judiciário. Nem fez questão de disfarçar: assim que o magistrado eleito para presidir a corte tomou seu posto, declarou que "todo juiz que emitir julgamentos contrários aos princípios revolucionários será destituído e sua sentença anulada".[...]

    se esse trecho não é informativo, então o que é?
    e siceramente, diante de tal atitude do hermanito Chávez, ele de fato não é um idiota? me parece que sim!

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  50. Sou o autor do texto. Vi que ele provocou algumas críticas (que eu já esperava). Vou tentar defender o texto na medida em que me apareça um pouquinho de tempo.

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  51. Caro Aires,

    «Se uma pessoa precisasse de ler um livro para saber se a recensão descreve o seu conteúdo, então descrevê-lo seria um exercício tolo e inútil.»

    «Insisto, não li o livro e não preciso dos búzios para saber se estou perante uma descrição ou se, pelo contrário, o autor da recensão se limita a transmitir o que sentiu quando leu o livro (coisa que acontece com tanta frequência). Outra coisa bem diferente é saber se a descrição é correcta. Mas tu pareces querer confundir estas duas coisas»

    Claro que uma pessoa precisa de ler o livro para saber se a recensão descreve correctamente (posso ter-me explicado mal, mas não quero confundir nada) o seu conteúdo. Daí não decorre (de modo nenhum!) que descrevê-lo seja um exercício tolo e inútil.


    «Pelo que dizes, só sabes se estás perante a descrição de um filme, de um romance ou até de uma situação real depois de veres o filme, de leres o romance ou de presenciares a situação referida.»

    Só assim posso saber se estou perante uma descrição fiel.

    «E também não estás em condições de concordar que Charles Dickens faz nos seus livros uma descrição muito viva da Inglaterra do tempo da revolução industrial, dado que não viveste na Inglaterra da revolução industrial. Lá teremos nós de consultar os búzios para saber tais coisas.»

    Quem não tiver conhecimentos profundos sobre a história da Inglaterra nesse período sabe lá se o Dickens faz uma descrição muito viva desse período; e não são os búzios que o poderão ajudar.

    Quem tiver esses conhecimentos, julgo que poderá saber (digo "julgo" porque o valor da história é passível de discussão e eu, neste momento, não estou preparado para essa discussão).

    Antes deste comentário escrevi outro em que dizia que tinha terminado a minha participação no debate. No entanto, não quis deixar de te reaponder. Não concordo contigo, mas tu não recorres a insultos e não acredito que venhas a recorrer.

    Um abraço,
    Pedro

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  52. "Neste site o que interessam são os argumentos e não a adesão febril às conclusões".

    Caro Vitor, quais sao os argumentos que interessam nessa recensao, se é que ha algum? Muito pelo contrario, esta recensao é exemplo claro de adesao febril às conclusoes!

    "Qualquer coisa pode ser abjecta, idiota ou má, mas o que interessa é ver porquê".

    Isto que está em jogo e ate agora nenhuma editor da revista respondeu. O Chaves, Morales, etc podem ser idiotas (e os marxistas tambem) "mas o que interessa é ver porquê". Pois bem! Onde está explicitado esse porque na recensao? Sera que nesse caso argumentos edificantes, sugestivos sao aceitaveis?

    "Esteja a razão do lado que estiver, isso pode mostrar-se num argumento racional. Quando a verdade está do lado de uma ideia, a ideologia torna-se desnecessária, porque a verdade fala por si".

    Poderia demonstrar onde está a "razao" ou a verdade dos "argumentos racionais" apresentados na recensao? Nao passam de falacias! Caros continentais, quando assim convem...

    PS.: Ao censurarem meu comentario anterior fica claro ate que ponto vai a defesa, por parte de vocês, da livre discussao... Estranho, muito estranho.

    Sebastiao Tome

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  53. Rodrigo Guedes, eu não sei se você leu o livro, mas a conclusão de que “todo esquerdista latino-americano é um idiota” é pura e simplesmente falsa. Eu não me lembro de ter apresentado essa conclusão na minha resenha e tampouco me recordo do próprio livro considerar, por exemplo, a presidente chilena (que é esquerdista) uma idiota. Ser esquerdista, por assim dizer, não implica necessariamente idiotice. Portanto, se a presidente do Chile é uma esquerdista latino-americana e, ao mesmo tempo, não é idiota, segue-se que nem todo esquerdista latino-americano é idiota. O que se conclui disso? Que a conclusão indicada no início desse parágrafo é falsa.

    E é também errado dizer as idéias são meramente ataques pessoais. É evidente que chamar um Hugo Chávez de idiota, por exemplo, é um ataque pessoal. Mas nem o livro nem a resenha se limitam aos ataques. Se você prestar bastante atenção, verá que existem argumentos (autoritarismo, bravatas enferrujadas, aparelhamento do judiciário) que justificam o adjetivo “idiota”.

    Aliás, chamar a resenha de “panfleto de extrema direita” é brincadeira sua, não? E vou reiterar: não há uma “mera malhação” nem ao marxismo e nem à esquerda como um todo. E você está errado quando diz que a publicação da minha resenha pela crítica é uma tomada de posição política por parte do site. A resenha foi escrita por mim e a Crítica somente a publicou. Com seu argumento, é possível concluir que uma revista qualquer irá compactuar com a posição política de um colaborador somente pelo fato de publicar algo deste.

