22 de setembro de 2009

O que é a filosofia? Uma abordagem inicial


Num dos comentários ao meu post anterior o leitor D. Matos perguntou "e depois, que fazer?", sugerindo que não basta apontar o que está errado.

É verdade. Mas, aceitando como bom o método socrático, temos de começar por nos libertar dos obstáculos que nos impedem de avançar. Portanto, é preciso começar socraticamente por apontar incoerências e ideias erróneas. E deixar as pessoas a pensar.

Além disso, cabe a cada professor reflectir e pensar por si sobre o que deve ensinar nas suas aulas. Afinal, o problema principal é mesmo esta tendência de alguns de nós para repetirmos acriticamente o que alguém escreveu, seja no manual adoptado na escola, seja no blogue da Crítica ou num livro qualquer. Quem tem de começar a dar o exemplo da atitude crítica na aula de filosofia é o professor. Tem a obrigação de pensar por si, sem precisar que lhe digam exactamente como deve ensinar os seus alunos, aguardando pela receita de que estava à espera para avançar.

Outra coisa diferente é partilharmos ideias entre nós. Por isso, vou pôr à consideração dos leitores como penso que a filosofia pode ser apresentada aos alunos, de modo a ficarem com uma ideia aproximada do que têm pela frente.

Em primeiro lugar, é importante referir que a filosofia se ocupa de certo tipo de problemas, mostrando com alguns exemplos que tipo de problemas são esses: problemas básicos de carácter não empírico.

Em segundo lugar, explicar brevemente como fazem os filósofos para responder a esses problemas: propor teorias apoiadas em argumentos rigorosos e sua discussão crítica.

Em terceiro lugar, partir do que se disse até aqui para distinguir a filosofia da ciência, da religião e da arte: a filosofia, ao contrário da ciência, não procura resolver problemas de carácter empírico, apesar de ambas serem actividades críticas e argumentativas; a filosofia, ao contrário da religião, é uma actividade fundamentalmente crítica, apesar de ambas abordarem questões de carácter não empírico; a filosofia, ao contrário da arte, é uma tentativa de responder a problemas através de teorias suportadas por argumentos, apesar de a arte também poder ser crítica.

Claro que tudo isto precisa de ser exemplificado e de se esclarecer o que são problemas básicos, o que significa ter um carácter empírico e o que é isso de ser crítico.

Tudo isto pode ser feito numa aula e sem o malfadado recurso a textos, que só servem para empatar e começar a dar uma ideia errada aos alunos do que realmente é a filosofia. Claro que o professor pode e deve recomendar pequenos textos (mais detalhados, com mais exemplos e mais informativos) para eles lerem em casa, mas é algo extraordinário que precise de recorrer a textos para fazer uma caracterização sumária do que é a filosofia.

São de evitar sobretudo os elogios bacocos à filosofia que frequentemente se lêem em alguns textos.

10 comentários:

  1. O professor normalmente limita-se a reproduzir aquela que foi a sua experiência desde a adolescência, com a filosofia e os livros de filosofia: a leitura solitária de coisas que nos inspiram e dão aquele calorzinho infantil de nos sentirmos "diferentes" ou privilegiados por estar a aceder a mistérios vedados à maioria dos mortais. Depois é exactamente como na religião e na política: trata-se de incutir nos outros, neste caso nos meninos, o respeito acrítico por todas aquelas coisas que nos parecem muito fascinantes e inspiradoras.

    Tudo, tudo... menos pegar no raio de um problema básico, pensar sobre isso e falar sobre aquilo que se pensa em língua que se perceba. É essa a experiência que FALTA à generalidade de nós, desde os primeiros contactos adolescentes com a filosofia, e que é a mais importante: a experiência de PENSAR. Não a das sensações epidérmicas semelhantes às que se tem num concerto de rock e todo o frenesi místico que normalmente se associa à leitura dos "textos".

    Desde pequeno, a frase que mais ouvi na escola aos professores foi a seguinte: "Agora o menino traduza isto por palavras suas".

    A que menos ouvi foi: "O que pensas disto?"

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  2. Caro Aires,
    Quanto ao ensino da filosofia em sala de aula, ela pode ser ilustrada ou exemplificada de uma forma menos massante e mais divertida, como fez o prof. Ollivier Pourriol ao utilizar trechos de filmes para explicar conceitos filosóficos. Ele passou a utilizar em suas aulas elementos e personagens da cultura pop para tornar a filosofia mais compreensível. A experiência deu certo e culminou em um livro, "Cinefilô - as mais belas questões da filosofia no cinema".
    Gostaria de saber a sua opinião sobre o método.
    Abraços

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  3. Este contato com o pensar precisa vir desde cedo, tem de ser estimulado já no ensino básico/fundamental ou seja lá qual for o nome que vocês dêem a isso em Portugal. Não é incomum encontrar alunos na graduação de filosofia que se incomodam extremamente com uma aula em que um argumento lhes é apresentado e avaliado. Qualquer problema encontrado no argumento, i.e, uma premissa dúbia ou fracamente justificada, é encarada por alguns alunos como se o argumento falhasse de todo e, o que é ainda pior, como se, então, eles não estivessem aprendendo nada. Isto acontece porque os alunos vão para a aula esperando *receber informação* ao invés de aprender a exercitar uma capacidade, em especial, a de argumentar e pensar.

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  4. Olá Aires,

    Excelente texto, simples e direto, sem ser uma receita de bolo diz tudo. Não tenho experiência com o caso de Portugal, mas pelos relatos que leio creio muito parecida com a do Brasil, logo, boa parte dos professores terão grande dificuldade de entender o que dizes. Estão acostumados a apenas ensinar a história da filosofia que aprenderam e a nunca pensar realmente sobre isso.

