26 de outubro de 2009

Conhecimento

Tenho o privilégio de ter sido convidado pelo Desidério para contribuir para o blog da Crítica. Claro está que estou muito entusiasmado com o desafio, e espero estar quase à altura dos restantes “bloguistas”. Muito obrigado, Desidério.

Eis o meu primeiro post, certamente muito longo, mas espero que não longo demais: aborda o conhecimento.

Num interessante livro chamado “Blink”, Malcom Gladwell descreve a seguinte experiência:

“Imagine que eu lhe pedia para entrar num jogo de cartas muito simples. Tem à sua frente quatro baralhos de cartas – dois encarnados e dois azuis. Cada carta nesses quatro baralhos dá-lhe a ganhar uma certa quantia, ou então fá-lo perder uma outra quantia, e o que tem a fazer é virar as cartas de qualquer um dos baralhos, uma de cada vez, de tal maneira que ganhe o mais possível. No entanto, a princípio, você ainda não sabe que os baralhos encarnados são autênticos campos de minas. Com as cartas encarnadas, a recompensa é alta, mas pode-se perder muito. Na realidade, só consegue ganhar tirando cartas dos baralhos azuis, que oferecem continuamente prémios muto apetecíveis de 50 dólares e só levam a perdas modestas. A questão é saber de quanto tempo uma pessoa precisa para descobrir a diferença entre os baralhos encarnados e os azuis.
Há alguns anos, um grupo de cientistas da Universidade de Iwoa fez esta experiência e concluiu que ao fim de virar 50 cartas a maioria das pessoas começava a perceber como é que a coisa funcionava. Não sabiam por que preferiam os baralhos azuis, mas a certa altura estavam convencidas de que era melhor apostar neles. Depois de virar cerca de 80 cartas, a maioria percebia o jogo e conseguia explicar com precisão por que os dois primeiros baralhos eram uma má aposta. Até aí, a coisa é muito simples: fazemos algumas experiências; pensamos nelas; elaboramos uma teoria; e depois, finalmente, somamos dois mais dois. É assim que se aprende.
Mas os cientistas de Iwoa fizeram outra coisa. E é aí que começa a parte estranha da experiência. Ligaram cada jogador a uma máquina que media a actividade das glândulas sudoríparas localizadas na palma da mão. Tal como a maioria das nossas glândulas sudoríparas, as das palmas respondem tanto à tensão como à temperatura – e é por isso que ficamos com as mãos suadas quando estamos nervosos. Os cientistas do Iwoa descobriram que os jogadores começavam a dar respostas sob tensão, em relação aos baralhos vermelhos a partir das 10 cartas, quarenta cartas antes de serem capazes de dizer que havia algo de errado com esses dois baralhos. Mais importante ainda, na altura em que as mãos começavam a suar, o seu comportamento também mudava. Começavam a preferir as cartas azuis e a retirar cada vez menos cartas dos baralhos encarnados. Por outras palavras, os jogadores apercebiam-se do sistema do jogo, antes de perceberem que já se tinham apercebido; começavam a afazer os ajustamentos necessários, antes de estarem cientes dos ajustamentos que supostamente deveriam ter feito.”

Para simplificar, chamemos:
- Fase A, à fase em que o jogador reagia às cartas vermelhas, sem saber que o estava a fazer (entre as 10 e as 50 cartas);
- fase B, à fase em que o jogador reagia conscientemente às cartas vermelhas, mas sem saber dizer porquê (entre as 50 e as 80 cartas);
- e fase C, à fase em que o jogador sabe exactamente o que se passa com os baralhos (a partir das 80 cartas)

Muitas perguntas se levantam, mas destaco as seguintes:

1) Será que podemos dizer que o jogador na fase A sabia que o baralho vermelho estava minado? Será que uma crença da qual não estamos conscientes, mas que afecta o nosso comportamento, constitui conhecimento?

2) Será que podemos dizer que o jogador na fase B sabia que o baralho vermelho estava minado? Será que uma crença verdadeira que não sabemos justificar, mas que se justifica que tenhamos, constitui conhecimento? Este é um exemplo que exemplifica o externalismo com clareza, parece-me; resta saber se achamos que é conhecimento.

8 comentários:

  1. Caro Jaime Quintas,

    Parabéns pelo primeiro post! Espero que a sua contribuição para este blog seja longa e frutuosa.

    Já há algum tempo que a epistemologia me faz alguma confusão. O objectivo principal da teoria do conhecimento é, surpresa das surpresas, definir conhecimento. Contudo, essa tarefa parece-me um pouco irrelevante, no sentido em que definir palavras é irrelevante.