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  54. Pollyanna, eu adoraria poder, passo a passo, argumento a argumento, mostrar que a todas as conclusões contidas no livro se seguem em absoluto de cada uma das premissas apresentadas – se for este o caso. Mas isso é meio trabalhoso demais, não acha? Porém, no trecho que você citou, o que eu penso ser a interpretação correta é a seguinte:

    a) O Chile (ou outro dos exemplos citados) é um país honestamente liberal e conseguiu prosperar com isso;
    Logo, b) é possível prosperar adotando um liberalismo honesto.

    O que você interpretou como premissa não é parte do argumento. Quando eu digo que adotar um liberalismo honesto é ir na contramão do que é pregado como quase um evangelho, só estou enunciando um fato. Imagino que você seja suficientemente inteligente para perceber que, em geral, as idéias vinculadas à esquerda gozam de bastante prestígio em nossas terras – sobretudo em boa parte da academia.

    Observe que eu primeiro escrevo que “existem exemplos de países que conseguiram prosperar com um programa responsável de reformas políticas e econômicas”. Logo depois dou alguns exemplos de tais países e concluo que se pode prosperar adotando um “modelo honestamente liberal”. A adoção de um “programa responsável de reformas políticas e econômicas” está intimamente ligada com o liberalismo adotado de forma honesta. Talvez eu não tenha sido explícito o suficiente nessa passagem. Se não fui, peço desculpas (embora pense que fui claro). Mas caso você tenha percebido essa nuance, acho que sua crítica é mais pirotécnica do que qualquer outra coisa.

    Em resumo, a conclusão de ser possível se desenvolver com um modelo honestamente liberal se baseia no fato de certos países terem se desenvolvido com tal modelo. Os autores exemplificam os países, explicam o que estes países fizeram (análise cuidadosa) e a conclusão se segue.

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  55. Tomé,

    ninguém lhe censurou o comentário. Simplesmente nem sempre posso estar de guarda à espera de ver quem envia comentários, para os aprovar no minuto. Tenho outras coisas que fazer.

    Estou perplexo com a extensão que esta caixa de comentários já alcançou. Faz mesmo falta mais alguns textos como este.

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  56. Anderson Gallo, eu concordo com você que a resenha não é capaz de refutar as idéias de Marx por um singelo motivo: ela não é uma tentativa de refutar as idéias de Marx. É claro que se pode argumentar contra as idéias de Marx, mas, como parece bastante claro, a resenha não se presta a esse papel. Logo, discussões sobre os méritos ou deméritos da obra desse pensador não fazem parte do que propus com a resenha. A sua conclusão está correta. Infelizmente, porém, ela não atinge a resenha.

    No mais, você afirma que o texto não é informativo e que não conseguiu abstrair nenhuma informação além “de que existem pessoas que acham os marxistas idiotas”. Eu acho que você está com um pequeno problema para abstrair coisas. A resenha simplesmente não diz que existem pessoas que acham os marxistas idiotas. O máximo que consigo tirar do que você disse é que existem críticas a certos marxistas. Logo, a generalização “os marxistas” é um tanto descabida.

    Penso que é bem óbvio que os idiotas do livro e da resenha são determinadas personagens do cenário político da América Latina. Dessa forma, sugiro que você aperfeiçoe suas habilidades de abstração.

    Antes de ameaçar subtrair-se como leitor da Crítica, aconselho que pense nisso.

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  57. Caros leitores,
    Não me tinha apercebido ainda da discussão que aqui vai. O colega Vitor Guerreiro foi quem me alertou para ler os comentários. Cabe-me, como assistente editorial da Crítica tecer uma palavra ainda que breve sobre este assunto.
    A Crítica é uma revista de filosofia, mas para além disso inclui outras secções como as de opinião, livros e música. Essas secções são mais livres no sentido em que um artigo aí publicado e arquivado não tem necessariamente que se envolver com o grosso da revista, que é a filosofia e a sua divulgação. São inúmeros os textos que recebemos e, respeitando os critérios pré estabelecidos pela revista (que podem ser acompanhados em: http://criticanarede.com/submissoes.html) eles podem ser aceites pelo conselho editorial sem quaisquer reservas de ordem ideológica. Estamos conscientes que os artigos de opinião que publicamos podem não interessar ou agradar a todos os leitores, mas mais que isso é nossa preocupação fundamental zelar pela verdade e evitar ataques pessoais ou a autores de artigos ou livros.
    Em nome pessoal confesso que nem todos os artigos publicados pela Crítica são do meu agrado. A título de exemplo, os meus gostos musicais são substancialmente diferentes daqueles que estão em arquivo na secção música. Mas nunca olhei para essa secção como um segmento de promoção do disco x ou y. Provavelmente se eu fosse o director da revista teria optado por outros artigos, divulgado outras escolhas.
    Mas que fique claro que ninguém está à partida impedido de objectar livremente qualquer artigo por nós publicado. Pode fazê-lo desde que leia cuidadosamente as indicações fornecidas no link que sublinhei acima.
    Finalmente, a Crítica afirma-se, há mais de uma década como uma referência na divulgação da filosofia em língua portuguesa. Temos em arquivo milhares de artigos, textos, teses, etc. Devemo-lo ao esforço do seu director, Desidério Murcho e a todos os que na revista tem colaborado, mas principalmente aos nossos leitores. É essa a linha que norteia e continua a nortear o desejo de continuar com as nossas publicações. E, como somos a Crítica, estamos sempre sujeitos a ela.A discussão activa é e será sempre bem vinda.
    Boas leituras e obrigado a todos
    Rolando Almeida