    Falarão, pois, em sala de aula, depois de ler o teu texto sobre 'problemas básicos' como "o problema do ser em Heidegger" ou "o problema do conhecimento em Descartes, Hume e Kant".

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  5. Eros,

    repito a política do site que repetimos mais de uma vez aos nossos leitores: as nossas intervenções são assinadas por nome próprio, de preferência primeiro e último, e não por pseudónimo.

    Não se trata de policiar, trata-se de chamar a atenção para o facto de os pseudónimos serem mais adequados a chat-rooms onde se discute o lugar de onde as pessoas teclam e coisas que tais. Trata-se de um modo de estar, tal como se estivéssemos em pessoa uns com os outros, numa sala de aulas ou de conferências ou mesmo num café, onde não há pseudónimos nem aliases, apenas as pessoas, sem mais.

    dito isto, arrisco-me a puxar algo que não queria: a metafísica dos pseudónimos, mais uma vez, que já foi aqui debatida até à exaustão.

    obrigado

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  6. para não parecer que estou a visar só o Eros, o meu comentário anterior aplica-se a todos os intervenientes. Não custa nada: mesmo que tenham pseudónimo no blogger, finalizem o texto com um apropriado e crescidinho "nome1 nome2".

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  7. É uma pena que o fórum "Argumentos", que já foi mediado pelo Desidério Murcho, tenha sido abandonado por todos os seus integrantes. Quem acompanhou esse fórum sabe que "Eros" é "Eros de Carvalho", professor de filosofia brasileiro, que fazia intervenções muito interessantes. Desidério Murcho, certamente, deve se lembrar dele.

    Marcelo Gama

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  8. Em primeiro lugar, "Eros" não é o meu pseudônimo, é, de fato, meu nome. Em segundo lugar, ao se clicar no meu suposto "pseudônimo", com muita facilidade se descobre a pessoa física que sou. Ali se encontra o link para a minha página pessoal, que contém não só o meu nome completo como informações sobre o que faço, onde trabalho etc. Estas informações podem ser publicamente checadas e de uma tal maneira que é muito mais fácil perceber que este "Eros" leva uma pessoa física e jurídica muito bem determinada do que qualquer outro perfil em que alguém simplesmente tenha colocado um nome e sobrenome quaisquer. Sobrenomes também podem ser fictícios. Um perfil nomeado "Adalberto Ribeiro" não é menos anônimo do que um perfil nomeado "Eros" se nenhuma informação a mais é dada para individuar este ente. O esquema Nome1 Nome2, no que diz respeito ao anonimato, não garante absolutamente nada, mas informações publicamente checáveis, sim, como as que você encontra no meu perfil.

    Mas como fica claro, pela sua intervenção, que Nome1 Nome2, por alguma razão que me passa desapercebida, diminui a sensação de anonimato, não deixarei, nas próximas intervenções, de acrescentar meus apetrechos nominais.

    Contudo, repare que sua chamada de atenção foi um pouco indelicada. Na seção "Enviar um comentário" não aparece a recomendação para usar o esquema Nome1 Nome2 na assinatura do comentário, de modo que não é razoável chamar a atenção de alguém por não adivinhá-la. Lá diz apenas que não serão aceitos comentários anônimos. Mas, como já disse, não estou de modo algum no anonimato e não estaria menos no anonimato se tivesse assinado "Eros Carvalho", a não ser, é claro, que estejas a entender "anônimo" em um tal sentido em que basta ter um nome para sair do anonimato e eu estaria disposto, depois de algumas considerações, a concordar com isto, mas se é assim, então "Eros" já era suficiente, pois é um nome. Tua dúvida seria, então, se "Eros" é de fato um nome e não um pseudônimo ou um heterônimo. Mas se a dúvida era esta, reitero o meu ponto: não seria menos duvidoso se eu tivesse assinado "Eros Carvalho". O esquema "nome1 nome2" não torna a expressão resultante mais facilmente reconhecida como um nome do que como um pseudônimo.

    Eros Carvalho.

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  9. Eros,

    peço então desculpa por ter associado imediatamente a referência mitológica a um pseudónimo. Quanto às garantias, a ideia não é termos uma garantia de que a pessoa está a ser honesta quanto ao nome. Trata-se apenas de uma maneira de estar, de uma atitude que sentimos que as pessoas têm connosco, apesar da possibilidade de estarem a dar um nome falso. Eu identifico-me normalmente, "Vítor Guerreiro". Claro que podia estar a mentir, embora não esteja. Mas o que importa não é a "garantia", com a qual o leitor nada vai fazer. Trata-se de estimular ao máximo uma certa maneira de estarmos uns com os outros, aberta, honesta, sem máscaras. Porque normalmente a prática dos pseudónimos (ainda que algumas pessoas que assinem com pseudónimo não façam isto) acaba sempre por ser uma máscara para nos permitirmos ter um discurso online que jamais teríamos num contexto "real". O que se nota é que a tendência para as pessoas terem o mesmo discurso online que teriam presencialmente, aumenta quando assinam com o nome próprio. Isto independentemente de quaisquer "garantias" de veracidade que não nos preocupam sequer.

    Lamento se pareci indelicado, a ideia não era essa.

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  10. Para que não se perca o assunto (e porque a questão ficou pendente no post que introduz este) remeto para o seguinte texto: “ITINERÁRIO PARA O PROGRAMA DE FILOSOFIA DO 10.º ANO” de Teresa Ximenez.

    Aqui: http://www.apfilosofia.org/documentos/pdf/TXimenez_Itinerario10.pdf

    Poderá ser foco de discussão ou sugestivo de práticas lectivas.

    Té,

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