    Percebo que se tente perceber o que é uma mente, pois uma mente é uma coisa fora de nós, que realmente existe, e cuja explicação seria interessantíssima. Mas o conhecimento não; é uma criação humana. O conhecimento não existe verdadeiramente, da mesma forma que o bem ou mal não existem. Dizemos que é crença verdadeira e justificada e pronto. Se este conceito for inútil, crie-se outro. O mesmo se aplica à arte ou à moral: são conceitos que usamos, ou que devíamos usar, reportando-nos à sua definição. Argumentar sobre a definição de conhecimento é como argumentar sobre a definição de força, ou de derivada. Não conhecemos realmente; é só uma palavra que usamos quando uma pessoa crê verdadeira e justificadamente nalguma coisa.
    Isto deve ser disparatado, senão não havia tanta gente a pensar sobre estes assuntos, contudo é um problema que não consigo ultrapassar.

    P.S.: na opção B, a opção pelo baralho azul é justificada: as cobaias sabem que estatisticamente que B dá melhores resultados. É uma justificação empírica, mas não deixa de ser justificada.

    Cumprimentos!

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  2. Caro João Pedro,

    Obrigado pelas suas palavras.

    Concordo que a Epistemologia possa parecer num primeiro contacto um pouco árida. Essa foi também a minha primeira impressão, apesar de o meu interesse aumentar à medida que vou estudando o tema.
    Um pequeno reparo: a epistemologia, claro está, vai muito além da definição de conhecimento.

    Não vou defender o interesse da epistemologia (entendido como "Ah, que interessante!"), mas vou tentar explicar a sua importância.
    Repare que a epistemologia serve de base a todas as disciplinas que lidam com conhecimento e compreensão: ciências, filosofia e outras.

    Todas as acções das pessoas, com a eventual excepção de alguns reflexos instintivos, têm por base uma ou mais crenças: aquilo fazemos, o que fazemos aos outros, o que obrigamos outros a fazer, etc. Tudo tem por base as crenças que temos:
    guerras, investimentos, julgamentos, execuções, distinções, galardões, omissões, tratamentos, obrigações, …. tudo se baseia em crenças ou, melhor, tudo se baseia naquilo que sabemos.
    Os nossos deveres, incluindo os morais, baseiam-se naquilo que sabemos: por saber que A tem fome, devo ajudá-lo; por saber que B é inocente, devo defendê-lo; por saber que algo foi roubado, devo restitui-lo, etc.

    Temos o dever de actuar em conformidade com as nossas crenças.

    É assim de extrema importância distinguir as crenças que constituem conhecimento das que não constituem. É também importante saber como é que podemos adquirir conhecimento, como é que o devemos avaliar, quando é que o devemos rejeitar.
    Conclui-se facilmente que a epistemologia é central em muitas áreas da filosofia, a mais visível para todos talvez seja a discussão do papel da fé na filosofia da religião.

    É disto que trata a Epistemologia, muito mais, portanto, do que definir conhecimento.

    Quanto ao caso apresentado, não é linear que na situação B o jogador soubesse que as vermelhas estavam minadas. A questão não é saber se a forma como o soube foi empírica ou outra, a questão é saber se uma determinada crença que eu não consiga justificar pode constituir conhecimento. Há quem diga, numa postura internalista, que para que uma crença seja justificada S tem que estar consciente da sua justificação. Já uma postura externalista defende (de forma simplista, claro) que S pode ter uma crença, e esta constituir conhecimento apesar de S não estar consciente da sua justificação – o caso B.

    Para salientar a importância desta distinção apresento outro exemplo, baseado num caso verídico apresentado no Blink mas adaptado para reforçar o meu ponto. Imagine um edifício em chamas e os bombeiros a tentar salvar as pessoas que lá estão. Vão em fuga por determinado caminho e de repente um bombeiro diz “parem, não vamos por aqui que isto não aguenta com o nosso peso”, dão meia volta e vão por outro lado em que o fogo estava mais forte, resultando em queimaduras severas nalgumas pessoas. No final pedem a este bombeiro que explique porque não foram pelo caminho aparentemente mais seguro e arriscaram tanto em ir através das chamas. Ele não sabe explicar, diz que sabia que o pavimento não aguentaria com eles e que iriam cair e todos podiam morrer. “Explique lá como é que sabe isso!”, “não sei explicar”, diz ele, “apenas soube que não podíamos ir por ali”. O bombeiro é despromovido, multado, condenado e envergonhado. Será que ele sabia mesmo?
    Já agora, o exemplo do Blink é quase igual, sendo que a única diferença é que o piso cai de facto, mesmo sem o peso deles em cima, e o bombeiro ganha uma medalha toda catita.