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  58. Uma coisa curiosa: quem comparar a recensão do Aluízio com a do Orlando, publicada há três anos (!), facilmente vê que a primeira é mais informativa e mais distanciada do que a do Orlando.

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  59. Caro Rolando,

    Sua manifestação como editor é muito importante, pois dá alívio a nós leitores que buscamos o material de qualidade aqui na Crítica, ao invés das amenidades, lugares comuns e idéias confusas ou pouco elaboradas.

    Trocando em miúdos, você está dizendo que a Crítica publica textos sérios e também algumas amenidades de Caderno B de jornal, e que no caso das amenidades a coisa é bem mais frouxa.

    Até onde entendo, você está sugerindo que o texto em questão faz parte dos lugares comuns que saem na Crítica, não dos textos cuidadosamente argumentados.

    Se for assim, a discussão toda surge porque não ficou claro para nós leitores que aquilo não era um artigo de primeira categoria, mas sim um artigo de segunda, um lugar comum que poderia sair em uma outra revista menos interessante e menos cuidadosa, mas a Crítica também publica.

    Se esse for o caso, que tal separar esses textos com lugares comuns desargumentados da parte séria, tal como fazem os jornais ao dividir as matérias em cadernos? Ou ao menos colocar um rótulo claro sobre as mesmas, como "Lugares Comuns".

    Ou, o que seria melhor (digo isso como leitor e divulgador da Crítica): que tal deixar tais amenidades e lugares comuns para as outras revistas que não conseguem se equiparar à Crítica no que ela tem de melhor, a saber, a argumentação cuidadosa?

    Eu prefiro a segunda opção porque isso dá um foco claro à revista. Já que vocês têm o diferencial da argumentação clara, não vejo porque vocês precisam ter também as trivialidades de revista semanal da Editora Abril. Eu ao menos não venho aqui em busca delas, e quem as busca já as encontra nas revistas semanais.

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  60. César,

    Você acha que a recensão é uma amenidade e um lugar comum. É a sua opinião. Mas é apeans uma opinião. Ninguém contesta o seu direito a protestar a qualidade da recensão. Contudo, as incessantes sugestões de que não devíamos publicar isto ou aquilo começam já a raiar o mau gosto e a tornar esta "malhação" (de facto) cansativa. Em primeiro lugar, uma recensão tem como fim divulgar livros e não fazer a sua defesa rigorosa. É ridículo esperar que uma recensão seja o equivalente a, digamos, o livro de Jonathan Wolff sobre Nozick, por exemplo, que se dedica a explorar os argumentos em detalhe. Um artigo de divulgação tem apenas de referir transversalmente os conteúdos, e é isso que esta recensão faz e fá-lo bem. O autor da recensão não está mais obrigado a apresentar refutações do marxismo do que eu, quando divulguei o livro do Michael Martin e o do Robin Poidevin sobre ateísmo estava obrigado a apresentar uma refutação detalhada do ateísmo. É simplesmente absurdo. A única razão para exigir isso ao Aluízio é o facto de ele se ter atrevido a tocar nos dogmas políticos e religiosos de alguns leitores. A reacção destes leitores assemelha-se cada vez mais claramente à reacção de religiosos ofendidos que sugerem sistematicamente ao editor de um jornal que não publique as crónicas de fulano porque "não tem qualidade" (ou seja: porque a pessoa lhes desagrada, por ser ateu, por malhar na igreja, ou outra coisa qualquer). torna-se igualmente cómica a distanciação artificial que as pessoas fazem relativamente aos mesmos dogmas políticos, sendo cada vez mais nítido que procuram distanciar-se para dar uma aparência de imparcialidade ao seu ataque.

    Não se compreende simplesmente que este seja o único post com 60 comentários desta natureza, quando temos tantas divulgações de livros exactamente semelhantes a este texto do Aluízio. E quanto às bocas sobre qualidade, meus caros: isso é a VOSSA opinião e não passa de opinião. Vão ter de viver com ela e engolir o facto de que há opiniões adversas. Não vamos exercer lápis azul sobre estes textos, quando muito esta reacção desmesurada das pessoas só garantiu que vamos mesmo publicar mais umas resenhas do género. E se não querem ler a crítica, são livres de o fazer. Sempre há as revistas semanais. Força. Mas não venham as pessoas com chantagens emocionais a supor que mudamos a política editorial a pensar que Fulano e Sicrano vão deixar de ler a revista. By all means... deixem de ler. Sempre seriam 10 ou 15 minutos que passaria a fazer algo cognitivamente mais proveitoso do que escrever esta resposta.

