15 de novembro de 2009

Belle de Jour é Brooke Magnanti



O blog anónimo Belle de Jour, Diário de uma Prostituta Londrina fez um tal sucesso que deu origem a livros  de sucesso e até a uma série de televisão. Mas a identidade do autor ou autora era desconhecida do grande público, até hoje. Numa entrevista ao Times, a autora revelou a sua identidade. É doutorada em medicina de investigação (não faz medicina clínica), e tudo o que ela relatou com os seus clientes é verdade.

Este caso social levanta um problema ético: é a prostituição eticamente permissível, ou não? Quais são os argumentos a favor da permissibilidade ética da prostituição? Quais são os argumentos contra?

O que pensa o leitor?

31 comentários:

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  2. Se a actividade é voluntária, é apenas uma expressão possível da liberdade de duas ou mais pessoas. Desse modo o problema parece-me tão eticamente permissível como a liberdade de expressão ou de associação. Parece sim um problema quando colocado sobre o prisma do arbitrário regulamento moral do catolicismo (no nosso caso) que sempre conviveu pessimamente com o aspecto sexual da humanidade.

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  3. Os argumentos contra a permissibilidade ética de prostituição mais comuns são:
    1-É imoral, pois a religião ou os costumes assim o dizem
    2-Não é ético pois o sexo é algo que reforça o laço emocional e não deve ser usado com outra finalidade
    3-É degradante para a mulher e reforça a desigualdade entre os sexos

    Parece difícil sustentar que a prostituição não é eticamente permissível utilizando argumentos embasados numa moral religiosa ou nos costumes, até aqui nada de novo. Dizer que a prostituição é ruim porque ameaça a estrutura familiar também não se sustenta, a história da humanidade demonstra outro resultado

    Dizer que a prostituição é errada porque o sexo difere de outras relações de trabalho porque ele teria como função primária o reforço do laço afetivo é idealista e insustentável, para não dizer ingenuamente romântico. Parece claro que o sexo reforça de fato o laço afetivo, mas está longe de ser evidente que a única função dele é essa, ou mesmo a procriação. O sexo não é utilizado apenas como reforço do laço afetivo , e também não como procriação, mas também como atividade prazerosa pura e simples, e até mesmo lúdica. Não parece haver problema ético algum em se utilizar o sexo exclusivamente atividade prazerosa, o que exclui um problema ético do cliente, e também não parece ser errado utilizar o sexo como função de oferecer prazer a um outro, o que exclui um problema ético da prostituta. Aliás, para muitos esse é o paralelo a prostituição com alguns casamentos realizados mediantes certos tipo de acordo, tanto oficial quanto não oficial.

    E aqui chegamos num outro ponto, a prostituição é um acordo? É uma relação comercial como as demais? É uma prestação de serviços específica? Se for um acerto onde ambas as partes estão de acordo de livre vontade, onde está o problema ético? Penso que num debate sério sobre a prostituição ninguém pretende defender a prostituição feita mediante coação, o que é indefensável. No entanto, se a prostituição é realizada numa relação consentida, e a pessoa que vai se prostituir o faz porque quer, e ela não está sendo ameaçada, qual o problema?

    Dizer que a prostituição é errada porque é perigosa para quem se prostitui e por isso deve ser proibida é um argumento não sustentável, há uma série de trabalhos e atividades perigosas que são perfeitamente legais. O estado interferir neste tipo de assunto com o argumento de que está protegendo quem se prostitui pelo seu bem está tendo atitude paternalista. Pessoas adultas, perfeitamente racionais, podem sim decidir que querem se prostituir, seja por prazer, ou pelo dinheiro, ou por outra qualquer razão sem que necessariamente estejam fazendo mal para elas mesmas ou sob coação.

    Há o argumento feminista de que a prostituição é degradante porque reforça as relações desiguais entre os sexos. Entretanto, o que reforça as relações desiguais entre os sexos é a desigualdade de oportunidades e de reconhecimento, seja no mercado de trabalho ou em outros âmbitos, não a prostituição ela mesma. E essa resposta ignora os outros tipos de prostituição, como os travestis e garotos de programa, e não mostra que a prostituição ela mesma é errada.

    Dizer que a prostituição na maioria das vezes é praticada em relações desiguais e perigosas é fazer uma descrição da realidade de muitos profissionais do sexo. O entanto não é com a a ilegalidade que este problema será resolvido, mas com o extremo oposto, com a legalização. A prostituição forçada é tão errada quanto trabalho escravo, e a solução parece ser de natureza similar. Ao legalizar a prostituição pode-se de fato criar mecanismos para controlar os casos onde ocorrem abusos na sua prática. Sendo assim, a prostituição é eticamente permissível.

