Um preconceito muito comum acerca da filosofia analítica é a ideia de que esta é «anti-metafísica». Uma outra maneira de formular este preconceito é dizer que os filósofos analíticos têm algo como um «gene fisicista» ou seja, uma tendência irreprimível para defender a doutrina fisicista (o que aliás é falso) - a doutrina de que só há entidades físicas no espaço-tempo - pressupondo que isso é também anti-metafísico. Quer isto dizer que para este preconceito sobre a filosofia analítica, só não se é anti-metafísico admitindo a existência de entidades que não sejam físicas ou então admitindo vários sentidos da palavra «existir» ou uma diferença entre «ser» e «existir» ou, pior e ainda mais desastrado, entre o «ôntico» e o «ontológico».
É preciso esclarecer estes preconceitos, o que se faz inspeccionando algumas ideias muito simples:
1) o fisicismo é uma doutrina metafísica, pela simples razão de que é uma teoria filosófica (não empírica) sobre a natureza última da realidade. Isso é o que significa metafísica.
2) há muitos filósofos antigos e modernos que não são analíticos e defenderam doutrinas fisicistas, como Leucipo e Demócrito, Lucrécio e, mais perto de nós, o marxismo, que nada tem a ver com a tradição analítica, também é perfeitamente compatível com uma ontologia fisicista. Outros exemplos se poderia listar.
3) mesmo que eu tivesse uma ontologia onde só aceitasse particulares concretos (não confundir isto com fisicismo), nada me impediria, em princípio, de aí incluir coisas como Deus. Deus, se existe, é um perfeito candidato ao estatuto de particular concreto, apesar de aparentemente não ter existência espácio-temporal. Há mais semelhanças entre Deus e este livro à minha frente, do que entre Deus e o número dois ou o universal que se exprime no predicado «tem o nº atómico 47». Deus, como todas as coisas concretas, não é exemplificável (tem propriedades mas não é propriedade, tem relações mas não é uma relação, é espécime e não tipo). Assim, mesmo um nominalista - alguém que só acredita em entidades concretas - pode aceitar a existência de Deus (como Ockham). Ou seja, pode aceitar as coisas que segundo o preconceito sobre a filosofia analítica não poderia aceitar. Espinosa, por exemplo, que não é um filósofo analítico, parece defender uma doutrina que afirma que Deus tem partes espaciais, ainda que não defenda um monismo fisicista ou materialista. O que mostra que é possível defender metafisicamente que Deus é uma coisa física.

3 comentários:
Vitor
interessante o seu texto. Gostei principalmente do exemplo com Deus. Um fator importante que pode estar na origem desse preconceito é um maior contato com filósofos analíticos de um certo tipo, por exemplo, os positivistas lógicos. Conhecer a filosofia analítica a partir de uma bibliografia que privilegie esses autores (e certas teses desses autores) é quase certeza de criar uma concepção fortemente reducionista, empirista etc.
Existe a metafísica monista da filosofia romântica alemã (tal como a de Fichte e Schelling) que, penso, opõe-se a filosofia analítica na medida em que esta necessita de uma metafísica da pluralidade (tal como a pressuposta por Russell no seu atomismo lógico) para proceder à análise enquanto aquela conduz inevitavelmente à unicidade quando reduz o mundo a um Eu absoluto.
Cleyton
monismo, dualismo... são sempre posições metafísicas e podem ocorrer em filósofos analíticos ou não analíticos.
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