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Substituir confusões

Um uso desmazelado da língua portuguesa introduziu uma confusão em alguns usos do verbo substituir e seus derivados, confundindo-se o que substitui o quê. Esta confusão não existe na língua inglesa, que distingue cuidadosamente entre substitute e replace.

To substitute A for B é pôr o substituto A no lugar de B, e não B no lugar de A. Mas é infelizmente comum interpretar erradamente “Substituir A por B” como se quisesse dizer que B passa a ocupar o lugar de A, caso em que seria B o substituto. O mesmo já não ocorre quando se diz que A substitui B, pois agora é evidente que é o substituto A que toma o lugar de B. Uma solução simples é evitar o uso de “substituir A por B” no sentido batateiro habitual, e passar sempre a escrever e dizer “fazer A substituir B.”

Curiosamente, no dicionário de inglês Collins podemos ler o seguinte: “Substitute is sometimes wrongly used where replace is meant: he replaced (not substituted) the worn tyre with a new one.” Esta confusão não é esclarecida nos dicionários de língua portuguesa que consultei (Aurélio, Houaiss e Porto Editora), cujos autores manifestamente não se dão conta dela. Ou então consideram que tanto faz saber quem substitui quem quando se diz que se substituiu o Chico pelo Manel porque necessariamente teremos de estar a falar de futebol, políticos ou telenovelas, e não de tolices abstractas como a filosofia ou a física, e portanto é visível quem foi a besta que saiu e a besta que entrou.

A minha proposta é que quem quiser escrever português ático deve fugir a sete pés do plebeísmo “substituir A por B,” dado ter sido corrompido para lá de toda a recuperação possível, passando então a escrever “fazer A substituir B”.

O Vítor mostrou-me que nem toda a gente usa a língua portuguesa à maluca. Em Fernando Pessoa ocorre pelo menos um uso correcto de substituir: “Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ao natural no uso e correnteza da vida” (“O Caso Mental Português,” Fama, 1932). Infelizmente, isto não é garantia de que não ocorra nele também o uso batateiro. Mas para quem não se impressiona com argumentos lógicos que procuram tornar a língua portuguesa algo que seja mais do que um veículo para comprar batatas, talvez a autoridade de Fernando Pessoa torne autorizável que se evite o uso incorrecto do termo “substituir.”

Comentários

  1. Em 1990, na disciplina de macroeconomia, lembro-me prefeitamente da confusão relativa à taxa marginal de substituição... havia livros ingleses traduzidos em português onde numa página era capaz de se ver as duas versões, a certa e a errada...

    http://en.wikipedia.org/wiki/Marginal_rate_of_substitution

    grouchomarx

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  2. Há um problema se há ambigüidade, claro. Mas não parece haver problema com a interpretação 'batateira' se ela é normalmente pretendida. Qual seria o argumento lógico a favor de interpretar "substituir A por B" a exemplo do inglês e contra a interpretação batateira? Não parece ser o uso da autoridade, com dito no texto. Tampouco poderia ser o mero exemplo da língua inglesa -- afinal, nela mesmo há o caso de "to replace", e, língua por língua, em espanhol é como no uso batateiro do português. Ao que parece, teria algo a ver com o caso de "A substitui B", apontado no texto. A interpretação desse caso é clara, concordamos. Mas nessa interpretação o substituído é exatamente o objeto direto, B, tal qual na interpretação batateira de "substituir A por B", em que o substituído seria A, objeto direto; e diferente da interpretação que tem o inglês como exemplo, em que seria o objeto indireto, B. Portanto, em vez de mostrar algo contrário à interpretação batateira, o caso de "A substitui B" parece favorecê-la, e, em vez disso, parece também mostrar algo contra a interpretação a exemplo do inglês. Além disso, talvez seja interessante observar a interpretação do que se segue a "por" como o substituto é consistente com a interpretação correta do que segue "por" na voz passiva de "A substitui B", isto é, em "B é substituído por A".

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