    Será que nestas situações o bombeiro sabia de facto que o piso estava instável? Será que, apesar de ele não saber justificar esta crença, podemos dizer que ele sabia? Dependendo de dizermos se ele sabia ou não está a forma como será julgado: a medalha ou a despromoção!

    A epistemologia é de facto importante, e pode ter consequências práticas muito concretas.

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  3. Caro Jaime Quintas,
    Obrigado pela resposta.

    Relendo o meu comentário, vejo que se calhar não me expliquei muito bem. Não desdenho a epistemologia, até porque conheço a área muitíssimo mal, e vejo que parece importante.

    O que queria dizer era que o problema da definição de conhecimento não faz sentido. Suponhamos que um matemático criava um conceito X, pois achava que ele era útil em tarefas matemáticas. Os outros matemáticos não discutiriam, pelo menos não muito aprofundadamente, se o conceito de X é correcto, pois não podemos dizer que este tipo de conceito é correcto porque não descreve nada real. É criado para economizar palavras e é bom conforme for útil.

    Acho que o mesmíssimo critério se aplica ao conhecimento. É um conceito que se define e pronto, tem umas características rígidas. Não é como o conceito de ser vivo, que designa algo real, físico, e que portanto muda à medida que vamos conhecendo o melhor o mundo. Também não andamos a discutir o que é realmente uma mesa ou uma bola, tal como não devíamos discutir o que é o conhecimento.

    Por estes motivos, também me parece que o problema da definição da moral, pro exemplo, é sem sentido.

    Cumprimentos!

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  4. Mesmo que fosse verdade que definir palavras é irrelevante, parece-me evidente que não é, não vejo em que isso afecta a epistemologia. Estudar o conhecimento não é o mesmo que estudar palavras. Uma coisa é o conhecimento, outra é "conhecimento" como entidade linguística, fonema, grafema, etc.

    Se não faz sentido estudar coisas que são "criação nossa" não vejo o que andam a fazer os musicólogos, que estudam coisas criadas pelo homem e que não são de todo entidades físicas, pois uma obra musical não é uma partitura nem uma fita magnética nem um instrumento musical, nem uma execução particular de uma obra.

    E quanto à cognição musical, é melhor nem falar. Parece que faria sentido aprender música mas não discutir isso que acontece quando se aprende música ou quando se ouve música.

    Parece-me que o João Pedro aceita demasiado acriticamente o critério verificacionista para determinar que tipo de afirmações fazem ou não sentido. Ironicamente, essa é uma doutrina epistemológica que foi pesadamente criticada precisamente em epistemologia.

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  5. Caro João Pedro,

    Deixe-me ver se o entendi. O problema com o seu argumento é que não leva em linha de conta que a forma como definimos algo é consequente. No exemplo que apresenta, o matemático inventa o conceito X dizendo que “a esta entidade passaremos a chamar X”, claro que poderíamos chamar Y, Z ou o que quer que seja. Por exemplo, os ingleses chamam “knowledge” àquilo que se está mesmo a ver que é “conhecimento” . Mas se o fonema que utilizamos para referir o conceito não é cognitivamente relevante, já a definição exacta do que engloba esse conceito é extremamente importânte. Veja-se a clássica questão dos número primos: se dizemos que primos são os números que são apenas divisíveis por si e por 1, então 1 seria primo; se dizemos que primos são os números que têm dois divisores, então 1 não é primo. E, verdade seja dita, a definição poderia ser uma ou outra, mas as consequências de se ter adoptado uma ou outra são extensas. Importa que esteja claro para todos se 1 é primo ou não (1 não é primo, por definição, já agora). Conseguimos imaginar facilmente um diálogo entre dois matemáticos que seja absurdo, se cada um tiver uma concepção diferente de número primo (agora não me ocorre este diálogo que “facilmente” conseguimos imaginar…).