    Bem hajam

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  61. E não... qualificar as vossas opiniões de "opiniões" não é fazer entrar o relativismo pela porta do cavalo: é que são MESMO opiniões apenas. O Desidério e o próprio autor da recensão já responderam às principais objecções dos leitores. Creio que responderam correctamente. A partir daqui, continuar a malhar a "falta de qualidade" só porque o resenhista não refutou inequivocamente o marxismo não passa de treta, meus caros. Treta para disfarçar a exigência de censura... inútil exigência que não será atendida.

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  62. Oi Vitor,

    Veja bem, não é chantagem emocional, e também não é racionalização dos próprios preconceitos. O caso é o seguinte:

    Sou professor de filosofia, e indico a Crítica para meus alunos, inclusive exortando-os a clicar nas peças publicitárias para gerar receita e manter a gratuidade, e tudo o mais.

    Por que indico a Crítica? Bem, porque tem qualidade. Só a indico por isso, assim como só indico livros e artigos de outras fontes pelo mesmo motivo.

    Agora, o que acontece se começam a sair aqui peças que são ruins segundo o Guia das Falácias e o admirável livro de lógica informal? (Você acha que estamos sendo preconceituosos, mas vários aqui já mostraram as falácias da resenha em questão.) Bem, acontece que eu vou, certamente, mudar o modo como indico a Crítica. Vou dizer aos meus alunos para ter cuidado com as coisas que saem por aqui, tal como eu faria com qualquer outra fonte que se mostrasse no presente menos confiável do que era no passado.

    Por isso que eu digo que ter um selo "Amenidades" ou (algo mais eufemístico) "Cultura" seria útil, pois eu diria para meus alunos evitarem essa seção, usufruindo às largas do resto. É o que fazemos com certos jornais, revistas e sites, não?

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  63. Meu caro César, cuidado você tem de ter até com os argumentos mais cuidados. O que está a sugerir? Que se você gostar da publicação já pode dizer aos seus alunos para "não terem cuidado", ou seja, "acreditem porque é fixe!" Esse cuidado de que você fala é para exercer sempre, por mais fidedigna que seja a fonte, aliás, justifica-se ainda mais na leitura dos grandes filósofos do que numa simples divulgação de um livro.

    Tanto este post como a recensão do Aluízio foram publicados na secção "Livros". A partir daqui, qualquer leitor percebe que o objectivo é divulgar livros e não fazer bibliografia secundária sobre os mesmos. O autor da recensão não tem de antecipar a hipotetica resposta de um marxista ao livro divulgado e uma hipotetica contra-resposta contrária ao marxismo. Se os leitores esperam isto de um artigo de divulgação, então sofrem de uma grave confusão categorial.

    Não, não vamos criar uma secção de "lugares comuns", não vamos criar uma segunda secção de opinião que sirva para oficializar opiniões de opiniões de alguns leitores. Isto não é nenhum Agitprop. Quem se sente mal com isso, tem bom remédio. Fica-se pelas publicações do seu Agitprop de estimação... semanais ou quinzenais.

    Poderíamos quando muito, se isso não fosse uma brutal perda de tempo, classificar os comentários dos leitores segundo uma escala de valores entre a atitude crítica e o "komintern freak", disfarçado Imparcial e Virginal Leitor Emboscado pelo Papão do Lugar Comum.

    Só me surpreende como pessoas tão inteligentes, imparciais, honestas e tão preocupadas com a qualidade académica daquilo que lêem conseguem perder tanto tempo com supostos lugares comuns e banalidades destas. Não me entra na cabeça. A denúncia mais flagrante de que as coisas que o Aluízio diz não são lugares comuns é a paixão que suscitam nos seus contendores. Mais uma acusação da treta para disfarçar a vontade de censura. Pessoas genuinamente interessadas em filosofia política jamais perderiam tempo com aquilo que consideram lugar comum. E mesmo que a sua preocupação fosse a qualidade da revista que é responsabilidade nossa, isso jamais daria azo a dezenas de comentários como o que aqui sucedeu.

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  64. Li a recensão pela terceira vez. E pela terceira vez me parece uma recensão equilibrada e que não insulta os marxistas. Limita-se a relatar de modo perfeitamente correcto o que os autores do livro afirmam não de todos os marxistas, mas do marxismo populista latino-americano de Chávez. Pela terceira vez vejo a qualidade da recensão. Pela terceira vez não vejo o que ela tem de tão mau que impeça a sua publicação nesta revista. E pela terceira vez concluo que quem não quer a sua publicação (coisa bizarra, dado que pode limitar-se a não a ler) o que não quer é a divulgação de ideias que o incomodam. Mas aceitar a divulgação de ideias que nos incomodam é a consequência de se aceitar a liberdade de expressão. Uma coisa é discordar veementemente do livro recenseado ou das afirmações do autor da recensão, outra coisa é desejar que o livro ou a recensão não sejam publicadas. Como escrevi aqui (http://criticanarede.com/html/fa_12nota.html), a máxima de Voltaire merece reflexão porque com a mesma frequência com que as pessoas dizem aceitá-la em teoria violam-na na prática quando manifestam sentimentos de ultraje pela publicação de algo, como neste caso.

