2 de novembro de 2009

Será a neve branca?

É comum, quando se fala de percepção, mencionarem-se “condições de luz normais”, “numa situação normal”, e outras normalidades que tais.

Será a neve branca? Se estivermos com uns óculos de lentes azuis ela ficará azulada, em condições de céu nublado ou pouca luz talvez pareça cinzenta, à noite nem lhe vemos a cor. Fará sentido dizer que é branca? Alguns dirão que sim, pois em condições de luz normais a neve é branca, e o resto são excepções à regra.

Mas então quem definiu essas condições de normalidade?
Porque se considera normal a luz do Sol e não a luz, mesmo que pouca, da Lua?
Porque se considera normal a luz do céu pouco nublado ou limpo e não a luz de um céu de trovoada?
Porque se assume que existe um conjunto de condições preferenciais para as quais faz sentido dizer que a neve é branca e não se diz antes que a neve é branca nas condições XPTO. Claro que nesta última situação a neve deixa de ser branca, mas passa a ser percepcionada como branca em determinadas condições, como azul noutras e cinzenta noutras mais.

“É” transmite constância, permanência, estabilidade. “É” trata de atributos da própria neve, quando na realidade a cor, contrariamente à forma e à massa, depende do objecto, do observador e de muitas outras condições (este tema foi abordado por Locke, com a estipulação de características primárias e secundárias).

Fará então qualquer sentido dizer que a neve é branca? Fará sentido dizer que a neve tem cor?

6 comentários:

  1. "É" não tem peso metafísico, se isso implica que exclui "qualidades secundárias". A frase "A neve é branca" tem sentido, e nesse sentido, podemos dizer com verdade ou falsidade que a neve é branca.

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  2. Caro Alexandre,

    O que me intriga é que tem sentido dizer que "a neve é branca". Não pretendo com o meu argumento defender que uma vez que a cor da neve é percepcionada de formas distintas em momentos distintos não faz sentido falar em cor.

    O pergunto é se faz sentido dizer que a cor é uma característica intrínseca da neve.
    Por exemplo, se numa conversa na praia com os amigos eu disser "vamos lá a ver se aquele barco flutua" todos entendem a expressão, pois está inserida num determinado contexto. E podemos falar horas da flutuabilidade do referido barco, e cogitar a respeito do resultado de o atirar ao mar. MAS a flutuabilidade não é uma característica intrínseca do barco - depende do liquido em causa, da gravidade e eventualmente de outros factores. Não faz sentido, a menos que muito bem contextualizada, a expressão "o barco flutua".

    Ora com a cor passa-se algo semelhante. Claro que em muitas situações todos entendemos a proposição "a neve é branca", mas na verdade ela está carregada de condicionantes.
    Já com outras características, como a massa ou a dimensão, tal não se passa. Eu posso dizer "aquele barco tem uma massa de 500kg", e tal é uma propriedade do barco, independentemente de tudo o resto (note-se aqui que massa é diferente de peso - o peso depende da gravidade, a massa não).

    Daqui retiro que as propriedades da qualidade "cor" são diferentes das da "massa", no sentido em que a primeira depende de um contexto e a segunda é intrínseca ao objecto.

    Daqui resulta a questão: será que faz sentido dizer que a neve é branca, uma vez que a cor que ela aparenta depende do observador e do ambiente?

    Ou será que podemos dizer que à propriedade física de um objecto, seja ela qual for, que faz com que pareça branco nas ditas "condições normais" podemos chamar brancura?

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  3. "Daqui resulta a questão: será que faz sentido dizer que a neve é branca, uma vez que a cor que ela aparenta depende do observador e do ambiente?"

    Pois é, dado o que disseste anteriormente, acho essa pergunta enganadora. Já admitiste que faz sentido. O que queres saber é outra coisa.

    "Ou será que podemos dizer que à propriedade física de um objecto, seja ela qual for, que faz com que pareça branco nas ditas "condições normais" podemos chamar brancura?""

    Dizemos que um objeto é branco quando em condições normais o percebemos como branco, provavelmente devido a propriedades físicas do objeto. Mas não estamos dizendo que ele possui essas propriedades físicas quando dizemos que ele é branco.

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  4. A cor é uma propriedade relacional que inclui necessariamente um agente perceptivo capaz de captar ondas de luz. Faz tanto sentido perguntar pela cor da neve isoladamente como perguntar se o João, que é a única pessoa do universo, é pai; se ele é a única pessoa do universo não pode ser pai, porque ser pai é uma propriedade relacional que exige pelo menos dois relata. O mesmo ocorre com a cor. A cor é o modo como os agentes perceptivos reagem a certos comprimentos de onda (não todos -- outros comprimentos de onda são percepcionados como sons e não como cores).

    Portanto, faz sentido dizer que a neve é branca, pois isso quer apenas dizer que os agentes cognitivos relavantes no contexto (nós) percepcionamos a neve como branca em determinadas condições de luz.

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  5. Outras propriedades são relacionais também, mas não incluem necessariamente agentes cognitivos como relata: o peso, por exemplo, é uma propriedade relacional, mas exige apenas um dado objecto e um certo campo gravítico. Nenhum agente perceptivo precisa de estar envolvido.

    E outras propriedades não são sequer relacionais, como é o caso da composição do átomo de oxigénio, por exemplo, que é o que é sem relação a coisa alguma que lhe seja exterior.

    Locke foi um filósofo que tentou fazer uma distinção entre aquilo a que chamou as propriedades primárias (que não são relacionais) e as secundárias (que são relacionais e incluem nos seus relata agentes humanos ou outros). Apesar de a sua distinção estar na direcção correcta, não está originalmente bem formulada. Mas hoje podemos ter uma formulação correcta e esclarecedora.

    Só mais uma achega: não se deve confundir o facto de algo ser relacional (uma verdade, por exemplo) com o facto de algo ser relativo. Se toda a relatividade existente resultar apenas de ser relacional, então nenhuma relatividade é interessante. Em particular, não é interessante que existam verdades relacionais, mas seria interessante que existissem verdades relativas.

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  6. Caros,

    Registo e agradeço todos os comentários a este e ao post posterior sobre o mesmo tema.
    Retiro daqui muita coisa a ler e pensar. Talvez volte em breve ao mesmo tema, com novas reflexões.

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