18 de outubro de 2009

ontologia das palavras

Por vezes fazemos uma certa confusão entre uma palavra existir em português (ou em qualquer língua) e o facto de essa palavra estar dicionarizada em português (ou em qualquer língua). Mas isto não pode ser, desde logo porque em parte o trabalho do lexicógrafo é registar um uso prévio, um uso que existe antes de o dicionário ser redigido. Por outro lado, parece que esta distinção não é importante, dado que, seja como for, só pode ser registado pelo lexicógrafo o que já existe. Mas isto é invalidado pela falibilidade dos dicionários. Por exemplo, nenhum dicionário contemporâneo que uso regista a palavra "protectivo", mas o dicionário de António Moraes Silva, de 1813, regista-a. Portanto, pelo menos a dada altura, a palavra teve de existir. Mas aqui eu proporia uma reforma do nosso modo de entender a relação entre "existir linguisticamente" e "estar dicionarizado".

O verbo "instanciar" ou o adjectivo "protectivo" podem não constar dos dicionários em uso corrente, mas isso não significa que as palavras não existam no sentido em que "blúrguico" não existe em português. É que neste exemplo, a pseudo-palavra "blúrguico" não é um adjectivo que corresponda a alguma outra palavra já em uso, quer dizer, nada há que torne a derivação de "blúrguico" razoável no uso da língua em causa. Já o caso de "instanciar" e de "protectivo" é diferente: essas palavras encaixam em usos prévios e são perfeitamente inteligíveis à luz da gramática. Se podemos ter instâncias também podemos ter a acção de instanciar; se podemos ter protecção e protectores, podemos ter coisas com a qualidade de serem protectivas.

A minha proposta, portanto é que neste aspecto da língua a lógica tenha precedência sobre o gramofone ou o espírito do registo passivo.

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