SITUAÇÃO 1
Ana - Tens dois filhos?
Rui - Sim, tenho. Olha, está mesmo ali um deles.
Ana - Qual deles, o mais velho ou o mais novo?
Rui - Bom, por acaso é o do meio.
SITUAÇÃO 2
Ana - Tens uma moeda de dois euros?
Rui - Sim, tenho. Tenho agora uma na mão.
Ana - Podes emprestar-me, caso não precises dela?
Rui - Oh, não vou precisar de certeza, pois tenho mais duas no bolso.

4 comentários:
"Penso que não"... quem tem dois filhos pode ter 3...quem tem dois euros pode ter 6 :)
No primeiro caso interpretamos tens dois filhos como sendo "tens exactamente dois filhos nem mais nem menos que isso" e por isso achamos a resposta final do rui desconcertante.
No segundo caso interpretamos "tens uma moeda de dois euros" como "tens, no teu dinheiro disponivel, que com certeza é um conjunto indeterminado de notas e moedas, pelo menos uma moeda de dois euros?", e a resposta ajusta-se e não causa nenhuma estranheza.
Concordo com o Musicologo, a primeira situação parece-me surrealista e não pragmática. No segundo caso esboça-se um possível caso de pragmatismo, pois não sabemos se Rui tinha outra intenção para o dinheiro que dispunha. Se tinha, e assim abdicou de parte para satisfazer as necessidades de Ana, posso concluir que se trata de um pragmatismo, pois Rui abdica de uma intenção em troca de outra.
Caro Micael, está a confundir a disciplina da pragmática com a corrente filosófica do pragmatismo. São coisas diferentes. Para compreender a diferença, pode procurar em http://www.defnarede.com/p.html .
A pragmática é a disciplina que trata da relação entre a linguagem e os seus utentes. Ao contrário da semântica e da sintaxe, que também dizem respeito à linguagem, a pragmática tem em conta aspectos como o contexto e a intenção dos falantes.
Ora, se não tivermos em conta os aspectos pragmáticos ao analisar os casos referidos neste post, então o que o Rui diz na situação 1 não devia ser desconcertante, dado que se for verdade que tem três filhos, segue-se que também é verdade que tem dois filhos, como referiu a Mecanosfera no seu comentário.
Exactamente do mesmo modo que não é desconcertante responder na situação 2 que tem uma moeda quando até tem 3.
O que o Micael e o Musicólogo estranham é que o Rui, no primeiro caso, não tenha e conta a intenção da Ana ao fazer a pergunta. Quando se pergunta a alguém se tem dois filhos (ou outro número qualquer de filhos) o que, em casos semelhantes, é intencionado é se tem exactamente dois filhos. Assim, a Ana, ao ouvir a resposta, inferiu que o Rui tinha exactamente dois filhos, apesar de esse não ser o significado literal do que o Rui disse.
Ora, a inferência da Ana não é lógica, em sentido estrito, mas antes pragmática. Melhor dizendo, da resposta do Rui não se segue logicamente que o Rui tem exactamente dois filhos; mas segue-se por implicatura, isto é segue-se pragmaticamente.
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