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  4. E, sendo uma acividade permissivel, sera' desejavel? Valera' a pena promover a prostituicao do mesmo modo que promovemos a ciencia, as artes ou o desporto como actividades atraves das quais as pessoas se podem realizar?

    A argumentacao da Barbara e' interessante por aquilo que nao revela. Ao comparar implicitamente as desvantagens da prostituicao com outras actividades "aceites", segue uma linha de raciocinio que legitima a prostituicao. Mas eu penso que e' mais interessante fazer o exercicio oposto: comparar as outras actividades profissionais 'a prostituicao. As pessoas vendem-se por dinheiro por uma questao de sobrevivencia. A sociedade actual esta', objectivamente, baseado no principio da prostituicao: vender aquilo que de mais precioso as pessoas teem -- a saber, o seu tempo, a sua imaginacao e criatividade, a sua inteligencia ee o seu conhecimento -- em troca de dinheiro. Sera' este tipo de prostituicao permissivel do ponto de vista etico? Sera' verdadeiramente necessario de um ponto de vista pratico?

    Miguel Silva

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  5. Se os seres humanos fossem lentilhas, não seria necessário sapatos.

    Se alguém conseguisse conceber sociedades sofisticadas sem dinheiro, seria uma maravilha. Há razões para pensar que o dinheiro é uma forma primitiva de economia; mas as formas mais desenvolvidas de economia ninguém as consegue sequer conceber. Pelo menos enquanto a natureza humana for o que é.

    Assim, enquanto trabalhar numa sapataria não for visto como pecaminoso, também a prostituição não deve ser vista como pecaminosa, se for fruto do mesmo grau de escolha livre.

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  6. Desiderio, esta' tudo muito certo desde que se aceite como verdade evidente os seguintes pontos:

    "enquanto a natureza humana for o que é", as coisas teem de ser como sao.

    Isto implica nao considerar a abolicao da escravatura, caso a natureza humana tenha sido imutavel ao longo dos ultimos seculos; seja considerar que a abolicao da escravatura apenas foi possivel por via de um processo evolutivo da natureza humana que se deu por volta do sec XIX. Na verdade, a escravatura era a base indispensavel da economia em seculos passados e, nao obstante, foi possivel acabar com ela passando a economias mais sofisticadas com a mesma natureza humana.

    "se for fruto do mesmo grau de escolha livre"
    Apenas se sai do nivel da trivialidade quando se decide averiguar acerca da natureza dos graus de liberdade das escolhas na vida das pessoas. A questao do pecado e' uma falsa questao. Quao livre e' o cidadao medio em nao vender o seu trabalho a um terceiro? Em teoria e' livre, na pratica e' obrigado a faze-lo. Por muitissimos motivos relacionados com a dinamica propria da sociedade sofisticada e complexa em que vivemos, das relacoes de poder politico e economico existentes.

    Portanto, apenas para os ingenuos e' que a questao da prostituicao sexual e' uma questao de natureza pecaminosa. Na verdade, e' uma questao de relacoes de poder, de constrangimentos economicos etc

    E' evidente que, quem nao e' sensivel ao drama de uma vida dedicada a trabalhos repetitivos e sem sentido (vender sabonetes ou pastas de dentes para uma grande empresa, por exemplo), nao se ira' preocupar com o drama de uma prostituta. Ate' porque a vida profissional das prostitutas "finas" (como a do artigo mencionado) se pode considerar bastante mais enriquecedora do que a de uma operaria vulgar numa fabrica perdida algures ... onde podem chegar a vender "livremente" (afinal terao um contrato assinado, ou nao?) o seu tempo e a sua energia 'as doze horas por dia por meia duzia de patacas. Eu diria que isto e' que e' pecaminoso, e o pecadora nao e' a operaria!

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  7. Miguel, porque acha que alguém não "pode se realizar" com a prostituição? Não é esse o justo caso da moça da reportagem?

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  8. Barbara, nao excluo que exista quem se "possa realizar" com a prostituicao, alias ate' admiti que poderia ser uma vida com experiencias mais enriquecedoras do que ser operaria(o). Um mal menor, em certas circunstancias. No entanto, penso que serao casos excepcionais e algo exdruxulas psicologicamente as pessoas que se realizarao dessa forma.

