31 de outubro de 2009

Discussão pública

Em "Discussão, Democracia e Perversão" volto a defender a visão incomum do que é a discussão pública. O que pensa o leitor?

3 comentários:

  1. No contexto de uma discussão sobre «liberdade de expressão», motivada pela polémica em torno das afirmações de um romancista, talvez seja interessante acrescentar uma nuance ao argumento, da lavra de um escritor que muito lutou, no seu papel menos conhecido de autor de diatribes panfletárias, pelo valor em causa:

    «O liberalismo é a doutrina que mantém que o indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser, e de pôr em prática o que pensa como quiser, desde que essa expressão ou essa prática não infrinja directamente a igual liberdade de qualquer outro indivíduo.
    Nesta definição há que reparar numa palavra que nela é de capital importância — o advérbio “directamente”. O jogo corrente da vida social faz que constantemente estejamos coarctando a liberdade alheia; fazem-no porém indirectamente. (...)
    Outro exemplo, já da esfera intelectual, tornará isto absolutamente claro. Certo poeta publica um livro, dois livros, três livros, e, por qualquer motivo, que no caso não importa, cria certa fama e proveito. Leio os livros desse poeta e verifico para mim, com razão ou sem ela, que os livros são maus, e que, portanto, é injusta a fama e a venda que têm. Nesse senti do escrevo um artigo, justo ou injusto, em que demonstro, de modo que impressiono o público, que esse poeta é sem mérito e os seus livros sem valia. O público, impressionado, concorda; deixa de comprar os livros do poeta. O poeta só perde a fama e a venda, mas, em virtude de as perder, fica sem editor que lhe publique os livros. Resulta do meu artigo que amordacei esse homem, que evitei que ele pudesse exprimir publicamente o que pensa; fi-lo com a mesma segurança com o que a faria uma proibição de publicar de uma missão de Censura ou de um ministro qualquer, e com a agravante que ele não pode chorar-se mártir ou lamentar-se vítima.
    Violei com isto os princípios liberais? Não violei.»
    Fernando Pessoa, «Ultimatum».

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  2. É precisamente por isso que as pessoas precisam de filosofia: para pensar pela própria cabeça e não se limitar a aceitar o que diz uma besta só por ser a Besta de Tal, ou porque conhece o Lopes da Silva, que o convidou a escrever uma crónica.

    Claro que as opiniões dos outros podem ter consequências nas nossas vidas. Alguém poderia espalhar no meu bairro a ideia de que sou um burlão ou algo assim. Isso poderia prejudicar-me. Pelo que é imoral difamar as pessoas ou dizer deliberadamente coisas falsas sobre elas. Contudo, será que isto deve constituir limite à liberdade de expressão?

    A difamação já é abrangida pela lei actual e não temos de a discutir aqui.

    Quanto às críticas musicais, literárias ou cinematográficas... bom, essas têm de se tornar simplesmente mais como as críticas científicas. Ou seja, progressivamente temos de deixar de ter bestas intelectualóides a escrever inanidades sobre coisas que mal percebem. Mas isto não se consegue silenciando as pessoas. Isto consegue-se educando o público. No tempo da ditadura, o Fernando Lopes-Graça fazia coisas como colocar partituras à disposição de críticos analfabetos musicais e dar-lhes prazos longos para provarem em termos apropriadamente musicais os disparates que diziam. O resultado invariável era o crítico desaparecer por si, com o rabo entre as pernas.

    É preciso fazer mais disto e ensinar o público a fazer as perguntas embaraçosas que tornam inútil às bestas usar o palavreado meloso e cognitivamente inerte. Isso é o que a longo prazo destruirá a desonestidade intelectual, não a censura e o silenciamento, que as fomentam. Num clima de censura não se elimina as bestas, apenas se favorece umas bestas prejudicando outras bestas. As bestas que por acaso forem amigas do Lopes da Silva podem continuar a enganar o mesmo público com o mesmo tipo de tretas.

    Assim, é preferível as pessoas dizerem o que pensam, por mais disparatado que possa ser. Em seguida discutimos e explicamos às pessoas por que razão isso nos parece tão disparatado.

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  3. A censura e o espirito do politicamente correcto só resultam nisto:

    num dado regime algumas bestas são marxistas porque o regime é marxista, todos os outros são silenciados. As primeiras dizem tudo o que lhes apetece.

    noutro regime, só as bestas que são católicas podem dizer o que lhes apetece, sem serem postas em causa.

    noutro regime, só as bestas adeptas da Ideologia X podem falar à vontade, etc.

    A única solução para tudo isto é: deixar TODAS as pessoas falar à vontade, por mais que isso nos possa ofender e repugnar. Ensinar o público a discutir e a usar a argumentação racional, em vez do pensamento por arrasto, em função da notoriedade do comentador.

    Esta solução não é muito bem-vinda em geral porque: 1) dá muito trabalho, 2) leva muito tempo, 3) não tem resultados garantidos.

    ao passo que a censura dá pouco trabalho, faz muito barulho, diverte imenso a gente bruta, a quem edifica a alma na razão inversa da superficialidade mental, dá resultados em pouco tempo, ainda que não sejam os desejados... produzindo muitos efeitos contrários ao que se deseja.

    ... Mas pelo menos neste cenário, as pessoas que se ofendem com ideias podem continuar tranquilamente a fingir que todo o mundo concorda com elas e as admira. Não tem outro significado a ideia de "ofensa" e "dignidade" supostamente ameaçada pela livre expressão: a ideia de que o mundo e as pessoas são como eu gostaria que fossem.

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