17 de novembro de 2009

Pragmática

Haverá alguma diferença relevante no modo correcto de interpretar o que é dito pelo Rui em cada uma das seguintes situações?

SITUAÇÃO 1

Ana - Tens dois filhos?
Rui - Sim, tenho. Olha, está mesmo ali um deles.
Ana - Qual deles, o mais velho ou o mais novo?
Rui - Bom, por acaso é o do meio.

SITUAÇÃO 2

Ana - Tens uma moeda de dois euros?
Rui - Sim, tenho. Tenho agora uma na mão.
Ana - Podes emprestar-me, caso não precises dela?
Rui - Oh, não vou precisar de certeza, pois tenho mais duas no bolso.

5 comentários:

  1. "Penso que não"... quem tem dois filhos pode ter 3...quem tem dois euros pode ter 6 :)

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  2. No primeiro caso interpretamos tens dois filhos como sendo "tens exactamente dois filhos nem mais nem menos que isso" e por isso achamos a resposta final do rui desconcertante.

    No segundo caso interpretamos "tens uma moeda de dois euros" como "tens, no teu dinheiro disponivel, que com certeza é um conjunto indeterminado de notas e moedas, pelo menos uma moeda de dois euros?", e a resposta ajusta-se e não causa nenhuma estranheza.

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  3. Concordo com o Musicologo, a primeira situação parece-me surrealista e não pragmática. No segundo caso esboça-se um possível caso de pragmatismo, pois não sabemos se Rui tinha outra intenção para o dinheiro que dispunha. Se tinha, e assim abdicou de parte para satisfazer as necessidades de Ana, posso concluir que se trata de um pragmatismo, pois Rui abdica de uma intenção em troca de outra.

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  4. Caro Micael, está a confundir a disciplina da pragmática com a corrente filosófica do pragmatismo. São coisas diferentes. Para compreender a diferença, pode procurar em http://www.defnarede.com/p.html .

    A pragmática é a disciplina que trata da relação entre a linguagem e os seus utentes. Ao contrário da semântica e da sintaxe, que também dizem respeito à linguagem, a pragmática tem em conta aspectos como o contexto e a intenção dos falantes.

    Ora, se não tivermos em conta os aspectos pragmáticos ao analisar os casos referidos neste post, então o que o Rui diz na situação 1 não devia ser desconcertante, dado que se for verdade que tem três filhos, segue-se que também é verdade que tem dois filhos, como referiu a Mecanosfera no seu comentário.

    Exactamente do mesmo modo que não é desconcertante responder na situação 2 que tem uma moeda quando até tem 3.

    O que o Micael e o Musicólogo estranham é que o Rui, no primeiro caso, não tenha e conta a intenção da Ana ao fazer a pergunta. Quando se pergunta a alguém se tem dois filhos (ou outro número qualquer de filhos) o que, em casos semelhantes, é intencionado é se tem exactamente dois filhos. Assim, a Ana, ao ouvir a resposta, inferiu que o Rui tinha exactamente dois filhos, apesar de esse não ser o significado literal do que o Rui disse.

    Ora, a inferência da Ana não é lógica, em sentido estrito, mas antes pragmática. Melhor dizendo, da resposta do Rui não se segue logicamente que o Rui tem exactamente dois filhos; mas segue-se por implicatura, isto é segue-se pragmaticamente.

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  5. Cá fiquei a pensar em que cena o primeiro diálogo ocorreu.
    Ana - Tens dois filhos?
    Rui - Sim, tenho. Olha, está mesmo ali um deles.
    A cena que podemos imaginar é que ali não haja apenas um garoto, mas três. Um dos dois filhos de Rui está entre os três garotos.
    Ana - Qual deles, o mais velho ou o mais novo?
    Qual dos dois filhos estaria entre aqueles garotos? Suponho ainda que os três garotos tenham idades diferentes. De onde vem todo o quiprocó: um dos filhos, ou o mais velho ou o mais novo, está entre os três garotos, um que parece mais velho, outro que parece mais novo. Rui - Bom, por acaso é o do meio.
    E Rui respondeu segundo a posição geográfica dos três: o do meio, o que está entre um e outro, no meio, é o meu filho. Houve uma derrapagem categorial, por assim dizer: do "quem" para o "onde".

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