    Parece-me que e' a propria natureza da prostituicao -- nao necessariamente sexual, mas o ser forcado a "vender-se" -- que esta' perigosamente proxima da alienacao. Alienacao de si proprio. Quero dizer, uma pessoa ao colocar seja o corpo, seja o intelecto, seja o conhecimento, 'a venda esta' a subtrair a sua propria liberdade, esta' a cede-la por um certo preco a um outro. Isto nao significa que qualquer actividade da qual se possa retirar proveito financeiro seja automaticamente uma forma de prostituicao. O que e' prostituicao e' ser-se forcado -- indirectamente na maior parte dos casos -- a dedicar-se a essa actividade pela unica e exclusiva razao de que se necessita de receber dinheiro em troca.

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  9. O caso da escravatura é muito diferente; não implicava uma revolução económica inconcebível. Abolir o dinheiro é inconcebível, ainda que desejável.

    Quanto a uma pessoa vender-se exclusivamente pelo dinheiro, há dois problemas com esta ideia. Primeiro, é simplista. Possivelmente, a generalidade das pessoas pararia de fazer o trabalho que faz se lhe saísse a lotaria; mas, ao mesmo tempo, o trabalho que fazem é fonte de alguma realização. Segundo, é irrelevante. Se uma pessoa pode legitimamente vender-se exclusivamente pelo dinheiro, vendendo serviços de enfermagem, por que razão não pode vender-se exclusivamente pelo dinheiro, vendendo serviços sexuais? Em ambos os casos está a prestar um serviço valorizado pela pessoa que o compra. Em ambos os casos a pessoa poderia fazer outra coisa se lhe saísse a lotaria. Em ambos os casos a escolha é livre em qualquer sentido relevante do termo, isto é, excluindo a possibilidade remota de haver outra economia possível que ninguém é capaz de imaginar e na qual ninguém precisaria de trabalhar para viver, cada qual fazendo exactamente o que gosta de fazer para se realizar, e exclusivamente para se realizar.

    Finalmente, o mais curioso do argumento é que possivelmente muitas pessoas, nessa economia inimaginada, gostariam mesmo de se prostituir. Bom, na verdade, mesmo nesta economia miserável, muitas pessoas fazem sexo com muitas outras sem ser por dinheiro, e é natural pensar que nessa economia inimaginada isto continuaria a acontecer. Apesar de pessoas com falta de imaginação tenham aqui dificuldades, mas há quem goste pura e simplesmente de ter relações sexuais com muitas pessoas.

    Uma última nota curiosa é pensar como poderá alguém incapaz de imaginar coisas que realmente ocorrem — pessoas que gostam de ter relações sexuais com várias outras pessoas — ter capacidade para imaginar uma economia sem dinheiro.

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  10. Acrescento o seguinte: a questao da "permissibilidade da prostituicao" e' menos fecunda do que parece, especialmente se for dissociada da avaliacao do valor intrinseco da prostituicao. Se abdicamos dessa avaliacao, entao resta apenas o criterio economico, logo uma relacao de poder.

    No limite, se se considerar que qualquer transaccao economica entre duas partes "livres" e' legitima e desejavel, chegamos 'a conclusao de que se devia criar um mercado de orgaos humanos. So' um alucinado acredita que as transaccoes resultantes vao ser livres de coercao.

    O padrao e' o mesmo: a venda de algo pessoal a outrem pressupoe quase sempre uma relacao de poder e de perda de liberdade.

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  11. Desiderio, o que voce esta' a dizer implicitamente e' que qualquer actividade tem o mesmo valor intrinseco que outra actividade. Muito bem.

    Nao tenho qualquer dificuldade em imaginar pessoas que gostam de ter relacoes sexuais com outras pessoas. Tenho e' dificuldade em conceber o dinheiro como um afrodisiaco.

    Voce e' filosofo mas distorce livremente o que os outros dizem. Eu nao propus uma economia sem dinheiro, disse que e cito-me a mim proprio:

    "nao significa que qualquer actividade da qual se possa retirar proveito financeiro seja automaticamente uma forma de prostituicao. O que e' prostituicao e' ser-se forcado -- indirectamente na maior parte dos casos -- a dedicar-se a essa actividade pela unica e exclusiva razao de que se necessita de receber dinheiro em troca."

    Uma crianca e' capaz de perceber a diferenca.

