3 de novembro de 2009

cinema e tempo

Acontece muitas vezes no cinema e na televisão vermos representações de «vácuos temporais», ou seja, supostos períodos de tempo em que não há acontecimentos, em que há «passagem de tempo» embora não ocorra qualquer mudança. Bom, na verdade não é bem assim. No cinema, tais coisas são descritas como «paragens do tempo». O que vemos acontecer é todos os acontecimentos físicos descritos no filme «congelarem» num dado momento t. Esta não é a ideia filosófica de um «vácuo temporal». A «paragem temporal» dos filmes parece aceitar a identidade entre tempo e mudança. Logo, se não há mudança não há tempo e podemos afirmar que o tempo pára. Nestas circunstâncias, não podemos dizer que há um vácuo temporal. A ideia de vácuo temporal implica que há tempo sem mudança, períodos de tempo «vazios» de acontecimentos físicos e mentais.

Contudo, é também normal no cinema, quando há «paragens no tempo» vermos um ou mais personagens que não ficaram congelados moverem-se por entre os objectos e pessoas desse momento que «parou», fazerem coisas, interagirem causalmente com o mundo, afectarem a ordem das coisas de tal maneira que isso se manifestará quando o tempo «voltar a andar» mais à frente no filme, etc. (de outro modo, as «paragens no tempo» cinematográficas seriam muito aborrecidas: tem de acontecer alguma coisa nelas). Mas isto é contraditório quer com a ideia de vácuo temporal quer com a ideia de que tempo = mudança e que se paramos a mudança, paramos o tempo - obviamente que durante essas paragens continua a haver acontecimentos físicos e mentais: os da personagem que não ficou «congelada». Assim, a ideia de paragem no tempo que observamos em muitos filmes é filosoficamente inconsistente, quer defendamos que tempo é mudança, quer defendamos que o tempo e a mudança não são o mesmo.

Há outro aspecto que torna qualquer representação cinematográfica de um vácuo temporal ou de uma «paragem do tempo» inconsistente: mesmo que não haja personagens a mover-se e a pensar, a ter experiência do vazio temporal ou a sofrer e a causar mudanças, a própria representação cinematográfica desse vazio é temporal: nós, os espectadores no cinema, percepcionamos uma sequência de imagens numa película projectada na parede. Há acontecimentos mentais, há mudanças, há acontecimentos físicos. O tempo nunca chegou a parar. (Se é que o tempo «se move». Essa é outra questão da filosofia do tempo)

Isto dá um novo sabor à pergunta: «O que fazia Deus antes de criar o mundo?» (supostamente, antes de haver tempo?) Será que havia pelo menos acontecimentos mentais? Será que havia um vácuo temporal interminável? Não estaria Deus na mesma posição contraditória que as personagens ou os espectadores do filme? O que pensa o leitor?

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