30 de novembro de 2009

Duas maneiras de ser frívolo


Há a frivolidade das maiorias. Consiste em adorar o futebol, centros comerciais, carros caros e telenovelas. Reduz a política a chicanas infantis. Elege como valor supremo comprar coisas com valor social, seja isso o que for — de telemóveis muito caros a televisões de plasma.

E há a frivolidade dos pseudo-intelectuais. Consiste em estar sempre a ver mais longe do que os outros. Ser sempre mais esperto que os demais. Tratar tudo o que não está nos seus parcos horizontes intelectuais com a mesma frivolidade dos comentários da telenovela.

Em ambos os casos, é o incómodo de pensar que se manifesta. A incompreensão pelo prazer da descoberta das coisas. A arrogância de já ter decidido todas as questões profundas há anos, com dois dedos de leitura fácil. A inexistência do prazer de reflectir, descobrir, dialogar com outros que reflectem e gostam de descobrir.

Das duas, prefiro a primeira. É menos pretensiosa.

3 comentários:

  1. Não será um acto pleno de dois, ou talvez três dedos de leitura generalizar algo tão diverso como as actividades que enumera como frívolas?

    Através dessas realidades, se bem investigadas, podemos compreender a sociedade contemporânea e as relações sociais e individuais que se estabelecem em volta delas.

    Apesar de não ser apreciador de telenovelas, reconheço a capacidade que têm na transmissão de informação. Por exemplo, no Brasil, onde a taxa de analfabetismo é muito elevada, as novelas assumem um papel de transmissão de informação, alertando as populações para uma grande variedade de temas.

    O fenómeno do desporto e do futebol é tão complexo que, fazer uma avaliação da natureza da que aqui é feita, é no mínimo um acto de encarceramento intelectual.

    Quantos aos centros comercial, só para quem não foi ou os frequenta é que desconhece que lá se vendem livros, filmes, música e muitas outras coisas capazes de nos enriquecer intelectualmente.

    Já os carros e os telemóveis são meios para mais facilmente comunicarmos, o que me parece útil na actividade de divulgação intelectual.

    Tudo dependo do uso que damos as coisas, não são as coisas em si que são a causa de algo negativo.

    ResponderEliminar
  2. No texto afirmo que a frivolidade é adorar as coisas enumeradas. Ou seja, é uma certa atitude perante essas coisas. De modo que ainda antes de o Micael escrever o que escreveu, já a ideia do que escreveu estava escrita no texto que tresleu.

    Mas qual é o problema de ser frívolo? A mim, uma vida frívola enche-me de tédio. Mas desde quando toda a gente tem de ser como eu? As pessoas têm o direito de ser frívolas, qual é o problema? Quem é frívolo seria muito infeliz vivendo a vida como eu vivo a minha, tal como eu seria muito infeliz vivendo a vida como essas pessoas a vivem.

    ResponderEliminar
  3. Micael,
    A tua ideia é muito bonita mas não funciona. Isto é como eu ficar o tempo todo a ler Marx e Hegel em casa e dirigir-me aos restantes e passar-lhes a ideia que é a mesma coisa que ver novelas e bola. Mais bonito é dar a oportunidade aos tipos que só querem bola e novelas de lerem Marx. Depois que façam as suas escolhas.

    ResponderEliminar