5 de novembro de 2009

Stephen Davies

Adorno, que escreveu principalmente de 1920 a 1940, considerava a importância da música em termos do seu lugar ideológico no padrão geral da história. Segundo a sua orientação marxista, Adorno esperava encontrar na música indícios do progresso para uma libertação, da qual resultaria uma arte gratificante acessível a todos. Aos ouvidos de Adorno, era a música dodecafónica que representava o progresso lógico, e tornar-se-ia portanto a música do futuro, ao passo que o neoclassicismo de Stravinsky era regressivo e corrupto (Adorno, 1973). Além disso, Adorno objectou a formas populares de música, especialmente o jazz, que considerava música de baixa qualidade explorada pelos poderosos para alienar as classes baixas da música séria que as devia interessar e gratificar (Adorno, 1992).

Em retrospectiva, é difícil levar a sério as afirmações de Adorno (Sharpe, 2000). As suas perspectivas sobre o serialismo influenciaram a composição da música alemã na década de 70 do sec. XX, e por isso talvez parecesse que estavam perto de captar o impulso histórico da música, mas desde essa altura que foram abandonadas. O ecletismo poliglota de Stravinsky está mais próximo do espírito corrente do que o expressionismo de Schoenberg. Certamente, a música dodecafónica não se tornou mais acessível às massas nem foi mais calorosamente aceita por estas, como Adorno previu. Entretanto, os seus ataques à música popular do seu tempo são desinformados e mal-intencionados. As suas perspectivas hoje parecem mais expressão de preconceitos elitistas do que reveladoras do curso histórico inevitável pelo qual a música necessariamente se desenvolveria. Porém, os escritos de Adorno conservam um fascínio para muitos, quando muito pelo poder da personalidade, a seriedade olímpica e o estilo inspirado que exibem. Quem receia o decréscimo de sofisticação na música e na vida intelectual em geral pode encontrar nestes escritos muitas ideias sagazes.

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