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  65. Caro Aluísio, primeiramente não estava discutindo com você, estava apenas discutindo a qualidade da sua resenha, que, registre-se, ainda acredito ser péssima. As críticas que fiz foram voltadas à aparente falta de critério da revista ao publicar o seu trabalho, pois a revista, não sei se você desconfia, é de filosofia e não de conhecimentos gerais ou política. Consegui entender a resenha, não precisa se dar ao trabalho de explicar. Quanto a minha capacidade de abstração, sei que não há nenhum problema com ela. Espero que não se dê ao trabalho de responder, pois você demonstrou-se incapaz de discutir argumentos. Penso isso pois, assim como os editores da revista, mudaste o foco da discussão, e ainda fizeste ataque pessoal para tentar sair com razão. Sou honesto com o que penso, sua resenha foi ruim, muito longe do padrão da revista, por isso as críticas. Mas, parabéns, você tem aliados, todos mudaram o foco da discussão para defender o seu trabalho. Já que manifestaste suas esperanças em relação a mim, ouso também manifestar as minhas: espero que melhore a qualidade do seu trabalho, sem ataques pessoais, pois isso, no contexto de debates racionais é desnecessário e deselegante. Não perderei a minha elegância, razão pela qual deixo, mais uma vez, clara a minha posição.

    Anderson Gallo

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  66. Caro César,
    Eu não disse em momento algum o que o César sugere. o que eu referi foi algo tão simples como o da existência de lugar na Crítica para recensões de opinião, secção onde está alojado o texto da discórdia. Creio que se eu quisesse ter dito que a Crítica publica textos sem vigor e relevância, penso conseguir escrevê-lo de forma clara e inequívoca, o que não foi o caso.
    Espero ter sido claro.

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  67. Aluizio Couto,
    se você prestar atenção, verá que me referi, naquele comentário, à resenha do Idiota I (Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano), e não à sua resenha do Idiota II. Eu acho que a sua resenha foi mal publicada. Não discordo do Desidério quando diz que a sua resenha não foi particularmente mal escrita. Você até “cita alguns fatos referidos no livro” (Desidério).
    Quanto à resenha do Idiota I, esta sim, foi mal escrita, além de mal publicada.
    Mas, como já foi “publicada a três anos (!)” (Desidério), imagino que não deva esperar que os digníssimos membros do consenho editorial da Crítica INDIQUEM, NAQUELA RESENHA, UM ARGUMENTO QUE SEJA OU QUE RESPONDAM AO MEU COMENTÁRIO: Tu (Vitor) dizes que “na Crítica não se censura ideias por não gostarmos das conclusões” e isto é muito louvável. Porém, a menos que eu tenha perdido alguma coisa, esta regra não se aplica ao caso específico. Por duas razões: 1) As “ideias”, aqui, são ataques pessoais. Se nem os autores nem o resenhista se preocupam em apresentar os seus ataques como premissas confiáveis, qual é o argumento a ser debatido? 2) A “conclusão” extraída dos ataques pessoais – de que toda a esquerda latino-americana é idiota – é tão ofensiva quanto qualquer outra generalização absurda ditada pelo preconceito. Propor debates sobre argumentos que levam a conclusões absurdas, preconceituosas e ofensivas não me parece moralmente aceitável. OU É?

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  68. Caro Aluisio,

    Só para registrar, estava discutindo com o Desidério, e, se reparar bem, verá que foi ele quem generalizou,na tentativa de defender-te a todo o custo. Para que o foco da discussão não seja mudado novamente, deixo claro que achei a resenha ruim. Não defendo que seja tirada do site, muito pelo contrário. Também não fiz ameaças. Fiz um apelo, pois penso que a revista não demonstrou muito critério ao publicar o teu trabalho, penso que tenho tal direito enquanto leitor. Penso que situações como esta nos ensinam muito. O meu apelo foi no sentido de que os editores da revista tenham mais cuidado com o critério adotado no processo de submissão de trabalhos para publicação. Mas respeito o seu trabalho, parabéns, apesar de eu, assim como outras pessoas que aqui se manifestaram, terem achado ruim, outros tanto o defenderam, este é um debate racional, e fruto da liberdade. O que os editores qualificaram como censura, penso que também é uma espécie de censura por parte deles, pois estavam assim inibindo aqueles que se puseram a criticar o trabalho deles. Precisamos aprender a admitir erros. Até agora ninguém provou o meu erro, mas se o provar, não tenho nenhuma vergonha de admiti-lo publicamente.

