4 de novembro de 2009

Ensinar ou doutrinar?

Em "Instrumentalização do Ensino e Ilusão" apresento algumas razões contra uma concepção instrumentalista de ensino, infelizmente muito comum hoje em dia. E o que pensa o leitor?

8 comentários:

  1. Desidério,
    considero muito útil este tipo de reflexões dirigidas ao ensino, mas faço a seguinte crítica, visto que se trata de um artigo e não de um texto postado no blogue:

    Julgo que poderia ser mais completo – do enunciado do problema a uma hipótese de solução –, pois o texto soa a uma espécie de "teoria da conspiração" em que, quem já está "convertido" acredita, mas quem não está (ou não se apercebe dessa realidade) não acredita, nem encontra razões para acreditar. Se calhar exagero, mas especifico:

    • Faltam exemplos concretos dessa "doutrinação" (mesmo que se reportem exclusivamente ao ensino da filosofia) – ou esses exemplos estão tão à vista que dispensam a referência (quando refere que estariam "interiorizados" e refere o totalitarismo que não se sente como tal, parece sugerir o oposto).

    • Parece-me dúbio que refira as "ideias feitas" exclusivamente como o foco do problema, quando essas "ideias feitas" também podem ser ferramentas de conhecimento e de apuro do sentido crítico. Onde acaba então a "ideia feita" e começa a ferramenta, onde acaba o conformismo e começa o sentido crítico, como combater um e estimular o outro?

    • Menciona algumas das ideias perigosas (partidarismo, sectarismo, fanatismo, tribalismo, falta de autonomia). O ensino (em geral ou na filosofia) contribui para a "doutrinação" dessas ideias? Se tudo está "contaminado" com essas "tolices" (dentro e fora da escola) e é difícil de discernir como se procede à "contaminação", como se pode então fazer a necessária "descontaminação"? Não acaba essa "descontaminação" por poder ser também entendida como uma espécie de "instrumentalização"?

    • Quando termina dizendo que a verdade é tão perigosa como a mentira – sem o sentido crítico – não seria útil apontar o caminho correcto? Se esse sentido crítico pode até já estar previamente traçado no domínio do ensino da filosofia (conteúdos e metodologia), não seria interessante apontar o seu alargamento ao ensino em geral?

    • Resumindo: não se deve promover a mentira deve-se promover a verdade, mas atenção a verdade é tão perigosa como a mentira. Não se deve doutrinar, deve-se ensinar, mas atenção que o ensinar também pode tender para o doutrinar. Compreende-se a ideia (e até se verifica no dia a dia), mas como se evita? R: com o sentido crítico. Mas o ensino do sentido crítico não é também entendível como doutrinação? Como ultrapassar este impasse?

    Julgo que a particularização que refiro poderia tornar o artigo – não mais claro porque de facto é bastante esclarecedor –, mas mais útil porque, percebendo-se o foco do problema e como combatê-lo, o artigo poderia ter consequências práticas.

    Neste momento ocorre-me até o seu "Pequeno Livro do Filósofo" porque me parece que contém alguns princípios úteis (apesar de que alguns, provavelmente, também o considerariam como "doutrinação").

    Espero que a síntese da mensagem não a torne demasiado agreste, porque o que quis salientar foi, como disse no início, a utilidade deste tipo de reflexões.

    Obrigado pela atenção.

    té,

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  2. Exemplos da doutrinação estão em vários escritos sobre ensino; na verdade, sempre que alguém fala de ensino quase inevitavelmente concebe o ensino instrumentalmente, como um meio de moldar as mentalidades das pessoas, como se 1) alguém tivesse esse direito e 2) essa pessoa soubesse qual é a melhor moldagem. Os exemplos mais flagrantes da lavagem ao cérebro disfarçada de educação estão nas muitas conversas sobre o ensino para a cidadania — trata-se, com palavras bonitas, de manipular as pessoas para terem o género de ideias sobre a sociedade e a política que quem as quer manipular diz que tem. O mesmo acontece com ideais igualitários, ecológicos, etc. Não se trata de me opor a esses ideais, mas se querer fazer as pessoas aderir a esses ideais, em vez de se estudar cuidadosamente as razões contra e a favor deles.