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  12. "Em ambos os casos a escolha é livre em qualquer sentido relevante do termo"

    Voce esta' a ser obsceno e nao e' por razoes de moral sexual. E' que comparar a posicao de uma enfermeira, profissao qualificada e que exige estudos serios, com a prostituicao sexual que e' a unica saida forcada para inumeras mulheres e' patetico. Apenas por um pretenso progressismo, presuncao de que nao tem qualquer preconceito antiquado e porque argumenta por slogans e com palavras de ordem. E imagina que tem pela frente um catolico ou um "policia" dos costumes.

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  13. Miguel , estou com dificuldade de ver porque alguém que se prostitui seria "algo exdruxulas psicologicamente as pessoas que se realizarao dessa forma."
    Gostaria, se possível, que justificasse seu julgamento.

    Parece que , aos seus olhos, o que é errado na prostituição é de que não é uma escolha tomada livremente. Mas e os casos onde a pessoa é livre? A prostituta da reportagem é médica, aliás doutorada em medicina de investigação. Será que a medicina é uma profissão tão ruim assim que ela foi “forçada” a se prostituir?
    Se não, se ela escolheu livremente, ainda assim seria um problema se prostituir?

    Se o problema ético é ser forçado à algo, no caso a se prostituir, da mesma forma, ser forçado a ser operário seria tão errado quanto. Então o problema não é se prostituir, mas sim ser forçado à algo. Está de acordo?

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  14. Barbara, se alguem se prostitui por gosto, entao nada ha' a opor. A nao ser que algo me esteja a escapar.

    Agora, suponho que sejam casos excepcionais, se bem que possa estar enganado. Para me ajudar a perceber se estou enganado, tenho de perguntar o seguinte: o que e' que concretamente na prostituicao leva alguem a gostar de se dedicar a essa actividade? Sera' o acto sexual com muitas pessoas diferentes, como parece sugerir o Desiderio? Bom, se isso for verdade, leva-me a fazer uma previsao que poderemos, em tese pelo menos, testar empiricamente. A previsao e' a seguinte: 1) estaticamente, os clientes das prostitutas tenderao a ter as mesmas caracteristicas fisicas, e talvez psicologicas e o mesmo leque de idades, dos parceiros sexuais das mulheres (nao prostitutas) que teem maior numero de parceiros sexuais por livre escolha; 2) nao havera' uma correlacao muito forte entre os clientes das prostitutas e o poder economico dos clientes.

    Sera' que as hipoteses 1) e 2) sao verificadas empiricamente?

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  15. PS: estou a fazer estas hipotese considerando o caso das prostitutas "finas" do tipo doutorada, ou do tipo esposa entediada 'a la Bunuel.

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  16. A questão é que tanto um sapateiro quanto uma prostituta podem trabalhar por gostar do que fazem ou porque são obrigados a fazê-lo. Não há qualquer diferença. É tão errado ser forçado a ser sapateiro quanto ser forçado a ser prostituto ou prostituta. E é tão permissível ser sapateiro quanto prostituto ou prostituta se a pessoa o faz de livre vontade.

    A questão é que a realidade é mais complexa que isto. As pessoas nem são completamente forçadas a ser sapateiros nem o fazem de modo completamente livre. Fazem-no depois de consideradas várias possibilidades, e as possibilidades que têm perante si não são sempre todas as que gostaríamos de ter.

    Em conclusão: a questão de ser forçado ou não só tem aplicação à prostituição se, e só se, a pessoa que se prostitui for raptada, por exemplo, obrigada a prostituir-se sob pena de ser morta ou espancada, etc. Nos outros casos, em que a pessoa se prostitui e não o faria se tivesse outra possibilidade, são iguais aos outros casos em que a pessoa é enfermeira ou sapateira e não o faria se tivesse outra possibilidade.

    A ideia fantasiosa de que todos os enfermeiros têm uma profissão profunda de fé é só isso: uma fantasia. Tal como é fantasiosa a ideia de que todas as pessoas que se prostituem o fazem porque não tinham outras possibilidades viáveis.

    Em conclusão: nada a não ser o preconceito pode ver uma diferença entre o prostituto e o sapateiro. Até porque as mesmas pessoas que desatam a falar de relações de poder no caso da prostituição não se lembram de falar disso no caso dos sapateiros.

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  17. Desiderio, eu falo de relacoes de poder entre o assalariado de uma empresa de software ou de uma empresa de sabonetes do mesmo modo que falo das relacoes de poder na prostituicao. Julgo que, no entanto, ha' uma diferenca de ordem sociologica, nao de ordem de moral dos costumes. Estatisticamente, as prostitutas estao sujeitas a um grau de violencia directa mais elevado do que esses assalariados que avancei como exemplo.

