15 de setembro de 2009

Filosofia de norte a sul

A tabela abaixo mostra-nos os resultados das candidaturas aos cursos superiores de filosofia nas universidades públicas portuguesas, comparados com os dos três anos anteriores.

A primeira coisa que se nota é que neste ano de 2009 houve uma ligeira melhoria, tanto no número de alunos que escolheram estudar filosofia (subiu para 179 alunos) como na média da nota mínima de acesso (subiu para 111,6). Em contrapartida, nunca houve alunos com notas tão baixas a ingressar num curso de filosofia (nove e meio, na Universidade de Coimbra).

Mais uma vez, reforça-se a posição da Universidade do Porto, procurada por praticamente tantos estudantes como as duas universidades públicas de Lisboa juntas, além de a nota mínima de ingresso ser superior a qualquer delas.

É ainda de realçar o caso da Universidade do Minho, que, tal como a do Porto, vê praticamente todas as suas vagas preenchidas nos últimos anos.

Tudo indica que o interesse pela filosofia é mais forte na região norte do país. Será? Porquê?

(Vagas) Alunos colocadosNota do último
2006 2007 2008 2009 2006 2007 2008 2009
Un. da Beira Interior (30) 10 (20) 5 (20) 4 (20) 2 110,7 109,9 108,0 113,6
Un. de Coimbra (35) 22 (35) 14 (30) 10 (30) 26 105,5 104,0 112,0 95,0
Un. de Évora (20) 1 (20) 3 - - 113,5 125,5 - -
Un. de Lisboa (70) 37 (60) 59 (65) 21 (65) 36 100,5 103,0 108,5 103,5
Un. Nova de Lisboa (20) 20 (25) 25 (25) 16 (25) 25 139,0 125,0 116,0 117,0
Un. do Minho (30) 29 (30) 30 (30) 28 (30) 30 108,8 126,4 107,6 121,4
Un. do Porto (70) 70 (60) 70 (65) 56 (60) 60 126,0 114,6 105,8 119,2
Total / Média (275) 189 (250) 206 (235) 135 (230) 179 114,9 115,5 109,7 111,6

4 comentários:

  1. Aires,
    Uma das minhas hipóteses pode soar pretensiosa. Mas é resultado apenas de uma ideia muito vaga que tenho do que possa explicar maior afluência ao curso de filosofia na univ do Porto. Vejo que na univ do Porto, a julgar pelos professores licenciados lá nos últimos anos, existe algum investimento na filosofia analítica. Como sabemos, fruto de alguns manuais escolares e de bibliografia publicada também nos últimos anos, existem cada vez mais professores do ensino secundário a explorar a filosofia analítica. Ora, os alunos não estão em poder de fazer uma escolha dessas, mas como os candidatos ao ensino superior são tão raros, é provável que sejam encaminhados pelos respectivos professores do secundário de filosofia. Não há estudos que nos mostrem se a minha hipótese tem algum cabimento e é possível que não tenha, mas pelo menos até é mais ou menos confortável pensar assim :-)
    Outra hipótese que pode explicar essa maior afluência do Porto é o número de vagas abertas, mas também, a densidade demográfica de população jovem que é possivelmente maior no norte.
    E outra hipótese ainda é que tais números sejam meramente casuais. Convenhamos que o país não é assim tão grande e pode mesmo não passar de uma casualidade. Que achas?

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  2. Casualidade é mais difícil, dado que esta disparidade de números existe desde há pelo menos uns 4 ou 5 anos. Talvez a demografia o explique. Ou talvez as universidades do Porto e de Braga atraiam mais alunos pela qualidade do seu ensino e investigação. Só um inquérito aos próprios alunos poderia dar-nos dados fidedignos sobre o fenómeno.

    Mas além dessa disparidade, a situação é muito triste. A verdade é que em Portugal quase ninguém tem interesse em filosofia. Durante anos houve a ilusão de que muita gente se interessava por filosofia, ilusão que hoje existe no Brasil, e que resultava de 1) a maior parte dos alunos não conseguia entrar noutros cursos que preferia, ou nem sequer existiam tais cursos e 2) a filosofia garantia uma saída profissional (dar aulas no ensino secundário ou na universidade). Quando 1) os alunos podem escolher entre dezenas de outros cursos que lhes parecem mais apelativos e 2) quase nenhum licenciado ou doutorado em filosofia encontra emprego como professor no ensino secundário ou no superior, os alunos, muito previsivelmente, não escolhem a filosofia.

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  3. A disparidade norte-sul não é de hoje. Embora a minha conclusão seja um pouco empírica, é sabido a quantidade enorme de professores do norte que se encontram a leccionar no sul do país. As razões não as encontro, mas que é uma coincidência muito forte, lá isso é. O norte do país (nomeadamente entre Douro e Minho), apesar de ser uma região com disparidades económicas, possui características muito próprias em termos culturais: há iniciativas (não esqueçamos que o Porto sempre possuiu uma elite cultural muito forte) e sempre houve uma grande influência religiosa. Durante anos, o padre da paróquia mandava para seminários muitos alunos que nas suas terras despontavam. Uma das saídas foi a Filosofia, as humanidades e o direito. Portanto, não creio que as escolhas das universidades tenha como razões fundamentais a qualidade ou certas tendências do ensino filosófico. Talvez o transmontano possua a frieza do filósofo e o minhoto paciente a arte de saber esperar.
    Possivelmente, todas estas deambulações não passem disso mesmo, mas são opiniões sobre aquilo que é de difícil análise.
    Quanto ao comentário de Desidério «A verdade é que em Portugal quase ninguém tem interesse em filosofia» convém dizer que o Mundo de Sofia teve inúmeras edições, apesar disto a compra de livros de filosofia está muito longe do que é registado na Alemanha, por exemplo. Será que, pelo facto de terem filosofia no ensino secundário, as pessoas esgotam aí o seu interesse?

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  4. Daniel,
    Segundo me pareceu na altura o sucesso editorial do Mundo de Sofia não aconteceu por se tratar de um livro de filosofia. Na verdade nem é um livro de filosofia. É um romance que tem como cenário a filosofia. Não está em causa o valor do livro, ainda bem que vendeu bem, mas creio que o seu sucesso não está directamente relacionado com a filosofia. Se estivesse provavelmente outros sucessos de filosofia se seguiriam, o que não foi o caso. Mas nestas coisas penso muitas vezes que é melhor um certo optimismo ingénuo do que o pessimismo realista.
    O interesse que falas dos padres pela filosofia foi bem real. Qualquer escola ainda há poucos anos tinha profes de fil que são padrecos.Inúmeras escolas privadas da igreja ou a ela ligadas asseguravam o ensino da filosofia com os padrecos. Mas essa é uma versão da filosofia que não interessa à própria filosofia e talvez tenha sido essa influência que ajudou a enterrá-la num desinteresse generalizado e numa ideia padreca e patusca, mas falsa, da nossa disciplina.
    abraço

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