10 de outubro de 2009

Subjectivismo e antropocentrismo

"É tudo muito relativo", ouve-se por vezes dizer. Será que sim? Eu argumento aqui que nem tanto.

6 comentários:

  1. Complementarmente ao que é defendido no artigo - que só parece óbvio a quem é capaz de exercitar as raras e difíceis virtudes filosóficas da humildade e da coragem de pensar de forma clara, racional e objectiva -, talvez se pudesse acrescentar o seguinte: o relativismo pós-moderno, em todas as suas formas e manifestações (epistémicas, morais, estéticas, etc), funciona hoje como uma verdadeira praga ou epidemia ideológica que infecta a quase totalidade da sociedade e cultura contemporâneas, como uma espécie de cancro psico-social ou de vírus da sida cultural, de consequências verdadeiramente devastadoras em todos os níveis do pensamento e da vida. E fá-lo de forma tanto mais eficaz quanto se apresenta, paradoxal e contraditóriamente, como verdade absoluta e indiscutível em si mesma, como um dogma auto-evidente. Mas como se explica tal sucesso desta doença do espírito contemporâneo? Que causas profundas puderam - e podem - originar tal patologia? O texto aponta algumas dessas razões estruturalmente mais importantes do ponto de vista psicológico e antropológico, a que se poderia eventualmente juntar a ilusão de boa consciência crítica relativamente ao dogmatismo absolutista, de fundo essencialmente religioso e político, que fez história. O relativismo retira assim, também, parte do seu fascínio hipnótico universal dessa ilusão colectiva de parecer uma reacção moral e intelectualmente justificada a essa e a todas as outras formas de absolutismo. Mas talvez se possa compreender mais facilmente a força "mágica" do seu apelo se o virmos como expressão e resultado da acção combinada de quatro "demónios" - ou "vícios" - que "assombram" permanentemente o espírito humano na sua busca do conhecimento: o Orgulho, o Medo, a Preguiça e o Hábito. O Orgulho, porque, como é referido no artigo, se tudo é relativo e subjectivo - e o subjectivismo não é mais que a variante individualista e egocêntrica do relativismo -, então não existem verdades que sejam independentes de nós, sejam elas factuais ou normativas, concretas ou abstractas, físicas ou metafísicas, e a nossa vontade de poder reina soberana e verdadeiramente omnipotente no universo infinito da nossa imaginação delirante, governado sem quaisquer limites pelo mais puro wishful thinking, com o nosso "egozinho" (individual, colectivo ou de espécie) elevado por si próprio à condição divina e à infalibilidade papal sem qualquer hipótese de erro, o que é óptimo e altamente compensador para o ego, seja ele individual, social ou antropológico. O simbólico Lúcifer bíblico, vítima do seu desmedido orgulho e consequente inveja que o fez querer ser Deus, é disso a perfeita ilustração, o que não é surpreendente, visto tratar-se de uma projecção nossa;
    o Medo, porque se não há verdades absolutas e tudo gira à nossa volta, se somos individual ou colectivamente "a medida de todas as coisas", nada há a temer, não havendo verdades terríveis, assustadoras, insuportáveis ou simplesmente desconsoladoras a recear. E assim se vence "mágicamente" o medo animal e infantil da realidade hostil ou indiferente;

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  2. (continuação)

    a Preguiça, porque se não há verdades universais e objectivas, e todas são particulares e subjectivas, então estamos automáticamente dispensados - auto-dispensados - de fazer qualquer esforço ou sacrifício para as alcançar e podemos permanecer tranquilamente "à sombra da bananeira" ou "encostados às boxes" "com o piloto automático ligado", "cantando e rindo, levados, levados sim". A fábula da raposa e das uvas exemplifica perfeitamente esse estado de coisas: "Estão verdes, não prestam!", mente a raposa a si mesma para não ter de se esforçar ou admitir que não consegue chegar às uvas;
    o Hábito, porque a "pura e simples" repetição mecânica, por algum tempo e por quase toda a gente, dos mesmos chavões, frases feitas, estereótipos e preconceitos, transformam a mais estúpida das mentiras numa verdade que ninguém discute ou contesta, mesmo que seja a verdade de que não há verdades - ou talvez sobretudo essa, dada a sua autocontradição, o que parece ir ao encontro daquela característica tão universalmente humana que os nossos "irmãos" brasileiros correctamente designam por "não se enxergar". Se adicionarmos a isto o "bom e velho" instinto de rebanho que faz de nós perfeitos macaquinhos de imitação uns dos outros, tanto nas acções como nas palavras e ideias, percebemos o peso que um hábito partilhado tem no desejo de segurança e no sentimento de pertença de cada um e de todos.
    No fim, talvez se pudesse simultâneamente resumir e traduzir todas estas razões numa espécie de "fórmula lógica" ou "equação" típica da psicologia popular, constituindo um raciocínio-padrão da in-consciência "humana, demasiado humana", que não passa, aliás, de uma versão menos sofisticada de uma antiga máxima sofística: Se Eu não sei, então ninguém sabe; se ninguém sabe, então não é possível saber; se não é possível saber, então não existe nada ou, pelo menos, nada há para saber. Moral da história: e assim vivemos felizes para sempre - na ignorância, na inconsciência, na estupidez e na loucura, acreditando na ilusão de que basta nascer biologicamente humano para ser um animal racional e um membro de pleno direito da espécie que se define a si mesma como sapiens...

