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A mostrar mensagens de Setembro, 2009

filosofia analítica e anti-metafísica

Um preconceito muito comum acerca da filosofia analítica é a ideia de que esta é «anti-metafísica». Uma outra maneira de formular este preconceito é dizer que os filósofos analíticos têm algo como um «gene fisicista» ou seja, uma tendência irreprimível para defender a doutrina fisicista (o que aliás é falso) - a doutrina de que só há entidades físicas no espaço-tempo - pressupondo que isso é também anti-metafísico. Quer isto dizer que para este preconceito sobre a filosofia analítica, só não se é anti-metafísico admitindo a existência de entidades que não sejam físicas ou então admitindo vários sentidos da palavra «existir» ou uma diferença entre «ser» e «existir» ou, pior e ainda mais desastrado, entre o «ôntico» e o «ontológico».
É preciso esclarecer estes preconceitos, o que se faz inspeccionando algumas ideias muito simples:
1) o fisicismo é uma doutrina metafísica, pela simples razão de que é uma teoria filosófica (não empírica) sobre a natureza última da realidade. Isso é o que si…

O que é a filosofia? Uma abordagem inicial

Num dos comentários ao meu post anterior o leitor D. Matos perguntou "e depois, que fazer?", sugerindo que não basta apontar o que está errado.
É verdade. Mas, aceitando como bom o método socrático, temos de começar por nos libertar dos obstáculos que nos impedem de avançar. Portanto, é preciso começar socraticamente por apontar incoerências e ideias erróneas. E deixar as pessoas a pensar.
Além disso, cabe a cada professor reflectir e pensar por si sobre o que deve ensinar nas suas aulas. Afinal, o problema principal é mesmo esta tendência de alguns de nós para repetirmos acriticamente o que alguém escreveu, seja no manual adoptado na escola, seja no blogue da Crítica ou num livro qualquer. Quem tem de começar a dar o exemplo da atitude crítica na aula de filosofia é o professor. Tem a obrigação de pensar por si, sem precisar que lhe digam exactamente como deve ensinar os seus alunos, aguardando pela receita de que estava à espera para avançar.
Outra coisa diferente é partilh…

Radicalidade, universalidade, historicidade e racionalidade

A radicalidade é uma característica de muitas ciências, entre as quais a física. Os físicos não se limitam a perguntar como se comporta um pedaço de matéria quando deixado em queda livre, por exemplo; eles procuram ir mais longe e mais fundo, perguntando "O que é a matéria?". Os biólogos não se limitam a querer saber como se reproduzem e se desenvolvem os seres vivos; eles procuram também responder à pergunta mais radical "Como surgiu a vida?".
A universalidade é uma característica da religião, pois as religiões não procuram explicar apenas alguns aspectos da realidade, mas a realidade como um todo, apresentando-se como uma saber universal e totalizante. Mas também é uma característica da ciência, pois se cada ciência estuda um aspecto da realidade, as ciências no seu conjunto procuram cobrir toda a realidade, exactamente como acontece com a filosofia e as diferentes disciplinas filosóficas.
A historicidade é uma característica da culinária. O modo como se preparam e…

Ortografia e memória

As reformas sucessivas da ortografia portuguesa violam o direito de acesso do leitor comum, e até do menos comum, ao legado bibliográfico da sua cultura. Isto é particularmente patente quando se consulta a secção de língua portuguesa do Projecto Gutenberg: quase nenhum livro é legível. Como a ortografia portuguesa está sempre a mudar, eu não sei, ao ler um livro destes, se estou perante um erro de digitação ou uma variação ortográfica legítima. Isto não acontece com os milhares de livros de língua inglesa do Projecto Gutenberg. Na língua portuguesa, mesmo um livro relativamente recente, como Os Maias, de Eça de Queirós, publicado em 1888, ou a obra de Pessoa, publicada já no séc. XX, é quase ilegível ao leitor culto do séc. XXI, e completamente ilegível para o leitor menos culto. A ironia é que as sucessivas reformas ortográficas se fizeram várias vezes com argumentos educativos, o que constitui um caso interessante de mentira política.

Filosofia de norte a sul

A tabela abaixo mostra-nos os resultados das candidaturas aos cursos superiores de filosofia nas universidades públicas portuguesas, comparados com os dos três anos anteriores.