    Anderson Gallo

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  69. Aluízio Couto,
    é óbvio que é complicado avaliar uma resenha. Afinal, uma resenha é apenas uma resenha. Mas vou tentar. A sua resenha, na minha opinião, é acrítica e superficial. Você repete aquilo que os autores apresentam como “fatos” sem nenhum questionamento.
    O que justifica a acusação de que o aumento de 20 para 32 cadeiras no Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela é “inconstitucional”? Está questionando a constitucionalidade da reforma constitucional de 1999?
    E os tais “princípios revolucionários”? Me parece óbvio que o problema é o termo emotivamente carregado “revolucionário”. Se por este termo o magistrado se refere a regras do direito positivo venezuelano, qual é o espanto com as conseqüências anunciadas pelo magistrado? Não existem corregedorias e não se anula sentenças em todo lugar?
    E esta pérola: “Os delírios do simpático presidente causaram uma verdadeira confusão na economia daquele país. O livro nos conta que a ingerência econômica de Hugo Chávez provocou uma desvalorização de astronômicos 292% na moeda venezuelana em um período de apenas sete anos.” Então o livro nos conta esta bobagem e tu simplesmente a repetes? Não consideras que a maxidesvalorização da moeda de um país, num mundo globalizado, é um processo complexo? Não concebes a existência de outros atores relevantes neste cenário? Para puder ver com um mínimo de distanciamento, é óbvio que se trata de uma falácia causal (cf. Guia de Falácias do Stephen Downes, hospedado na Crítica: http://criticanarede.com/causal.htm).

    Não vejo outra expressão mais adequada que “panfletos políticos” para designar as obras (Idiota I e II) e as resenhas. Seria o que? Filosofia, ciência política? Certamente, não. São panfletos – como os discursos políticos que se faz em palanque, cheios de argumentos ad populum, palavras de ordem, linguagem carregada, ataques pessoais, apelos a preconceitos, etc., para agradar a platéia ou, mais especificamente, como se diz por aqui, “despertar a militância”. Não passam de textos da direita para a direita, com amor. Por isto que me espantou vê-los aqui. Não me espantaria vê-los na revista Veja.

    Para finalizar. Você diz: “E você está errado quando diz que a publicação da minha resenha pela crítica é uma tomada de posição política por parte do site. A resenha foi escrita por mim e a Crítica somente a publicou. Com seu argumento, é possível concluir que uma revista qualquer irá compactuar com a posição política de um colaborador somente pelo fato de publicar algo deste.”
    Você é brasileiro, certo? Você acredita que, ao publicar os textos delirantes do “filósofo” direitista Denis Rosenfeld, o Estadão não toma uma posição política? Que a Carta Maior, ao publicar os textos delirantes do esquerdista Emir Sader, não assume uma posição política? Que a Crítica, ao publicar resenhas acríticas de panfletos políticos direitistas ao estilo Denis Rosenfeld e Olavo de Carvalho, não assume uma posição política? Mesmo depois de tudo o que você leu aqui? Mesmo depois de ler que “nós”, “os marxistas”, bem que merece(ría)mos uma lição?

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  70. Há boas recensões de maus livros e más recensões de bons livros. A recensão e o livro recenseado são coisas distintas; e uma recensão mais não faz do que chamar a atenção do leitor para o livro recenseado.

    Parece claro que muitos dos comentadores, a pretexto de criticarem a recensão em causa pretendem criticar a opção editorial de a ter publicado. E não tanto por ser uma má recensão, mas por ser a recensão de um livro que implicitamente consideram mau. Criticar as opções editoriais da revista pelas recensões publicadas parece-me fraco critério. Até os livros que consideramos maus devem ser recenseados.

    Há motivos para incómodo dos marxistas quando a sua ideologia é criticada. O incómodo faz parte da vida e é o preço a pagar por um bem mais precioso: a liberdade de expressão. E o incómodo é maior quando a crítica pouco ultrapassa o nível de que “o marxismo é uma idiotice”. Porque nem todo o marxismo é uma idiotice. A ideologia política marxista é uma idiotice pegada, mas a crítica marxista da economia política não é. Esta é apenas um conjunto de teorias falsas. Muitas das ideias de Newton, por exemplo, são idiotices, e a física newtoniana também tem teorias falsas, mas nem por isso é uma idiotice.

    Também há motivos para incómodo quando a ideia de que “o marxismo é uma idiotice” é fundada em idiotices ou na simples afirmação. E muitas das ideias com que os críticos do marxismo o criticam são idiotices, facilmente detectáveis até por quem não é marxista; daí advém o incómodo de não marxistas com tais críticas. Neste caso, o incómodo não resulta de as críticas porem em causa a ideologia política dos não marxistas, mas de o uso generalizado da idiotice pôr em causa uma ideia que prezam: a discussão com argumentos.

    Não existindo motivos para a crítica dos critérios editoriais da revista pela decisão de publicação duma recensão, eventualmente haverá motivos para a crítica das ideias veiculadas pelo livro recenseado, da parte de marxistas e da parte de não marxistas. E isso é que seria interessante ver fazer na revista aos filósofos profissionais ou amadores. Tinham um excelente tema para aplicarem a filosofia a coisas do mundo e saírem um pouco da aplicação da filosofia à filosofia.

    JMC.

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  71. Não saímos da repetição das mesmas objecções, mesmo quando elas já foram respondidas.

    não há insultos pessoais na resenha. Se alguém se sente agravado porque se insultou uma ideia com a qual ele se identifica, aguente-se.

    Não me vou dar ao trabalho de tocar nas restantess repetições. Se a crítica está a tomar uma posição política? Sim, somos veementemente contra a estupidez e tudo o que asfixia a razão em prol de sentimentos irracionais de pertença e outros tribalismos. Nada mais.

    Não vou dizer seja o que for que acrescente algo ao que já afirmei nos meus comentários anteriores, e sinceramente tenho outras tarefas em mãos. Pelo que vou concluir.