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  3. Saudações!

    Parece-me que, bem vistas as coisas, as nossas preferências são irracionais.

    À primeira vista, isto realmente parece implausível: gostar do Rambo ou do Das Leben der Anderen não parece ser uma preferência igual à de gostar de salada ou não. Temos razões para preferir um filme bom a um filme mau e portanto esta decisão não parece irracional. O autor argumenta que a própria ideia de que gostar de salada é aleatório é falsa, porque, se quiséssemos, encontraríamos razões que justificariam o nosso gosto pela tal salada.

    Preferimos filmes bons a maus com base noutras preferências que justificam o nosso gosto cinematográfico. Certos filmes são mais subtis e nós gostamos de subtileza; outros têm bons guiões e nós gostamos de boas histórias. Cada preferência é justificada por outras, que por sua vez são justificadas por outras.

    Se gostamos de A porque preferimos B,C ou D, então a nossa preferência por A só está justificada se também conseguirmos justificar o nosso gosto por B,C ou D. Entramos numa regressão, que só pode acabar de duas maneiras: sendo circular, e portanto incorrecta, pois justificamos a nossa preferência por A usando como premissa a nossa preferência por A; encontrando uma certa preferência X que não precisa de justificação. Mas se não precisa de justificação é arbitrária, aleatória. Estas preferências básicas genuinamente aleatórias são aquelas a partir das quais se deduz as outras, como a preferência pela felicidade ou pela liberdade. Como são irracionais, todo o edifício das nossas preferências é irracional.

    Por isto é que me parece que as nossas preferências são irracionais.

    Cumprimentos!

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  4. Obrigado pelos comentários!

    Uma preferência é irracional quando é incompatível com outras preferências. Assim, no exemplo que dou, fumar é irracional se, e só se, a pessoa que fuma sabe que fumar é incompatível com a sua preferência pela saúde. Uma preferência última, por definição, não tem qualquer justificação além de si mesma. Mas isto não significa nem que seja irracional (pode apenas ser arracional) nem que seja injustificável. Só parece injustificável quando restringimos a racionalidade à racionalidade instrumental: nesse caso, pressupondo que a felicidade não é um meio para outra coisa qualquer, é injustificável e como tal irracional. Mas isto é uma confusão. O que há de racional em preferir a felicidade à infelicidade, mesmo admitindo que esta é uma preferência última, é o facto de ser possível justificar esta preferência de um modo que não seja incoerente, ainda que tal justificação não torne a felicidade um mero meio para outra coisa qualquer. Isto significa que poderão fornecer-se razões a favor da felicidade e contra a infelicidade, ainda que essas razões não constituam uma justificação em termos de outras preferências últimas, dado que estamos a admitir desde o início que a felicidade é uma preferência última. Que razões são essas? Por exemplo, podemos mostrar que a felicidade é realmente uma preferência sem a qual nenhuma escolha faz sentido, e que as discordâncias entre as pessoas são quanto aos meios para a felicidade e não quanto ao valor da felicidade como preferência última. Como diz Mill — e isto não é muito diferente do tipo de coisa que faz Aristóteles — este é o único tipo de razão que pode justificar uma preferência última e o único tipo de prova possível, dado que por definição não se pode mostrar que a felicidade é preferível por ser instrumental para outra coisa.

