29 de agosto de 2009

Será que a crença em Deus pode dar sentido à existência?


Um dos pontos do capítulo sobre o sentido da vida no livro Os problemas da filosofia (Gradiva, 2009) de James Rachels, aponta 3 hipóteses mais gerais para entender como a religião pode dar sentido à nossa existência. Examinemos brevemente essas hipóteses:

1 – As nossas vidas têm sentido porque Deus tem um plano para nós. Esta hipótese parece não funcionar já que podemos pensar que também os pais têm um plano para os filhos e muitas das vezes esse plano acaba por ser frustrante para os próprios filhos. Não se vê assim por que razão o plano de Deus poderia conferir sentido à existência.

2 – As nossas vidas tem sentido porque somos o objecto do amor de Deus. O que acontece nesta hipótese é que a maioria dos seres humanos já possui esse amor por parte dos familiares e amigos mais próximos. Mas, se ainda assim as nossas vidas parecerem absurdas, o que é que acrescenta o amor de uma entidade exterior?

3 – O compromisso do próprio crente religioso. Rachels explica que este compromisso implica a aceitação por parte do crente de que é filho de Deus. Se esta aceitação existe então os valores de Deus já não são vistos como uma imposição de fora, mas são os valores do próprio crente. Mas Rachels aponta também que aqui se implicam duas ideias:


a) A ideia de que o sentido religioso pode dar sentido à nossa existência;


b) A ideia de que só o compromisso religioso pode dar sentido à nossa vida.

A primeira ideia pode ser verdadeira mesmo que a segunda seja falsa. A segunda ideia, refere, Rachels, é muito mais forte. Resta saber se a segunda é uma ideia verdadeira?

Penso que a segunda ideia é falsa, e Rachels dá uma resposta logo a seguir. Mas vou deixar a questão à reflexão do leitor.

7 comentários:

  1. O leitor Nuno Maltez pediu para que o seu comentário fosse publicado, como se segue:

    "Penso que não precisamos de Deus para que a vida tenha sentido. Basta para tal que nos sintamos bem connosco mesmos. Perspectiva ingénua? Talvez, mas é o que sinto. Bem sei - e o Desidério muito toca nesse ponto - que o sentir, pelo menos a ver do mesmo, não é pedra de toque para a factualidade das coisas, porém, será que falamos de factualidade quando falamos em sentido da vida, ou falaremos antes de algo do domínio da subjectividade? Bem sei também que o Desidério acentua a objectividade do sentido da vida, porque li na Crítica, mas dados os dois exemplos - serão suficientes? - concluo que é um objectivista, realista. Sendo realista, porém, há-de concordar que a subjectividade existe e que é possível e até provável que o sentido da vida seja um estado mental(?), mais do que um humor, subjectivo. Assim, e descartando qualquer tipo de teleologia, é possível que o que confere sentido a umas vidas não confere a outras. Penso também, porém, que é possível que de todos esses particulares possamos extrair um universal, por exemplo o bem estar, a felicidade, a auto-realização, e outros afins.

    Cumprimentos,
    Nuno Maltez."

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  2. Olá, Nuno

    Obrigado pela referência aos meus escritos. Não concordo com a sua perspectiva e ainda menos com o seu argumento, mas talvez eu esteja a ver mal. O seu argumento, parece-me, é a ideia de que há subjectividade, no sentido de estados subjectivos, e que o que a uma pessoa pode fazer feliz a outra pode não fazer feliz. Este argumento não serve a favor do subjectivismo porque é compatível com o objectivismo: o que o objectivismo sublinha é que os estados subjectivos só podem ter relação com o sentido da vida se estiverem adequadamente alinhados com a realidade exterior. Por exemplo, por mais que uma pessoa tenha muito prazer num estado alienado de consumo de drogas que lhe dão imenso prazer, essa vida não tem realmente sentido. A conexão à realidade, por outro lado, não é uma exigência arbitrária resultante de um compromisso objectivista prévio, mas antes da constatação empírica de que faz parte da nossa natureza cognitiva sofisticada o alinhamento com a realidade, pois isso é parte essencial do que é ser um agente cognitivo: não se pode ser um agente cognitivo como nós e desconsiderar a realidade porque fazer isso é deixar de ser um agente cognitivo, e nenhum de nós consegue deixar cabalmente de ser um agente cognitivo sem deixar de ser, pura e simplesmente.

    O que pensa de tudo isto?