    Os meus colegas façam o que bem entenderem. Por mim encerra-se este debate agora. E voltamos a ver-nos na próxima recensão. Isto perdeu toda a razão de ser. Até já chove linguagem militar por aqui, como "aliados" e coisas que tais. Estes leitores não querem debates, querem formar ideias de "inimigos" para terem algo contra o qual lançar o seu desprezo. Há curas para isso: hobbies, pintura, xadrez, ponto-cruz, escrever recensões...

    Bem hajam

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  72. Rodrigo Guedes,

    Parabéns,

    Pontuaste perfeitamente bem o motivo de nossas críticas. Penso que agora não restará espaço suficiente para manobras (mudança de foco) para os que defendem a publicação de panfletos políticos na Crítica.

    Anderson Gallo

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  73. Antes de encerrar, poderias apontar apenas UM ARGUMENTO, na resenha do Idiota I, cuja conclusão possa desagradar alguém como eu, um marxista, esquerdista ou um idiota latino-americano? Apenas um. Basta um.

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  74. Não há argumentos na recensão de Orlando Tambosi a Idiota I. Há apenas a expressão de algumas ideias que constam do livro -- e uma confissão pessoal. Por que razão tais factos deveriam impedir a publicação da recensão? Em praticamente nenhuma recensão da Crítica são defendidas ideias com argumentos. A única diferença é que neste caso o livro chama ofensivamente idiotas a pessoas de um certo tipo de esquerda, e a recensão também. Mas desde quando chamar idiota a alguém, genericamente e não pessoalmente, devia ser proibido ou não devia ser publicado?

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  75. O problema está exposto na minha mensagem de 1/6 (20:54) acima.

    Qual é a diferença relevante entre chamar alguém de idiota pessoalmente e genericamente?

    Considera este ponto de vista:
    "Para que a discussão pública possa contribuir para a saúde da democracia tem de se reger exactamente pelos mesmos princípios de probidade epistémica que, idealmente, regem o debate académico. Neste, o exercício crítico intenso é acompanhado de uma consciência de que não se trata de usar todos os truques para defender a nossa dama, mas antes de procurar o mais imparcialmente possível os melhores argumentos, contra-exemplos e contra-argumentos. Trata-se de procurar a verdade e não de fazer valer os nossos anseios.
    O debate público confunde-se sistematicamente com a mentira da propaganda. Na propaganda, não se trata de procurar conjuntamente a verdade: trata-se de gritar o mais alto possível para eliminar quem discorda de nós, e para arregimentar fiéis para a nossa causa através da persuasão irracional." (Desidério Murcho, Ativismo, Verdade e Arguimentação)
    Faz alguma diferença?

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  76. Anderson Gallo, o fato de você não estar discutindo comigo naquele momento não impede que eu faça comentários sobre o que você disse. Se você achou a resenha péssima, isso é a sua opinião e você tem todo o direito de emiti-la e embasá-la. A minha mãe, por exemplo, achou a resenha magnífica. Outras pessoas podem vir a achá-la ruim como você e outras pessoas podem partilhar a idéia de minha mãe. As coisas são assim.

    E não, você não conseguiu entender direito a resenha. Se tivesse entendido, não diria que ela não consegue refutar Marx (disse isso no seu primeiro ou segundo comentário). Qualquer pessoa que entender a resenha perceberá que ela não é sequer uma tentativa remota de refutar as idéias do filósofo alemão. Como eu disse anteriormente, é uma conclusão verdadeira, mas meio bocó. É mais ou menos como dizer que a receita do bolo de cenoura que minha mãe faz não refuta o necessário a posteriori de Kripke. Mas é claro que não! Sequer é intenção. Certo, exagerei um pouco no exemplo, mas acredito que deu para perceber a idéia.

    Voltando um pouco, quando você diz que não conseguiu abstrair do texto nada “além de que existem pessoas que acham os marxistas idiotas”, acredito que tenha, sem querer, confessado (mais uma vez) que não entendeu o texto direito. Pois é evidente que 1) a sua afirmação não possui correspondência com o conteúdo do texto e 2) o texto é informativo. Aconselho que leia o texto novamente.

    Só estou, aqui, questionando a sua compreensão da resenha. E dado aquilo que você escreveu sobre o texto, concluí que sua compreensão foi equivocada (e procurei mostrar os motivos). E por favor, não precisa me parabenizar por nada. Eu não tenho “aliados” aqui. O que ocorre é que existem pessoas que aprovaram a publicação da resenha e outras que discordaram.

    Sobre a sua frase que diz que “a revista, não sei se você desconfia, é de filosofia e não de conhecimentos gerais ou política”, acho-a um pouquinho, digamos, estranha. Pois desconheço que você tenha reclamado da publicação pela Crítica de outras resenhas de assuntos políticos. Aliás, como leitor atento do site que imagino que você seja, deveria ter protestado (antes da publicação da minha resenha) contra a presença do texto sobre o primeiro livro do Idiota. Aliás, se você se digirir a seção “sobre nós” perceberá que, embora o enfoque principal do site seja de fato a filosofia, não é este o único assunto aceito por aqui.

