20 de novembro de 2009

Pode a informação colocar a liberdade em risco?

Vivemos na era da informação. A informação, dizem, é vital. A sua livre e ampla circulação é um dos pilares da liberdade – sem informação não há liberdade.

Acontece que o mundo informativo actual é como uma caixa de amplificação, em que o que quer que lá entre sai alavancado e distorcido. A informação está aí, acessível a todos e à distância de um click; só não tem acesso quem não quer ter. No entanto, é praticamente impossível para o comum dos mortais formar uma opinião informada relativamente ao aquecimento global, ao fim do petróleo, à gripe A e respectiva vacina, à crise internacional e a muitos, muitos outros temas.

É brutal o volume de opiniões, comentários, artigos e ruído. Mais, é brutal o número de opiniões, comentários artigos e ruído produzido por quem saiba pouco ou nada sobre o assunto. Não só não conseguimos formar uma opinião informada como não sabemos se as opiniões a que temos acesso são informadas ou não.
Pontualmente poderemos dedicarmo-nos a aprofundar um determinado tema que por qualquer razão nos interesse ou preocupe. Não estou seguro que consigamos destrinçar a verdade no meio de tanto ruído, mas se conseguirmos será à custa de muito tempo e esforço, algo que não podemos dedicar a todos os assuntos.

Assim, como poderemos nós formar opinião sobre todos os assuntos, polémicos ou não, que pululam por aí?
Será que a atitude mais sensata é suspender o julgamento em todas as situações?
Então e quando temos que actuar (por exemplo para escolher se tomamos ou não a vacina da gripe A)? Vamos aí estudar o tema a fundo? Atiramos moeda ao ar?

Sem água não há vida, mas a mesma água pode retirar vidas.
Sem informação não há liberdade. Será que a informação pode também colocar a liberdade em causa?

8 comentários:

  1. A proliferação de informação irrelevante coloca a liberdade em causa, na medida em que a nossa liberdade de pensar e agir é gravemente afectada pela dificuldade de formar opiniões informadas, como o Jaime diz.

    Ou seja, não é tanto a informação em si como a informação irrelevante. O problema é saber como discriminar o que é relevante e saber se esse papel deve caber a alguém que, por procuração, faz a "selecção" por mim. Isto também coloca problemas pois podemos tanto estar seguros da fiabilidade de qualquer censor quanto podemos estar da fiabilidade da informação que pulula na net.

    Está na altura de pensar "fora da caixa" como dizem os outros. Quanto a mim, a única coisa que se pode fazer é as pessoas que tiverem um pingo de lucidez tentarem ao máximo propagar a informação que temos boas razões para considerar relevante. Não vejo o que mais haja a fazer, quando nos comprometemos com a liberdade de expressão. Também não faz sentido não nos comprometermos, pois a limitação dessa liberdade só serve para gerar ainda mais ruído informativo, e os sonhos de regressar ao passado não digital são eles mesmos irrelevantes.

    ResponderEliminar
  2. Alguns pontos para compensar:

    * Há muito tempo que a informação é demasiada para ser processada e criticada na vida de uma única pessoa. A ida a uma grande biblioteca dá-nos essa sensação. A internet apenas acelerou o processo de recolha de informação.

    * Hoje em dia pode haver mais perguntas, já que o mundo torna-se progressivamente mais complexo (felizmente) e complicado (infelizmente), mas haver mais perguntas parece-me ser bom sinal. Até porque, como consequência, temos muitos mais especialistas.

    * Podemos ir atrás de informação errada, é verdade, mas isso sempre aconteceu. Ao menos agora, o escrutínio público é muito maior o que implica melhor produção de conhecimento.

    * Não é muito díficil, para alguém com espírito crítico, encontrar bons websites que nos levem a reflectir e a tomar melhores decisões (este blog é um desses exemplos ;-)

    ResponderEliminar
  3. Quanto mais se sabe, ou quanto mais acesso temos a melhores meios de informação mais possibilidades temos de ficar baralhados. E assim uma vantagem é anulada por uma desvantagem, parecendo que ficamos sempre no mesmo sítio. Temos de continuar a correr os mesmos riscos de sempre, de sabermos que nada sabemos.

    Ora, aqui também parece aplicar-se o princípio da Rainha de Copas, ou Rainha Vermelha, que é posto a nu por Lewis Carrol no Alice Através do Espelho. Os biólogos evolucionistas apoderaram-se desta poderosíssima metáfora para explicar por que é que quanto mais veloz se torna a chita também mais veloz se torna o antílope. E o resultado final é o resultado de um jogo de soma zero em que nenhuma das partes ganha. Fica tudo na mesma, nem as chitas desaparecem, nem os antílopes se extinguem, a não ser que aconteça alguma coisa exterior a este jogo que o perverta e modifique a corrida ao armamento (as regras do jogo). Aquilo que trouxe mais capacidade de informação também proporcionou maior vulnerabilidade de sermos enganados.