    Eu creio que existe uma diferenca objectiva entre uma actividade como a prostituicao e a enfermagem ou a medicina. Ha' uma diferenca na sofisticacao, nos conhecimentos e tecnicas necessarios que e' muito mais elevado nos ultimos casos. A prostituicao, salvo excepcoes de classe alta(issima) e' uma actividade pobre e triste. Isto e' uma constatacao.

    Claro que o Desiderio pode sempre responder-me que apenas o preconceito permite distinguir uma casa construida por um arquitecto e com materiais de qualidade de uma barraca construida por quem nao pode fazer de outra maneira. Porque uma casa e' uma casa e' uma casa, tambem uma actividade profissional e' uma actividade profissional e' uma actividade profissional logo .... uma prostituta vale tanto quanto uma enfermeira ou uma medica, e so' o preconceito cego judaico-cristao o pode negar.

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  18. Não há maior sofisticação na venda de sapatos num shopping do que na prostituição, e poderá até haver menos. Depende.

    Mas concordo com o seguinte: estatisticamente não me surpreenderia se a violência económica fosse mais predominante na prostituição do que noutras áreas.

    Isto, contudo, é uma razão para se defender quem é vítima dessa violência e não para proibir a sua actividade profissional.

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  19. Nao ha' razao para proibir a prostituicao, e' evidente.

    Mas, ao mesmo tempo, tambem nao ha' qualquer razao para defender a ideia de que e' uma actividade agradavel e compensatoria. E' um ultimo recurso para as mulheres que estao 'a rasca do ponto de vista financeiro. Eu nao conhecia o caso desta mulher, mas pelo que li no Publico ela apenas recorreu 'a prostituicao para se safar em Londres porque nao tinha dinheiro suficiente para pagar os estudos. Nao era uma questao de divertimento sexual, nem de realizacao pessoal. Depois, porque e' muito esperta e sensual, foi capaz de retirar bons proveitos da prostituicao de luxo que praticou.

    Agora, parece-me indigno uma sociedade estar organizada de modo a que alguem para pagar os seus estudos tenha de se prostituir. Existe qualquer coisa nas relacoes humanas, que tem a ver com a intimidade, que nao e' susceptivel de ser comercializada de forma simples. Mas nao e' apenas uma questao de sexo, imaginemos a prostituicao ,nao sexual, da amizade. Oferecer amizade por uma horas em troca de uns milhares de euros. Isto parece-me indigno. Na mesma forma, a prostituicao me parece indigna. Nao apenas para a prostituta, como para o cliente. Nao segue disto que deva ser ilegal.

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  20. No fundo, aceitar a prostituicao (sexual ou nao) como uma actividade normal e' equivalente a aceitar a desumanizacao das relacoes entre as pessoas. As relacoes pessoais deixam de contar pelo valor intrinseco da comunicacao, da empatia, da comunhao, do pensamento, da estetica, de um gesto, de um olhar e da imaginacao (erotica, no caso sexual) -- que sao coisas que estao num plano superior 'a troca comercial, nao e' estupido dize-lo --- entre dois seres humanos, e passam a valer apenas em funcao de um valor impessoal e abstracto meramente monetario. E que, na pratica, resultam sempre numa vivencia degradada, numa especie de simulacro da coisa real.

    No limite, as universidades irao comecar a oferecer graus de seducao com diversas especialidades. Nao e' inverosimel: a sedutora literaria/cinematografica que necessitaria de uma cultura classica e conhecimento do cinema, a sedutora vaporosa necessitaria de todos os detalhes historicos/culturais do design, da moda ao longo dos seculos, a quimica/biologia dos afrodisiacos ... E' todo um negocio por explorar!

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  21. O que eu considero curioso na posição veiculada é a seguinte associação:

    comércio / dinheiro = diabo, desumanização, COISA MÁ

    Acho curioso porque isto é parte integrante de uma mentalidade aristocrática. Seria interessante fazer um estudo comparando Marx e os alguns marxistas, para ver até que ponto no pensamento destes autores há um nojo aristocrático impensado das relações comerciais, do dinheiro, da compra e venda.

    Este impensado é claramente pré-burguês, mas é mais difícil entendê-lo como pós-burguês, e ainda menos como revolucionário, dado que nada tem realmente de novo.