A primeira coisa que se nota é que neste ano de 2009 houve uma ligeira melhoria, tanto no número de alunos que escolheram estudar filosofia (subiu para 179 alunos) como na média da nota mínima de acesso (subiu para 111,6). Em contrapartida, nunca houve alunos com notas tão baixas a ingressar num curso de filosofia (nove e meio, na Universidade de Coimbra).

Mais uma vez, reforça-se a posição da Universidade do Porto, procurada por praticamente tantos estudantes como as duas universidades públicas de Lisboa juntas, além de a nota mínima de ingresso ser superior a qualquer delas.

É ainda de realçar o caso da Universidade do Minho, que, tal como a do Porto, vê praticamente todas as suas vagas preenchidas nos últimos anos.

Tudo indica que o interesse pela filosofia é mais forte na região norte do país. Será? Porquê?

(Vag…

Como não começar

O novo ano lectivo vai começar e os alunos do 10º ano irão estudar pela primeira vez filosofia. É importante ter cuidado em não começar por criar expectativas negativas nos estudantes, o que pode gerar algum desinteresse neles.
A minha experiência diz-me que nós, professores, temos alguma tendência para gastar, logo de início, muito tempo com coisas que eles, muito naturalmente, acham desinteressantes. Refiro-me à necessidade algo estranha de passar horas seguidas a falar da importância da nossa disciplina, como se o estudo da filosofia precisasse de grandes justificações (ou como se o nosso emprego estivesse em causa e precisássemos do apoio dos alunos para o defender). O elogio, muitas vezes pomposo, de uma disciplina que os alunos ainda nem sequer estão aptos para avaliar é algo despropositado e até suspeito, além de bocejante. Creio que é uma boa maneira de começar a perder os alunos, deixando-os desconfiados.
Outro aspecto, normalmente associado ao anterior e que também não me par…

O humor não é para brincadeiras

Acaba de sair um novo livro sobre a filosofia do humor de John Morreall, cujo trabalho na área se tem destacado e foi referido pelo Aires aqui. O livro chama-se Comic Relief: A Comprehensive Philosophy of Humor(Oxford: Wiley, 208 pp.)

Viver para quê?

Está já à venda em algumas livrarias portuguesas, como a Wook, o livro Viver Para Quê? Ensaios Sobre o Sentido da Vida, com organização e introdução minhas, e textos de Richard Taylor, Kurt Baier, Thaddeus Metz, Thomas Nagel, Susan Wolf e Neil Levy. Este livro é o terceiro da colecção Filosofia Pública, dirigida por Pedro Galvão e que publicou já uma antologia sobre a moralidade ou imoralidade do aborto e sobre a natureza da arte.

João da Ega

É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!

Stuart Mill

Se todos os seres humanos, menos um, tivessem uma opinião, e apenas uma pessoa tivesse a opinião contrária, os restantes seres humanos teriam tanta justificação para silenciar essa pessoa como essa pessoa teria justificação para silenciar os restantes seres humanos, caso tivesse poder para tal.

Três novidades

Matheus Silva enviou-me notícia de três novidades editoriais brasileiras:
Existo, Logo Penso, o título brasileiro de O Que Diria Sócrates?, org. Alexander George. As Ferramentas dos Filósofos: Um Compêndio Sobre Conceitos e Métodos Filosóficos, de Julian Baggini e Peter S. Fosl.Literatura e Política: Jornalismo em Tempos de Guerra, de George Orwell.

Chegou o novo Dicionário Escolar de Filosofia

O novo Dicionário Escolar de Filosofia, organizado por mim, está finalmente aí. Nos próximos dias chegará às livrarias, de modo que os professores e estudantes poderão contar já com ele para preparar o ano lectivo que agora começa.

Nesta nova versão, revista e aumentada, o leitor encontrará cerca do dobro de entradas da versão anterior.

Novidade crítica

Pensamento Crítico: O Poder da Lógica e da Argumentação, de Richard L. Epstein e Walter A. Carnielli acaba de ser lançado no Brasil. Trata-se da tradução e adaptação do original Critical Thinking, e é uma das melhores introduções informais e acessíveis à análise e discussão de argumentos. Espero que esta obra seja cuidadosamente estudada e usada por muitos professores e estudantes, pois contribui sobremaneira para gerar a autonomia intelectual a que todo o ensino de excelência deve almejar e de que toda a sociedade livre precisa. (Obrigado a Alex Lennine por me ter dado a conhecer esta feliz novidade.)