    Ora a definição de conhecimento, como julgo que terá ficado claro pelo meu comentário anterior, tem um impacto fortíssimo nas ciências, na filosofia e na nossa vida em geral. Muitas das áreas de estudo, se não todas, a que a humanidade se tem dedicado se baseiam num entendimento particular de “conhecimento”.
    Não estamos portanto a inventar um novo conceito, do tipo “às pessoas de olhos azuis passamos a chamar olhazul”. Neste caso seria um pouco indiferente se incluíamos no conceito olhazul quem tem olhos azuis ou também quem tem olhos esverdiados ou cinzentos. Ao fim de alguma discussão, seria perfeitamente compreensível que alguém dissesse: “epá, incluam lá o que quiserem nesse conceito, mas decidam-se e informe-me depois”.
    Mas relativamente ao conhecimento, o que fazemos é perguntar a que se refere a expressão “conhecimento” tal como é utilizada nas mais diversas áreas de estudo e até no nosso dia-a-dia. Portanto o conceito já está de alguma forma estabelecido, a utilização da palavra é corrente. Mas, uma vez que a forma como utilizamos a expressão conhecimento tem um impacto brutal em tudo o que fazemos, importa analisar e esclarecer exactamente a que se refere, o que é que podemos afirmar que sabemos e como poderemos adquirir de forma segura mais conhecimento. Refiro uma vez mais que, obviamente, a epistemologia vai muito além da definição de conhecimento.

    Já agora, eu percebi no seu primeiro comentário que não está a dizer que a epistemologia não é importante, está apenas a dizer que não percebe a importância dela. Eu compreendo essa posição, confesso que eu próprio levei algum tempo a perceber a relevância do tema e ainda mais a interessar-me genuinamente por ele. O que eu gostaria de conseguir com esta troca de comentários não é vencer a discussão, mas sim conseguir que o João fique genuinamente convencido que a epistemologia é importante.

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  6. Não acho que seja irrelevante definir palavras, apesar de se calhar ter escrito isso. Não era isso que queria dizer. Nem acho que não valha pena estudar "criações nossas".

    O que pretendo dizer é que o problema da definição do conhecimento não tem sentido, tal como o problema da definição da moral. Estudar como o conhecimento surge, se ele exige consciência, etc, são coisas diferentes de definir conhecimento.

    Não existe uma busca pela definição de conhecimento no sentido em que há uma busca por saber quem somos. A definição de conhecimento deve obedecer a convenções, da mesma forma que o "hidrogénio" designa um átomo com 1 protão. Podíamos chamar "hidrogénio" a outra coisa qualquer mas resolvemos, convencionalmente, dar esse nome ao átomo monoprótico. Da mesma forma, chamamos "conhecimento", à crença verdadeira e justificada, quando podíamos chamar a outra coisa. Convencionamos os nomes que damos aos conceitos.

    Discutir se a moral exige um altruísmo completo ou parcial é igualmente sem sentido, pois isso depende da nossa definição de moral, que é convencional; a moral não existe mesmo, definimo-la como quisermos.

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  7. Ups, Jaime Quintas, não tinha visto a sua resposta.

    Ok, definir conhecimento é definir o que queremos dizer normalmente quando usamos a palavra "conhecimento". É que a ideia que eu tinha era surpreendentemente semelhante a: “epá, incluam lá o que quiserem nesse conceito, mas decidam-se e informe-me depois”.

    Muito bem, o problema da definição de conhecimento não é sem sentido.

    Mas se, analogamente, o que queremos dizer com "o que é a moral?" é "a que é que nos referimos quando usamos a palavra "moral""?, então acho que a discussão moral fica muitíssimo empobrecida, porque não me sinto moralmente obrigado a fazer aquilo a que nos referimos quando usamos a expressão "acções morais".

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  8. Talvez então eu não devesse dizer que estamos a definir o que queremos dizer quando utilizamos a palavra conhecimento, mas sim o que *deveriamos* querer dizer quando utilizamos a palavra conhecimento.
    Claro que a utilização da palavra conhecimento não é homogénea em toda a população, haverá usos adequados e usos não adequados. Por isso dizemos que a Alexandra Solnado não está a ser correcta quando afirma saber que os cristais afectam a aura (ou algo assim do género). Ela até pode crer que sim, mas tal crença certamente não é justificada e, muito provavelmente não será verdadeira. Não é justificada porquê? Ora a estrutura e características da justificação a que podemos chamar de correctas é um dos temas a que se dedica a epistemologia...

    Finalmente, relativamente ao teu exemplo sobre a moral, não está claro para mim o que é "aquilo a que nos referimos quando usamos a expressão "acções morais"". Para ter essa discussão teriamos primeiro que definir muito bem o que são acções morais, para ter a certeza que todos sabemos a que é que nos estamos a referir. Depois, caso continues a não te sentir moralmente obrigado a segui-las, então provavelmente é porque não concordas com a definição que foi estabelecida. Isto leva-nos a outra discussão completamente diferente, a da ética, mas apenas reforça a importância das definições: a forma como definimos "moral" tem um impacto enorme na forma como discutimos, estudamos e analisamos todas as questões da ética.

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