
Concordo com a conclusão de Alexandre Machado, pois alguém que acredite justificadamente que P pode, ainda assim, ser dogmático quanto à infalibilidade da justificação de que P.
É, de resto, essa possibilidade que alimenta uma parte importante da discussão filosófica. Se os filósofos procuram a verdade e se a justificação, só por si, garantisse a verdade das nossas crenças, grande parte dos filósofos teriam talvez de encontrar outra ocupação, pois o que não falta aí são crenças justificadas sobre praticamente tudo. O cepticismo metodológico característico da actividade filosófica pode por vezes parecer frustrante, mas tem a vantagem de prevenir qualquer tipo de fanatismo.
Nisto estou inteiramente de acordo com Alexandre e vou até mais longe: mesmo que dispuséssemos de justificações infalíveis, isso não justificaria a nossa intolerância em relação às pessoas que defendem crenças manifesta e objectivamente (seja isso o que for) erradas. As pessoas não devem ser perseguidas, silenciadas ou estigmatizadas apenas por estarem erradas, têm o direito ao erro e à ilusão, a não ser que isso interfira directamente com direitos de terceiros. Aliás, a própria ideia de que as pessoas com crenças opostas às nossas podem não estar completamente erradas torna impossível – ou, pelo menos, enfraquece – a nossa tolerância relativamente a essas pessoas. O tolerante não é aquele que pensa para consigo: “o melhor é ser tolerante com ele, pois sabe-se lá se ele não está certo”; é, pelo contrário, aquele que pensa: “ele está completamente errado naquilo que diz, mas tem o direito de o estar”.
Mas a minha concordância com Alexandre termina aqui, dado que a segunda condição por ele apontada, bem como os exemplos que dá, me parecem falhar completamente o alvo. A não ser que o Alexandre dê um significado estritamente bélico à palavra “combater”. Combater as ideias que nos parecem erradas é natural e aceitável, desde que se trate de um combate de ideias racional e civilizado. Apesar de não o afirmar explicitamente, o que o Alexandre afirma parece implicar que a alternativa ao fanatismo é uma espécie de relativismo prático. Mas combater ideias que se considera erradas não equivale a considerar essas ideias um mal intolerável e muito menos a tentar silenciar tais ideias. Se não combatemos racional e civilizadamente (o que exclui a troça, a agressividade e as acusações de má-fé) as ideias que consideramos falsas, fazemos o quê em relação a elas? Serve para quê a discussão de ideias, nesse caso?
Além disso, há crenças erradas que, efectivamente, dão origem a males intoleráveis, como a crença na superioridade da raça ariana e na bondade do extermínio de judeus. O mesmo se aplica à crença de que ter escravos é um direito dos senhores ou à crença de que a melhor maneira de curar uma pneumonia é ir ao bruxo em vez de ir ao hospital. Ter crenças erradas é frequentemente fatal, daí que a vigilância filosófica, embora não o pareça, seja tantas vezes vital.
É certo que só quem não está realmente interessado na verdade se pode dar ao luxo de ser fanático, mas também não pode dispensar a discussão de ideias e o combate a crenças que se acredita justificadamente serem erradas. A não ser que sejamos relativistas e que achemos que isso de crenças erradas não existe. De resto, pensando no exemplo dos teístas e dos ateus, dado pelo Alexandre, é verdade que há fanáticos de ambos os lados. Essa é uma afirmação trivial. Mas não se é fanático por se tentar mostrar que o opositor está enganado, como parece sugerir. Isto significa que há teístas e ateus que procuram mostrar que o opositor está errado e que não são fanáticos.
Termino com uma pequena, mas cordial, provocação. Quando o Alexandre diz, a propósito do teísta e do ateu fanáticos, que “ambos são igualmente insuportáveis e estão igualmente errados no seu fanatismo” não estará a ser fanaticamente anti-fanático, ainda que a sua crença de que o fanático está insuportavelmente errado seja justificada?
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