18 de julho de 2009

Fanatismo por crenças justificadas e discussão racional


Num interessante texto do excelente blog Problemas Filosóficos, Alexandre Machado argumenta contra o fanatismo por crenças justificadas, alegando que a justificação e o dogmatismo podem coexistir na mesma pessoa. Alexandre Machado aponta duas condições para o fanatismo por crenças justificadas: a crença na infalibilidade da justificação e a necessidade de se combater quem pensa de modo diferente.

Concordo com a conclusão de Alexandre Machado, pois alguém que acredite justificadamente que P pode, ainda assim, ser dogmático quanto à infalibilidade da justificação de que P.

É, de resto, essa possibilidade que alimenta uma parte importante da discussão filosófica. Se os filósofos procuram a verdade e se a justificação, só por si, garantisse a verdade das nossas crenças, grande parte dos filósofos teriam talvez de encontrar outra ocupação, pois o que não falta aí são crenças justificadas sobre praticamente tudo. O cepticismo metodológico característico da actividade filosófica pode por vezes parecer frustrante, mas tem a vantagem de prevenir qualquer tipo de fanatismo.

Nisto estou inteiramente de acordo com Alexandre e vou até mais longe: mesmo que dispuséssemos de justificações infalíveis, isso não justificaria a nossa intolerância em relação às pessoas que defendem crenças manifesta e objectivamente (seja isso o que for) erradas. As pessoas não devem ser perseguidas, silenciadas ou estigmatizadas apenas por estarem erradas, têm o direito ao erro e à ilusão, a não ser que isso interfira directamente com direitos de terceiros. Aliás, a própria ideia de que as pessoas com crenças opostas às nossas podem não estar completamente erradas torna impossível – ou, pelo menos, enfraquece – a nossa tolerância relativamente a essas pessoas. O tolerante não é aquele que pensa para consigo: “o melhor é ser tolerante com ele, pois sabe-se lá se ele não está certo”; é, pelo contrário, aquele que pensa: “ele está completamente errado naquilo que diz, mas tem o direito de o estar”.

Mas a minha concordância com Alexandre termina aqui, dado que a segunda condição por ele apontada, bem como os exemplos que dá, me parecem falhar completamente o alvo. A não ser que o Alexandre dê um significado estritamente bélico à palavra “combater”. Combater as ideias que nos parecem erradas é natural e aceitável, desde que se trate de um combate de ideias racional e civilizado. Apesar de não o afirmar explicitamente, o que o Alexandre afirma parece implicar que a alternativa ao fanatismo é uma espécie de relativismo prático. Mas combater ideias que se considera erradas não equivale a considerar essas ideias um mal intolerável e muito menos a tentar silenciar tais ideias. Se não combatemos racional e civilizadamente (o que exclui a troça, a agressividade e as acusações de má-fé) as ideias que consideramos falsas, fazemos o quê em relação a elas? Serve para quê a discussão de ideias, nesse caso?

Além disso, há crenças erradas que, efectivamente, dão origem a males intoleráveis, como a crença na superioridade da raça ariana e na bondade do extermínio de judeus. O mesmo se aplica à crença de que ter escravos é um direito dos senhores ou à crença de que a melhor maneira de curar uma pneumonia é ir ao bruxo em vez de ir ao hospital. Ter crenças erradas é frequentemente fatal, daí que a vigilância filosófica, embora não o pareça, seja tantas vezes vital.

É certo que só quem não está realmente interessado na verdade se pode dar ao luxo de ser fanático, mas também não pode dispensar a discussão de ideias e o combate a crenças que se acredita justificadamente serem erradas. A não ser que sejamos relativistas e que achemos que isso de crenças erradas não existe. De resto, pensando no exemplo dos teístas e dos ateus, dado pelo Alexandre, é verdade que há fanáticos de ambos os lados. Essa é uma afirmação trivial. Mas não se é fanático por se tentar mostrar que o opositor está enganado, como parece sugerir. Isto significa que há teístas e ateus que procuram mostrar que o opositor está errado e que não são fanáticos.

Termino com uma pequena, mas cordial, provocação. Quando o Alexandre diz, a propósito do teísta e do ateu fanáticos, que “ambos são igualmente insuportáveis e estão igualmente errados no seu fanatismo” não estará a ser fanaticamente anti-fanático, ainda que a sua crença de que o fanático está insuportavelmente errado seja justificada?

4 comentários:

  1. Sabia que o Desidério tinha um excelente texto sobre o que significa ser tolerante. Encontrei-o agora em http://criticanarede.com/html/ed_118.html

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  2. Aires, obrigado pelo teu comentário no meu blog.

    "A não ser que o Alexandre dê um significado estritamente bélico à palavra “combater”." Pois foi isso, Aires, exatamente o sentido que dei ao termo **naquele contexto**. Eu tinha em mente principalmente a atitude agressiva que afasta pessoas bem intencionadas do debate, que não estão dispostas a aguentar a falta de controle emocional de um fanático. Por exemplo: li em um blog que um certo argumento era calhorda e cafajeste.

    Eu tinha considerado esse mal-entendido, mas acreditei que o que eu disse após apresentar a segunda condição o evitaria, no que eu estava enganado. Antes de tudo, note que no final da formulação da segunda condição eu digo: "como se isso, por si só, fosse um mal intolerável". Quis dizer que o combate é motivado por esse modo de se ver o pensamento diferente. Eu não defendo nenhum "relativismo prático". Não defendo que devamos nos calar frente ao que consideramos erros epistêmicos. Apenas sou contra o fanatismo.

    Eu adoraria responder à cordial provocação, se a tivesse entendido. Como dizer o que eu disse pode ser fanatismo? Chamar o fanatismo de "insuportável" é dizer que geralmente a gente perde a paciência facilmente com os fanáticos e desiste de conversar com eles. Pensar isso é ser fanático?

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  3. Alexandre, se o sentido dado à palavra "combater" é apenas esse, então o meu comentário fica desfocado. Sendo assim, estamos completamente de acordo.

    A interpretação que fiz das tuas palavras é tentadora, dado que é frequente passar-se da ideia de que nenhuma crença está infalivelmente justificada para a conclusão de que todas as crenças justificadas têm o mesmo valor epistémico.

    Quanto à minha provocação, o que pretendia era, afinal, uma clarificação do teu ponto, o que acabaste por fazer. Também acho que pensar isso não é ser fanático. Mas seria incongruente com a defesa do relativismo.

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  4. Novo link do texto do Desidério Murcho → http://criticanarede.com/ed_118.html

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