16 de julho de 2009

Deus, presciência e liberdade

Acabo de publicar o artigo "Será a onisciência divina realmente incompatível com o livre-arbítrio?", de Rafael Alberto S. d'Aversa . Trata-se de uma proposta de solução para um problema importante no âmbito da filosofia da religião: será compatível a suposta omnisciência do deus teísta com o nosso suposto livre-arbítrio? Se Deus sabe tudo a todo o momento, sabe agora o que farei amanhã depois do almoço; mas se ele sabe agora o que eu farei amanhã depois do almoço, amanhã não poderei escolher livremente fazer uma coisa diferente. Parece que ou temos de admitir que Deus não é omnisciente ou nós não temos livre-arbítrio, não sendo possível comer o bolo e ficar com ele ao mesmo tempo. Mas o Rafael defende precisamente isso: que podemos comer o bolo e ficar com ele ao mesmo tempo. Terá ele razão? Fica aberta a discussão.

2 comentários:

  1. Outro excelente artigo! Não sei se Deus é brasileiro, como os brasileiros gostam de dizer (e têm algumas boas razões para o fazer), mas lá que começam a surgir bons filósofos da religião por Terras de Veracruz é verdade cada vez mais evidente! Pelos vistos, o ouro de Minas começa a assumir formas, digamos, mais subtis. E ainda bem que assim é, pois ficamos todos mais ricos naquilo que verdadeiramente importa! Parabéns transatlânticos ao autor e a quem tem ajudado a potenciar trabalho com esta qualidade! Isto dito, vamos agora, como é de praxe, a um pequeno apontamento crítico: como o próprio autor lúcida e honestamente reconhece, a solução compatibilista defendida depende, para assegurar a sua plausibilidade, de algumas concessões teóricas e arranjos conceptuais que não são propriamente consensuais entre os teístas. Claro que isso, por si só, não constitui grande problema, uma vez que, mesmo que Deus exista, tal não significa que as formas teístas de o compreender estejam correctas. Aliás, nem podem estar todas igualmente, pois são várias, diferentes e incompatíveis em certos aspectos. Por isso, nada garante que esta forma alternativa de conciliar a omnisciência divina e o livre-arbítrio humano não seja simultaneamente mais racional e verdadeira que as tradicionais. O problema está em que as premissas escolhidas, sendo porventura as necessárias para sustentar o argumento, são em si mesmas discutíveis e carecem, por consequência, de uma outra fundamentação. Se a concepção restritiva da omnisciência aos limites do que é lógica e metafisicamente possível (à semelhança da omnipotência) não merece grande contestação, já as concepções de livre-arbítrio e da eternidade de Deus justificariam talvez uma defesa mais sólida. Definir o livre-arbítrio como capacidade de fazer escolhas de acordo com a vontade própria nada nos diz sobre se essa vontade é ou não, em si mesma, determinada por outras causas e factores (internas ou externas, naturais e sociais) ignorados e, portanto, não controlados pelo agente, como defendem os deterministas, o que poderia até implicar, no limite, uma conexão necessária entre presciência e predestinação, caso Deus exista e tenha criado o Universo com as suas leis. Quanto à concepção da eternidade de Deus como significando que este existe no, ou com o tempo, subsistindo aí infinitamente e de modo incorruptível, não só é contraditória com a ideia tradicional de um ser transcendente às condições espácio-temporais que limitam o mundo físico, como lhe introduz por aí uma restrição típica deste mundo. Assim, se Deus já está limitado ao que é lógica e metafisicamente possível, tanto no seu poder, como na sua ciência, apetece perguntar, blasfemicamente: que diabo de Deus é esse que também está sujeito aos constrangimentos do mundo que ele próprio criou? Em suma, se o artigo prova de facto a possibilidade teórica de compatibilizar racionalmente um dos atributos essenciais de Deus com a ideia de livre-arbítrio humano, não o faz sem custos e concessões filosoficamente significativos, os quais provavelmente só Deus saberá se compensam o esforço para o salvar.

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  2. O novo link do artigo: http://criticanarede.com/presciencia.html

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