11 de julho de 2009

Tento na língua

Sou só eu ou o leitor também considera uma tolice que se fale sistematicamente do ocidente (às vezes até com maiúscula!), quando na verdade se quer falar apenas (de partes) da Europa e dos Estados Unidos da América, esquecendo-se 1) a África, que tem países mais ocidentais do que muitos países europeus, e 2) o Japão, que lá por estar no oriente é mais parecido com a Europa e os Estados Unidos do que muitos países africanos? Não seria melhor deixar de usar um termo geográfico quando temos em mente uma classificação política e económica e social e cultural?

19 comentários:

  1. Por um lado concordo com o Desidério. Mas por outro, não garanto que me consiga libertar deste uso da linguagem que nos amarra, e não o volte a empregar em conversas descontraídas, ou mesmo em textos mais demoradamente pensados. Por exemplo, umas horas antes de ter lido este post tinha começado a ler o último livro de Amin Maalouf lançado em Portugal – “Um mundo sem regras” – e não tinha achado nada de estranho a este começo do primeiro capítulo na pág. 19: ”Após a queda do Muro de Berlim, soprava um vento de esperança no mundo. O fim da confrontação entre o Ocidente e a União Soviética afastava a ameaça de um cataclismo nuclear que estava suspenso acima das nossas cabeças há cerca de quarenta anos;”

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  2. Prezado Desidério

    Também considero o uso do termo "ocidente" inapropriado e me parece tão simplista quanto o uso do termo "modernidade". Nesse caso precisamos de um termo para substituí-lo e que sirva de classificação política, económica, social e cultural para os mesmos fins. Quais termos devemos usar? Alguém tem alguma sugestão?

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  3. Sejamos claros: o que as pessoas querem geralmente dizer com "ocidente" é tão-somente Europa e EUA. Então mais vale dizer isso mesmo.

    Outras vezes querem apenas falar de regimes políticos democráticos; ou de economias livres, por oposição a economias planeadas. Então, uma vez mais, mais vale dizer isso mesmo.

    Mais bizarro ainda é por vezes usar "ocidente" para falar de regimes democráticos parlamentares. Como se tal coisa fosse 1) uma invenção ocidental e 2) uma prerrogativa ocidental; mas tanto 1 como 2 são falsidades.

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  4. Ai ai, a velha briga com a língua. Entendam: por mais que se esclareça, que se corrija ou que se ofereçam opções melhores, ninguém vai deixar de usar as palavras da forma que as usam com o significado que dão a ela no próprio uso (seja apropriado ou não, e percebam que isso não faz diferença). Se o fizessem, discussões e opiniões seriam uma infinidade de ajustes de sintonia fina.

    Em suma, se quando alguém diz "ocidente" todos compreendem a que se refere a palavra, por que questioná-la? Por que não assumir uma variante da suspensão da discrença que usamos tão bem na ficção para simplesmente entender o que está sendo dito quando a referência é tão clara?

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  5. É pura e simplesmente falso que as pessoas não deixem de usar as palavras de uma maneira e passem a usa de outra maneira. Na verdade, isso está sempre a acontecer porque o uso da língua não é estático, mas antes dinâmico.

    No passado lia-se "mankind" em inglês para falar da humanidade, mas hoje lê-se "humankind", que faz muito mais sentido.

    No passado falava-se ofensivamente de pretos, mas hoje fala-se neutralmente de negros.

    No passado usava-se "judiar" como verbo para a crueldade, mas hoje usa-se "ser cruel".

    Não vejo razão para parar de pensar na adequação das palavras que usamos e na manipulação política que muitas vezes está subjacente a tal uso.

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  6. Eu também não vejo razão, mas vejo motivação psicológica: conservadorismo e preguiça intelectual são duas motivações comuns para não se discutir esse tipo de assunto. O descaso com o uso dos conceitos é também uma atitude natural para os que não dependem desse uso para fins acadêmicos, ou até mesmo dependem, mas não fazem trabalho acadêmico de qualidade e portanto não se importam com esses luxos de cuidado com a língua.

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  7. Desidério, quando se fala do Ocidente (com maiúscula) não se está a usar uma descrição, mas um nome, exactamente como "filosofia continental" ou "Sacro Império Romano", que de sacro nada tem. Nada, portanto, que seja especialmente invulgar.