    Além disso, como impensado que é, nunca é posto em causa, apesar de ser razoável pô-lo em causa. As relações comerciais, empresariais, etc., que envolvem dinheiro não têm de ser aviltantes, nojentas, ou coisa que o valha. Podem ser compensadoras, justas e uma contribuição fundamental para uma vida realizada. Na verdade, a ironia é que não há uma concepção de vida boa que não inclua tais relações, excepto fantasias sem futuro. Seja como for que pensemos organizar a sociedade, as pessoas têm de trabalhar umas para as outras e a única maneira boa que conhecemos de codificar isso é usando o dinheiro — trocar bens uns pelos outros é muito menos prático.

    Acrescento o seguinte. Sou professor. E se não me pagassem eu não poderia sê-lo — porque não sou rico e por isso teria de fazer outra coisa qualquer para ganhar dinheiro. Não me sinto nem um pouco aviltado, enojado ou seja o que for pelo facto de vender o meu tempo, atenção, carinho e dedicação aos meus alunos. Tal como pago com todo o gosto os serviços de que preciso, e procuro pagá-los de forma justa, sem com isso pretender aviltar as pessoas que me vendem aquilo sem o qual a minha vida seria muitíssimo pior, e até mesmo impossível.

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  22. Para ser professor precisa de ser pago. Tudo certo. A partir dai', tem um conjunto de tarefas e obrigacoes, mas tambem um enorme espaco de liberdade. Por exemplo, nao e' obrigado a orientar o doutoramento de alunos que nao cumpram certos requisitos que considera indispensaveis; alguns destes requisitos sao subkjectivos, logo podera' existir um colega seu que aceite orientar um aluno que voce nao queira orientar. E por ai' fora. O que quer isto dizer? Quer dizer que o trabalho de professor tem um valor intrinseco, objectivos e criterios autonomos que sao independentes da relacao comercial. Por outras palavras, o "mal" nao reside na existencia do dinheiro e da relacao comercial 'per se'; os problemas resultam das situacoes em que o criterio comercial/dinheiro se substitui a tudo o resto, submete e elimina todo os outros criterios
    de valorizacao. Um professor nao sera' um melhor professor por nao ser pago. Porem, sera' um mau professor se na sua actividade profissional se subordinar ao poder economico na medida em que passara' a sacrificar os seus valores de bom profissional pela recompensa monetaria. E a partir dai' deixa de haver boa actividade artistica ou cientifica. Ou seja, o professor e' pago porque precisa de por comida na mesa, mas oferece os seus servicos aqueles que teem o merito adequado.

    Como ve, a associacao

    comércio / dinheiro = diabo, desumanização, COISA MÁ

    nao e' a que eu aponto como negativa. O que aponto como negativo sao as formas de organizacao social e economica que utilizam o poder economico e o dinheiro como instrumento de controlo e de supressao da iniciativa individual. E tambem critico a ideologia que afirma que todas as actividades teem o mesmo valor intrinseco e que a atribuicao de valor se faz no mercado. Isso e' que e' uma ideologia verdadeiramente aristocratica porque significa que as actividades de elite (que sao valorizadas por minorias, pelos mais cultos, sofisticados e com maior poder economico) estao vedadas ao maior numero visto que sao muitissimo caras.

    Isso ve-se na nossa sociedade: vende-se por meia duzia de patacas musica enlatada que e' distribuida e diz-se que isso e' que e' democratico porque e' isso que as pessoas desejam. A verdadeira razao nao e' essa. A verdade e' que e' mais lucrativo produzir musica aos pontapes feita por gente que, na sua maioria, nao tem talento, nao estudou, nao necessitou de um investimento a longo prazo desde que se consiga enganar com truques de marketing (industria de bilioes de dolares por ano, por algum motivo sera') a maralha anonima. Esse e' um exemplo do aviltamento e da destruicao da actividade artistica pelo poder economico. A questao, como e' facil perceber, nem sequer passa pela necessidade de remunerar os musicos profissionais. Nao, a questao e' suprimi-los porque sao menos lucrativos. E, no fim de contas, quem suporta a musica de qualidade, as grandes operas (nos EUA, por exemplo) sao precisamente os donativos privados daqueles que teem imenso dinheiro. Aqui esta' um exemplo de como funciona a tal aristocracia na realidade.

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  23. CORRECCAO:

    mas oferece os seus servicos aqueles que teem o merito adequado e de acordo com os bons procedimentos e boas praticas da sua profissao.

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  24. Curiosa inversão: dá mais dinheiro fazer música tola porque… a indústria é pecaminosa e envenena as pessoas contra a sua vontade. Isto é falso. Dá mais dinheiro vender tolices porque mais pessoas querem comprar tolices. Dá mais dinheiro vender sapatos do que livros porque as pessoas preferem sapatos a livros. Dá mais dinheiro vender livros tolos de auto-ajuda do que de filosofia ou física porque as pessoas preferem os primeiros livros aos segundos. Do ponto de vista do comerciante ou do produtor tanto faz vender sapatos ou livros de qualidade; se houvesse tanta gente a preferir livros quanto há a preferir sapatos, haveria mais editores e mais livrarias e menos sapatarias e menos fábricas de sapatos.

