13 de setembro de 2009

Como não começar


O novo ano lectivo vai começar e os alunos do 10º ano irão estudar pela primeira vez filosofia. É importante ter cuidado em não começar por criar expectativas negativas nos estudantes, o que pode gerar algum desinteresse neles.

A minha experiência diz-me que nós, professores, temos alguma tendência para gastar, logo de início, muito tempo com coisas que eles, muito naturalmente, acham desinteressantes. Refiro-me à necessidade algo estranha de passar horas seguidas a falar da importância da nossa disciplina, como se o estudo da filosofia precisasse de grandes justificações (ou como se o nosso emprego estivesse em causa e precisássemos do apoio dos alunos para o defender). O elogio, muitas vezes pomposo, de uma disciplina que os alunos ainda nem sequer estão aptos para avaliar é algo despropositado e até suspeito, além de bocejante. Creio que é uma boa maneira de começar a perder os alunos, deixando-os desconfiados.

Outro aspecto, normalmente associado ao anterior e que também não me parece fazer grande sentido, é massacrar os alunos com conversa interminável sobre a filosofia e sua natureza. A melhor maneira de eles compreenderem isso é introduzi-los o mais rapidamente possível na discussão filosófica e dar-lhes tempo para tirarem as suas próprias conclusões. É muito mais eficaz, motivador e filosófico.

Nada disto significa que não haja necessidade de se dar aos estudantes uma noção prévia do que terão pela frente ao estudar filosofia, até para não os deixar completamente desorientados. Mas creio que uma aula de noventa minutos chega e sobra. Acima de tudo, parece-me completamente dispensável testar os estudantes sobre a definição ou a importância da filosofia. Nesta altura do campeonato, os estudantes nada mais terão para dizer a não ser repetir acriticamente aquilo que lhes foi dito. Ora, isso é... antifilosófico.

Além disso, é também imprescindível facultar-lhes, logo de início, algumas ferramentas críticas básicas. Mas será sempre mais útil e motivador apresentar as ferramentas do ofício com alguns exemplos simples discutidos pelos filosófos. Quanto mais depressa nos atirarmos à discussão dos problemas filosóficos mais sentido as coisas farão para os estudantes e maior será a motivação. A minha experiência diz-me que os estudantes não gostam de conversa sobre a filosofia, mas da própria discussão filosófica.

A situação é, de resto análoga, ao que se passa no início do 11º ano, quando se começa por ensinar lógica. Se há coisa que, além de inútil, desperta pouco interesse nos alunos, é a interminável conversa sobre a natureza e utilidade da lógica, sobretudo quando isso vem embrulhado num monte de textos confusos sobre o assunto. Do que os alunos precisam é mesmo de aprender lógica. E quanto antes melhor. Se os estudantes não virem utilidade nisso ao discutir filosofia, também serão incapazes de ver tal utilidade só porque lhes dizem que é algo muito importante.

10 comentários:

  1. Muito bem. Como estudante de filosofia - decidi ler os manuais indicados pelo Rolando - considero estes conselhos muito úteis.

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  2. Excelente texto. A atitude do A.A. revela algo de que sempre estive certo: a Filosofia é uma actividade mais prática do que propriamente teórica, em que o importante é FAZER Filosofia. Isto passa por analisar ideias, discutir argumentos e posições... ou seja, atirarmo-nos à água.

    Helder Mendes

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  3. Duas síndromes estão associadas à incompetência escolar:

    1) A síndrome da introdução permanente, de que fala aqui o Aires, consiste em perder o máximo de tempo possível antes de estudar a coisa mesma, para ocultar o facto de o professor não saber grande coisa sobre a coisa mesma e portanto querer adiar tanto quanto possível o seu estudo.

    2) A síndrome da introdução da história em seara alheia, que consiste em fazer historietas infantis da coisa em vez de leccionar a coisa mesma, uma vez mais pela mesmíssima razão.

    Em ambos os casos, a ignorância cura-se estudando livros adequados, mas isso é precisamente o que o professor incompetente não quer fazer.