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  8. Sim, funciona como nome e não como descrição. Tal como "Homem" para falar da humanidade. Mas razões análogas que levaram ao abandono desta última prática, também se devia abandonar a primeira.

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  9. quando se escreve "a Criação" também se está a usar um nome para referir o conjunto das coisas orgânicas e inorgânicas atribuídas ao poder criativo do deus bíblico. Mas isto não quer dizer que venham mal algum ao mundo ou que não seja mesmo desejável procurar um termo mais neutro, que diga igualmente a coisa sem se comprometer com qualquer doutrina implícita.

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  10. "O descaso com o uso dos conceitos é também uma atitude natural para os que não dependem desse uso para fins acadêmicos"

    Se isso for verdade, então deveríamos dizer que só os ambientalistas é que deveriam propor soluções para problemas relativos ao acúmulo do lixo ou a grande quantidade de CO2 que é emitida pelas indústrias. Mas penso que isso é falso. Devo separar o lixo da minha casa independentemente dos "fins acadêmicos" que existe nessa minha atitude. E é uma atitude natural minha preocupação com o lixo.

    O mesmo deve ocorrer aqui - o cuidado com a língua e com o uso que fazemos da mesma deve existir independentemente dos fins a que essa ação nos conduz. É uma atitude natural que os falantes de uma língua, acadêmicos ou não, sejam sensíveis ao seu uso.

    Atenciosamente.

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  11. Desidério, as razões que levaram a substituir "Homem" por "humanidade" são fáceis de compreender, pois dispomos um termo simples e mais adequado para designar o que se pretende. Experimenta fazer o mesmo com "Ocidente" ou com "filosofia continental" e verás que o caso muda de figura. Experimenta traduzir o título "História da Filosofia Ocidental" do Kenny, por exemplo (ou, já agora, do Russell). Verás que qualquer outra solução será desvantajosa.

    Vítor, as pessoas que normalmente usam o termo "criação" querem mesmo dizer "tudo o que foi criado", por Deus ou seja lá quem for. Não vejo, neste caso, melhor alternativa para o termo. Eu, que não acredito nessas coisas da criação, uso simplesmente o termo "natureza" ou "mundo". Sendo assim, não acho este caso semelhante ao do uso de "Ocidente".

    Em suma, ou há disponível um termo alternativo que possa ser usado com vantagem e, nesse caso, deve-se optar por ele; ou, caso contrário, é ainda mais complicado abandonar o que praticamente todos os utentes compreendem e usam de forma competente. Imagine-se que, em nome do significado original e da etimologia da palavra "rubrica" passássemos a chamar rubrica só às assinaturas abreviadas feitas com tinta vermelha. Acho que estão a exigir um tipo de transparência à linguagem, que o seu uso talvez não permita. Penso eu, mas posso estar enganado, claro.

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  12. "Se isso for verdade, então deveríamos dizer que só os ambientalistas é que deveriam propor soluções para problemas relativos ao acúmulo do lixo ou a grande quantidade de CO2 que é emitida pelas indústrias. Mas penso que isso é falso. Devo separar o lixo da minha casa independentemente dos "fins acadêmicos" que existe nessa minha atitude. E é uma atitude natural minha preocupação com o lixo."

    Srta assis, discordo. O problema da sua analogia é que problemas como o acúmulo de lixo dizem respeito a todas as pessoas ao passo que um problema como o mencionado aqui não diz respeito nem é do interesse de todas as pessoas, interessa apenas aos que usam esse conceito. E mesmo no grupo desses últimos é preciso fazer distinções a partir do contexto em que esse conceito é utilizado.

    Muitas pessoas não pensaram nisso e não têm interesse em pensar nesse tipo de assunto. Por isso não irei esperar de um padeiro uma caracterização precisa da palavra "ocidental", mas irei esperar isso de um filósofo que utilize a mesma palavra. Portanto é natural exigir um cuidado maior no uso desses conceitos pra fins acadêmicos.


    "o cuidado com a língua e com o uso que fazemos da mesma deve existir independentemente dos fins a que essa ação nos conduz. É uma atitude natural que os falantes de uma língua, acadêmicos ou não, sejam sensíveis ao seu uso".