    As ideias feitas são ideias que as pessoas aceitam sem pensar, e que são incapazes de justificar adequadamente se colocarmos essas ideias em causa. A escola deveria ser o lugar onde todas as ideias feitas são postas em causa, e não o eco de reforço das ideias feitas que por acaso uma sociedade numa dada altura tem. O problema da humanidade não é ter ideias feitas falsas, mas antes a simples aceitação de ideias feitas, ainda que sejam verdadeiras.

    Dar às pessoas a autonomia para pensarem por si mesmas criticamente não é doutrinar porque é dar-lhes instrumentos para discordar do próprio professor, do próprio manual, da própria sociedade na qual se encontram inseridos. A instrumentalização do ensino serve de reforço às ideias feitas, mas eu não defendo a instrumentalização do ensino para pôr ideias feitas em causa. O que se passa é que o ensino de excelência de qualquer área que seja acarreta a possibilidade de pôr em causa ideias feitas porque a história, a biologia, a filosofia, a literatura não existe enquanto as pessoas não põem ideias feitas em causa. O que se passa no mau ensino é que se adestra alunos para repetir ideias dos historiadores, sociólogos, físicos, etc., impedindo-os ao mesmo tempo de fazerem o género de trabalho que os próprios historiadores, sociólogos, etc., faziam — que era porem ideias feitas em causa.

    Quanto ao caminho correcto, eu apresento-o em muitos lugares, e esse caminho é ensinar para a autonomia, dando aos estudantes a possibilidade e os instrumentos para me pôr a mim em causa. Isso ocorre nas minhas aulas e nos meus manuais.

    Concluindo: evita-se a instrumentalização do ensino para a doutrinação quando 1) se deixa de ver o ensino como uma forma de fazer os estudantes aceitar sem pensar as ideias feitas da preferência dos adultos, e 2) se ensina os estudantes a pôr em causa ideias feitas, a discutir ideias imparcialmente, a argumentar com rigor. Isto implica eliminar do ensino a aceitação bovina da autoridade dos Livros, dos Professores, dos Manuais, dos Sábios do passado, introduzindo ao invés a autonomia para avaliar por si mesmo todas as ideias, independentemente da sua proveniência.

    Quanto à ideia de que tudo é doutrinação, é uma falsidade que seria irrelevante se fosse verdadeira, porque mesmo que o fosse continuaria a haver graus de doutrinação maiores ou menores, e o que eu defendo é um grau menor de doutrinação. Mas é realmente uma falsidade, dado que é perfeitamente possível ensinar sem doutrinar.

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  3. Desidério,
    Antes de mais obrigado pelos esclarecimentos adicionais ao artigo. Valeu bem a pena as questões que coloquei, pois parece-me que certos assuntos ficaram agora mais claros. Mas prossigo ainda nesta reflexão que, certamente, não fica aqui concluída.

    O artigo refere a instrumentalização do ensino nas suas vertentes “ideológica, política, religiosa ou social”, julgo que o Desidério não terá excluído a vertente estética conscientemente (provavelmente estaria até incluída nos termos latos da filosofia), mas é nela que me centro. Talvez os exemplos que apresento sejam interessantes para a reflexão sobre ensino vs. doutrinação (e os interessados facilmente farão a conversão para outras vertentes), mesmo no que diz respeito ao ensino para a cidadania.


    Pela minha experiência particular poucas pessoas (inclusivamente professores de artes) estão cientes que, a par das directrizes filosóficas, políticas, ideológicas ou religiosas, a Constituição enuncia que “o Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes” incluindo as directrizes estéticas (n.º 2 do artigo 43.º, de 2005).