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  4. Desidério,
    Em partes também estou convencido que tens razão, mas de novo atribuo responsabilidades ao programa da disciplina. Pela experiência que tenho, garanto que se em vez do programa reservar 8 aulas de 90m para esta treta, atirasse logo com as noções de lógica, sem opções, os professores, bem ou mal, estudavam a lição e ensinavam-na. A grande maioria dos professores fazem o que lhe mandam, como a maioria dos seres humanos na maioria das actividades humanas. Se não lhes mandam estudar, pura e simplesmente não estudam. Claro que se pode esperar mais de um professor, já que ele tem a vantagem de ser o boss dentro da sala de aula e devia aproveitar bem essa vantagem. Mas a verdade é que quem perder muito tempo com a treta que refere o Aires só está a cumprir o programa. Mas também é verdade que quem ensinar a coisa a sério, também cumpre o programa. É o que dá ter um programa aberto; o efeito marginal é muito mais alargado se fosse um programa mais conciso e com conteúdos mais especificados. Mas a verdade é que os problemas começam logo no programa da disciplina. A acrescentar vem a complacente atitude que referes por parte de muitos professores.

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  5. Rolando, o programa permite, como sugeres, qualquer coisa, mas também o seu contrário ;-). Portanto, o problema de não cumprir o programa não parece colocar-se realmente. Ou estou enganado?

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  6. Aires,
    Pois, eu referi isso. O que estou a defender é que se o programa fosse mais apertado em termos de conteúdos, a dispersão seria muito menor. Temos um bom exemplo. Os dois anos (acho que nem chegou) que tivemos as OLPF homologadas,a leccionação da generalidade dos professores andou ou não mais afinada? E o que eram as OLPF senão um programa com conteúdos precisos?

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  7. Hum, parece-me que concordamos mas estás a dar ênfase a outro aspecto, Rolando. Eu concordo com o que dizes, mas falei das razões pelas quais o programa é a tolice que é. As mesmas razões que fazem os professores sofrer da síndrome da introdução permanente fez os autores dos programas fazer os programas maus que fizeram; afinal, são todos professores, exactamente com as mesmas deficiências gritantes de formação e o mesmo desconhecimento bibliográfico.

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  8. Desconheço (nesta área disciplinar) se se verifica uma análise e crítica ao conteúdo dos programas que, de forma organizada (e enquanto classe), se faça publicar, mas parece-me que – na sequência desta conversa – poderia ser útil tornar isso claro.

    Como antecipo uma resposta positiva, coloco uma outra questão: face a essas críticas qual é a posição da tutela (se é que há alguma)?


    Té,

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  9. Isso é verdade, Desidério. Acontece que não podemos (mas devíamos, talvez) apontar o dedo ao professor de Cabeçais de Cima que sente as suas deficiências, provavelmente até luta para superar parte delas, mas podemos apontar o dedo ao professor experiente que resolveu propor-se a fazer um programa. Os níveis de responsabilidade são diferentes. Curiosamente há professores de Cabeçais de Cima e de Baixo que podem ser mais competentes do que os que se propuseram a elaborar um programa para a disciplina. Mas tens razão num aspecto central: o desconhecimento bibliográfico é generalizado e hoje em dia não há desculpas pois temos bibliografia suficiente em língua portuguesa para trabalhar com maior correcção.

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  10. Ora bem. Eu sou professora de filosofia, não sigo o manual que a minha escola adotou e elaborei um programa alternativo ao vigente em Portugal. Sigo-o. Sei que os alunos que leciono estão mais avançados do que os outros que não leciono e são «orientados» através das frases feitas que são compelidos a decorar, se querem ter êxito nos itens de escolha múltipla, nas questões de V e F, etc. com que os respetivos professores os avaliam. Dei aos meus alunos os instrumentos que lhes permitem (já) analisar, sintetizar e argumentar e, dia a dia com mais rigor, ponho-os em contacto com os mestres e faço com que apliquem ao seu quotidiano o exemplo desses que lhes levo para a aula. Agora expliquem-me uma coisa: como é possível que os professores de Filosofia de Portugal não condenem com vigor o exame emergente de Filosofia do 11º Ano? Vi a amostra e fiquei aterrada: mais ninguém ficou?

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