    É curioso como as mesmas pessoas que dizem defender os direitos dos mais desfavorecidos são incapazes de compreender o género de coisa que essas pessoas realmente querem. Por isso é que os capitalistas são ironicamente mais amigos do povo mais desfavorecido do que os marxistas, pois dão a essas pessoas o que elas realmente querem e não o que os membros bem-pensantes da elite decidiram que elas deveriam querer.

    A ideia de que as pessoas não escolhem mais cultura por haver uma conspiração contra elas é pura é uma ideia que resulta de se meter a cabeça na areia por não querer ver uma realidade desagradável. Mesmo numa universidade a generalidade dos alunos não quer saber coisa alguma do estudo — prefere cerveja, festas, novelas, futebol, e música tola. Não se pode dizer que estes alunos não tiveram oportunidades. Tiveram-nas e têm-nas, mas o que preferem não é a vida que as elites intelectuais valorizam; valorizam a vida que as elites intelectual não valorizam. E têm todo o direito a fazê-lo. O que me parece é ofensivo vir alguém do alto da sua cátedra dizer que as pessoas na sua generalidade escolhem o que escolhem porque foram manipuladas para isso — mas, claro, o Doutor, do alto da sua cátedra, não foi manipulado para isso. É patético. Ainda por cima, a generalidade das pessoas que dizem prezar a cultura mentem: gastam muito mais dinheiro e investem muito mais do seu tempo e energias em dezenas de frivolidades do que na vida intelectual. Pior: a generalidade das pessoas que dizem prezar a vida intelectual é só porque isso é socialmente visto como sinónimo de pertença às classes favorecidas, nada mais.

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  25. Da' mais dinheiro fazer musica tola porque sai mais barato produzir essa musica. Nao e' preciso encontrar alguem com talento, com anos de estudo e habilidade sofisticada. E, alem disso, esperar meses de trabalho que pode levar a produzir uma boa peca de musica. E mais: porque pretendem produzir "novidades" todos os meses para vender de novo. Para isso, basta encontrar um idiota que faz essa musica idiota em dois ou tres dias por um centesimo do preco. E' que no ponto de vista da super-empresa distribuidora/comerciante de musica, tanto podia estar a vender discos como cascas de tremoco. O seu unico objecticvo e' maximizar o lucro. Isto nao e' marxismo. Isto e' o conhecimento comum, o lugar comum no mundo da financa. Basta ler o Financial Times e a imprensa da especialidade: a unica obrigacao solene ede um CEO e' maximizar o lucro para os accionistas da empresa.

    Claro que a inversao e' bastante mais subtil do que aponta no comentario anterior: e' que nao faltam os intelectuais prontos para justificar e legitimar do alto da sua catedra esta logica populista de dar 'as pessoas aquilos que elas (supostamente) querem. (Mas e' um ai-jesus, olha o populismo!, olha o disparate!, quando as pessoas escolhem alguem que lhes de aquilo que elas querem, mas nao e' um capitalista, e' antes um Chavez. Aqui o que as pessoas querem ja' nao e' o que elas verdadeiramente querem! Disclaimer: eu nao gosto do Chavez) E' que os intelectuais teem uma actividade nao-lucrativa por si propria, teem de viver dos donativos da aristocracia da financa. E aqui voltamos 'a velha questao acerca das virrtudes da prostituicao, de quem e' que se prostitui, e por ai' fora...

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  26. «Realmente, o homem mau apenas obra pensando em si mesmo, e quanto pior se torna, mais aumenta em si este vício; e assim se lhe aponta o nunca fazer nada fora do seu exclusivo interesse. O homem de bem, pelo contrário, apenas obra para fazer o bem, e quanto mais honrado se torna, tanto mais se consagra exclusivamente a fazer o bem, chegando ao ponto de esquecer o seu próprio interesse em se tratando dum amigo.»

    - Aristóteles, "Ética a Nicómaco" (Liv IX, Cap.VII)

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  27. Por acaso, passei pela citacao que coloquei acima, Acho que e' apropriada nesta discussao.Aqui fica.

