11 de outubro de 2009

Direita torta e esquerda direita


Não estou certo de que a discussão política sobre o que distingue a direita da esquerda seja apenas uma questão política ou se é, antes de mais, uma questão filosófica relevante. Registo, por um lado, que alguns bons dicionários de filosofia (Thomas Mautner, por exemplo) são omissos em relação a este par conceptual e que outros (Blackburn e Honderich) aviam a coisa em poucas linhas. Por outro lado, é muito raro encontrar tais conceitos na literatura filosófica.

Seja como for, há uma tendência muito frequente nas discussões sobre direita e esquerda que me parece filosoficamente estéril e que consiste em caracterizar ambos os lados de tal modo que se torna imediatamente óbvio a uma mente equilibrada que um deles está errado e o outro certo. Se, na caracterização filosófica de uma disputa, se torna evidente, para um ser racional interessado na verdade, que num dos lados estão os bons (ou os que pensam bem) e no outro lado os maus (ou que pensam mal), então tal caracterização nada tem de filosófico. A distinção em causa não passaria, nesse caso, de uma distinção pseudo-filosófica.

Vem isto a propósito de uma conversa radiofónica com Nuno Nabais, que apanhei uma destas tardes no Radio Clube Português. A conversa era precisamente sobre o que é a direita e já tinha havido uma conversa anterior sobre o que é a esquerda. O que nos dizia, então, Nuno Nabais sobre a direita?

Que a direita assenta em duas grandes teses:

1. A crença de que a natureza dispõe dos mecanismos para uma boa resolução de todos os conflitos, ficando tal resolução entregue aos interesses egoístas dos indivíduos ou conjunto de indivíduos. Esta é a tese fisiocrática, típica do chamado darwinismo social.

2. Uma grande desconfiança em relação aos mencanismos de consulta popular e à bondade da vontade popular. O melhor governo é o governo dos mais sábios, mais competentes ou, numa palavra, dos iluminados.

Em suma, a tese 1 defende uma espécie de determinismo egoísta e a tese 2 é a defesa de uma espécie de elitismo anti-democrático.

Mas será que a direita, toda a direita, é realmente isto? À primeira vista, isto parece politicamente indefensável e faria dos defensores da direita uma espécie de aves de rapina raras, em vias de extinção. Não tanto devido à tese 1, mas antes à tese 2 e, sobretudo, à conjunção de ambas. Basicamente o que se está a dizer é que a direita não é democrática.

Mas há ainda outras afirmações de Nuno Nabais que surpreendem, nomeadamente que na história da filosofia quase todos os filósofos que pensaram sobre estas questões são de direita, a começar por Sócrates, sendo os de esquerda excepções. As excepções referidas são Espinosa, Rousseau, Russell, Deleuze e Derrida. Será que se pode concluir, a partir das teses anteriores, que Montesquieu, Kant, Marx, Mill, Popper, Rawls e tantos outros são de direita?

O mais surpreendente é Nuno Nabais afirmar que a filosofia é intrinsecamente de direita, justificando isto com a ideia popularucha de que os filósofos são seres ensimesmados que olham de cima para o resto da humanidade. Será Nuno Nabais um falso filósofo, dado que confessou ser de esquerda?

6 comentários:

  1. Nuno Nabais, obviamente muito inteligente, faz pequenas intervenções em Rádio. Ainda bem, pois a filosofia tem que mostrar a sua seriedade às «massas». Contudo, qualquer intervenção desta índole obriga à captação de audiências, o que poderá levar a posições que suscitem mais dúvidas e perplexidades. Nuno Nabais faz isso. Evidentemente que a esquerda a direita se diferenciam. Também é óbvio que as diferenças se cruzam com concepções antropológicas. Aí talvez concorde com Nuno Nabais, na medida em que é visível haver da parte da direita algum pessimismo antropológico e da parte da esquerda um certo optimismo. Mas parece-me que a divisão que fez dos filósofos é extremamente redutora e e, talvez, abusiva. Mas os programas de rádio têm destas coisas.

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  2. ... ou podemos não partir do princípio de que "é assim" e simplesmente fazer as coisas tão bem quanto seja possível fazê-las.

    A mim parece-me que ali se trata de reproduzir as deixas de Deleuze sobre as "filosofias do estado". Coisas que se foi em parte buscar ao marxismo: a ideia de que a história da filosofia é a história do "idealismo" ou dos "filósofos burgueses" e que depois, de algum modo, no seio dessa história magna, há uma "contra-história" das doutrinas materialistas, subversivas, underground, anti-estado...