    A Lei de Bases do Sistema Educativo (nos artigos 7.º e 9.º), quanto aos objectivos da Educação Escolar, acrescenta ainda que se deve:

    • Assegurar uma formação geral comum que garanta a cada aluno – entre outros interesses e aptidões – a descoberta e o desenvolvimento da sua “sensibilidade estética” (no ensino básico);

    • Facultar os conhecimentos necessários à compreensão das manifestações estéticas e culturais e possibilitar o aperfeiçoamento da expressão artística de cada aluno (no ensino secundário);

    Ora, por inerência, o mesmo se aplica às práticas de qualquer professor de artes – o que corresponde também à argumentação do Desidério. Ou seja, regra-se para que os professores de artes não doutrinem, de maneira a que não imponham aos alunos normas estéticas e promove-se, isso sim, a descoberta e o desenvolvimento da sensibilidade estética para que, mais tarde, se facultem os conhecimentos que possibilitem o aperfeiçoamento da expressão artística de cada aluno.

    Resumindo: deve-se assegurar primeiro a autonomia para interpretar e depois a autonomia para criar.

    (continua)

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  4. (continuação)

    Mesmo que a prática confirmasse a teoria, ainda haveria que considerar o peso que este tipo de disciplinas tem nos curricula. Neste âmbito remeto para três autores que, ora enaltecem um ensino pelas artes (António e Hanna Damásio), ora alertam para a forma como o ensino está a matar a criatividade (Ken Robinson). Para aguçar o interesse por esses dois documentos, cito a frase bombástica com que António Damásio concluiu o seu discurso na Conferência Mundial de Educação Artística realizada pela UNESCO em Lisboa (2006) – “Esquecer as artes e as humanidades nos novos curricula é o equivalente ao suicídio sócio-cultural” – e alerto para a possibilidade de enfarte como causa directa das gargalhadas que Ken Robinson provoca à medida que nos põe a pensar, por exemplo, nas agruras do professor de inglês de Shakespeare. Os documentos em causa são:

    - António e Hanna Damásio, “Cérebro, Arte e Educação” (o discurso referido) – http://portal.unesco.org/culture/en/files/33947/11798495493AntonioDamasio-SpeechRevised.pdf/AntonioDamasio-SpeechRevised.pdf
    não encontrei versão em português)

    - Sir Ken Robinson, “As Escolas matam a criatividade?” (nas TED Conferences) – http://www.ted.com/talks/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html


    Té,

    PS – Para a leitura dos restantes documentos citados:
    Constituição da República Portuguesa – http://www.cne.pt/dl/crp_pt_2005_integral.pdf
    Lei de Bases do Sistema Educativo – http://www.fenprof.pt/?aba=27&cat=84&doc=1174&mid=115

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  5. Muito obrigado por esta achega importante. Infelizmente, a inclusão de artes e humanidades de nada serve se for mal ensinado. E uma parte importante do que há de errado com o ensino de ciências e matemática não é o ensino de ciências e matemática, mas o modo como se ensina tais coisas.

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  6. Claro que quando formos às ultimas instancias todo ensino seria uma espécie de doutrinação. Mas se levarmos isso em conta não poderiam existir escolas o que é um absurdo. Ensinar e pôr o aluno diante dos sábios na história do mundo, ver a evolução em sí é fundamental. AUTONOMIA é a palavra chave: o aluno ainda assim diante do conhecimento deve ter a autonomia de pensar por sí próprio com as ferramentas que adquiriu.

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  7. O problema é que quase nenhum ensino pretende dar autonomia ao aluno, mas antes heteronomia: pretende que o aluno respeite e reconheça e se acanhe perante o professor, os livros, o passado, os sábios. Pior: faz-se da escola o lugar de transmissão dos mitos do nosso tempo, sejam eles a cidadania ou a ecologia, tal como no passado servia para transmitir o racismo e a mentalidade colonialista.

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  8. O link actualizado para o artigo do post: http://criticanarede.com/autonomia.html

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