    Preferir a felicidade à infelicidade não é como preferir a Tonicha a Beethoven. No primeiro caso, trata-se evidentemente de uma preferência última, insusceptível de justificação em termos instrumentais, tendo a justificação de ser feita noutros termos — mostrando, precisamente, por que razão tal preferência é o que dá sentido a todas as outras preferências. No segundo caso, este tipo de justificação não está disponível, pois é óbvio que não se trata de uma preferência que dê sentido às outras; é uma preferência que tem de se justificar em termos da contribuição que dá para as preferências últimas. Ora, quando se tenta fazer tal coisa, torna-se manifesto que o único género de preferências últimas que poderiam justificar tal preferência são tolices frívolas e superficiais que depois de alguma reflexão ninguém quereria aceitar como preferências últimas. Quem quer realmente ter uma vida preenchida de entretenimento fútil e superficial, vivendo uma vida de ilusão e onanismo primário? Como escreveu Mill, mais vale ser um Sócrates insatisfeito do que um porco satisfeito, mas isto é algo que só sabe quem reflecte e não o porco que se limita a ser porco. Assim, quem tem preferências superficiais próprias de um porco mas tem uma natureza diferente do porco está a ser irracional porque não está a satisfazer as preferências que devia ter dada a sua natureza, pois dada a sua natureza as preferências suínas não podem fazê-la feliz.

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  5. Obrigado pela resposta.

    Tem razão, as nossas preferências últimas não têm de ser injustificadas. Contudo, acho que o subjectivismo ainda pode sobreviver.

    Por um lado, podemos admitir que diferentes pessoas têm diferentes preferências últimas. Essas preferências últimas diferentes determinam que as pessoas tenham preferências não últimas correspondentemente diferentes e entramos no domínio da subjectividade: X é bom para A mas é mau para B pois A e B têm preferências últimas diferentes.

    No entanto, muito à primeira vista, não acho plausível que as nossas preferências últimas variem de pessoa para pessoa, ou pelo menos variem muito. Como diz, as preferências últimas não devem ser frivolidades ou coisas do género.

    Acho que a melhor posição acaba por ser muito parecida com o senso comum. Há certas preferências que são certamente subjectivas, como os nossos gostos alimentares, porque 2 gostos muito díspares podem levar ambos à felicidade (estou a admitir que a felicidade é a derradeira preferência universal, por ser mais fácil argumentar assim). Outras preferências são menos subjectivas, como as dos nossos passatempos. Torturar não deve ser um bom caminho para atingir a felicidade mas coleccionar selos ou ajudar os pobres podem ser dois caminhos igualmente bons para nos tornarmos felizes.
    Estou a dizer o óbvio: que as nossas preferências variam de pessoa para pessoa mas que nem todas as preferências são igualmente subjectivas e se calhar há algumas que até nem são nada subjectivas como o desejo de viver. Só se por natureza fôssemos todos iguais é que teríamos preferências iguais. Mas somos parecidos, logo devemos ter preferências parecidas.

    A única maneira de o subjectivismo sobreviver é num sentido mais fraco, bastante mais fraco do que o regular, o que admite que as coisas variam de pessoa para pessoa mas não variam assim tanto.

    Cumprimentos!

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  6. Olá, João Pedro

    A discussão sobre o subjectivismo das preferências é dificultada por várias confusões:

    1) Do facto de pessoas diferentes terem preferências diferentes não implica que sejam diferenças inconciliáveis;
    2) Mesmo que sejam inconciliáveis, isso só seria surpreendente se não se tratasse de meras preferências à toa, que não resultam de qualquer reflexão por parte da pessoa, mas preferências perfeitamente articuladas e justificadas;
    3) Quando se pede a alguém para justificar as suas preferências, as coisas mudam muito de figura e a fuga subjectivista é usada apenas para ocultar factos desagradáveis acerca da própria pessoa: que ela é preguiçosa, que vai na onda, que na verdade não é capaz sequer de ser feliz, e que nem sequer tem uma concepção minimamente articulada do que poderia fazê-la feliz.
    4) A ideia bizarra de que uma preferência última só poderia ser objectiva se a sua negação fosse uma contradição lógica. Isto é uma tolice porque uma preferência é pela sua própria natureza relacional, isto é, é o que é adequado para um agente que tem um certo tipo de necessidades e um certo tipo de estrutura mental, física e emocional.

    As supostas diferenças irreconciliáveis resultam do facto de muitas pessoas irem na onda, escolhendo uma vida que não pode fazê-las felizes, porque é uma vida boa para porcos — e como Mill argumenta, para um ser humano é preferível ser um Sócrates insatisfeito a um porco satisfeito, porque a satisfação de todas as preferências de um porco não nos faz felizes, dada a nossa natureza.

    Finalmente, não é subjectivismo dizer que se tivéssemos uma natureza diferente teríamos diferentes preferências últimas.

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