    É giro, mas... é uma treta. Sem querer fazer aqui propostas definitivas, eu diria que será provável que em todos os filósofos haja opiniões políticas, talvez nem todas filosoficamente relevantes, díspares... ou seja, algumas mais à direita, outras mais à esquerda, como seria de esperar num ser racional que pensa por si. E seja qual for a definição canónica que aparta esquerda e direita.

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  3. O que caracteriza a direita é uma certa deferência perante a tradição e a autoridade, com base numa ideia que todos podemos reconhecer como razoável: que as nossas instituições e práticas não são perfeitas, mas antes de fazer qualquer mudança é preciso ter a certeza de que não vamos ficar na mesma ou pior; afinal, as instituições e práticas que temos resultam de uma certa sabedoria centenária que não pode ser completamente desprezível.

    A esquerda não tem qualquer deferência perante a tradição e a autoridade, com base numa ideia que todos podemos reconhecer como razoável: não podemos deixar tudo à tradição e à autoridade, dado estas terem mostrado vezes sem conta não estarem do lado do que é melhor, mas apenas do lado do que é igual ao que havia antes.

    O defeito fundamental da esquerda é a ideia de que se pode refundar de uma assentada toda a sociedade e todas as nossas instituições, concebendo-se tolamente que uma pessoa sozinha ou um pequeno grupo de pessoas é capaz de conceber uma sociedade melhor do que a que temos.

    O defeito fundamental da direita é o atavismo que consiste em manter instituições e práticas que obviamente só produzem sofrimento e injustiças, e que não seria difícil modificar para melhor.

    O igualitarismo é uma das preocupações centrais da esquerda, porque tem uma especial sensibilidade às injustiças sociais. Mas a direita não tem de ser nem anti-igualitária nem anti-democrática; apenas não aceita que o caminho para uma maior igualdade e justiça social seja a revolução.

    Há algumas ironias históricas. Os reformistas sociais do séc. XIX eram vistos como moles e sem futuro por pensadores tão diferenciados quanto Marx ou Nietzsche. No entanto, somos herdeiros de uma sociedade muitíssimo melhor do que a do séc. XIX graças a eles, e os revolucionários como Hitler ou Estaline, que Nietzsche e Marx aprovariam sem hesitar, trouxeram misérias quase inenarráveis.

    Assim, parece que o pensamento reformista, que não procura destruir de uma só vez as nossas tradições e instituições, mas que ao mesmo tempo procura melhorá-las a pouco e pouco depois de as submeter à melhor discussão possível, é o caminho mais plausível.

    Repare-se que na concepção de esquerda e direita que apresentei, Platão é um pensador de esquerda e não de direita. Para o entender como um pensador de direita, como muita gente pretende, é preciso olhar para a sociedade que ele imaginou, mas não para o facto de ele pretender destruir completamente a sociedade do seu tempo.

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  4. Outra pergunta que poderíamos fazer é se um indivíduo, para ter uma mundividência política consistente, está obrigado a que todas as suas posições sejam ou de esquerda ou de direita, ou se o ter algumas posições mais à esquerda ou mais à direita implicam logicamente inconsistência.

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  5. A esquerda e a direita surgiram como referência ao local onde estavam os políticos. Creio que não há nenhum destes doutos políticos puros, e sim uma bagunça coletiva que os leva (e a nós) a ter em mente somente este tipo de dualidade. No máximo como macacos (a bem da verdade 98% macacos) somos muito bons em tornar verdades da direita como boas indicações da esquerda, colocando num saco só toda a virulencia verborrágica que políticos podem sacar e usar para nos ludibriar.

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  6. Caro Desidério,

    Concordo com o teu comentário excepto, talvez, quando referes os “defeitos fundamentais” da direita e da esquerda. Digo “talvez” porque não estou certo sobre o que referes com essa expressão.

    Mais abaixo falas dos reformistas de esquerda como de pessoas que defenderam ideias mais razoáveis do que criaturas como Staline, por exemplo. Mas as ideias de Staline (ou de Lenine, ou de Trotsky, etc.) são fundamentais e as desses reformadores não são? É isso que não percebo. Se são, porquê?

    Provavelmente, o mesmo se poderia dizer sobre as ideias dos reformistasde direita.

    Num aparte que considero importante,solicito que a Crítica não publique textos de Stuart Mill sobre a liberdade sem advertir os seus leitores sobre a sua total discordância em relação às ideias de S. Mill (na questão em causa). Com efeito, há alguns tempos atrás, ficou cabalmente demonstrada a intolerância da Crítica relativamente a ideias discordantes; ficou, inclusive, cabalmente demonstrado que a Crítica não hesita em recorrer a métodos imorais para impedir a livre discussão de ideias (censura selectiva, achincalhamento pessoal, etc.) Há limites pata tudo e a hipocrisia não constitui excepção.

    Pedro Saragoça Martins

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