28 de agosto de 2009

Fantasiando o ocidente

Protestei polemicamente em "Tento na Língua" contra o uso ageográfico do termo "ocidental". Esta palestra fornece razões para pensar que esta divisão declaradamente ageográfica entre ocidente e o resto é pior do que um pontapé na gramática. É uma mentira política.


5 comentários:

  1. O problema do uso da língua e das suas relações com o poder é mais que manifesta. O ensaio que traduziste do Orwell é exemplo disso. De um ponto de vista mais popular os discursos da administração Bush pós 11 de Setembro de 2001, são um exemplo escandaloso disso. O discurso atingiu níveis de ódio claro e sem qualquer subtileza. O discurso religioso é também um bom case study das relações intestinais entre linguagem e poder.

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  2. É uma conferência interessante. O sítio do Ted tem muitas outras que valem bem a pena.

    Quanto ao que sugeres, é claro que se fantasia o ocidente como se fantasia Portugal ou o comunismo. Daí não se segue que os nomes não denotem, pois é de nomes que estamos a falar.

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  3. O problema é que o nome tem uma extensão de tal modo vaga que ninguém sabe exactamente do que está a falar quando o usa. Por exemplo, Cuba não está no Ocidente intencionado, mas sim no geográfico. E Porto Rico? Ou o México? Esta conferência pareceu-me interessante por apontar para a impossibilidade de continuar a dividir politicamente o mundo como se dividia em 1950.

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  4. Desidério, acho que a conferência de Rosling não se refere tanto ao Ocidente, mas antes à noção económica e social de desenvolvimento ou de países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Ora, falamos do Ocidente para referir uma determinada matriz civilizacional ou cultural complexa. Percebo que a analogia seja tentadora, mas não funciona, pois o significado de Ocidente parece-me estável, quer se esteja em 1800, em 1950 ou em 2009. Que a sua extensão não o seja parece-me natural, dado que não se trata precisamente de uma noção geográfica. A extensão de "rico" também é vaga (há pobres que passam a ser ricos e ricos que passam a ser pobres a todo o momento), mas sabemos de que estamos a falar.

    Insisto, abandonar a noção tem muito mais custos do que não o fazer, pois obrigar-nos-ia a rever de forma talvez intolerável e artificial a nossa linguagem corrente. Por exemplo, toda a gente entende correctamente o que se quer dizer quando se afirma que o país X ou a sociedade Y estão cada vez mais ocidentalizados.

    Quanto ao desenvolvimento, a conversa é outra: o que se considerou desenvolvimento numa dada altura não é exactamente o mesmo que noutra altura. Em tempos considerou-se que a indústria pesada poluente era um exemplo de desenvolvimento, mas actualmente não se pensa isso (embora não seja bem esse o ponto da conferência).

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  5. Claro, não se refere ao Ocidente, mas refere-se a uma dada maneira de ver o mundo que envolve um conceito demasiado vago para ser útil. Insisto: ninguém sabe com o mínimo de precisão o que é um país ocidental ou ocidentalizado de modo a tornar tal expressão útil. Não estou a exigir excessiva precisão, estou apenas a queixar-me de haver excessiva imprecisão. E que esconde uma dicotomia falseadora.

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