2 de novembro de 2009

Condições normais

No encadeamento do post anterior constato que muito do que se discute no âmbito da percepção acaba por se referir às ditas “condições normais”:

- Se eu estiver no deserto há uns dias sem beber água terei alucinações, e posso ver um oásis onde apenas existe uma duna. “Em condições normais” tal não aconteceria e eu conseguiria ver a duna sem qualquer problema – a percepção do oásis foi causada pela falta de água.

- Se eu estiver completamente alcoolizado ou sob o efeito de drogas posso também ter alucinações, ver algo que não existe e que “em condições normais” eu não veria. Foi o álcool ou a droga que causou a minha percepção.

Podemos outra vez perguntar: mas afinal quem define quais são as condições normais? Porque é que no primeiro caso é a falta de algo que provoca uma percepção a que chamamos alucinação e no segundo caso é algo em excesso que provoca essa mesma (ou outra) alucinação?
Fará sentido dizer que existe um qualquer conjunto de condições que podem ser tomadas como normais?

Vem-me à memória a este respeito uma frase que li já não sei onde, referenciada como de autor anónimo, que dizia:

A REALIDADE É UMA ILUSÃO CAUSADA POR FALTA DE DROGAS

6 comentários:

  1. Condições normais são aquelas que estão na gênese do conceito. Em um povo de daltônicos, por exemplo, as condições normais incluiriam o daltonismo e, por isso, seus conceitos de cores seriam diferentes.

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  2. Jaime:

    Argumento a favor da melhor explicação:
    a ideia de que a nossa percepção capta o mundo mais ou menos como ele é, é mais plausível que as alternativas - se não fosse assim (se o oásis e os monstros que o bêbado vê não fossem meras ilusões e se isto em que escrevo não fosse de facto mais ou menos semelhante ao computador que percepciono) dificilmente a espécie humana teria sobrevivido tantos milhares de anos.
    Ao escrever "mais ou menos" queria dizer que é muito improvável que a nossa percepção do mundo esteja radicalmente errada, mas pode conter erros e ser incompleta, sem que isso pusesse em causa a sobrevivência da espécie. Por exemplo: uma sociedade de pessoas daltónicas seria certamente viável.

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  3. Uma sociedade perfeitamente fechada ou isolada, de indivíduos daltónicos, poderia ter a noção de "daltonismo", mais do que nós teríamos a noção de não-daltónico se não houvesse daltónicos entre nós?

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  4. A questão mais interessante não se prende, quanto a mim, com o facto de alguém poder ter uma percepção de azul quando nas mesmas condições todos os demais têm uma percepção verde.
    Se mudarmos o referencial, as cores percepcionadas mudam: o branco pode ficar azulado, cinzento ou de outras cores de mudarmos a luz.

    O que é interessante é verificarmos que para “condições normais” de luz o branco é diferente do azul, mas para outras condições um objecto branco pode ser visto como igual a um objecto azul nessas mesmas condições. Assumimos que existe um atributo que os objectos brancos têm todos em comum (a brancura) e um outro que os objectos azuis têm em comum (serem azuis, à falta de substantivo). Mas se em “condições não normais” o branco pode ser igual ao azul, quem nos garante que em “condições normais” todos os brancos são iguais?

    Será que em certas condições de luz, temperatura e pressão a neve tem cor diferente das nuvens brancas? Será que o meu frigorífico, em determinadas condições aparentará uma cor diferente do congelador?

    O problema é que quando estabelecemos as ditas “condições normais” estamos a estabelecer um referencial, e depois pressupomos que tudo se comporta de forma idêntica em relação ao referencial. Se A=B com base neste referencial, então A=B em qualquer referencial, o que é equivalente a dizer que A=B.
    Por isso me parece que a cor, que comummente tomamos por intrínseca ao objecto, é uma qualidade “perigosa”. Ela depende não só do objecto mas também do observador e das condições envolventes.
    E mais, a forma como a sua percepção varia de observador para observador ou para condições envolventes distintas não é igual para todos os objectos, pelo que a base de suporte a proposições como “a neve é branca”, “o frigorífico é branco”, “o carro é azul”, “a neve não é da mesma cor do carro” e “a neve é da mesma cor do frigorífico” é extremamente volátil.

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  5. Daí talvez seja melhor dizermos que a cor é uma propriedade relacional e não intrínseca, dos objectos coloridos.

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  6. Pensemos em dinheiro, até para contrariar a tolice de senso comum de que os filósofos são aristocraticamente superiores a essas coisas. Poderiam todas as notas ser falsas? Aparentemente, não. Sem notas verdadeiras, não poderia haver notas falsas.

    Analogamente, poderiam todas as nossas percepções ser falsas? Aparentemente, não, pois sem percepções verídicas não poderia haver percepções falsas.

    Assim, o verdadeiro problema é o de distinguir as percepções verídicas das falsas. Mas, se pensarmos bem, fazer isso é o que se faz em qualquer prática cognitiva séria, desde sempre. Quando um cientista nos diz que X, apesar de parecer de certo modo, na realidade é de outro, está a dizer que a percepção de X é enganadora. Mas que tipo de fundamento se pode alguma vez ter para dizer tal coisa, se não outras percepções? Nenhum. Isto pode parecer que torna viciosamente circular o argumento contra a veridicidade da percepção original, mas isso é em si uma ilusão.

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