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  3. "Percebo a questão da realidade exterior e do alinhamento: sem ele não sobreviveríamos. Porém, é possível que existam pessoas que estão desalinhadas, por exemplo devido ao consumo de drogas que refere, mas para as quais no entanto a vida faz sentido. Ora se uma dessas pessoas me disser que a sua vida faz sentido e me conseguir explicar porquê, tenho em crer que apenas posso aceitar a sua explicação, dado que seria incorrecto impôr a minha perspectiva do sentido da vida sobre essa pessoa - principalmente porque não estou mais justificado do que essa pessoa em acreditar que o que acho do sentido da vida é mais correcto, verdadeiro, do que aquilo que essa pessoa acha. Penso que é difícil generalizar, extrair o universal como dizia no primeiro comentário, para se afirmar que a vida encontra sentido no trabalho ou no amor, por exemplo. E penso assim porque o que faz sentido para uns não faz sentido para outros. Dou o exemplo do filme "Morrer em Las Vegas": para aquela pessoa faz todo o sentido matar-se ingerindo grandes quantidades de álcool, pois ou a sua vida não tem sentido, ou aquele é o sentido da vida dessa pessoa, ela encontra-o aí. Está desalinhado com a realidade? Provavelmente. Devemos dizer-lhe que aquilo - os seus actos - não faz sentido? Provavelmente (e aqui acabo por defender o objectivismo). Mas deveremos impedi-lo e assim privá-lo da sua liberdade? Provavelmente não. Então, por razões morais, ninguém pode ou deve dizer a outrém qual o sentido da vida. Isso seria exercer poder sobre o outro e privá-lo da sua liberdade. Há momentos em que devemos exercer poder sobre o outro? Provavelmente. Mas existirá uma ideia ou visão correcta do sentido da vida que devamos tentar incutir nos outros? Creio que não, porque creio que ninguém, em matéria de respostas filosóficas, aquelas que, e passe a expressão, residem no limbo da incerteza, é mestre de ninguém, isto é, mais sábio ou conhecedor. Ora se não sou mais conhecedor, como posso querer objectivar o sentido da vida, extrair para todos o universal? Seria no mínimo um acto de desonestidade intelectual e logo, mas não só por isso, moralmente reprovável."
    Nuno Maltez

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  4. Caro Nuno,
    Vou colocar-lhe um problema: das seguintes ideias, qual pensa ser mais objectiva:
    a) a ideia de que só deus pode dar sentido à existência;
    b) a ideia de que nada em especial pode dar sentido à existência
    Se assumirmos que a ideia b) é mais objectiva, mais verdadeira que a a), isso não significa que o sentido da existência assente em princípios subjectivos já que a ideia implícita é uma ideia mais forte, mais objectiva ou mais verdadeira.
    Não sei se fui muito claro. Espero que tenha entendido.
    Abraço

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  5. Do meu ponto de vista, a dessacralização da sociedade (que gradualmente passou a marcar os novos tempos) retirou alguma hipótese de sentido onde pudessemos depositar a existência (esta questão daria pano para mangas...). Em maior ou menor grau, as fontes de vida da teologia e de uma convicção doutrinária sistemática foram desaparecendo e deixando atrás de si um enorme vazio. Se bem me lembro, Steiner defende que, perante este vazio, as pessoas foram tentando encontrar "teologias de substituição" que se constituíssem como unidade possível face à progressiva fragmentação do mundo actual.

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  6. Nuno, do meu ponto de vista está a misturar coisas. O seu argumento não funciona porque pressupõe que caso fosse objectivamente falso que fazer X dá sentido à vida, então deveríamos impedir alguém de fazer X quando essa pessoa pensa erradamente que isso dá sentido à sua vida. Mas nada disto se segue. Por exemplo, é objectivamente verdade que se uma pessoa der cabeçadas na parece isso o magoa e não lhe trás qualquer bem; mas daí não se segue que seja moralmente permissível impedi-lo de fazer tal coisa. O Nuno está a dar voz a uma ideia bizarra que já muitas vezes encontrei antes: a de que para sermos tolerantes temos de pensar que as pessoas não podem estar erradas. Isso não é tolerância. Tolerância é eu defender que as pessoas têm o direito de fazer e pensar o que quiserem, mesmo que queiram fazer e pensar coisas que objectivamente são tolas ou falsas ou indesejáveis para elas mesmas.

    A dificuldade central da posição subjectivista é esta: se esta teoria fosse verdadeira, ninguém poderia estar enganado quanto ao que dá sentido à sua vida. E isto é pura e simplesmente implausível, pois as pessoas estão muitas vezes enganadas quanto ao que as faz felizes, quanto ao que dá sentido à vida delas, etc.

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  7. Dou o braço a torcer. Mas rejeito ou aceito como mera possibilidade a existência de algo comum a todos e que dá sentido às nossas vidas. Pode parecer ingénuo, mas a aceitar algo seria o amor.

    Quanto à questão da permissibilidade moral, é uma dúvida que tenho, se devemos ou não intervir. Pelo menos fazêmo-lo instintivamente, sem a aceitação arbitrária prévia de teorias, como quando, em alguns casos, ajudamos alguém que vemos sofrer.

    Diz-se que a ética trata do modo como as coisas deveriam ser e não como são, mas talvez fosse interessante uma análise ética da ética humana de facto. Seria isto filosofia experimental? Ou não seria de todo filosofia, mas antes antropologia ou psicologia ou sociologia?

    Cumprimentos,
    Nuno Maltez.

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