    Conclusão: liberdades e outras coisas do género sempre andaram, e continuarão a andar, sobre o fio da navalha. Portanto estão sempre em risco, haja mais ou menos informação, embora eu prefira a informação ou a contra-informação à ausência de informação. É o risco que está incorporado no mundo! É a vida …

    ResponderEliminar
  4. Este é um problema que me preocupa e vou comentar dois aspectos relacionados.

    O primeiro é a exclusão social. A produção de lixo frívolo afecta muito mais pessoas com fraca formação e recursos culturais do que as outras. Eu sei distinguir o lixo do que não é lixo e sei procurar informação de qualidade, mas pessoas sem o género de formação intelectual que eu tenho não sabem fazer isso. Ficam por isso presas da desinformação, do boato, do alarmismo e da pura mentira (como sempre, cuidadosamente misturada com a verdade, para dar a aparência de solidez ao puro vento).

    O segundo é que a produção de ruído em sistemas completamente abertos, como os blogs, ou os sistemas de comentários de alguns jornais, que não têm qualquer moderação. O ruído, nestes casos, torna efectivamente irrelevante a produção de sinal e torna-se por isso uma forma de silenciamento. Quando muitos comentadores encaram o comentário como bocas frívolas e impensadas que se mandam para o ar, isso desencoraja os comentadores que realmente poderiam contribuir para um maior esclarecimento — refutando, apresentando contra-exemplos, etc.

    Por paradoxal que isso possa parecer à primeira vista, para proteger a liberdade de expressão torna-se necessário mandar calar quem faz do comentário um desvario frívolo. Do meu ponto de vista, isto não é paradoxal; apenas parece que é. Tal como não é paradoxal prender quem anda a roubar e a molestar pessoas abertamente na rua, precisamente para garantir a minha liberdade de passear na rua.

    Tanto num caso como no outro, penso que é preciso defender algo qualquer coisa como uma ecologia da informação. É preciso ter consciência de que a liberdade informativa é um ecossistema frágil e que para o proteger é preciso impedir os hooligans da boca parva.

    Onde tudo isto nos deixa? Onde nos deixa o livro de Ben Wilson, What Price Freedom: ao longo da história da liberdade no Reino Unido, esta esteve sempre em risco e não há sistemas formais e automáticos e institucionais que a possam garantir. Cada um de nós tem de estar vigilante e dar uma contribuição nesse sentido. As instituições certas ajudam, mas nada garantem.

    ResponderEliminar
  5. Mas pq os comentários com ruídos desencorajam os que podem realmente contribuir?
    Não deveria ser o contrário? Se querem esclarecer tais situações poderiam motivar em vez de repelir, não?
    Outra coisa: os danos dos comentários com ruídos (que podem ser combatidos com outros comentários) não seriam menores do que legitimar esse seu pensamento e trazer a possibilidade de ser mal usado?

    Tiago

    ResponderEliminar
  6. Tiago,

    Esse seu comentário é completamente desprovido de senso. Na verdade nunca ouvi tamanha atoarda e sei bem que o seu interesse é outro.
    Essa do "combatidos com outros comentários" é já um clássico, mas nunca o vi utilizado por alguém com o mínimo de inteligência. Será que é mesmo isso que quer dizer? Ou estará antes a assumir uma postura laxista que tudo permite?
    Para a próxima veja se vai directo ao assunto em vez de estar com meias palavras...








    Claro que o que eu disse em cima é um disparate. Gostaria apenas de saber se o Tiago, cujo comentário agradeço e acho pertinente, sentiu uma tremenda vontade de argumentar e discutir civilizadamente comigo o tema do post.
    Acha mesmo que este tipo de ruido incentiva quem quer uma discussão séria a participar?

    ResponderEliminar
  7. Fenomenal seu método. Gerou uma mistura de sensações incrível.
    E vou ser bem sincero, já estava me preprarando para responder já que não tinha visto a parte final. Talvez o melhor seria se eu nãi tivesse visto e respondido. Mas acabei vendo, fazer o que. Agora já nem consigo lembrar bem o que pensava em respinder. Claro que também passou pela minha cabeça não responder mas acredito que a vontade de responder foi maior.
    De toda forma valeu para pensar com mais calma se a motivação é maior nesses casos.

    Tiago

    ResponderEliminar
  8. O Jaime demonstrou muitíssimo bem como ocorre o silenciamento nos comentários dos blogs: faz-se da liberdade de expressão uma liberdade para mandar bocas frívolas e sem interesse cognitivo. Isto dá origem a uma espécie de "corrida ao armamento", cada qual sendo mais vácuo e frívolo e ofensivo do que o outro, degenerando a discussão de ideias, que deveria ser encarada como um método de descobrir a verdade e ganhar esclarecimento, numa mera competição irracional para ver quem marca mais pontos.

    ResponderEliminar