    O cuidado com a língua admite graus e varia de acordo com o propósito a partir do qual ela é utilizada. Não esperamos que um taxista que nada sabe de geometrias não-euclidianas tenha interesse em saber se elas são mais corretas que a geometria euclidiana. E não irei esperar que ele me dê uma definição de círculo ao mencionar como uma mesa é circular (num contexto em que ele queira chamar atenção para um aspecto que ele considere bonito em uma mesa, por exemplo). São graus diferentes de exigência que satifazem propósitos diferentes com a língua - daí a diferença de interesses.

    Curioso é que mesmo no caso do CO2 por você mencionado (caso que eu admiti ser do interesse comum) é de esperar um rigor maior nas explicações dos especialistas de climatologia do que em uma conversa do dia a dia sobre o mesmo tema. Eu espero que as pessoas tenham uma posição informada sobre o assunto (como você mesma disse, isso é natural), mas seria um despropósito exigir que a minha posição sobre o assunto tenha o mesmo grau de rigor do que a explicação de um especialista na área - não há nada de natural nisso.

    Na verdade, pensando no comentário anterior do Aires, mudei de idéia no caso do termo "ocidental". De fato parece que estamos "exigindo um tipo de transparência à linguagem, que o seu uso talvez não permita".

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  13. Mas temos alternativas. Em contextos diferentes, temos alternativas diferentes. No contexto político, as pessoas querem dizer muitas vezes apenas "paíse democráticos" ou "com democracias parlamentares". Na filosofia, querem dizer apenas "filosofia europeia", pois é disso que se trata: a filosofia que começou por ser feita na Europa e depois foi exportada para as Américas, para a Australásia, para o Japão, etc.

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  14. Humm... Desidério, assim também não dá. Nesse caso a História da Filosofia Ocidental, do Russell, deveria chamar-se "História da Filosofia da Ásia Menor", pois foi lá que nasceu a filosofia e acabou por ser exportada para outra partes. Mileto, Éfeso, Clazómenas,Colófon, etc.

    Sinceramente, substituir "Ocidental" pelo que sugeres não adianta grande coisa, até porque muitas vezes o contexto não é apenas político nem apenas filosófico, mas um pouco de várias coisas. Como, por exemplo, quando se fala da civilização ocidental ou de uma cultura de matriz ocidental: estamos a falar da política, do direito, da ciência, da filosofia, da música, etc., tudo ao mesmo tempo.

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  15. Não concluí uma frase:

    Mileto, Éfeso, Clazómenas, Colófon, etc., ficam todas na Ásia Menor (actual Turquia, parte asiática).

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  16. Concordo com o Aires

    Se utilizarmos o termo "filosofia européia" teremos que fazer distinções entre os países europeus que contribuiram de maneira relevante para a filosofia e aqueles que não contribuiram. Se admitirmos que não foram todos os países europeus que contribuíram, então, pela mesma linha de raciocínio que adotamos para substituir o termo "filosofia ocidental" por outro mais específico, teremos que substituir o termo "filosofia européia" por outro ainda mais específico. E esse tipo de especificidade parece não ter fim. Portanto seria mais vantajoso utilizar o termo "filosofia ocidental", ainda que ele possua um carater de generalização ou simplificação.

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  17. Caro Matheus, desculpe que no comentário anterior não indiquei para quem escrevia e também não assinei.

    A minha dúvida era exatamente o que você queria dizer com "atitude natural". É obvio que um taxista pode se preocupar com as questões discutidas neste post, mas o fato dele nunca se preocupar com questões relativas à linguagem não o impedirá de realizar suas atividades normais, ele no muito precisa possuir uma carta de motorista, enquanto que devemos esperar que os filósofos tenham maior atenção nos usos que fazem das palavras e suas definições.

    E portanto "é natural exigir um cuidado maior no uso desses conceitos pra fins acadêmicos".


    Obrigada pelo esclarecimento.


    Pollyanna Assis

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  18. Aires, o que isto significa na verdade é que não faz sentido sequer falar na origem europeia da filosofia. A filosofia europeia tem uma origem euro-asiática. E a verdade é que em alguns períodos cruciais não foi sequer desenvolvida na Europa, mas na África ou no médio oriente.

    Se chamarmos os bois pelos nomes, deixamos de ver o mundo de modo falsamente simplificado.

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  19. Cara Pollyanna

    não há necessidade de desculpas.

    O objetivo do blog é esse mesmo: trocar idéias e aprendermos uns com os outros.

    Um abraço

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