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  28. "a unica obrigacao solene ede um CEO e' maximizar o lucro para os accionistas da empresa." Pois, mas se as pessoas quisessem mais Beethoven daria mais dinheiro financiar concertos de Beethoven do que do Michael Jackson. É isto que é preciso compreender. Nada tem a ver com ser mais barato fazer um concerto de Michael Jackson. Não é mais barato comprar um automóvel do que livros, mas a maior parte das pessoas gasta o dobro do que precisaria num automóvel, quando com o dinheiro que sobra poderia comprar livros. Não o fazem porque preferem carros a livros. É só isso.

    Quanto a Aristóteles, era completamente incapaz de compreender a maneira como pensam as pessoas comuns. Defeito que têm muitos intelectuais. Para as pessoas comuns a virtude consiste apenas em não roubar às claras o vizinho, e a felicidade consiste exclusivamente na vida privada. A ideia de com a nossa actividade acrescentar valor ao mundo é algo que nem ocorre à maior parte das pessoas. Tudo o que pretendem é acrescentar valor à conta bancária delas, e isto nada tem a ver com a manipulação dos capitalistas. São as pessoas que são mesmo assim.

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  29. O que quero dizer é o seguinte: quando não se entende a natureza humana, pensa-se por falta de imaginação que as pessoas são todas mais ou menos como nós. Depois, quando vemos que não são como nós -- preferem roupas da GAP a livros de estética, futebol a teatro de arte, etc. -- temos necessidade de fazer uma teoria da conspiração para explicar o facto de o comportamento das pessoas ser tão diferente do que seria de esperar se tivessem os mesmos interesses que nós temos.

    É preciso ver a realidade. Na sua maior parte, as pessoas preferem tudo o que é frívolo a qualquer coisa que tenha pés e cabeça. É por essa razão que a programação televisiva, incluindo os telejornais, é como é.

    O que acho curioso é pretender-se estar do lado do “povo” e vir com conversas destas. Quem está do lado do povo tem de dar ao povo o que o povo quer. E o povo quer jornais tolos com mulheres nuas na primeira página, futebol, Michael Jackson, e não pintura abstracta, teatro de arte, física ou matemática. O povo não quer saber de cidadania, participação na vida política, responsabilidade cívica. O povo quer shoppings, carros caros, roupas da moda, telenovelas, futebol e cerveja. E têm todo o direito a querer essas coisas em vez das outras. Do mesmo modo que a minha vida seria miserável se fosse dedicada a essas palermices, a vida da generalidade das pessoas seria miserável se fosse vivida como eu a vivo. É preciso respeitar as escolhas das pessoas. Não me acho superior por não ter televisão e por não gostar de futebol. Sou apenas o que sou. E os outros são apenas o que são.

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  30. Ouca la': se o povo tem isso apenas porque e' isso que o povo quer (e' esta a ideia, certo?), entao como e' que o povo pode alguma vez ter desejado aquilo que nao conhecia, que nao criou, que nao era capaz sequer de inventar, conceber ou realizar? Vamos la', Desiderio, isto e' uma questao de logica. Para a sua explicacao ser satisfatoria teria de ter sido o povo a conceber e a desejar originalmente o automovel, o telemovel, a marca da roupa, a musica do Jackson, e por ai' fora ... Ora nao consta que o povo tenha inventado ou concebido tal coisa....

    Alguem lhes propos estes 'gadgets' e o povo na sua infantilidade foi atras que nem um patinho.
    E nem sempre e' infeliz com isso. Mas os seus desejos foram manufacturados detalhadamente -- so' um poeta ou uma Belle de Jour bem paga o negaria. Isto e' uma caracteristica das sociedades de massas, das sociedades industriais. Isto e' tao evidente porque e' estrutural, sem isto a economia das sociedades ocidentais colapsava. Basta ler o FT: crescimento da economia requer um aumento do consumo. Os gajos estao sempre a discutir isso e a debater as melhores ppoliticas para estimular o consumo. E como nao ha' numero suficiente de malta qualificada para escrever e interpretar sinfonias em numero suficiente para aumentar o PIB e diminuir o desemprego, e' imperativo vender o Jackson, abrir bodegas e discotecas rascas para a malta beber a cerveja e os tremocos que vao ajudar a diminuir a percentagem de dessempregados. Capisce? E" preciso por a economia a funcionar do modo mais expedito possivel. E' musica rasca porque a boa iamos ver-nos 'a rasca para ir desenterra'-la por ai'...

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  31. Em contraste, a sua explicacao e' estranhamente reminiscente da teoria do pecado original ... influencias e reminiscencias da tradicao crista?

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