3 de julho de 2009

Trabalhar para fins mais elevados: sugestões musicais para as férias






Muitos dos leitores deste blog devem estar já a pensar em férias. Aproveitando o mote deixado por Grayling no post anterior, deixo aqui três sugestões musicais para alguns momentos de lazer. É nestes momentos que estamos mais disponíveis para apreciar verdadeiramente o que é bom, pois é quando temos a disponibilidade necessária para ouvir realmente música, em vez de nos limitarmos simplesmente a consumi-la.

Mais uma vez, trago três sugestões muito diferentes: música jazz, música clássica e música pop.

A primeira sugestão é o recentíssimo Bare Bones, da cantora jazz americana Madeleine Peyroux. Ao passo que nos três primeiros e excelentes álbuns Peyroux interpreta de forma muito pessoal músicas alheias -- de Leonard Cohen, Bob Dylan, Joni Mitchell, Serge Gainsbourg e Edith Piaf, entre outros --, este disco revela-nos uma compositora de canções perfeitamente à altura da excepcional intérprete e guitarrista que é. Muitas vezes associada a Billie Holiday, é inevitável não nos lembrarmos dela quando ouvimos Peyroux. A sua voz é quente, doce e sensual; as melodias são simples e cativantes, mas nunca simplórias; e os arranjos revelam muitas pequenas subtilezas instrumentais (gosto especialmente do modo como o órgão por vezes espreita sorrateiramente). Tudo é muito discreto, mas também muito envolvente. Quem estiver no Algarve no próximo dia 11 de Junho, pode confirmar tudo isto no concerto que Peyroux irá dar aqui em Portimão, no Teatro Tempo.

Mudando de registo, recordo que este é o ano Haydn, dado que se comemoram os duzentos anos sobre a sua morte. Haydn foi um génio musical que só o azar de ter sido contemporâneo de Mozart impediu de brilhar. Se há compositor que representa a essência da música clássica -- em sentido estrito --, esse compositor é Haydn. De tanto que Haydn compôs -- só sinfonias foram 104 --, destaco os seus quartetos de cordas (que prefiro aos de Mozart). É música no seu estado mais puro, isto é, música instrumental não programática. Uma boa amostra do génio musical de Haydn como compositor de quartetos de cordas está reunido num disco da editora Naxos, com o Kodaly Quartet a interpretar os quartetos Nº 61 (conhecido por quarteto "As Quintas"), Nº 62 (conhecido como "Imperador") e Nº 63 (conhecido como "Nascer do Sol"). Uma curiosidade, o belíssimo hino nacional da Alemanha, composto por Haydn, é o segundo andamento do quarteto Nº 62.

Para terminar, sugiro um disco saído há precisamente 20 anos e que se ouve como se tivesse sido editado ontem: Hats, dos escoceses The Blue Nile. Disse acima que se tratava de música pop, mas isso talvez seja enganador. A pop mastiga-se e, acabado o açúcar, acaba por saber mal e até incomodar. Este disco não é assim. Pior (ou melhor?), nem sequer brilha logo à primeira audição. Os The Blue Nile gravaram quatro discos em 25 anos e entre cada um deles há um interregno mínimo de 5 anos. Não é, portanto, música feita apenas para colorir o ar do tempo. As canções de Hats, acompanhadas quase só por sintetizadores, têm em média mais de 5 minutos e, sem se precipitarem à procura do refrão fácil, vão progredindo lentamente. Apesar de a estrutura rítmica ser a mesma do princípio ao fim, as músicas vão enriquecendo instrumentalmente à medida que avançam e a voz de Paul Buchanan vai ganhando corpo e expressividade. É-me difícil destacar uma canção. Um grande disco para ouvir com calma.

4 comentários:

  1. Bem, vou dar-me ao atrevimento de dar as minhas sugestões, todas referências a discos editados recentemente:
    - Sonic Youth "the eternal" . Não lhes conheço maus discos. Sempre consistentes e bons num puro e original, mas inteligente exercício de rock noise.

    - va - 2009 - songs for a child - a tribute to pier paolo pasolini - trata-se de uma compilação que reune alguns nomes bem underground que vem já dos anos 80 e outros mais recentes, num tributo interessante ao cineasta Pasolini.

    - Nils Petter Molvaer_Hamada - o mais recente trabalho deste músico sueco. é um trompetista e conta já com meia dúzia de registos na carreira. Costumo dizer que Molvaer é o sucessor de Miles Davis.

    Bom e desde Sun))) até Divine Comedy ou Tortoise, tudo anda pelo menos na minha lista particular de audições. E ainda a repescagem de um músico que já faleceu, holandês e cujo trabalho admiro muito, Tom Cora.

    Ficam as minhas audições / sugestões.
    Abraços

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  2. Ah, esqueci, pois: dos três que o Aires refere, o meu preferido é o dos Blue Nile, mais próximo das minhas pérolas musicais.

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  3. Recomendo a discografia de Xanopticon e Venetian Snares (electrónica, ambos uma lufada de ar fresco no panorama), bem como a revisitação de "Music for the jilted generation" de Prodigy e "Arise" de Sepultura, um dos clássicos da electrónica e um dos clássicos do thrash/death metal, respectivamente.

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  4. Não conhecia Hamada e gostei, Rolando. Obrigado pela sugestão.

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