    Forte abraço

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  77. Rodrigo Guedes, não me pareceu tão claro que a sua crítica inicial tenha sido em relação à resenha do Manual. Interpretei como sendo à resenha de A volta.

    Discordo que o fato de um veículo que publicar uma colaboração de um esquerdista fanático ou de um direitista maluco o faça seguir a tendência política do colaborador. Isso é simplesmente um erro. Não me lembro se era O Globo ou o JB, mas um dos dois, até certo tempo atrás, publicava colunas de opinião do senhor Olavo de Carvalho. E daí? Para saber opinião política de jornal ou revista, é mais interessante ler o editorial. Com o seu argumento teríamos situações bastante estranhas. Poderia acontecer de um jornal mudar de posicionamento político abruptamente se passasse a publicar um colaborador em vez de outro. E poderíamos também ter a bizarra situação de dois colaboradores de pensamentos políticos opostos comentando simultaneamente no mesmo veículo. Daí se segue que o veículo possui duas posições ideológicas distintas ao mesmo tempo? Bastante estranho.

    O Estadão, a Carta Maior, a Carta Capital, a Caros Amigos ou qualquer outra publicação que vemos por aí pode, sim, simpatizar com alguma ideologia. Mas isso não tem uma relação de necessidade com a posição dos colaboradores.

    Sobre o senhor Hugo Chávez e seu governo, já li, sim, outras coisas em outras fontes que não o Idiota. Li também alguns textos elogiando o presidente. No fim das contas, o achei um idiota autoritário. Sobre as informações da resenha, estão todas no livro. E é no livro que os autores irão pormenorizar os motivos de acharem a atuação de Chávez na economia, por exemplo, um desastre. O meu texto foi uma exposição breve de alguns dos temas, opiniões e fatos encontrados na obra. Recomendo que leia o capítulo sobre Hugo Chávez. Quando o livro apresenta, por exemplo, o dado de ter havido 292% de desvalorização no período citado, expõe argumentos em favor da tese de que esse número absurdo é fruto da ingerência do governo venezuelano. Os autores não simplesmente jogam esse número ao vento. Caso as teses que o livro apresenta estiverem erradas e você demonstrar isso, tanto melhor para todos nós e para o debate. E, claro, pior para Montaner, Apuleyo e Llosa.

    No mais, uma coisa que me deixou bastante curioso foi o tamanho número de protestos contra a publicação dessa simples resenha. Será que tantos protestos se devem somente a uma possível má qualidade do texto?

    Bom, acho que a publicação da resenha já está bem justificada pelo Desidério e pelo Vitor. Estranho que muitos que pedem pormenores argumentativos em relação a esse texto não o fizeram em relação a outras resenhas bastante parecidas (mas de temas diferentes). Qual o motivo de isso ocorrer nesse caso e não em outros?

    Volto se achar que há algo de pertinente a responder.

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  78. A discussão deste tópico está encerrada.

    Voltem sempre. E até à próxima recensão.

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  79. Leia-se estes dois artigos da Crítica:

    http://criticanarede.com/html/rel_criacionismo.html

    http://criticanarede.com/html/filos_darwin.html

    Agora insista-se que ao publicar uma recensão de um livro que se opõe a Hugo Chávez, a Crítica está a tomar posição pela direita.

    Qualquer pessoa pode escrever uma crítica demolidora do livro de Vargas-Llosa, e se for bem escrita será publicada. Mas basta dizer para se compreender o que está em causa: alguns leitores não querem pura e simplesmente ouvir falar do livro do Llosa, nem sequer para demolir as suas ideias.

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  80. Rodrigo, eu não publicaria uma recensão que lhe chamasse a si de idiota, mas é muito diferente publicar uma recensão de um livro que lhe chama a si idiota. Se houvesse tal livro e se tal recensão fosse bem escrita, eu publicaria, desde que a recensão e o livro contivessem mais do que meros insultos. Isso é o que acontece com o livro de Vargas-Llosa, e o que acontece claramente com a recensão.

    Sobre o uso do conceito de insulto para atropelar a liberdade de expressão, já escrevi muito e não vou aqui repetir. Limito-me a dizer que eu não escreveria um livro a chamar idiota seja a quem for, mas não me passa pela cabeça censurar quem o fizer. Há uma grande diferença entre defender um debate público sem insultos pessoais e querer censurar a publicação disto ou daquilo com o argumento de que é insultuoso.

    Vamos lá a tornar tudo claro: há quem se incomode com a liberdade de expressão, quando esta implica publicar-se coisas de que não se gosta. Eu compreendo isso. Mas a Crítica continuará a publicar o que eu considerar que tem qualidade, independentemente de ser irritante para esta ou aquela pessoa o tipo de coisas que publico. Há dez anos que a Crítica é um espaço de liberdade e a minha actuação como editor (não apenas da Crítica, mas também de livros) se pauta pelo respeito da liberdade de expressão. Sou ateu mas publiquei livros e artigos que defendem a existência de Deus, não sou criacionista mas publiquei um texto criacionista. Espero que agora as coisas tenham ficado inteiramente claras.

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  81. Estes são os novos links:
    - http://criticanarede.com/leit_idiotice.html
    - http://criticanarede.com/idiota.html

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